quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Da Capital Do Império

Flushing


Lado a lado. Mesquita e igreja presbiteriana

Flushing


Templo budista em construção ao lado de sede do templo da Ciência Cristã


Olá!
Foi Ernest Hemingway que disse que os subúrbios residenciais americanos são o local “onde acabam os bares e começam as igrejas”. O que é, na generalidade, verdade.
Só que neste cozido cultural que é a América em muitos subúrbios hoje não só há igrejas das mais diversas denominações cristãs mas templos das mais diversas crenças que ocupam o lugar onde pelos vistos o Hemingway gostaria de ver bares.
E se um dia forem a Nova Iorque não se esqueçam de visitar o subúrbio de Flushing mais conhecido por ser o local dos grunhidos do US Open em ténis do que pelas entoações nos seus templos religiosos. Mas que merece uma visita pela mistura incrível de templos religiosos literalmente uns ao lado dos outros, uma herança de um princípio de liberdade religiosa que data ainda da presença holandesa naquilo que hoje é Nova Iorque. Flushing é aliás o evoluir anglófono do nome holandês Vlissingen.
Mas antes de entrarmos na história quero também dizer vos que se numa viagem a Nova Iorque quiserem visitar uma “China Town” que não a de Manhattan então apanhem o Metro para Flushing. É como entrar na China. Lojas, peixarias, restaurantes, onde uma cara caucasiana é rara e onde o inglês quase não se fala. Entrei num desses restaurantes e comi estômago de porco frito. Nada mau embora talvez demasiado picante. A próxima vez quero provar o intestino de porco … também frito.
É obvio também que em Flushing deve haver agentes do Partido Comunista chinês porque numa esquina estava uma mesa com um dístico anunciando “ O Centro de Serviço para Deixar o Partido Comunista”. ( ver foto)
O que é interessante em Flushing é que a zona chinesa é substituída gradualmente por uma zona coreana, notada por mim pelos caracteres de escrita que são bem diferentes. E também pela igreja presbiteriana coreana. E uma outra anunciando orações em coreano e … espanhol! E há também judeus porque vi duas sinagogas. E muçulmanos porque vi uma mesquita … ao lado de uma igreja prebisteriana da comunidade coreana e chinesa. E Hindus porque vi (e visitei) um templo ao Deus Ganesh. E até budistas que estão a construir um enorme templo mesmo ao lado do templo dos Cientistas Cristãos (um grupo que apesar de se denominar de Ciência Cristã não acredita em procurar cuidados médicos para questões de saúde!). Ambos estão situados em frente a uma propriedade de uma igreja cristã coreana (creio que Metodista) e a dois passos de uma igreja católica chinesa que ficam quase em frente do edifício do Exercito da Salvação. Tudo isto numa distância que se pode percorrer perfeitamente a pé.
Membros da chamada Sociedade Religiosa de Amigos (uma seita hoje mais conhecida pelo nomes de Quakers) chegaram a Flushing em meados de 1600 para desagrado do então governador Peter Stuyvesant que de imediato os prendeu e os enviou para a Holanda. Penso que terá sido pelo facto dos Quakers serem pacifistas e lutarem então contra a escravatura. Em 1657 30 cidadãos do que é hoje Flushing enviaram uma carta ao governador lembrando-lhe que a liberdade religiosa é um conceito que se “estende a judeus, turcos e egípcios e Presbiterianos, independentes, Baptistas ou Quakers”. O homem que liderou essa luta dava pelo nome de John Bowne. A sua casa ainda lá está, hoje museu (encerrado “durante os próximos meses” para reabilitação) na rua que hoje tem o seu nome. E é nas suas proximidades num bairro residencial – surpreendente talvez pela qualidade das suas casas – que existe esse mosaico de templos, igrejas e mesquitas tudo erguido pelas diversas comunidades de imigrantes que chegam a Nova Iorque. A recém construída mesquita Hazrat I Abubakar Sadia é obra da comunidade afegã (ao lado da tal igreja presbiteriana construída por coreanos).
Talvez seja um sinal de que nem tudo é tolerância o facto de na parte frontal da mesquita estar fixado um aviso lembrando a todos que de acordo com a lei do estado de Nova Iorque é um crime interferir com actividades religiosas. E talvez não seja coincidência que do outro lado da rua numa casa privada o seu dono tenha escolhido colocar uma enorme bandeira americana no jardim.
Mas apesar disso depois de visitar Flushing não sei se o Hemingawy tinha razão quando afirmou que os subúrbios residenciais americanos são também zonas “ de grandes relvados e pequenas mentes”. Não parece ser Flushing um exemplo disso. Sei que se pode considerar Flushing o berço da liberdade e tolerância religiosa. (O governo holandês deu na altura razão ao John Bowne. Os Quakers regressaram aos Estados Unidos. Um deles formou o estado da Pensilvânia. O Peter Stuyvesant é hoje marca de cigarros. Os Quakers continuam a irritar muitos pelos seus princípios pacifistas)

À procura de desertores

Anúncio de centro para ajudar desertores do Partido Comunista. "China Town", Flushing, Nova Iorque.
Abraços,

Da Capital do Império,


Jota Esse Erre
Texto e fotos

3 comentários:

Anónimo disse...

CORRIJAM O TÍTULO!

Armando Rocheteau disse...

Agradeço o comentário. Já está corrigido. O computador em que estava a trabalhar bloqueou e só agora pude voltar.

Táxi Pluvioso disse...

Então flushing não é aquela coisa engraçada que se faz com o autoclismo? Deve ser por isso que está tão ligada à religião.