sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Correio Interno


 André,

            Está o país de coração na mão, expectante, emocionado, ao rubro, suspenso das negociações dos nossos líderes e da aprovação de redentor orçamento. Se, as agências de comunicação funcionassem em Portugal, teriam aconselhado aos líderes, que incitassem os cidadãos a porem bandeiras nas janelas e cachecóis ao pescoço, pois não é de somenos monta o desígnio patriótico de votar o orçamento daquele de meter golos, e o Parque das Nações inundaria de jovens, colados aos televisores, emborcando bejecas. Mas não. Será tudo feito sem a participação popular.
            O povo contribuiu, e bastante, para a situação actual com a sua proverbial inocência, criando um monstro que se chama sistema financeiro. Quando apareceu a moda dos cartões de crédito, ninguém achou aquilo estranho, e de livre vontade, pagava um valor superior por um produto ou serviço, indo essa diferença direitinha para uma instituição que nada fazia, excepto “gerir crédito”. Por um jantar de 20 €, ou outra coisa qualquer, pagavam 25 ou 30 e não viam a idiotice desta atitude. (Faziam-no por que, de facto, o seu nível de vida subira, e pagar mais por uma coisa não era problema). Os Bancos perceberam o maná, desataram a inventar “produtos” para subtrair dinheiro às pessoas. Um deles, por exemplo, foi a Conta Ordenado. Ou seja, uma pessoa levanta dois vencimentos num mês (e, pela saudável concorrência de mercado, há Bancos que oferecem três): ou seja, sobre um ordenado de 1000 €, levantaria 2000 €, depois passaria 5 ou 10 anos a receber 800 € apenas; retiravam-lhes 20 € para pagar juros, amortizações, e mais outros pozinhos de fadas para dilatar lucros. A bola foi crescendo, as intuições financeiras, (ou Bancos com actividade financeira), engordando, e o nó à volta do gasganete do cidadão, apertando, e os Estados também entraram na dança, endividando-se, somando endividamento sobre endividamento, até, ser impossível pagar essa dívida, e a solução é… negociar mais dívida. (Claro que se pode culpar o Nixon, quando precisava de massa para a guerra do Vietname, e acabou com o padrão ouro).
            Como é que se sai disto? Os Bancos, actualmente, têm a função primordial de controlar os cidadãos, são bases de dados da vida económica do cidadão, para acesso fácil das Polícias e do Estado. Logo, vende-se a ideia da sua inevitabilidade nas nossas vidas. A primeira coisa a fazer é sair do circuito dos Bancos, retirar o dinheiro todo, e voltar ao velho hábito de pagar em dinheiro vivo. Não só para precaver alguma (ou total) falência bancária, mas para que a economia se processe sobre bases mais “reais”, excluindo do acto quotidiano de compra e venda o intermediário financeiro e especulativo.
            Depois de aprovado o orçamento, foguetes! fsssh pum! fssssh puuuum! champanhe! rolhas! plof! plof! ah, o Governo cedeu, mas salvou o país, a oposição obteve importantes vitórias, aliviando o encargo dos portugueses (o óleo e o leite com chocolate fica a 6%). Felicidade! É um bom acordo, dirá satisfeito o duo líder… Para o ano serão necessárias novas medidas extra: mais reduções dos salários, e desta vez, com redução das pensões também, e, mais importante, despedimento puro e simples de funcionários públicos. (E isto não é estar contaminado por xamãs, como dizes, é só fazer contas: deve-se tanto, a juro tal, dá tanto. É impossível Portugal pagar a sua dívida, se não paga os juros, e reduzir o défice, cortam-lhe o crédito, e adeus país: porque não há riqueza interna que o sustente. Antigamente, havia o Espírito Santo, o banqueiro do Estado, quando era preciso uns cobres ele tinha. Agora não há poupança nacional para isso, a massa tem de vir de fora, como as namoradas do Ronaldo).

            Um abraço

Maturino Galvão

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