sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Água (1)


Ilustração para "Água na poesia". Edição da Câmara Municipal de Sintra



Nadia ouve


O pássaro acordou-a. Está deitada de costas de olhos fechados, a pensar

no que lhe resta para além da toalha que começou a bordar

e talvez termine.

Resta-lhe a vontade que a dor passe

e que tudo passe e deixe de a atormentar.

Jaz pr’ali como se, tendo deixado a rampa de lançamento, deslizasse

pela via lacteal e o planeta do qual descolou se tivesse afastado

e reduzido até se confundir com as miríades de outras estrelas.

Um pássaro pousado num ramo chama-a e Nadia está deitada

a apagar o bem e o mal, como uma mulher a acabar de lavar o chão,

a recuar com a esfregona de costas para a porta, só lhe resta limpar

as suas pegadas no chão molhado.

A dor ainda dorme: o corpo hostil, com os seus punhais,

não acordou com ela ao som do pássaro. Até a vergonha,

companheira de toda a sua vida, a largou. Deixou de a morder.

Tudo se desligou dela e Nadia desligou-se de tudo como uma pêra do ramo.

Não uma pêra que se colhe mas um fruto maduro que cai.

(…)


Amoz Oz, “O mesmo mar”, edições ASA


Ivone Ralha

2 comentários:

Anónimo disse...

acabou-se o tarot? e o far ainda não voltou?

zemari@ disse...

PPFFFFIIIIIIUUUUUU!!!!!!!

Chapeau!