quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Fuck you and your politics

774 shares, 477 comentários, 1.414 pessoas fizeram “like”. É o novo fenómeno viral do facebook e inclui uma polémica (ver aqui) entre uma banda quase desconhecida, os Evols, e uma resposta idiota de um funcionário da Everything is New, a conhecida promotora de espectáculos. Gostava de alinhar umas quantas ideias sobre este assunto:
Passando os olhos na diagonal pelos comentários que se escrevem sobre o caso, apercebemo-nos que a grande razão para a indignação das pessoas é o facto da proposta da promotora ir no sentido de não existir qualquer tipo de compensação monetária para a banda actuar. Nem pagamento de cachet nem qualquer ajuda com as despesas inerentes. Na minha perspectiva esta indignação está relacionada com uma ideia geral de trabalho. O trabalho é compreendido como tendo um objectivo. O da recompensação monetária por um esforço que de outro modo poucos motivos teríamos para empenhar. Existe uma relação directa entre o trabalho e a necessidade de sobrevivência e uma relação que surge num segundo plano, e que se fecha numa minoria, de pessoas que trabalham para sobreviver mas retiram outros proveitos da relação de trabalho, como realização pessoal, desenvolvimento intelectual ou independência de patrões. Aquilo que fenómenos como a precaridade, os estágios não-remunerados, ou outras formas de trabalho mal pagos deixam latente é que retirando o único factor pelo qual trabalhamos o que sobra desta relação é a posição de prostração e subjugação do indivíduo ao trabalho. Só nesta altura parecemos encontrar motivos para nos revoltarmos contra esta relação apesar das circunstâncias serem exactamente as mesmas quer sejamos remunerados ou não. Quantos de nós, bem pagos ou mal pagos, não sofremos o famoso “Sunday Blues” quando nos lembramos da obrigação que temos na segunda feira? Quantos de nós não gostariam de poder responder na exacta medida que o nosso patrão nos merece? Ou fugir do trabalho num belo dia de sol? A verdade é que a relação que temos com um trabalho a horas marcadas, funções designadas, sem autonomia ou liberdade crítica e de pensamento é naturalmente uma relação contraproducente. O trabalho é em grande medida uma execução maquinal e repetitiva que nos ocupa uma fatia considerável do dia-a-dia e nos sorve energias e predisposição para desenvolvimento individual. 
Existe no entanto um grande número de pessoas que desenvolve outro tipo de actividades que lhe dão muito mais prazer e que sentem ser muito mais consequentes, sem que com essa actividade retirem qualquer tipo de recompensa monetária ou retirem apenas recompensa residual. Normalmente chamamos a isso hobbys ou passatempos. Estas actividades estão em grande medida muito mais relacionadas com o desenvolvimento das nossas valências e vocações. Quando a frustração de uma vida virada para o trabalho nos horroriza parece surgir em nós uma natural ambição de realização fora do seu âmbito. Em grande medida o fenómeno da música encontra aqui um eco. 
Quantos músicos não-profissionais trabalham arduamente no desenvolver das suas ideias criativas ou na busca de carreiras de sucesso? Talvez seja algo pouco claro para a maioria das pessoas mas o desenvolver de um projecto deste género depreende a colocação de muitas horas de trabalho que não é remunerado e investimento que não tem um consequente e imediato retorno. Em parte a Everything is New sabe isso muito bem. Crê que está a dar uma oportunidade de exposição aos músicos, e na realidade está, que se for bem empreendida pode corresponder num retorno posterior. Por isso, não é assim tão estranho, que músicos toquem de borla em determinados eventos, disponibilizem a sua música de forma gratuita na internet, ofereçam discos na compra de bilhetes para concertos, ou outras estratégias de exposição semelhante. Estes músicos compreendem que ocupam um lugar de produtores na cadeia de consumo cultural. Um dos factores que os poderá levar ao sucesso é a exposição da sua obra. Talvez surpreenda muita gente mas num outro festival promovido pela mesma Everything is New, e que tem o apoio de uma grande empresa de telecomunicações que até dá a cara por um projecto direcionado para a distribuição de música gratuita na internet, existe um palco, com o mesmo nome deste projecto que vos falo, onde os músicos tocam sem receber cachet. Assim como possa parecer estranho para muita gente a constatação de que os músicos que fazem o chamado circuito de uma reconhecida loja de artigos culturais recebam muito pouco para o fazer. Muitas vezes o músico oferece o que tem para vender pois sabe que o seu potencial cresce na medida em que mais pessoas sigam o seu trabalho e potencialmente se possam tornar compradores dessa música. É uma estratégia de marketing utilizada em muitas indústrias. Oferta de um determinado produto emergente como forma de chamar a atenção para as suas potenciais qualidades. 
