terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A moção de censura e o Bloco de Esquerda

A decisão do Bloco de Esquerda em apresentar uma moção de censura ao governo Sócrates é discutível. É-o, sobretudo, porque se segue ao desastre que foi o apoio a Alegre nas presidenciais (o apoio nas condições em que foi feito, não o apoio em si), e porque aparece aos olhos de todos como uma tentativa do BE de se defender de ataques à sua esquerda, que repetidamente o acusam, algo infantilmente, acrescento, de colagem ao governo. Ora, o pior nesta moção pode muito bem ser esta aparência de "tacticismo" politiqueiro, que contrasta com o que a actuação do BE nos tem habituado. Para mais, não é segredo que os últimos tempos a definição sobre o caminho que o Bloco irá tomar tem originado divergências, primeiro do seu lado esquerdo (no apoio a Alegre), e agora da sua ala direita (vide Daniel Oliveira). E depois, como nota o Filipe Tourais, no BE há esse estranho hábito de, quando há divergências, as pessoas as assumirem em público, demitirem-se dos orgãos a que pertencem, etc, o que, é bom de ver, contrasta e de que maneira com os hábitos monolíticos e de rebanho dos restantes partidos parlamentares.
Mas o que me motiva a escrever este post é outra coisa: a propósito destes últimos acontecimentos, e, como acontece habitualmente quando se trata do Bloco, confundindo os seus desejos com a realidade, vieram os comentadores instalados anunciar o inicio de um "processo de definhamento" do BE, da sua "decadência", do "fim de um ciclo". Vasco Pulido Valente, com o mau gosto habitual, chega a chamar-nos, a nós, votantes do BE, de atrasados mentais (não vê como alguém com um QI maior que 50 possa votar em tal partido. A este respeito, uma boa resposta é esta do Zé Neves); e o inefável Rui Moreira, no Jornal da RTP2 de ontem, anunciava, de dentes arreganhados e a salivar da boca, o início do processo de "PRDização" do Bloco ("até envolve uma moção de censura e tudo"...), ignorando o evidente absurdo de comparar um partido efémero, originado por um projecto de poder unipessoal, e sem ideologia definida, com um partido-movimento de crescimento sustentado de eleição para eleição nos últimos 10 anos, e com um lugar perfeitamente definido no espectro ideológico, o que permite, evidentemente, a fixação do seu eleitorado de uma maneira que seria impossível a um partido como o PRD. Acrescentam as patranhas e os mitos sempre repetidos e sempre desmentidos de eleição para eleição, os de que o eleitorado do Bloco é "flutuante", "inconstante", "jovem",  quiçá querendo dizer que os eleitores do BE são um monte de freaks que fumam ganza e não sabem bem o que fazem, ou miúdos que saíram agora da escola, coitadinhos, ou os restos dos líricos de 74-75. Ou, com um ar mais grave e analítico, juram para quem os quiser ouvir que o partido "não tem bases", "não tem implantação" ou "tem poucos militantes", por mais que a realidade desminta qualquer uma destas mentiras. Estes comentadores, movidos pelo seu ódio ao BE, que sabem ser o grande factor de novidade da política portuguesa, e a grande ameaça ao status quo instalado da "alternância democrática", tomam, como disse, os seus desejos por realidades, porque tem medo do Bloco. Tem medo que o Bloco chegue ao poder e estrague o arranjinho politico-constitucional de 1975; tem medo que o Bloco provoque uma verdadeira inflexão do panorama político à esquerda, porque o Bloco, ao contrário do PCP, um partido instalado nos seus feudos, ambiciona crescer, quer o poder, quer alterar o status quo onde estes comentadores se sentem como peixes na água, já que o sistema os tem tratado bem nos últimos 30 anos.
O que conforta é saber como estes vampiros se enganam. É que o Bloco de Esquerda, sabemo-lo bem, não é nenhum PRD. O lugar que ocupa corresponde ao posicionamento político de centenas de milhar de portugueses, que estão à esquerda do PS mas rejeitam os tiques autoritários, anti-democráticos, burocráticos e controleiros do PCP. É a esquerda democrática em Portugal: verdadeiramente esquerda, e verdadeiramente democrática. Quer trabalhar também em formas outras de modificar as relações sociais e económicas, e aprofundar a democracia, a participação e a cidadania, rejeitar e revolucionar o modo de vida capitalista, mas sabe que é essencial que este projecto político-social esteja representado no parlamento de uma maneira forte, e não rejeite chegar ao poder por via eleitoral (porque não? Desde que não renegue os seus princípios, isso significaria uma mudança evidente nas relações de poder neste país). Houve erros estratégicos nos últimos tempos, sim, e devem ser discutidos, com certeza, e se calhar pela primeira vez o Bloco vai perder votos nas legislativas, pois é bem possível. São dores de crescimento. Mas aqueles que sonham com a implosão do BE, sonham acordados, e se confundem de modo tão espúrio os seus desejos com a realidade, então para que servirão esses analistas? Mais uma vez a realidade, na forma de eleições, irá desmentir os sonhos húmidos destas luminárias, e acordá-los para a dura verdade: o Bloco de Esquerda veio para ficar, é melhor contarem com ele.

