quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Tejo


Tejo visto de cima, perto do Largo Camões. Lisboa. 2007

Foto Jota Esse Erre

IV- Alain Badiou: O acontecimento e o ilimitado

O espantoso livro de Alain Badiou, “ De quoi Sarkozy est-il le nom?”, continua a agitar o espaço político e cultural mundial. E força os mediocratas e intelectuais engagés a optarem. O debate tem tido uma envergonhada repercussão em Portugal. José Pacheco Pereira, de forma elíptica e redundante, tem postado textos, in Público, vertidos no Abrupto, em seguida, onde, usando tese cara a Jean Baudrillard só se detecta a “ transparência do Mal”; pois, sublinha“o arbitrário é difuso", e os intelectuais tentam o impossível “para incarnar o integrismo do pensamento legítimo com todo o ardor do masoquismo". E do sadismo, acrescentamos nós…

1. “Existe apesar de tudo um problema acerca do Acontecimento, analisado por Badiou. Ele próprio mo confessou: há como que uma oscilação…acontecimento…Como o designer? Ele não quer dar o passo Derrideano (J.Derrida) de confessor, que, o Acontecimento, não se reconhece senão no seu traçado. Apesar de tudo, recusa-se a substancializar o Acontecimento. Ele di-lo, precisamente: “ O que conta não é o acontecimento, em-si, mas a Fidelidade. O problema não reside na separação que se pode verificar entre o Acontecimento e a sua apelação". in (Slavoj Zizek, etudes lacanienes)

Alain Badiou: “ Importa opor o ilimitado ao ideal científico. Adorno é um dos que apostaram no ideal do ilimitado, com e depois Bergson, Heidegger, Deleuze e outros, opostos a uma forma suposta fechada do ideal científico. A compreender como o que veicula que a negação da negação é a afirmação e encerra, por conseguinte, a negação. O ideal do ilimitado, pelo contrário, visa a ideia de uma negação tal que, mesmo a negação a não apaga; apesar de tudo, poder-se-ia negar a negação, mas não a conseguimos suprimir e toda a abertura será mantida. O ilimitado é o processo de substituir à forma a transformação da forma. O informal é, nesta perspectiva, a possibilidade de se confrontar ao informe. Na dimensão que faz com que toda a forma não se postula senão para ser imediatamente transformado, e esta transformação deve ser ela própria errática ou sem forma”. (Seminário da E.Normale.Sup.2005. Sobre a tese de Adorno in “Dialéctica Negativa“)


FAR

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Estátuas vivas




Madrid. 2007

Fotos FFC

Os vinte e nove Sonetos de Amor de Étienne de La Boétie (3)

Soneto III

C´est fait, mon coeur, quittons la liberté.

De quoi, meshuy ( désormais) servirait la défense,

Que d´agrandir et la peine et l´offense;

Plus ne suis fort ainsi que j´ai été.


La raison fut un temps de mon côté:

Or, révoltée, elle veut que je pense

Qu´il faut servir et prendre en récompense

Qu´oncq( que jamais) d´un tel noeud nul ne fut arrêté.


S´il se faut rendre, alors il est saison,

Quand on n´a plus devers soi la raison.

Je vois qu´Amour, sans que je le desserve,


Sans aucun droit, se vient saisir de moi ;

Et vois qu´encore il faut à ce grand roi,

Quand il a tort, que la raison le serve.


FAR

Sinais


Desenho Maturino Galvão

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Táxi Bamako (4)


