quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Islândia e nós

Portugal foi jogar à Islândia, o que nos deu oportunidade de relembrar os islandeses, lembram-se? Esses que foram à bancarrota durante a recente crise do subprime. Primeira questão relevante: essa "recente" crise do subprime. Ou seja: já não há crise nehuma do subprime. "Crise do suprime" também não passa de um conceito confuso que deve ser esclarecido. Eu diria: bancarrota dos bancos e de outras instituições financeiras, devido a práticas que (ingenuamente) foram chamadas de "irresponsáveis" por parte dessas instituições - na verdade, práticas que são a lógica dessas instituições - e que, como seria de esperar, foram resolvidas através de um investimento maciço dos estados nessas mesmas instituições financeiras, o que origina, agora, a falta de liquidez e o endividamento dos estados, a essas mesmas (ou outras, vai dar ao mesmo) instituições financeiras, ou seja, os estados salvaram bancos porque era do interesse público salvar bancos; mas agora que os estados estão endividados aos bancos por salvarem bancos, os bancos, de acordo com o normal fluxo das coisas, não tem qualquer piedade dos estados quanto ao seu endividamento (e claro que são os estados mais fracos que estão pior, como o nosso, mas também foram os bancos mais fracos que foram salvos, e isso é  o normal funcionamento das coisas). Quanto à Islândia, já sabemos que, lá como cá, e nas suas devidas proporções, o estado se arruinou a salvar bancos. Mas parece que lá, ao contrário de cá, há manifestações diárias em frente ao parlamento, que se atiram ovos aos políticos e pedras aos vidros do parlamento, e que se elegeu o Manuel João Vieira de lá para a presidência da câmara de Reykjavik. Para dizer a verdade, a fleuma, o frio, ou seja lá o que for dos islandeses (se calhar os recursos que o seu estado social foi amealhando) fazem com que esta revolta não passe, para já, de uma insatisfação geral que não se manifesta verdadeiramente, a não ser em momentos simbólicos como os ovos nos políticos ou eleger o "Melhor Partido" para a câmara de Reykjavik. Mas isto é tudo a propósito de uma coisa muito curiosa que me chamou a atenção quanto aos problemas dos islandeses: parece que o mesmo banco que foi salvo pelo estado, o maior de lá, e que originou todos os problemas de liquidez do estado, desvalorização da moeda e etc, ou seja, empresas que faliram, mais desemprego, o valor dos salários ser menor e etc, agora, e como seria de esperar, esse mesmo banco não tem qualquer pejo em executar as dívidas sobre as hipotecas, e correr das suas casas aqueles que as não podem pagar. O mesmo banco que foi salvo pela sociedade islandesa, agora que voltou a ser "banco" na sua plenitude, fode em grande a mesma sociedade que o salvou, e que se empobreceu por sua causa. Note-se que isto não tem qualquer moral associada, pois não é, e não deve ser, suposto existir moral no funcionamento de uma empresa privada. É simplesmente uma descrição sobre como as coisas funcionam.
Há um outro subtexto aqui, que é o facto de a actual "crise" ser nada mais que um derivado tardio da "Crise do Subprime"; ou seja, de, como sempre no capitalismo, não ser nenhuma crise "real", mas mais uma manifestação do poder das forças do Capital sobre as sociedades. 

4 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Brilhante vitória da nossa selecção, esmagou os islandeses.

O facto de toda a selecção islandesa junta, incluídos massagista, roupeiro etc. etc., se os tiverem, ganhar menos que o Paulo Bento - o treinador deles é carpinteiro de profissão - não importa. Eles eram altos e loiros (algo que faz suspirar de amores os homens portugueses). O nosso mister deu cabo deles e a vitória sabe a mel.

Quando à economia, não é preciso grande voos teóricos, resume-se à frase de Nilton "paga o que deves". Os portugueses gastaram, agora têm de pagar (estas medidas do Governo não chegam nem para pagar os juros, espera-se que mais cortes se façam, e impostos subam).

André Carapinha disse...

Caro Taxi, lamento dizê-lo, mas acho que te deixaste enfeitiçar pelos novos xamãs (os economistas) que nos entram todos os dias pelos olhos dentro nos vários noticiários, nos jornais, etc. "Os portugueses gastaram agora tem de pagar" parece-me uma análise muito insuficiente, se até verdadeira, da situação. Voltarei ao tema em post que planeio escrever em breve (ainda hoje? Ou talvez amanhã)

Táxi Pluvioso disse...

... então não gastaram? ainda nem os estádios do Euro pagaram.

Depois mando-te um mail com mais alguns desenhos (e tento explicar isto melhor. É que as pessoas não estão isentas de culpa: nesta mudança de paradigma: de eleitores para devedores).

André Carapinha disse...

Gastaram. Os portugueses gastaram, e muito, com os estádios. Já "os europeus" gastaram, e muito, com os bancos. Isso inclui, claro, os portugueses. Na verdade, os portugueses estão nesta crise (não numa crise qualquer, mas NESTA crise) porque, tal como os outros, gastaram com os bancos, simplesmente estão muito mais habituados a gastar estupidamente, e por isso estão mais arruinados e mais sossegados.