P.S: Alguns amigos, de que o efémero colaborador deste blogue Luís Palácios é exemplo, sabem que eu costumava dizer que ponderaria juntar-me ao Bloco no dia em que as coisas começassem a correr mal pela primeira vez. Talvez seja este o momento.

9 comentários:

Anónimo disse...

Apreciei a lucidez e o estilo aguerrido aplicado.É assim que gosto.Vais longe!
B.

MedOkss disse...

Sobre a moção, em concreto, e sobre as "divergências" é só isto que tens a dizer?
Parece-me grave que uma decisão politica como esta tenha sido discutida de forma tão pouco democrática dentro do "partido". É grave porque parece contradizer o discurso oficial do BE. Porque originou comentários e saídas... Então agora o Daniel Oliveira representa a direita do BE!!?? Onde é que já ouvi isto!!?? Ah, pois foi! No PCP.
Concordo, o BE marcou e marca a diferença. Não é como os outros partidos. Também acho que nunca será, no futuro (próximo) quando suplantar o PCP e fizer sombra ao PS nas urnas, um partido igual aos outros. PRD!?? Isso é ridículo. Por isso, por ser diferente, deveria ter mais cuidado e não deixar-se levar pela velha escola. Na minha modesta opinião, esta é a segunda vez que se deixa levar pelo PS. Espero que tenha aprendido alguma coisa, desta vez.

Anónimo disse...

Texto palpitante neste espaço, opiniôes como aqui vemos dignificam ao indivíduo que aparecer neste blog :/
Realiza muito mais deste sítio, aos teus leitores.

André Carapinha disse...

MedOkss, caro amigo: o objectivo do post é não tanto comentar o conteúdo, oportunidade, etc., da moção, mas o coro mediático que desde o anúncio se levantou, a anunciar a morte do BE, e provando, se preciso fosse, qual é o partido verdadeiramente perigoso para o sistema instalado.
Quanto ao Daniel Oliveira, o facto de ele ser da ala mais à direita (ou menos à esquerda, se preferires), do Bloco, parece-me evidente e consensual, tanto na origem histórica (corrente da Política XXI, tal como o Miguel Portas) como no posicionamento actual (neste caso mais até que o Miguel Portas). Isso não é um anátema nem uma acusação, como era feito no PCP, onde se acusavam os "desvios de direita" (mas também o "esquerdismo"). A pluralidade do Bloco torna evidentes estas correntes, e acho que o DO está muito bem no BE actual (ao contrário da extrema-esquerda do BE, a Ruptura/FER, que neste momento são um anacronismo lá dentro).
E também acho que se cometeram erros evidentes nos últimos tempos, a que não estavamos habituados, simplesmente todo este coro dos vampiros que imediatamente se levantou levou-me a uma certa necessidade de aggiornamento.

Abraço

Anónimo disse...

Eu não me lembro nada dessa conversa, mas sabes que os fantasmas têm memória curta e pouco satisfatória. Sobretudo inventam-na para ter uma história, mas tudo isso é uma mentira.

O BE é uma espécie de fantasma, ainda o é pelo menos, é um partido sem memória, e inventa uma história.

Ora, essa memória-história, não cabe só aos intervenientes inventarem-na, toda a praça pública se junta para a definir. Joga-se então o jogo de construir a identidade dum outro.

Tudo está aqui em luta. O outro, o eu, a história, o futuro. A política como jogo de referências simbólicas. Até o sobrevalorizado QI interessa.

Cada um escolhe um canto, há muito que o escolheu, e de lá grita que é o canto do conforto. Nos outros chove a cântaros, quase sempre.

Como na vida de qualquer cidade, nem os cães ficam alheios, e esses ladram bem alto da sua casota.

André Carapinha disse...

Caro anónimo, acho difícil lembrar-se de uma conversa que não ocorreu consigo. Quanto ao conteúdo do seu comentário, apraz-me só dizer que:

1- Não é verdade que ao BE não corresponda um espaço bastante definido de memória histórica - talvez o anónimo o desconheça

2- O que é novo é que o BE corresponde a um movimento relativamente recente (mais nuns países ocidentais que noutros) de aproximação de diversas esquerdas não-alinhadas com os PCs, e igualmente dispostas a alargar a base de intervenção a movimentos sociais, etc.