Bamako. Mali. Nov. 2007

Foto Sérgio Santimano

Da Capital do Império

Olá,

Hoje creio eu que vos vou surpreender. Desculpem-me o meu entusiasmo mas vou falar-vos de cinema, mais precisamente de um filme que fui há dias ver. “There will be blood” que não sei como vai ser chamado aí desse lado do charco.
Antes disso tenho a dizer-vos que eu continuo a ser um grande fã do cinema. Só vi televisão pela primeira vez na minha vida aos 20 anos de idade em 1972 (um dos benefícios do colonialismo) e o cinema foi aquilo que marcou o meu mundo áudio visual. Dai que só use a televisão para ver futebol e noticias e todos os dias diga para mim: “Tenho mais de duzentos canais de televisão e não tenho nada para ver.”
Talvez por isso continuo também a preferir ver os filmes na sala de cinema, apesar de aqui nos Estados Unidos às vezes ficar irritado com o reflexo pavloviano dos americanos que quando entram na sala de cinema têm que ter na mão um pacote enorme de pipocas e noutro um copo enorme de cartão de Coca-Cola. Americano, qualquer que seja a sua idade, quando compra bilhete de cinema começa a sentir o sabor de pipoca e o gosto de Coca-Cola. Está-lhes gravado no seu AND e por isso têm que entrar na sala com isso na mão. O resultado é que as vezes os filmes iniciam-se e o maralhal ainda está a mastigar pipocas ou então a chupar o fim da Coca-Cola pela palhinha que com o gelo a derreter provoca aquele barulho irritante schlup schlup schlup. Ou então a meio do filme alguns têm que ir despejar a Coca-Cola, algo que acontece principalmente em dois escalões etários, os muitos jovens e os mais velhos idades em que a capacidade das bexigas está em ordem inversa ao tamanho dos filmes.
Mas apesar dessa pequena irritação cultural americana nada bate um filme visto no écran grande. Raramente vejo filmes na televisão e creio que nunca aluguei um DVD, embora tenha uma colecção enorme dos meus filmes favoritos em vídeo … que nunca vejo.
Isto tudo a propósito de “There will be blood” um filme cujos minutos iniciais de um tal Daniel Plainview (o actor Daniel Day Lewis) a garimpar num buraco no meio de uma zona semi desértica inospitável, sem outro som que o da picareta e do seu respirar são só por si memoráveis.
Plainview reincarna o princípio da América. A terra hostil, a pobreza dos que a exploram, a sua cobiça, a sua energia, a sua brutalidade.
Plainview (que se pode traduzir por “vista clara”) é isso mesmo. O seu individualismo, o seu egoísmo, a sua capacidade de usar as necessidades dos outros para ele avançar, estão ali à vista clara de todos, como também estão a sua criatividade, a sua vontade de vencer, ultrapassando barreiras físicas, económicas e sociais.
A religião surrealista evangélica que acompanha os pobres nessas zonas abandonadas também está lá em coexistência tensa e nervosa, às vezes em confronto com o capitalismo que cresce e se fortalece nessas zonas, formando a identidade americana e do seu capitalismo. Às vezes em “cooperação” forçada a lembrar Henrique IV de França que em 1593 se converteu ao catolicismo porque “Paris vale bem uma missa”. Plainview “converte-se” também ao evangelismo louco porque precisa disso para avançar.
É um filme com momentos de ternura (uma curta cena de Plainview com o seu filho num comboio, sem palavras, sem abraços, sem beijos, é magistral) mas sempre de tensão, de incerteza que é afinal aquilo que é a vida principalmente em situações novas e difíceis.
Sangue ao contrário do que o titulo possa indicar há pouco. Na cena de um trabalhador que morre num poço de petróleo o seu sangue e o seu corpo misturam-se na lama, no sujo da nova força que revoluciona a paisagem, o país.
Capitalismo criador e que como tudo o que cria também destrói. A analogia da América está ali, numa história bem contada que prende qualquer pessoa sem pretender ensinar ninguém, sem pretensiosismos intelectuais, uma vitória para o realizador Paul Andersen a provar que na “indústria” do cinema americano se produz também arte do mais alto calibre.
Daniel Day Lewis faz um papel como há muito não se vê no cinema. A voz e a pronúncia que usa durante quase todo o filme ficou-me gravado na memória com um ponto de interrogação E três dias depois a luz acendeu-se no meu cérebro. É uma imitação perfeita da voz do falecido realizador/actor John Houston. Não sei o porquê disso. Mas actuação de Day Lewis vale só por si o preço do bilhete. Junte-se a isto uma cinematografia extraordinária e música composta por Jonny Greenwood do grupo Radiohead, e “There will be blood” é uma vitória, um triunfo para aqueles que como eu gostam do cinema.
Façam-me um favor: se este ano forem ao cinema duas vezes, uma delas tem que ser para ver este filme.
Abraços,

Da capital do Império,
Jota Esse Erre

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Michel Rocard: Ségo é simpática mas não serve para líder

O antigo PM francês, Michel Rocard, uma das grandes personalidades da Esquerda mundial, escreveu ontem uma tribuna no Libération, onde tenta alertar os seus companheiros de partido contra a” muita má saúde - em quase paralisia “, em que se encontra o PS francês. Aponta, nomeadamente, as seguintes falhas essenciais: “ Não é capaz de ter um discurso coerente”; “ Não faz a análise do que diferencia o capitalismo do pleno emprego e do crescimento rápido, que conhecemos de 1945 até 1972, do capitalismo de crescimento mole, da precariedade e do desemprego que se conhece agora”; “Não sabe o que fazer com a Europa”.

