terça-feira, 11 de novembro de 2008

Ilha Morena


O lugar do Monte, freguesia da Candelária do Pico, foi a terra natal de Tomás da Rosa, professor e ensaísta. E terá sido esse lugar calmo, de vinhas, figueiras, pinheiros e faias, mas também de árvores de fruto, rebanhos com a música dos seus chocalhos, a sua gente, uma vida tranquila que se repartia entre o amanho das terras e a pesca, o lugar que primeiro contribuiu para a formação de uma personalidade sã e sabedora.
A sua estadia no Oriente, em Macau, onde frequentou, no Seminário, o Curso de Teologia, foi, sem qualquer dúvida, uma fase bastante profícua da sua vida. O contacto com uma cultura milenar e com um povo acostumado às privações, o fluir de uma grande cidade portuária, sítio de acolhimento de variadíssima gente, os juncos rasgando esses mares de incontroláveis mercadorias, alargou os horizontes de um adolescente ilhéu. Tendo desistido da carreira eclesiástica, veio para Lisboa onde concluiu Filologia Clássica, na Faculdade de Letras, com elevada classificação. Na capital do país deparou com o ruidoso viver daquelas ruas, os tumultuosos vendedores, os seus cafés e tertúlias.
Ainda em vida do autor fora publicado, em 1990, o volume de ensaios Alguns Estudos, textos dispersos que resultavam do seu trabalho de atento observador da produção literária nacional. Mais tarde seriam editados pelo Núcleo Cultural da Horta – fora um dos seus fundadores – os poemas de Miragem no Tempo, em 1996, e os livros de contos Ilha Morena, em 2003, e A Tarde e a Sombra, em 2005.
Os seus contos – escolhemos, neste caso, Ilha Morena, com prefácio de Manuel Tomás da Costa – permaneceram no silêncio das gavetas ao longo das dezenas de anos em que Tomás da Rosa leccionou no antigo Liceu distrital, onde a sua eloquência se tornara notada desde que iniciara funções. É curioso constatar que a mesma visão do mundo que o autor transmitia aos seus discípulos, encontramo-la na sua escrita de forma quase imaculada, porque não foi ferida nem suja por quaisquer modelos, nem sofreu influências exteriores ao seu pensamento. Assim, permanece o apego ao chão onde correra quando criança, o reconhecimento do pacato bem-estar, uma harmonia que dispensa o luxo, ou as técnicas do mundo contemporâneo, e valoriza o entendimento e a concórdia dos habitantes.

Daí que o Paulino, protagonista do conto que dá título a este volume, depois de muitos anos emigrado no Canadá prefere regressar à ilha do Pico, com sua esposa, e vai ocupar-se com a edificação de uma nova residência. «Em volta da bela moradia, descansava-se no pátio quadrangular cimentado, com ajardinamentos. Dali descia-se por três degraus de basalto, lavrado a picareta, para uma esplanada de bagacina miúda, onde se tinham aproveitado, para sombra, os plátanos e as acácias existentes. Dois metrosíderos copados faziam de toldo a mesas de pedra, redondas, antigas mós de atafona».
Essa dedicação à natureza é patente em quase todos os textos do livro em questão, como, em «A Ardósia Pequena», curiosa narrativa acerca do primeiro namoro de adolescentes, tendo como pretexto a “pedra” que se utilizava nas escolas. Mas transporta-nos às terras do pai do rapaz, o qual, como qualquer ilhéu, olhava desvanecido os navios que avistava no horizonte. Supunha que, invariavelmente, se dirigiam para a América, palavra que imaginava sinónimo de prodígios e fortuna. Irá descobrir, ao alvorecer, que a sua ilha é maravilhosa.«O Antoninho depois de uma noite regalada, saboreou pela primeira vez o deslumbramento do amanhecer no mato. Nas pastagens do avô, onde a aragem brincava entre a erva e os bezerros andavam à solta. Nem lhe assaltava à mente a imagem obsessiva da ardósia. Nunca ouvira, assim, em trinados de tão harmoniosas modulações, a grande cantoria de melros e canários».
As árvores são parte integrante da vida nos campos. Fornecem os seus frutos, projectam a sua sombra sobre os caminhantes, resguardam os apaixonados. «A tarde parecia-lhes um barco a ondear em volta. E a vida, toda, parecia-lhes fluída. Tinham-se desviado do “passeio”, e as folhas da anoneira, baloiçadas por uma aragem estranha, tocavam-lhes algodoadamente no rosto». Mesmo depois de uma vida inteira, já os anos rolaram com seu ritmo diferente, no Pico ou na Califórnia, aquele momento sob «A Anoneira» fixara-se para sempre nos dois jovens que ali se encontravam.
Há também histórias de viagens atribuladas no canal, homens que morrem na costa, levados pelas ondas, na apanha das lapas, roubos, brigas no final das festas, namoros indesejáveis, dívidas antigas, vinganças, a vida. Porém, Tomás da Rosa prefere que a luminosidade incida noutras coisas. «Ecos de guitarras e violas repercutiam-se em outeiros e montes, de crateras amaciadas pelo verdor das forragens húmidas. O brando e amigo sol de Setembro, familiar de vinhedos encachoados e de quintas coloridas de maçãs, aquecia sobretudo os corações novos». Tinha a sua ética. A sua maneira de pensar.

Mário Machado Fraião



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