quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Da Capital do Império

Olá!

Espero que vocês aí do outro lado do charco já se tenham acalmado. Aqui ainda anda tudo um pouco excitado de modo frívolo por aquilo que o próprio Obláblá disse “só ser possível na América”. O que de certo modo é verdade. Ao fim e ao cabo o histórico não é o facto de o Obláblá ser de descendência negra e ter ganho as eleições. O histórico é o facto de um eleitorado esmagadoramente branco ter votado no Obláblá. Para já isso “só é possível na América”. Não é possível em França (Mon Dieu!), em Inglaterra (falo do posto de Primeiro ministro claro está e não imagino um dos partidos a ter como seu líder um Barack Hussein Obama)), nem sequer no “multirracial” (?) Brasil onde até há pouco tempo não havia sequer (não sei se já há) um embaixador negro brasileiro.
Há que dizer que a razão por que o fenómeno Obama só é possível na América é porque ele é o efeito não a causa de mudanças. Isto é o longo processo de integração racial já tinha atingido pontos não vistos noutros países. Colin Powell foi conselheiro de Segurança Nacional na presidência de …. Ronald Reagan. Foi chefe de estado-maior general das forças armadas na presidência do Bush pai. Clarence Thomas é juiz do supremo tribunal aprovado por um congresso de maioria Democrata mas nomeado por um presidente Republicano (Bush pai). Condoleezza Rice ‘e Secretária de Estado. Percorra-se a América e a integração de uma classe média negra americana na cena política e social no país não tem igualdade noutros países ocidentais com minorias equivalentes. Nem de longe, Olhe-se pra as forças armadas, para as estações de televisao. Tudo isso, tal como Obama, resultado de uma longa caminhada. Primeiro pelo fim da escravatura, depois pelo fim da discriminação, pelos direitos cívicos. Tudo isso ajudado por uma política de “discriminação positiva”’ de extremo sucesso” quiçá já desnecessária senão mesmo agora contra producente. Obama não é portanto causa de mudança como se prega por aí. É efeito.
Há dois outros pontos interessantes a fazer:
1) O Obláblá nunca fez referência à questão racial. No dia em que foi oficialmente nomeado candidato do Partido Democrático celebrava-se 40 anos do famoso discurso de Martin Luther King “Tenho um sonho”. O Obláblá nem sequer o mencionou. No seu discurso de vitória eleitoral nem uma menção ao tal facto histórico à parte a referencia que “a minha história só é possível na América”. Foi esta recusa em falar da sua raça ou dos problemas raciais que levou inicialmente os Jesse Jacksons deste mundo a não o considerarem “suficientemente negro” ou a afirmarem que o Obblablá “ não viveu a experiencia dos negros americanos” (o que neste ultimo caso é verdade) e a ameaçar “cortar os colhões ao Obama porque fala de alto para os pretos”. Os Jesse Jacksons deste mundo não conseguiam o apoio da brancalhada mesmo a liberal porque lhe estava sempre a lembrar a escravatura, a discriminação, as injustiças, a história e depois a pedir favores para “corrigir” essas injustiças. Jesse Jackson, Al Sharpton e outros dirigentes tradicionais dos negros americanos viviam (e ainda vivem) da indústria da culpabilidade histórica tão aceite pela brancalhada. O génio do Obláblá foi projectar uma América pós racial e depois deixar que essa projecção definisse a decência política. O Obláblá disse à brancalhada: eu não falo de raça se vocês também não falarem dela ou a usarem contra mim. Foi a receita perfeita. Lembrem-se que foi no Iowa durante as primárias que Obama se tornou um candidato viável. No Ohio 95 por cento do eleitorado é branco. O sucesso da receita pode ser visto ainda pelo facto de que em certos círculos de brancos ou negros pôr em causa os “pecos” do Obláblá era como tentar dizer mal do Maomé em frente a uma audiência dos Mujahidines Sem Fronteira.
2) Obama fez uso da sua capacidade de retórica para atrair multidões aos seus discursos. Nas multidões todos são iguais e todos projectam as suas aspirações, os seus sonhos no candidato. Milhares de descontentes com milhares de visões e outros tantos milhares de ingenuidades, todos identificados com o Oblablá que por isso foi sempre coisas diferentes para diferentes eleitores. O Obláblá tinha assim que mandar “pecos” que não o definissem. “Esperança”, “mudança” foram as palavras de ordem. “Não pretos, não há brancos, não há estados republicanos, não há estados Democratas, há Estados Unidos da América”. Bom peco.
Foi prometido tudo a todos e essa aliança de brancos de classe média superior, e minorias raciais gostou. Como dizem os americanos o Obama “talked the talk”. Agora resta saber “if he can walk the walk”.

Um abraço,
Da capital do Império,

Jota Esse Erre

3 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

"maioritariamente branca" feminina, assim até parece que pretos e latinos votaram McCain.

Táxi Pluvioso disse...

E... não quero tirar mérito ao vosso Deus, mas no USA sucedeu a mesma coisa que no nosso querido Portugal, não havia oposição. Sócrates também ganhará as eleições porque não há adversário.

Manolo Heredia disse...

Pois é, foram todos votar contra o W Bush. Ao mesmo tempo votaram contra a única mulher viável. à incrivel!