quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Irá o FMI aterrar outra vez na Portela? (2) - O cavalo de Tróia

Acho muito estranho o relativo silêncio da Esquerda sobre o rumor de nova intervenção do FMI em Portugal. Tirando, curiosamente, o Manuel Alegre, ainda não vi ninguém denunciar com a veemência que se exige uma possibilidade que significa a cedência total do que poderá restar de democracia económica neste país aos instrumentos do capital, sob os aplausos e o coro de aprovações dos "economistas", ou seja, daqueles cuja ocupação alterna entre, quando no governo, contribuir para este estado de coisas e ajudar os amigos com mais umas benesses, e, quando fora dele, clamar contra a incapacidade dos portugueses em resolver os seus problemas "estruturais", e continuar a ser muito bem pago por isso.
Acho, no entanto, que aqui a cantiga é outra. Com o pânico que se pretende lançar, justificar-se-á um novo ataque às conquistas sociais que ainda restam neste país. Há uns tempos falou-se de retirar o subsídio de natal aos funcionários públicos, alguém ainda se lembra? Para "evitar a intervenção do FMI", o nosso governo ex-socialista e os seus aliados de facto, o PSD, lançarão as mais terríveis medidas de austeridade, sempre com o bendito desígnio de "salvar as contas públicas", "equilibrar o défice", não tocar um milímetro nos privilégios, por exemplo, dos bancos e da sua escandalosa taxa de IRC, e deixar o ónus da crise para os pobres, como aliás já se vai vendo: desde o início do ano 52 mil portugueses perderam o subsídio de desemprego , uma medida que permitiu ao Estado poupar 205 milhões de Euros. Um simples aumento de 0,15% no IRC dos bancos permitiria arrecadar o dobro disso , mas esse é o tipo de soluções proibida neste país, e ausente do "debate" económico em curso. Veremos se a lenga-lenga da intervenção do FMI não funcionará como cavalo de Tróia para que os "sacrifícios" sejam patrioticamente aceites pelos de sempre, para que Portugal não tenha de passar pelo vexame de uma intervenção exterior. Que sejam pelo menos "os nossos" a pôr em prática o desastre do capitalismo.

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Tens razão, será na Portela, não será em Alcochete.