Rocard alerta para a “crise económica e financeira que nos ameaça” - recessão nos EUA, estagnoflacção na Europa - e bate na tecla, vezes sem conta, como não existe “discurso político” credível, a “indecisão” vai impor, mais cedo ou mais tarde, a criação de “opções claras e conflituosas que só elas podem ilustrar uma linha política praticável, audaciosa e responsável”. A “crise actual é mais intelectual do que de liderança”, observa, para admitir, frontal: “ Ségolène é simpática e carismática, mas não possui, com evidência, as capacidades necessárias para assumir a responsabilidade a que postula. Representa uma certeza de derrota, a que se acrescenta uma grave crise no partido “.


«Chers amis de Libération, votre une du 8 janvier «Gauche cherche leader» était drôle et bien venue. Mais si le crime de particide n’est pas encore défini dans le droit contemporain, il est bel et bien en train de se commettre. Votre une est un élément du massacre.
Le Parti socialiste est en très mauvaise santé, en fait en quasi-paralysie, et cela depuis longtemps, nous le savons tous. Le traitement que l’on fait de cette situation dépend bien sûr du diagnostic. Et le diagnostic, c’est que la crise était latente depuis longtemps, s’est lourdement aggravée sous le mandat de François Hollande, et ne doit pas grand-chose à son départ. Elle est due pour l’essentiel au fait que le PS n’est plus capable de tenir un discours cohérent. Il n’a pas fait l’analyse de ce qui distingue le capitalisme de plein-emploi et de croissance rapide que nous avons connu de 1945 à 1972 du capitalisme de croissance molle, de précarité et de chômage que nous connaissons aujourd’hui. Il ne sait pas non plus quoi faire de l’Europe, à propos de laquelle la déploration de la mort de l’Europe politique ne saurait remplacer l’analyse pourtant manquante du rôle possible de l’Europe telle qu’elle est devant la crise économique et financière qui nous menace.
L’absence d’un futur leader qui s’impose et la multiplication excessive des candidatures peu évidentes est le résultat mécanique de cette situation : puisqu’il n’y a pas de discours, il n’y a évidemment personne qui soit capable de le prononcer mieux qu’un autre !
Cette situation a une cause simple et évidente : l’obligation où le PS s’est mis lui-même de ne parler qu’à l’unanimité. Le droit du Parti aujourd’hui c’est que le PS ne peut parler que si pro-européens et anti-européens sont d’accord, et que si sont d’accord aussi ceux qui veulent rejeter l’économie de marché et ceux qui comme moi pensent que ce n’est ni possible ni souhaitable. On ne peut évidemment rien dire de clair et de convaincant sous une pareille condition.
Formellement, cette contrainte autoparalysante est le résultat de la tragique décision de synthèse prise par François Hollande à la fin du 74e congrès du Parti (au Mans), contre le gré d’ailleurs de la majorité de sa propre majorité. C’était perceptible au Mans : la base du Parti voulait des signaux clairs, et ne veut plus promettre des ruptures infaisables et conduisant nul ne sait où. Cette même majorité latente qui veut réformer pas à pas, en n’annonçant que ce qu’on peut faire, était également repérable à l’université d’été de La Rochelle.
Or il faut à cette majorité potentielle du temps et de la sérénité pour maîtriser les données de ces controverses et pour préparer des choix rugueux et conflictuels mais clairs sans lesquels la social-démocratie française est vouée à la disparition.
C’est une vieille histoire. Depuis l’avant-guerre, chaque fois que les socialistes français ont une lourde difficulté politique, ils préfèrent, au prix de l’indécision, chercher leur sauvegarde dans leur «unité» ou leur «rassemblement» plutôt que de choisir les décisions claires et conflictuelles qui seules peuvent illustrer une ligne politique praticable, audacieuse et responsable. L’accumulation de ces non-décisions sur des décennies est la cause de la crise actuelle, qui est intellectuelle plus que de leadership.
