segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Adeus a 2011


2011 foi o ano em que, para além da angústia anteriormente experimentada mas mais dificilmente compreendida, a realidade sócio-económica entrou pela minha vida adentro e me confrontou, com mais crueldade e firmeza que nunca, com a injustiça dos mecanismos da sociedade moderna. Talvez pelas suas causas nefastas, cada vez mais presentes no meu quotidiano, talvez pela coincidência de em anos anteriores me ter fascinado cada vez mais pela a origem e o significado da Condição Humana, a necessidade de respostas foi o que mais regeu o meu ano de 2011. Neste contexto fui levado a envolver-me nalguns momentos que me deram a conhecer diferentes pessoas, cujo espírito se mantém exaltado pelos mesmos motivos. Este foi o ano em que participei na chamada Acampada do Rossio. Me entusiasmei, me entediei e me desiludi. Foi o ano em que vi a Avenida da Liberdade cheia por diversas vezes e quis crer na existência de pessoas auto-determinadas e inconformadas e me voltei a desiludir quando a roda-viva das eleições me mostrou cabalmente que enquanto durar o circo político irá manter-se condenada a vida pública a uma espécie de beco sem saída. Foi o ano em que busquei por isso outras realidades. Fui encontra-las nos livros, nas reuniões espontâneas ou organizadas. Com amigos e com desconhecidos. Com pessoas que percebem muito e com pessoas que se desunham para tentar perceber alguma coisa. Foi o ano em que encontrei no RDA pessoas das duas estirpes. Em que me tentei debruçar sobre as insurreições passadas, noutros países, noutros períodos históricos. Da comuna de Paris ao anarco-sindicalismo da Barcelona debaixo de guerra civil. Na incrível coincidência da nossa realidade com a realidade dos povos argentino ou grego. Foi o ano em que tentei decifrar mais um pouco da obra de Proudhon, em que me embrenhei apaixonadamente nas palavras de Kropotkin e Emma Goldman, em que me sonhei com o espectador emancipado descrito por Rancière. Em que quis perceber porque é que a retórica da classe operária deposita tanta fé na Greve Geral e também os motivos pelos quais o seu impulso revolucionário se encontra circunscrito a uma existência meramente mitificada.

Mas também foi um ano de música. Foi o ano em que um seguidor meu, tão a propósito, falou das coincidências da minha música com a música de Gurdjieff e descobri assim a sua obra. Foi o ano em que me arrepiei com Valentin Silvestrov e o seu Requiem for Larissa ou me fascinei com a imensurabilidade da obra de Toru Takemitsu, em que tremi a ouvir as interpretações de Introitus e Am Rande des Abgrunds de Sofia Gubaidulina, durante um ciclo seu no CCB. Foi o ano em que vi o Schlippenbach numa sala apertada de paredes de tijolo no Barreiro, e pensei que estava dentro de um livro do Kerouac, não era verdade porque a asséptica lei anti-tabaco não ajuda ao romantismo da coisa. Foi o ano do Tilbury no Maria Matos e da primeira audição ao vivo do Prélude à l’après-midi d’un faune pela Orquestra Sinfónica da Casa da Música. O ano em que voltei a estar perto do sítio onde estive quando os Konono nº1 tocaram no Jardim Botânico, apenas desta vez estava mais perto do mar, e ao lado das Kalimbas havia agora mais guitarras eléctricas e três baterias e já não me lembro quantos músicos em palco. Mas sem dúvida que me recordei que a simplicidade é o âmago da questão. O ano de vibrar com música realmente vibrante em Lisboa dos incontornáveis Hernâni, Sousa (o outro), Ferrandini, Norberto, Sei Miguel, Rodrigo o Amado e o Pinheiro, Silva, Maranha, Mota, e mais uma porrada de outros nomes que agora não me ocorrem mas que sei que quando publicar este post me vou mutilar por não ter escrito. Foi o ano em que achei que dificilmente iria existir uma banda Pop mais perfeita que os Animal Collective e em que dei graças por ter provado uma porrada de cervejas novas e ter visto o Panda Bear na cidade fria de Bruxelas. E depois, calcorreei a mesma cidade fria a pé, por cerca de 50 minutos, por que já não havia Tram e fui teimoso demais para apanharmos um táxi. Foi o ano em que corri o país com o meu amigo Baltazar e Ricardo e nos rimos bastante, riu-se menos o Baltazar porque agora tem um puto pequeno e já não acha muita piada a ficar a pé até altas horas. Valoriza mais o seu sono tranquilo. Foi o ano em que vi, alguns, amigos a sair do país, e vi outros, menos, a voltar.

Foi o ano em que me desloquei mais vezes do que antes à cinemateca para tentar sorver a realidade perspectivada pelos grandes do cinema. Em que o discurso do personagem Albert Lory me alertou para a ideia peregrina de que “A sabotagem é a derradeira arma de um povo derrotado”. E, falei com tanta emoção deste filme que acabei por recebê-lo num DVD dentro de um saco de plástico mal embrulhado para que não mais me esqueça da sua importância. Foi ano em que busquei as imagens belas de Tarkovsky, em que encontrei os meus 15 minutos de filme preferidos no início do Hiroshima Mon Amour, e o meu diálogo preferido no início do Le Mépris (totalement, tendrement, tragiquement), e em que me perdi em discussões inconsequentes sobre a duração do La Dolce Vita.

Sem dúvida que foi um ano em que comecei muita coisa e acabei tantas outras. Mas as coisas que acabei, sei que fazem parte do que me constitui e as coisas que tenho pela frente são o motivo pelo qual ainda vou acreditando que apesar de toda esta borrada que é a civilização moderna, ainda vale a pena tentarmos fazer alguma coisa de útil e deixar um mínimo contributo para o grão de areia que é a nossa existência no universo.

Tiago Sousa

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