quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O Dona Maria e o BPN

Em princípio como a água e o azeite, nada a ver. Numa segunda apreciação muda o ângulo de visão : faliram ambos. Diz-se nos dois casos que por má gestão, sendo que no caso do banco, ela não será má, será mesmo corrupta, isto é, aquele senhor que foi governante do Presidente roubou e fez negócios fraudulentos – o que aliás prova a relação próxima entre ser governante e ser homem de negócios, restando saber onde se aprende o quê, se no governo a gerir negócios privados, se na privada a gerir negócios públicos. Trata-se obviamente de uma proximidade explosiva, viral, que não deixa ninguém fora da área contaminada, aliás mais ou tão vasta como o mundo que as descobertas proporcionou, Madeira, Marrocos, Cabo Verde, Porto Rico, Brasil, traficantes, tudo rotas simpáticas, quentes e de turismo possível. Fica aliás claro que para se ser governo há que ter uma ligação qualquer a grupos económicos. O que for excepção só serve para encobrir a verdade desta regra e para fazer aquela parte do tipo que afiançava que o bordel era sério porque ele, ele próprio, não ficava com nenhum dinheiro de meninas e meninos, ele apenas pegava nesse dinheiro como administrador e investia-o, sendo que o seu dinheiro resultava dos lucros do investimento e não do suor do pecado, do ilícito comercial – face à religião, claro.
Mas avançando um pouco mais em relação ao cerne da coisa e pensando que a realidade são camadas de opacidade sobrepostas - como a cebola só lá se chega, ao núcleo explosivo, retirando-as sucessivamente e sabendo que pertencem a épocas diferentes, à sobreposição de tempos diversos, de clientelas diferentes, o que torna o todo mais oculto, quase indecifrável, e trabalho de arqueologia judiciária e policial – chegamos ao seguinte : são ambos assuntos de Estado e ambos assuntos de milhões e só são questão por serem milhões – mesmo o Dona Maria só se discute porque são milhões (ao longo de décadas) e não porque seja essencial à nação, aos espectadores portugueses, ao perfil da democracia, à literacia do povo e principalmente dos governantes, à arte teatral e à identidade nacional, mais multicultural, mais europeia ou mais matricial.
Isto é: um é questão por ser uma não questão, uma recorrência sistémica, um falhanço apaparicado e desejado como impossibilidade e bloqueio – outra coisa portuguesa – e o outro é uma grande questão, uma enorme questão, quase um 11 de Setembro da aldrabice ou, preferindo, um caso similar em descrédito nacional e cobardia, ao da Casa Pia.
Assustador é verificar que estamos cada vez mais metidos em sucessivas descobertas do que se passa no reino que fedem ao que de pior há : à amoralidade reles dos poderosos, aqueles que têm tudo ao dispor para poderem, sendo acusados, dizer o que quiserem ficcionar com todos os suportes de tornar a ficção verdade consumida. Não é por acaso que o Dr. Dias Loureiro passa horas na televisão pública, há décadas e recentemente com a seriíssima jornalista da TV pública, como não é por acaso que passa longo tempo na SIC – são milhões em tempo televisivo pago. Talvez, vendo bem as coisas, em ambas haja quota, acções, investimentos, relações, amigos, sabe-se lá o que mais.
O que é verdade é que se não há almoços grátis também não existem anjos em paraísos fiscais.

Fernando Mora Ramos

2 comentários:

ivone disse...

Magnífico post. É assim mesmo. O pior é que é assim por todo o lado... Vontade de fugir, mas para onde?

ivone disse...

Continuo a embirrar com esta coisa da moderação de comentários aqui no 2+2. Tinha-me prometido não voltar a comentar enquanto... mas este texto do Mora Ramos distraíu-me dessa intenção. Foi uma recaída, prometo não tornar...