sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Correio Interno - Um balanço de 2011 (2)


André,

            Estrabão descreveu os lusitanos como um povo que se alimentava de bolotas e, em 2011, a prole, completa uma volta de 360º. Depois de enfartar pezinhos dos porcos, mãozinhas das vacas, túbarozinhos dos carneiros, tenazezinhas das sapateiras, comerão outra vez bolotas, os lusitanos, se as houver. A cortadela “caldoverdológica”, (com rodelas de chouriço), – nome regional para o “corte epistemológico” de Bachelard –, a passagem de rico a não-rico, deu-se com um evento organizado na assembleia da República: o chumbo do PEC IV, e a sequente “crise política”, expressão hiperbólica para “queda do Governo”.
 Nesse dia rapava-se a comoção do ar com um salazar. Mário Soares publicara, no dia anterior, um ridículo artigo titulado “Um apelo angustiado”, de mãos postas rogando a interferência de Cavaco Silva para que “fitacolasse” o Governo ao poder. Manuela Ferreira Leite, que aprovara o PEC I, há um ano, quando ainda era timoneira do PSD, avança no dia da discussão do PEC IV para a primeira fila, senta-se ao lado direito de Miguel Macedo. Durante a legislatura sentara-se na última fila, junto de Pacheco Pereira, onde nesse dia abanca a moderna e bela Francisca Almeida.
O Governo entra enfatiotado às 15:09 horas e às 15:20 o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, expõe as suas razões, um ictio-bláblá em que faz previsões sobre o défice: “será reduzido para 3% e 2%, em 2012 e 2013, respetivamente”, e reage atontadiço ao pedido de mais uma conta para o povo pagar: “por isso, tenho enorme dificuldade em compreender e aceitar o discurso de que não são justificáveis mais sacrifícios. Esse é um discurso enganador (aplausos da bancada dos correligionários) e irresponsável (pausa e mais aplausos)”. Finadas as razões governamentais, Luís Montenegro, do PSD, desfralda o bláblá em nome da oposição: “queria começar por lhe dizer que o discurso que acabou de proferir é bem uma confissão de todo o seu falhanço”, o gajo do seu lado esquerdo, o deputado Luís Menezes, rumina entre dentes: “muito bem!”. Em Portugal há uma forte tradição do gajo ao lado do orador gosmar entre dentes um assertivo, convincente, másculo, “muito bem!”. Diogo Feio, do CDS, foi o ponto alto deste encorajador uso, infelizmente tomou o elevador social para Bruxelas e o canal Parlamento perdeu um canoro efeito sonoro.   
Escalava-se a montanha do debate, e alcança-se o cume, que não foi a solução para os problemas do país, nem uma epifania coletiva dos deputados sobre a sua função, mas um mundano apontamento de fashion. Teixeira dos Santos, na resposta à intervenção de Bernardino Soares, do PCP: “se me permite um gracejo. Acho que o sr. deputado até achou que isto era tão importante a ponto de hoje envergar uma linda gravata”.
A sra. Leite fora escolhida, pelo seu partido, para derramar a intervenção de fundo, no púlpito. Nesse momento Teixeira dos Santos sai da sala para outros afazeres, a velha senhora não desarma e lê as suas folhas. Racionaliza as eleições que perdera para José Sócrates: “sabemos que essas eleições foram, sem dúvida, um êxito do marketing político”, e separa as águas entre os bons e os maus: “já não é ao nível das medidas concretas, se elas são boas ou más, se são corretas ou incorretas, se são necessárias ou não são necessárias (pausa, aplausos dos seus correligionários), o problema que se põe a este parlamento, com uma clareza gritante, é ao nível de quem propõe e de quem se responsabiliza por elas”, e vaticina mais tarde: “não tenho nenhuma dúvida de que as mesmas medidas tomadas por um Governo que suscitasse confiança aos mercados, teriam outra reação por parte dos mercados. Nenhuma dúvida”. Na mouche!

Um abraço
Maturino Galvão

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