quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Uma observação sobre a política

Por mais que identifiquemos "o problema" como o governo, a oposição, a política ou o raio que os parta, os verdadeiros problemas são sempre outros. Nenhum deles pode ou até deve ser resolvido tendo em conta essas categorias tão miseravelmente incompletas, e isto não quer dizer que esses problema não sejam importantes, simplesmente que se dá demasiada importância a eles. Paradoxalmente: o dia em que se começa a dar menos importância à política é o dia em que se começa a perceber o que é a política.
No primeiro fragmento, Heraclito, há 2.500 anos atrás, disse qualquer coisa deste género: os homens não percebem o Logos, tanto antes de eu lhes explicar o que é o Logos, e, mais curiosamente, também depois de eu lhes explicar o que é o Logos. Isto quer dizer, na minha insábia opinião, que não vale a pena tentar explicar nada aos homens, eles continuam sempre a achar que o que sabem é o que é. E não pensem que estou a distinguir certos homens uns dos outros. É igual para todos, com certeza também para mim.
O que é que isto tem a ver com a política - é que é precisamente a impossibilidade de explicar o Logos que impossibilita a política tal como tem sido entendida. Quero dizer: desde sempre, como tem sido entendida por Maquiavel, ou Hobbes, ou os iluministas, ou os founding fathers, ou toda essa gente que vem a seguir. Essa política é impossível, o que significa que é uma mentira, uma farsa. OK. A conclusão a tirar agora não custa nada. É que a política é o reino da opinião, e, como sabe toda a gente que me lê neste blog 2+2=5, a opinião é a soma do zero com o 0. O que quer dizer que as verdadeiras questões são outras, tanto na nossa vida como na nossa outra vida (aquela que se vive em sociedade), e que a farsa da política é apenas uma maneira, mais uma maneira, de nos esquecermos dessas questões, agora já não através de nos comermos uns aos outros, mas de nos aceitarmos uns aos outros, e o que é que é mais detestável, pernicioso, contra-producente?
Odeio as máscaras e as sombras que ocultam a realidade (a realidade, a propósito, é o nosso ponto de vista, e nada mais - Heidegger). Por acaso os meus pais são de esquerda e deixaram-me (felizmente) essa herança (a herança da direita é muito mais estúpida). Vou votar no Alegre porque o meu colega de blog André Carapinha, ontem, em conversa, e depois de bebermos um branco de Colares, me disse que isso é a atitude mais de esquerda a tomar. Eu confio nele, e ainda mais no branco de Colares.

2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

O mundo é vontade.

Táxi Pluvioso disse...

... mas, para os portugueses, o prontos substitui muito bem o logos.