quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Mãe-Aniversário

No menos certo de mim, eu sei que te servi, mãe.

Sempre fui aquele rapaz que ia à drogaria com a nota de 20 escudos para comprar
a lixívia com que lavavas os alvos lençóis, ou a acetona com que limpavas as unhas
destemperadas de cor. Ou na padaria, quando comprava aqueles papos-secos que
eu tanto gostava. E que cheirinho tinham. E os palmiers que eu comprava com os
5 escudos que o teu pai, o meu avô Peixe me dava. E quando ele me chamava com
a sua voz tonitruante para lanchar lá em baixo as suas torradas com azeite?
Ele com o seu dedo indicador espalhava o azeite pela torrada. E que sabor!
Que bela infância no seio de uma família maluca! Com risos e gritaria, gente doida
a viver na pobreza de uma felicidade inusitada. E agora, estou mais velho, mãe.

Hoje és tu quem celebras o diadema do mar salgado no estrepitar da vida. Mais
um ano de conquistas e derrotas, de vivências e experiências. E eu, sempre a
derivar na paisagem agreste. Sempre a fugir de ti, na esperança de me tornar
mais crescido. E quando eu andei a pedir-te a bicicleta nova? Aquela cromada,
com jantes amarelas, da Confersil? Tão bonita que era. E lá passei de ano e tive-a!
Anos mais tarde arrependi-me de te pedir estas coisas. Que custam caro, a que
ainda não dava valor, porque não sabia ainda o que era ter de gerir a vida e os
dinheiros. E os all-star que te pedi, vermelhos, lindos? Sou tão infiel e absurdo.
Devia ser mais humilde e recatado. Ser menos criativo e certinho. Vestir bem
e fazer a barba. Ser homem e não apenas um sobre vivente. Ter um emprego
mais confiável e estável, como diz o pai. O teatro, essa loucura em que me meti,
como o pai a desaprovou. Sim, como experiência, aventura. Não como vida, sonho,
utopia e dose maciça de loucura. Mas tu mãe, sempre disseste: - deixa-o fazer
o que ele quer! Tu tens essa inteligência que todas as mães têm. Saber respeitar
o espaço e o tempo do filho. Dar-lhe o ar e asas para voar. Mesmo sem o céu azul
da bonança. Ver-me soletrar as sílabas da vida em devaneios sem fim. Auscultar
a minha dúvida num compasso sempre certo e eficaz. Gostar de ti é amparar-me
nos teus braços, nas tuas palavras mesmo que irónicas ou subtis. Mesmo que na
mais despudorada palavra ou chamada de atenção para os atrevimentos do mundo.

Mãe, hoje és ainda mais sábia que toda a faculdade da vida. Mesmo com todas as
minhas leituras, os meus estudos e graduações, és e serás sempre a Mestra de
olho vivo ao percalços da ciência e da razão. A docente mais arreliadoramente
picuinhas e chata. Por isso és mãe e tens de aguentar as diatribes de um filho
sempre rebelde e muitas vezes incapaz de dizer que te amo. Custa tanto amar
e depois passar o resto dos dias a fingir que te odeio, a desvalorizar a tua educação.
Porque um filho tenta sempre matar o pai e a mãe, faz parte do percurso do
pássaro bisnau, sair da asa e dizer que está tudo errado o que nos foi ensinado
e aquilo que vivemos em família. Faz parte; a arrogância do filho é sempre algo
a que uma mãe tem de se sujeitar, mas no fim, no fim mãe, é de ti que preciso.
No dealbar desta história, és tu quem vence e me convence das heresias do filho
em crescimento lento para a tua idade, a da sageza do espírito e a beleza do olhar.

Por tudo isto, eu sei que vou continuar teu servo e fiel engulho que tens de receber
no teu colo, no teu acalorado braço forte e simplesmente sempre presente.
Sem olhar para trás. No navio de espelhos mais vivo de uma cotovia, a anunciar
o canto da primavera mais branda e serena nos teus olhos. Até já, mãe delicodoce.

1 comentário:

AZUL DRAGÃO disse...

Lindo !


Um abraço