terça-feira, 3 de julho de 2007
Gilles Deleuze: O que é ser de Esquerda
Video Éditions Montparnasse, Julho 2007
Um vídeo de oito horas acaba de sair em Paris, com o filme-diálogo entre o Filósofo, Claire Parnet e Pierre-André Boutang, realizado um ano antes da sua morte violenta. Mais uma peça fundamental para o Organon da Ultra-Esquerda do séc. XXI.
Um extracto de um diálogo:
"Ora, não ser de Esquerda o que é? É um pouco como ter uma direcção postal. Partir de si, da rua onde se vive, a cidade, o país, os outros países, cada vez mais longe. Começamos por nós e na medida em que somos privilegiados e estamos num país rico, dizemos - " Como fazer para que a situação se eternize? Sentimos que há perigos e que ela não se vai prolongar por muito tempo. Oh-la-la, a China...como fazer para que a Europa ainda se aguente, etc."
"Ser de Esquerda é o inverso. É perceber de imediato o contorno dos problemas. O Mundo, o Continente, a Europa, a França, a rue de Bizerte, eu. É um fenómeno de percepção: compreender primeiro o horizonte. E não é por generosidade, nem por moral: é uma questão de endereço postal. Vemos no horizonte. Sabemos que isto não se vai aguentar: esses biliões de pessoas que morrem de fome e de injustiça absoluta. Consideramos que isso são problemas a resolver. E não é só classificá-los para diminuir a natalidade. Pelo contrário, é encontrar soluções, as famosas conexões mundiais."
"Ser de Esquerda é fazer muitas vezes mais por resolver os problemas do Terceiro Mundo do que tentar resolver os do nosso Bairro. É verdadeiramente uma questão de percepção. Não de angelismo. É ser, logo de início, de Esquerda para nós próprios ".
FAR
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15 comentários:
Percebo a bondade do argumento, mas noto-lhe uma falha. É que é precisamente no «Terceiro Mundo» que se tem mais dificuldade em sair do bairro.
pois
por isso é que os do chamado 3º mundo nunca fazem a viagem inversa: por manifesta impossibilidade, uma vez que todos os meios lhes foram retirados, não fazem a viagem a partir de si próprios, que lhes possibilitaria tentar compreender o Mundo.
No fundo, tenho a intuição que a chave para a resolução do problema será mesmo essa: cada um não sair do seu bairro
"não fazem a viagem a partir de si próprios, que lhes possibilitaria tentar compreender o Mundo"
Exactamente, por isso é que ser de Esquerda é fazer mais por resolver os problemas do nosso Bairro para tentar resolver os do Terceiro Mundo. É verdadeiramente uma questão de percepção. Não de angelismo. É ser, logo de início, de Esquerda para nós próprios.
Ser de esquerda, como aliás ser do que for, é antes de mais uma maneira de viver. E isto só o Deleuze podia dizer com tanta clareza.
(Merci, FAR, por este momento)
No video Deleuze- porventura, o grande filósofo do séc.XX. que dizia, " as ideias são para serem roubadas "...- todo um programa!!!,fala das razões de nunca ter sido militante...político, de Sartre e de Foucault, entre muitas outras coisas. Ora, a tese mais acertada pende, no meu modesto entender, para o descentramento das intervenções e o repúdio do nombrilismo e do bairrismo, como forma e conteúdo de uma nova intervenção política radical.FAR
oh FAR tu és maluco
Ninguém hoje pensa realizar nas sociedades post-industriais um partido leninista para a conquista do poder. Isso é históricamente impossível. E foi por isso que Deleuze se furtou a se deixar arregimentar num partido qualquer...mesmo um conselhista ou castoriadiano. Num texto muito importante da primeira recolha de entrevistas e textos dispersos- Deux Regimes de Fous- ele precisa, justamente sobre Maio 68: " o possível não pre-existe, ele é criado pelo acontecimento "É uma questão de vida. O acontecimento cria uma nova existência, produz uma nova subjectividade ". " Não há solução senão criativa:Maio 68 não foi uma consequência de uma crise ou a reaccao a uma crise. Foi acima de tudo o inverso ". Bem, quem quer perceber, avança ! Salut!FAR
FAR, confirma-se que és maluco
Sr. Anónimo: Chega de insultos, please! Exponha-nos as suas teses ou reduza-se à sua insignificância.E, sobretudo,assine com nome próprio( e nao pseudónimo de mediocre). Por favor, discuta as ideias e não pessoalize as questões.Vale?!? FAR
FAR, Peço desculpa. FER
Um aviso à Navegação: Há sempre duas atitudes a tomar perante uma tomada de posição teórica. Ou se joga leal,franca e honestamente dizendo o que se sabe ( e não sabe).Ou vai-se re-estudar o problema em debate, relendo ou procurando comentários sobre isso. Lembro-me de uma questão sobre Forma e Conteúdo, travada neste Blogue a altas horas da madrugada. Com correccão- embora partindo de que a razão me assistia- fui reler Barthes e a Enciclopédia gigantesca Universalis. E fiquei mais certo e qualificado na minha posição.
Quanto ao Deleuze político, as coisas sao muito complexas porque a sua escrita filosófica " mergulha" numa alquimia conceptual muito elaborada e atravessada de referências ao universo da Ciência, da Linguística, da Teoria Política, etc. E, no presente caso, a sua posição política ultrapassa os cânones da militância corriqueira para, e nisso se radica a sua enorme extravagância, se projectar numa nova redescoberta do marxismo e da Revolução, atrevendo-se a citar F.Scott Fitzgerald como autor iluminado da crítica da Razão Política, o que é um luxo e uma magnifica interferência. Redescobri coisas muito importantes por ter ido reler os volumes( o segundo e nao o 1°,ATENçãO ) das entrevistas e textos avulsos. FAR
FAR, isso o que tu dizes é uma verdadeira transgressão de fronteiras, em direcção a uma hermenêutica transformativa da gravidade quântica
Num livro muito belo e dificil sobre Spinoza, Deleuze fala dos sentimentos de escravos e da forma como Spinoza elaborou uma filosofia da vida. Que nos diz: " A vida é envenenada pelas categorias de bem e de Mal, de fraqueza e de mérito, de pecado e de remissão. O que envenena a vida, é a raiva, nisso aliada à raiva contra si-própria, a culpa. Espinoza segue passo a passo a terrível sucessão/ encadeamento das paixões tristes: em primeiro lugar a própria tristeza, depois a raiva, a aversão, o fazer pouco, o medo, o desespero, o morsus conscientiae, a piedade, a indignação, a inveja. a humildade, o remorso, a abjecção, a vergonha, o remorso, a cólera, a vingância , a crueldade...". Acho que está tudo dito, eu, que acompanho quase diariamente há mais de 700 dias o Armando a tentar fazer um blogue com dignidade e ousadia, radical e apoteótico. FAR
Tenho um visão bem mais crítica deste comentário do Deleuze sobre o que é ser de esquerda. Respeito sua obra, mas comentário é um mal momento. Deixo aqui um convite para a leitura de um artigo intitulado DELEUZE, A ESQUERDA E O CEGO NO LABIRINTO CIRCULAR. Este é o Link: http://wp.me/p4alqY-gP
"No caso específico de Deleuze e sua obra, a esquerda só é esquerda quando inserida na democracia liberal e capitalista. É um processo de simbiose."
Esta frase faz parte de um artigo que analisa "o que é ser de esquerda" para a esquerda, apontando que há contradições insanáveis entre suas diversas correntes.
http://wp.me/p4alqY-vL
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