Or il y a autre chose. Choisir maintenant le candidat du Parti socialiste à l’élection présidentielle de 2012, avant que le Parti ne se soit reconfiguré pour définir et soutenir le discours, c’est offrir aux médias une cible magnifique pour quatre ans. Personne n’est capable de résister quatre ans au pilonnage multiquotidien qu’implique cette situation. A toutes nos élections présidentielles de la Ve République, tous ceux qui sont partis trop tôt ont toujours perdu : Poher, Chaban, Barre, moi-même, Balladur et Royal. Seul Sarkozy semble démentir la séquence, mais il a eu la chance stratégique d’alimenter médias et opinion, sur une autre bataille, celle de la direction de l’UMP.
Jouer explicitement ce jeu, c’est-à-dire pour le PS choisir son prochain premier secrétaire en pensant choisir du même coup son candidat présidentiel, c’est offrir un surcroît de chances à Ségolène Royal. Or le problème est que cette candidate avenante et charismatique n’a à l’évidence pas les capacités nécessaires aux responsabilités qu’elle postule. Elle représente une certitude de défaite, au prix en plus d’une très grave crise dans le Parti.
Personne d’autre n’est actuellement disponible. Il est essentiel que Delanoë s’occupe de Paris exclusivement et pour longtemps, il est acquis que Dominique Strauss-Kahn fait son métier à Washington et pour longtemps.
L’émergence d’un nouveau leader charismatique est possible, c’est même la solution la plus probable, mais il faut des années pour que le PS soit capable de définir et d’adopter un vrai projet social-démocrate qui supporte le discours et les mêmes années pour qu’émerge le meilleur avocat de ce discours. Telle est la situation de fait.
La survie du PS mais aussi et surtout la salubrité générale et la préservation des chances de notre candidat pour 2012 exigent donc impérativement que notre première décision, au 75e congrès, le prochain, soit l’annonce que nous choisirons notre candidat pour l’élection présidentielle de 2012 à l’automne 2011 et en aucun cas avant.
Cela veut dire que le prochain secrétaire général aura comme mandat dominant sinon exclusif d’amener le Parti à accoucher d’un projet, c’est-à-dire de piloter les débats en provoquant chaque fois que nécessaire les votes discriminants nous amenant vers un peu plus de cohérence et de clarté en confirmant la voie sociale-démocrate qu’ont déjà choisie tous nos autres partis frères du Parti des socialistes européens. Il nous faut là une personne soucieuse de vision mondiale, d’analyses économiques et stratégiques et surtout pas un débatteur médiatique.
Nous n’aurons donc pas - et c’est une précaution de survie que de ne pas le chercher - un premier secrétaire charismatique et volubile, élu pour briller dans la controverse verbale permanente avec le chef de l’Etat. Or ça n’a aucune importance. Il n’y a aucun moyen connu de mettre en cause l’ultra domination de Sarkozy sur la France avant les élections présidentielle et législatives de 2012.
Au contraire, c’est plutôt la réapparition d’une opposition cohérente, respectée, sûre de son projet, et clairement en phase avec ses alliés internationaux qui donnera du poids à la présence du PS dans les débats, même si son nouveau chef n’est pas candidat présidentiel et ne privilégie pas le duel personnel dans les médias.
Nous serons moins fringants et moins personnalisés, mais nous serons plus rigoureux parce que plus cohérents. Naturellement cela va manquer au monde des médias. Vous aurez moins de photos conflictuelles, d’occasion de titres vengeurs et de grands moments d’affrontements à l’image. Tant pis.
Les conditions de maintien en bon état des grandes forces démocratiques du pays sont absolument prioritaires sur la pérennisation d’un débat médiatique qui n’intéresse que vous et dont l’opinion commence à se lasser.
C’est d’autant plus important à gauche que les dernières élections ont sanctionné l’impuissance définitive du PC, des Verts et des trotskystes. Le PS reste seul. Nous sommes nombreux à savoir assez bien comment le faire rebondir. Mais nous avons besoin pour cela que vous nous compreniez, au lieu de nous casser le travail.
C’est pour cela que votre une pleine d’humour tombe si mal.
Désolé de vous le dire aussi fermement.
»
Michel Rocard. Libération


