domingo, 14 de dezembro de 2008

O cão chileno e os parlamentares britânicos

O paradoxo pode cair-nos em cima aleatoriamente, mas também pode estar inscrito na ordem do mundo. O do actor, para Diderot, teria qualquer coisa a ver com a qualidade de ser actor sem o ser ao sabor das emoções, com a fria expressão de uma emoção controlada, de um processo corporal dominado quase até à possibilidade de se propor no jogo teatral concreto/abstracto na mesma cifra, e consequentemente na relação com os destinatários, um teatro de ideias.
Não pude deixar de olhar, no Público on line, para o vídeo do cão chileno – e apetece-me atribuir-lhe uma naturalidade – salvando um irmão desvalido de ser reatropelado na auto-estrada: um pobre rafeiro (só estes andam nas auto-estradas, os outros são de colo e coleira) incapaz de mexer uma das quatro patas que fosse, numa das vias da auto-estrada, a meio de um trânsito desenfreado e cego. É um posto para suicidas, não um lugar de passeio, mas o pobre bicho atropelado certamente não tinha a quarta classe do outro. O cão salvador avança para o parente e observando o trânsito, mete duas patas no corpo do outro, em jeito de tenaz, mas suavemente, e trá-lo assim abraçado até à berma, não deixando de evitar os passantes de quatro rodas que obviamente não paravam. E consegue. Não sei se o salvou, as notícias sobre o cão pararam no fenómeno ali visível. Leio o que vi por comparação. Comparação entre comportamentos caninos e entre caninos e humanos. E, quase por certo, já que o género humano também o é animal, atribuo ao gesto deste cão “inteligência”, mas não só, também “humanidade”. E não será por acaso que no léxico dos humanos se diz “vida de cão”, tenho uma “fome canina”, mesmo “filho de um cão”, tudo expressões que colocam o fiel amigo – em concorrência com o bacalhau nesta latitudes – no fim da escala, porventura perto de muitos sem abrigo que com eles partilham o espaço público e a natureza e não querem mais que uma casota cartonada.
Se o cão fosse bombeiro seria o bombeiro do ano e talvez viesse mesmo a ter, sob o impulso dessa condição herói concelhia, no palco global, uns óscares holiwoodianos, dado o desempenho videogravado provar talento de actor. Depois de um primeiro gesto de aconchego ao cão sinistrado, o animal faz um primeiro esforço de o deslocar e desloca-o, mas reparando num carro que se aproxima, olha-o num plano perfeito para a câmara vídeo – infelizmente muito ao longe -, suspende o movimento e retoma-o mal o inimigo passa. Perfeita acção simples, dir-se-ia em linguagem de escrita de actor. Dá vontade de perguntar quem será? É um cão e peras. Já o mesmo não posso dizer dos parlamentares britânicos e da sua reacção à gaffe do Gordon Brown na Câmara dos Comuns. Será possível que uma risada sem limite, com algo de absolutamente rasteiro e profundamente cínico seja a reacção – porventura a verdadeira resposta – a um erro involuntário, mas que só lhe fica bem, referindo que as medidas para estancar o descalabro económico que tomara serviriam para “salvar o mundo”? Eu sei que os parlamentares o que queriam ouvir era “salvar a economia” porque salvar o mundo, para quê? O mundo são pessoas, povos e a economia é outra coisa, somos nós talvez. Aliás o mundo é o nosso padrão de vida – e que será isso? - e esse, na realidade. chama-se economia.
Fiquei esclarecido quanto à qualidade dos parlamentares britânicos. E estavam lá todos.

Fernando Mora Ramos

1 comentário:

Anónimo disse...

Talvez não fosse tão gaffe como isso. Brown pertence à alta roda que controla o mundo. É natural que fale dele.

E ou termo ligado ao canino léxico: canzana.
Maturino