quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Petição pelo pluralismo de opinião no debate político-económico

«As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo governo vieram mostrar, uma vez mais, a persistência de um fenómeno que corrói as bases de um sistema democrático. Nas horas e dias que se seguiram à conferência de imprensa de José Sócrates e de Teixeira dos Santos, os órgãos de comunicação social, nomeadamente as televisões, empenharam-se mais em tornar as referidas medidas inevitáveis do que em promover efectivos espaços de debate em torno das grandes opções político-económicas.
De facto, os diferentes painéis de comentadores televisivos convidados para analisar o chamado PEC III foram sistematicamente constituídos a partir de um leque apertado e tendencialmente redundante de opiniões, que oscilou entre os que concordam e os que concordam, mas querem mais sangue; ou entre os que acham que o PEC III vem tarde e os que defendem ter surgido no timing certo. Para lá destas balizas estreitas do debate, parece continuar a não haver lugar para quem conteste, critique ou problematize o quadro conceptual que está em jogo e as intenções de fundo, ou o sentido e racionalidade dos caminhos que Portugal e a Europa têm vindo a seguir, em matéria de governação económica.
Por ignorância, preguiça, hábito, desconsideração deliberada ou manifesto servilismo, os canais televisivos têm sistematicamente tratado a análise da crise económica como se o intenso debate quanto aos fundamentos doutrinários e às opções políticas que estão em jogo pura e simplesmente não existisse. Com a particular agravante de a crise financeira, iniciada em 2008, ter permitido uma consciencialização crescente em relação às diferentes perspectivas, no seio do próprio pensamento económico, no que concerne às responsabilidades da disciplina na génese e eclosão da crise.
Com efeito, diversos sectores político-sociais e reputados economistas têm contestado a lógica das medidas adoptadas, alertando para o resultado nefasto de receitas semelhantes aplicadas em outros países e denunciado a injusta repartição dos sacrifícios feita por politicas que privilegiam os interesses dos mercados financeiros liberalizados. Mas a sua voz permanece, em grande medida, ausente dos meios de comunicação de massas.
Não se trata de criticar o monolitismo das opiniões convocadas para o debate, partindo do ponto de vista de quem nelas não se revê. Uma exclusão daqueles que têm tido o privilégio quase exclusivo de acesso aos meios de comunicação seria igualmente preocupante. O problema de fundo reside em ignorar, nos dias que correm, o pluralismo de interpretações e perspectivas sobre a crise, sobre os seus impactos e sobre as opções de superação.
Somos cidadãos e cidadãs preocupados com este silenciamento e monolitismo. E por isso exigimos aos órgãos de comunicação social – em particular às televisões, e sobretudo àquela a quem compete prestar “serviço público” – que respeitem o pluralismo no debate político-económico de modo a que se possa construir uma opinião pública mais activa e informada. Menos do que isso é ficar aquém da democracia e do esclarecimento.»

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2 comentários:

Anónimo disse...

Acho que faz muito bem em assinar,eu também assinei, mas qual é a diferença entre esse dia e outro qualquer em que se ligue a tv?Ou a rádio? O problema não é a árvore. Se querem reclamar, então que o façam com respeito a toda a programação de debate.

Há um problema, difícil de resolver, que a petição ignora. O que se considera o respeito do pluralismo? Em nome deste princípio podíamos advogar a presença de anarquistas, ecologistas radicais, nazis e etc, etc nos debates? Onde começa e onde acaba o pluralismo é sempre uma questão de escala. Se formos do PS achamos que o PSD está a milhas de distância, se formos do BE que o PS é quase igual ao PSD. Seja como for é inultrapassável. Veja como o PCP, ainda antes do BE ser importante, foi limpo dos debates mediáticos com todo o descaramento, nem a presença no parlamento e a representação de cerca de 10% da população lhe valeu. E do que me lembro meteu tribunal e tudo.

Por tudo isto é que as TV privadas com muito peso são um mal para a democracia, anulam o debate relevante em função daquilo que pensam ser relevante, nem precisam de ser maquiavélicos ou conspiradores para calar as vozes heterodoxas que interessam, simplesmente não as consideram importantes. As TV públicas como são dominadas pelos mesmos critérios de audiência que as privadas têm de ir atrás para não parecer que programam para a minoria intelectual. Ficamos na posição em que não há uma TV onde se possa assitir a um debate com o espectro das posições mais relevantes.

Anónimo disse...

. Ficamos na posição em que não há uma TV onde se possa assitir a um debate com o espectro das posições mais relevantes.

Só há uma hipótese, nacionalizar todas as televisões, conferir-lhes direcções nomeadas por um grupo de pessoas da sociedade civil e da assembleia, tentando respeitar as diferentes sensibilidades, e pôr essas televisões em concorrência. Um género de concorrência estatal que promovesse a competição mas que respeitasse princípios fortes de qualidade e honestidade. No fim avaliavam-se com base nas audiências e num conjunto de critérios pré-definidos, as piores seriam mudadas, as melhores promovidas/ aumentadas.

Já me estiquei, e até acabei por inventar (não devo ter sido o primeiro) a competição de empresas do estado. Nem sei porque perco tempo nisto, já nem sei qual foi o ultimo programa de televisão que vi, debates então...