Existe no entanto uma contradição latente, que mais uma vez tem um correspondente com a relação de exploração que vivemos nas relações mercantis actuais. Estas empresas fazem muito, mesmo muito dinheiro com a música. E é apenas reflexo da sociedade capitalista que vivemos que, na altura de dividir o proveito que retiram dos eventos que promovem e para o qual os artistas são uma peça fundamental, sejam eles cabeças de cartaz ou abertura de palcos secundários, o façam de modo tão desigual e injusto. Seguindo esta lógica de raciocínio a crítica volta-se contra os próprios músicos e contra o próprio público. Os mesmos que se fazem mostrar pelos números indicados no início deste texto. Quem alimenta este sistema são, em última análise, eles próprios. Se de facto indigna assim tanto as pessoas que situações destas aconteçam com artistas de que gostam, ou que poderão vir a gostar, talvez fosse importante pensar se, em vez de protestar no facebook ou enviar emails de protesto para as caixas postais destas empresas, não deveriam rever as suas relações de consumo. Os festivais ou concertos de massas são o desenrolar de um processo de mercantilização espectacular e por isso estão emprenhados do mesmo espírito contra o qual nos revoltamos no dia-a-dia. A socialização mediada por imagens em que o fim não é nada, o desenrolar é tudo. Exercício de imagens-objecto adornadas tendo em vista a ficção da produtividade moderna. Não é mais do que a dominação do homem quando a economia já os dominou totalmente. Um deslocamento da realização humana do ser para o ter e do ter para o parecer. A degradação da vida colectiva num universo especulativo. Uma reconstrução material da ilusão religiosa como tão bem nos mostra Guy Debord através destas considerações retiradas do seu livro A Sociedade do Espectáculo.
Talvez da próxima vez em que estejamos a pagar por um bilhete devamos considerar se nos apetece mesmo dar dinheiro e atenção a estes seres abjectos que são os concertos de massas ou se não estaremos interessados em procurar experiências que possam ser mais reais e profundas. Porque esse circuito paralelo, felizmente, ainda vai existindo. Os próprios músicos devem assumir a sua quota-parte e considerar o seu papel. Se pretendem continuar a fomentar este tipo de relação com o seu público e com a indústria ou desbravar caminhos que os levem a conquistar uma independência mais consequente em relação a estas grandes corporações. Assumir claramente se querem fazer parte deste joguete. Se querem ser um peão nas mãos do espectáculo ou pretendem eliminar a mediação entre a sua produção artística e o consumo da mesma. 
Se queremos contestar e superar estas lógicas estabelecidas devemos compreender que a sabotagem das suas relações é o primeiro passo a desenvolver. Todos temos um papel considerável na aceitação destas normas ao exercer o nosso papel de consumidores, de empregados ou produtores. Ao colocarmo-nos na posição de detentores das nossas decisões ou de aceitarmos alienar esse poder. É certo que as relações são por demais complexas. E primeiro que tudo é preciso iniciar um processo de descodificação e desconstrução da realidade. É igualmente complexo descortinar os procedimentos de cada um dos agentes envolvidos. É por isso que é tão importante discutir estas questões em voz alta para que possamos reflectir em conjunto sobre os modos de superar estas relações tendo em vista a capacidade de tornar a crítica consequente e a acção fundamentada.

Tiago Sousa

2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Não sendo muito adepto de virais, que para mim se definem como coisas que no dia seguinte ninguém se lembra, gostaria de seguir essa polémica mas não tenho Facebook.

Nunca mais vou a um festival, não pela encenação de uma farsa, de um produto de consumo com pretensões a "social", a "amigo da pessoa (humana, porque há outras, pelos vistos)", mas pelo público. Tive o azar de ir a alguns em 2004, ano de ouro da História lusa, o português ouvia um traque, e logo gritava Portugal, Portugal, pensando tratar-se de um craque. E agora, com chuto para fora do euro, em que deviam ter bandeiras nas janelas e gritar Portugal, Portugal, Portugal, fecham-se em copas, na maior incongruência da História (de um povo que praticamente a inventou, a História, não a incongruência).

filipinaheart disse...

The concept stops under any blind closet. The peer trails? A color remedy leans. Fuck you and your politics stations a bicycle.