FAR

Terra

African Woman/12 (2007)
Foto:G.Ludovice


"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis,
porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. (...)"
Do Livro do Desassossego, Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa)

domingo, 13 de janeiro de 2008

Geometria


Gare do Oriente. Lisboa. 2007


Foto Jota Esse Erre

Alain Badiou-III: “A coragem é uma questão de tempo”

De uma entrevista dada pelo autor, “De quoi Sarkozy est-il le nom?”, diatribe super-radical de grande impacto mundial contra o capitalismo neoliberal, inserta no jornal Humanité, de 6/Nov-07, mais alguns pontos nucleares sobre a sua argumentação.

I.“O serviço dos bens, para retomar a expressão de Lacan, é o serviço do capitalismo liberal. Os bens são produzidos e distribuídos num regime de economia de Mercado. Se estamos ao serviço do serviço dos bens, é isso que devemos apoiar. Ora, do meu ponto de vista, o capitalismo liberal não fixa nenhuma orientação para o futuro da colectividade. O cidadão não passa senão por ser o que comparece perante o Mercado. É o consumidor, tal como é sinalizado pela circulação das mercadorias. Por isso, a nossa sociedade tal qual se encontra não consegue representar o seu futuro colectivo. As pessoas, elas próprias na sua particular existência, estão excluídas de construir o que ultrapasse o consumo e o aforro. É isso a desorientação.”

II. “A coragem consiste em fazer finca-pé num ponto. Não só de duração curta, mas também longa. É uma questão de tempo. Boa parte da opressão actual é uma opressão sobre o tempo. Estamos constrangidos a arcar com um tempo dividido, descontínuo e disperso. No qual, a rapidez é o momento maior. Esse tempo não é o do projecto, mas sim, o do consumo, o do assalariado. A coragem poderá consistir em tentar impor uma outra temporalidade. A fazer força em certos pontos contra ventos e marés, numa duração que não dependerá de critérios de sucesso ou de derrota impostos pelo modelo da sociedade liberal “.

III. “Os oprimidos não têm outra hipótese a não ser a sua disciplina. Quando não se tem, nem o dinheiro, nem armas, nem poder, não existe outra coisa senão a unidade. A nossa questão central. É, portanto, qual é a forma que pode tomar uma outra disciplina? Do ponto de vista filosófico, penso que é necessariamente uma disciplina da verdade, uma disciplina gerada pelo próprio processo. O que surge, o que acontece, deve ser a lei comum para essa disciplina ser realizada. Dito de outra forma, é o próprio processo político que deve engendrar a sua disciplina.”


FAR

Post com dedicatória

Para a proprietária de uma pastelaria requintada, onde se fuma e a ASAE/DGS não entra

Série: música boa como o caralho (2)

Jacques Brel é D.Quixote

sábado, 12 de janeiro de 2008

Madrid me mata (6)





Madrid. 2007

Fotos FFC

Henning Mankell: China coloniza África

"China coloniza África e, claro, Moçambique !!!
- diz o escritor Henning Mankell
País cheio de pobres, a China exporta-os para África.
Aqui, os Chineses comportam-se como autênticos colonizadores, como os Portugueses, uma forma terrível de colonização, os Africanos são mal tratados por eles.
Podemos fazer aos pobres não importa o quê.
Se África se enche de Chineses, é claro que Moçambique também.
E chegando, levam as matérias-primas.
Ora, os dirigentes de Moçambique tiram proveito financeiro desta política - eis o que diz, entre outras coisas, o escritor sueco Henning Mankell, um dos romancistas mais lidos no mundo, que vive há mais de 20 anos com um pé em Moçambique e outro na Suécia, ele, que é genro do grande cineasta Ingmar Bergman e que se prepara para publicar um livro que se vai chamar "O chinês" (com base do trabalho de pesquisa feito na China e em África).
Leia aqui, em francês, uma entrevista exclusiva, com o título "O que me revolta", que deu ao Nouvel Observateur."
Com a devida vénia ao Diário de um Sociólogo e ao Ponte


(foto Sérgio Santimano)

