terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Correio Interno - Um balanço de 2011 (1)


André,

A cerimónia do “bode expiatório”, o velho rito judeu, cristalizado no cristianizado organista Duarte Lima, será suficiente para os filhos de Viriato e netos do Freitas do Amaral finarem o ano sem sombra de pecado? “E aos costumes disse nada” Duarte Lima, nem um filho ou um sobrinho na Suiça ou um conde em Abranhos.
  No entanto, o ano começara sob auspício.
 Em Fevereiro, o Bloco de Esquerda lança uma bomba: não, não foi uma ideia nova, refrescante, borbulhante, assustados com o seu definhamento total do espetro político, foi a velha bomba nuclear da moção de censura contra o Governo, agendada simbolicamente para o dia seguinte ao da coroação de Cavaco Silva na principal silha do reino de Portugal. No dia aprazado, realmente, gastou-se tempo, eletricidade, papel, água (engarrafada) e outros custos de produção do tearzinho da luta pulítica, como acentuam no “u”, os eleitos da nação. Parecia arremetido o país para mais um ano com dinheiro. Entretanto, a realidade bate nas tabuinhas das janelas da casa portuguesa.   
O primeiro choque, para jornalistas e público em geral, foi o de que os velhos morrem. Após a surpreendente descoberta pelas Finanças, de um cadáver, há 9 anos sentado na cozinha, velado pelos cadáveres do cão e dos periquitos, de um faltosa aos deveres fiscais, os operários da informação vasculharam, por semanas, o país de frente atrás, descobrindo corpos com mais ou menos tempo de decomposição. Mas as mortes não se refletiam na libertação de postos de trabalho para os vivos, e o vivo líder Cavaco Silva, no seu discurso de tomada de posse como presidente da República, sinaliza como fundamental para o país os jovens e o mar. Num momento de vibrante otimismo, a indústria jornalística adjetivou o discurso de “contundente” e “histórico” e Francisco Assis, na carranca de oposição: “não gostei”.
Os jovens, lançados ao mar do mundo do trabalho, também descobriam coisas. E a mais importante foi borrifar-se para o futuro ontem.
Os mais ativos convocam uma “manifestação da geração à rasca”. Nesse dia, no parlamento, num belo toque de perfeição à Camilo Castelo Branco: “não se pode ser perfeito hoje em dia sem se ser um bocadinho idiota”, o deputado do PSD, Pedro Rodrigues, advogado, 31 anos, dizia: “faço parte de uma geração adiada, faço parte de uma geração que não sabe qual é o seu futuro amanhã”; pergunta da locutora: “mas não está à rasca?”; “não estou à rasca, mas estou muito preocupado com o futuro, com o meu e com o da minha geração”. Segundo o site da Assembleia da República um deputado amaquia-se com 3 624, 41 € mais 370,32 € para despesas de representação, compreensivelmente não põe à rasca, apenas preocupado.
Ritualizar o “bode expiatório” no Duarte Lima – aportuguesando o costume judaico de carregar um bode com os pecados da sociedade e soltá-lo no deserto para morrer, seria: aguentar-se à jarda por nós todos, ou seja, “e aos costumes disse nada”. (Nome de um conto de David Mourão-Ferreira, inspiração do filme de José Fonseca e Costa “Sem sombra de pecado”, e também uma expressão jurídica para o facto de que a testemunha não tem parentesco ou amizade especial com as partes envolvidas no processo). Duarte Lima tomará como um homem, não arrastará ninguém, nem sequer um deputado trocatintas, nem que seja de Freixo de Espada à Cinta. O “bode expiatório” surge no momento crucial da vida intelectual portuguesa. O português precisa do “bode expiatório” tal como de gasolina para o carro, ou carregamento para o telemóvel. Fazer o download dos pecados da sociedade numa pobre besta, e lançá-la no deserto para morrer, na falta de deserto, mande-se para a Zona Prisional com quatro refeições por dia e umas prendas de Natal do diretor, ou então atafulhá-lo bem de todos os pecados, passados, presentes e futuros e mandá-lo para Paris.

PS: a imagem mais fofinha do ano: a entrada vitoriosa de Paulo Portas no 24º congresso do CDS, em Viseu, de dedo em “like”, isto é, de polegar para cima. Quem não verteu uma lágrima é um “odiador” de gatinhos na Internet.

Um abraço
Maturino Galvão

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