sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Quero!

Quero uma casa com vista para o entulho. Uma frenética poeira nos
despojos do mundo. Quero um cartão onde possa dormir e um saco de
plástico para precaver da chuva insone. Quero uma chávena de chá
no deserto da minha paupérrima vida. Quero umas meias grossas
para combater a solidão do frio gélido. Só quero um amor para a
refrega dos sentidos. Quero tudo e o que quero é nada.

Um simples diapasão no ocaso da noite. Brumas no estertor da
estultícia em que vivemos. Corremos atrás desse sucesso e da
finança em sorrisos sempre pop. Não quero um mundo como
este, competindo por nada e arrasando tudo. Até eu, já me
deixei levar por este gerúndio da vida. Acreditando e olhando
para o futuro com o olhar esperançado nas migalhas do porvir.

Quero um país onde a cama onde me deito seja a da educação.
Quero nas mentes das pessoas uma ideia de qualidade e rigor.
Quero nos corpos um desejo premente de beber cultura.
Quero nos ideiais, uma outra maneira de viver e trabalhar.
Quero nos corações o desejo forte, sem receios, de amar.
Quero uma política feita de transparência, de sentido e causas.

Quero uma noite de luar contigo, meu amor, em que possamos
dizer ao mundo: aqui se fez, no frio chão da nossa vida, uma
série de utopias e novos mundos idílicos para gerar. Um
frenesi iniciático e duradouro, um idílio de espelhos para
reflectir por todo o derredor. E agora, agora meu amor,
resta-nos a placidez do inferno na esteira solene da inocência.

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