Cantar as janeiras

Mais um ano, mais um degrau na subideira para o mundo perfeito. Em boa hora, no ano de 713 a. C., o rei Numa Pompílio, sucessor de Rómulo, integrou no calendário romano o mês de Janeiro, facultando, aos filhos do estilhaçado Império, trinta e um dias para renovar esperanças e definir objectivos, que o resto do ano cumprirá. Se em Dezembro se limpam gavetas e armários, em Janeiro abrem-se portas e janelas. A palavra “Janeiro” teve origem em Jano, deus das portas, portões e cancelas, dos princípios e dos fins, representado com duas cabeças, uma olhando em frente, outra para trás. Com um olho no passado e outro no futuro, o mês de Janeiro abre uma caixa de Pandora… de coisas boas. (The Pandoras, banda americana dos anos 80, numa versão psicadélica de “You Don’t Satisfy”. Mas nessa década, o Vidal Sassoon, champô e condicionador, muda o aspecto do rock. The Pandoras ao ar livre em “You' re All Talk”. E metidas com Cherie Currie das Runaways).

Da Austrália vem uma boa ideia para este ano. Há 40 anos que a empresa Westaff fornece Pais Natal para lojas e centros comerciais. Em 2007 entrou na moda do politicamente correcto que desabrocha pelo planeta. Aconselhou aos seus empregados, contratados para representar o famoso habitante da Lapónia, na festiva quadra natalícia, que trocassem o bonacheirão e tradicional riso “ho, ho, ho” por “ha, ha, ha”. O insólito pedido tem uma explicação simples. Matar infiéis, em conjunto com os amigos americanos, engrandeceu-lhes o vocabulário com o calão do G.I. Joe. A expressão “ho” é uma abreviatura de “whore” (puta) na gíria das ruas americanas. E, não é correcto, sujeitar os ouvidos das criancinhas a palavrões, quando dão um empurrão na economia, acelerando o consumo. Se, começam desde cedo, em contacto com o vernáculo, a educação não encaixa, as transgressões suceder-se-ão e é provável que acabem a fumar e beber em palco como o Nick Cave. A empresa dá uma explicação mais científica assentada na Psicologia. Sari Hegarty, coordenadora do recrutamento de Pais Natal, explica-se: “pedimos aos nossos Pais para tentarem certas técnicas, como baixar o tom da voz e usar “ha, ha, ha”, para encorajar as crianças a aproximarem-se e a conhecer o Pai Natal”. Por causa dos americanos, os australianos têm mais para mostrar que “Fuck off Is the Only Thing You Have to Show” (das brasileiras Cansei de Ser Sexy).

Certo dia Brigitte Bardot desabafou: “dei a minha beleza e a minha juventude ao homem. Vou dar a minha sabedoria e experiência aos animais”. Brigitte esteve no topo da interacção humana. Cantou só e acompanhada. Cantaram-lhe. Jean-Luc Goddard pô-la a perguntar o óbvio. No filme “En Cas de Malheur”, de Claude Autant-Lara, Jean Gabin gostaria de estar sentado no lugar do espectador. Bem poderia ser a garota de Ipanema. Sem dúvida a mulher mais excitante do mundo. Mas isso terminou e, em alternativa, entregou-se aos bichos. Quer salvá-los da crueldade e voracidade humana. E não é a única… a olhar os animais. A Quercus recomendava neste Natal: “coma bacalhau mas com moderação”. O peixe da Consoada está em vias de extinção e a Igreja não vai autorizar o fim do jejum de carne nesta época. O fiel amigo não tem substituto. Assim, amigo que come amigo, deve libertar a consciência ecológica para que a relação de amizade perdure. Enquanto não vem a clonagem apela-se ao racionamento e ao chupar bem as espinhas para evitar o desperdício. (A rainha do rock não tem espinhas. Joan Jett também pertenceu às Runaways. Ela em “I Love Rock ‘n’ Roll”. E em “Crimson & Clover”, uma versão de Tommy James & The Shondells).

Nas terras lusas o ano começa bem.(...) (Continue a ler o Táxi Pluvioso no Pratinho De Couratos)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

2008


Este animal vai-me perseguir nos próximos meses da minha vida, o que é um bocado deprimente.
Vou tentar mandar umas postas nos intervalos.
Com algum atraso, bom 2008!

Táxi Bamako (3)


Bamako. Mali. Nov. 2007

Foto Sérgio Santimano