sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Landim Desconhecido

Tomando como pretexto um muito anterior post sobre os grandes moçambicanos, também este a pretexto daquela futilidade televisiva designada por Maior Português de Sempre, apresento-vos um verdadeiro herói Landim. Um Landim desconhecido.

Dizem que...a quintissecular presença portuguesa no Sul da China, a partir do século XVI, foi de todo pacífica, consentida e cordial- um diagnóstico sustentado na ausência de confronto militar directo. Todavia, o governo de Lisboa manteve até 1976 uma presença significativa de tropa regular... acredita-se que como símbolo de soberania e tranquilidade. Mas como sabemos estes símbolos custam algum e já então a distância entre Lisboa e o Delta do Rio das Pérolas marcava quase duas dezenas de milhar de km.
Eureka! Terá babado um dos nossos políticos de excepção, antropólogo social, cosmopolita e distinto colonial. Assessorado por uma bússola, um compasso e uma régua, o nosso visionário atinou: vamos recrutar um destacamento de negros provenientes da melhor distância entre Macau e a Contracosta.
E foi assim que se formou a denominada Companhia de Landins, mancebos voluntariamente arrancados às suas ocupações e destinos tradicionais, e esta rumou, no século XIX, para as remotas casernas de um mundo ainda mais estranho. Imagine-se a estranheza dos locais.
Ora, no dia 22 de Agosto de 1849, um grupo de “sicários chineses”, na expressão pacificadora e reaccionária do mais conhecido historiador de Macau, Monsenhor Teixeira, cortava a cabeça ao Governador Ferreira do Amaral, reputado herói das guerras sul-americanas. Conta Teixeira que Amaral, então guarda-marinha, tomou parte no assalto a Itaparica, no Brasil. Ferido com muita gravidade, não houve remédio que não cortar-lhe o braço, a frio sem anestesias e segundas opiniões.
“Quando viu cair o braço, levantou-se da cadeira, lançou-o ao ar e exclamou Viva Portugal”. Compreensivelmente, desconhe-se qualquer declaração ou exclamação na circunstância da emboscada que resultou na decapitação, ali na zona das Portas do Cerco, do incontornável herói dos rios da Prata e Pérolas.

Após o dramático assassínio de Amaral, cerca de dois milhares de soldados chineses, acantonados no Forte de Pac-Sá- Lan- vertido para português como Passaleão- desataram a ‘abonar’ (jargão de infantaria ou tropa macaca) o outro lado das Portas do Cerco. Recorrendo de novo a Teixeira, e à justificação politicamente correcta da tese da cordialidade mútua, a tropa portuguesa “manteve-se inactiva”.
Indiferente a todas a variantes da covardia institucional, o Tenente Vicente Nicolau de Mesquita avançou com 32 efectivos contra o dito Forte do Passaleão, “desbarantando a guarnição” e erguendo o pavilhão lusitano. Segundo o relato de Teixeira.
Não foi bem assim. Neste recontro ou confrontação, em que não se registaram baixas nem danos colaterais, o primeiro a saltar o muro do forte foi um anónimo soldado Landim. A guarnição chinesa ao ver o incorporado negro desatou a gritar Hac Kuai! Hac Kuai! Hac Kuai! E a fugir.
Hac Kuai quer dizer Diabo Preto, o que não sendo um cumprimento tem o mérito da não-exclusividade, pois os brancos, europeus, são ainda hoje denominados de Kuai Lo, Diabo Branco. Leia-se Gweilo.
Mesquita regressou em glória ao enclave de Macau e teve direito a todas as homenagens e a estátua paga por subscrição pública. Em honra do maior herói macaense.
Quanto ao nosso Landim, permanece anónimo, sem medalha ou pedra, provavalmente vagueando pelas noites escuras e sussurando : 2+2=5, 2+2=5, 2+2=5.

JSP

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Devia haver mais pessoas de membros decepados a gritar viva Portugal! Assim sim, os portugueses valeriam 150 milhões de euros cada um, e massa para ajudar os nossos ricos não faltaria.