quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Natal dos Hospitais

Precariedade exclusiva
Hoje usa-se muito a palavra inclusivo, escola inclusiva, arquitectura inclusiva e por simpatia antónima diz-se também muito a palavra exclusivo, em diversos contextos. Por exemplo: o Natal dos hospitais é inclusivo. Aqueles deserdados da vida que têm ali onde cair mortos, assistem àquela manifestação de beleza incomparável num palco mediatizado, ouvem aquela massa sonora inteligente e sensível de catadupas de sensibilidade generosamente derramada, mais play back, menos microfone pela goela abaixo, num êxtase que, quase religioso, se finaliza com fitas de alegria postiça envolvendo pacotes de paralelipipédica vocação, grandes para caber em exclusivo protagonismo num primeiro plano de ecrã televisivo. Extenuados de amor, no fim, agradecem, lacrimejando e somando palmas num entusiasmo unânime. Trata-se de um momento inclusivo que perdoa um ano de exclusão (um ano inteiro de inclusão numa cama hospitalar pode ser uma situação de absoluta exclusão da vida) através de uma boa acção espectacular – boa acção não é só aquela de dar a mão a velhinhas quando o semáforo está no amarelo intermitente, condição do semáforo nacional, ambíguo e hesitante, sempre ao serviço do atropelador potencial.
Exclusivo, no sentido de um dever de fidelidade a um estatuto de responsabilidade profissional exclusiva, é qualquer coisa de que nem parlamentares nem altos quadros da administração pública – com excepções honrosas – querem ouvir falar. E o rendimento familiar alargado, os quatro carros, as três sopeiras, ou quatro mesmo?
O salário mínimo nacional são 450 euros. Não se pratica sequer. Com a multiplicação das formas de regular desregulando, via contrato, os horários de trabalho, qualquer part time é hoje um horário completo e muito salário de 700 euros, em empresas multinacionais, significa horário que muitas vezes vai até à meia noite – muitos têm meio salário mínimo nacional atribuído a um suposto meio horário, cujo tempo de contagem também é altamente suspeito para não falar dos tempos envolventes, chegar ao trabalho e regressar a casa. Estes trabalhadores que têm estes horários e conheço directamente uma quantidade de casos, têm obviamente um vínculo de tempo exclusivo. O resto do tempo será sono se ele vier tranquilo. Os outros, os dos trabalhos e contratos vários, das muitas administrações de empresa, esses têm um horário exclusivo consigo mesmos atribuído por leis subjectivas e por relações de casta. A coisa tem vindo a lume na sua expressão bandida e todos os dias assistimos a novos casos de católicos muito dedicados a realizar o seu bem privado nos paraísos fiscais suas propriedades inventadas. Mas para estes, a lei e os amigos no poder, são uma garantia não só de liberdade – não vão presos – mas, mais do que isso, de imposição mediatizada de um estatuto de seriedade moral. Tudo converge num mesmo momento, instituições da república e canais televisivos, para dizer o mesmo: a criatura é impoluta eticamente. A República, assim fazendo, transforma-se em Máfia, máfia republicana, se quiserem, um contra-senso nos termos, mas uma verdade insofismável.
A mim o que me incomoda agora é a palavra Crise. Como sou patrão a recibo verde, dirijo uma micro companhia de teatro, a Crise é para mim uma velha amiga. Nunca conhecemos outra coisa e a experiência de doze salários continua uma miragem. O interesse do nosso trabalho, estabelecida a sua vocação de serviço público, está determinado em leis. Leis constitucionais e leis parlamentares e governativas. Um articulado todo europeu na retórica para humanista e absolutamente informe e mal amanhado nos aspectos de regulação, rigor contratual, acompanhamento e avaliações. Nada disto existe. Para além de mafiosa a Republica é das bananas. A Res Publica está de rastos, de facto está num coma porventura sem regresso, corpo vegetal vai realizando mínimos de cidadania vital.
O que me chateia é que agora nem a Crise é nossa. Agora foi democratizada, mesmo massificada. E nós que tínhamos aquela ilusão de ter uma relação de exclusividade com a precariedade. Como rima tão bem.

Fernando Mora Ramos
Director do Teatro da Rainha

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