3- Gostaria de retirar algo de substancial da parte mais "filosófica" do seu comentário, mas não consigo, será certamente insuficiência minha. Formação da identidade, ok, política como jogo simbólico, ok. E? Além de que a premissa que dá origem a estas "reflexões" é para mim falsa, atente nos pontos 1 e 2 deste comentário.

4- Finalmente, só dizer que por vezes é bem mais confortável não escolher canto nenhum, e passear alegremente pela chuva. É que comprometermo-nos é um grande aborrecimento e uma ainda maior trabalheira. Não é muito mais fácil ter a sublime posição do "eu, eu, eu", onde nunca há engano nem contradição, nem pode haver?

Anónimo disse...

Com calma André Carapinha, com calma.
O comentário nada tem de filosófico, é um conto. Simbolismo. Só assim tocamos a parte compreensível da realidade, análise política poética, (perdoe-me o exagero de lhe chamar análise).

O BE tem história, mas não tem história política pública, e a sua imagem política é a de um benjamim, é um partido em solidificação do que representa no imaginário colectivo, ainda se moldam as características de intervenção, ainda se define o seu carácter. E tão importante como o personagem é a leitura pública que dele se faz, é esse o campo de batalha. Solidificar uma imagem. Se for de um partido moribundo, de gentinha ignorante e oportunista, de intelectuais aluados e ascetas, melhor.

Já quanto ao lugar comum do ponto 4, só uma coisa posso dizer, a angústia do homem que abandona a intervenção, que compreendeu que a arena política não é um espaço construtivo, que deixou a outro uma mulher que também é dele, e que muito ama, pode ser muito maior do que a de quem escolheu um lugar onde intervir. Pode não, é muito maior do que a do homem que mantém a ilusão que pode fazer alguma coisa. Só acredito em micro movimentos políticos, 10, 20, 50 pessoas.

Mais um conto. Uma companhia de teatro dava por si a discutir alarvemente sobre como encenar o texto, que entoação dar, que marcação fazer, fartaram-se de discutir. Decidiram então, que tudo seria decidido por um dado, lançavam o dado e o resultado dizia o que fazer. A partir daí todos os elementos da companhia lutavam para dar um sentido ao que tinha sido aleatoriamente definido e o que antes era discussão e luta, tornou-se tentativa de dar sentido e espírito de grupo.
É da natureza humana, não há nada a fazer.

André Carapinha disse...

Posso concordar em parte com as questões que levanta quanto à imagem pública do BE (mas olhe que são 10 anos, não 10 dias!), embora não deixe de achar curioso quando diz que «Se for de um partido moribundo, de gentinha ignorante e oportunista, de intelectuais aluados e ascetas, melhor». Daqui deduzo que não terá o BE na melhor das considerações, ou seja, que é assim mesmo que o considera. A partir daqui não sei muito bem o que discutir consigo.

Eu nem sequer me sinto vocacionado para a política nos moldes partidários. Agora, se há coisa que fui percebendo, por experiência ou por investigação teórica, é que os tempos actuais necessitam de uma multiplicidade de abordagens interventivas; o tempo do revolucionário vs reformistas acabou, a não ser nalgumas cabeças mais extremistas. A dinâmica social que eu preconizo precisa tanto de um partido no parlamento como de protestos nas ruas, como de centros alternativos onde se desenvolvam novos modos de pensar, como do desenvolvimento de novos modos mesmo de viver. Também lhe digo desde já que não é a mim que me apanha na armadilha do "intelectual vs. homem de acção", já que não sei bem o que sejam uma e outra coisa. Ao dizer que só acredita em micro-movimentos, pois aí revela o seu carácter profundamente pessimista (não que eu seja, um optimista; longe disso), e, se daqui se poderia partir para mil conversas, apetece-me apenas perguntar onde teria estado nos últimos dias se fosse egípcio: em casa, a não acreditar em movimentos de massas, mas apenas em micro-movimentos? E qual é o limite de um micro-movimento? 10 serve, mas 50 também? E porque não 100 ou 200? Quando é que ultrapassa a fetichizada dimensão "micro" e se torna impura, se torna "macro", se torna "massa"?

Por último, referir só que das suas fábulas não retiro nada de especial, apenas um senso comum que, embora certamente válido, não me acrescenta nada, e certamente que nada tem a ver com a discussão que aqui se estava a ter. Isto apesar de, a partir delas, começar a desconfiar que nos conhecemos... Será que me vai pelo menos esclarecer isso? É que começar o primeiro comentário por "não me lembro dessa conversa" e depois não me conhecer seria de um tremendo mau gosto.

Táxi Pluvioso disse...

E... no entanto... nas próximas eleições, o eleitorado vai virar à direita: o PS terá a chamada rabecada, e o BE terá menos deputados, so enjoy when it last, diria o presidente Báráque (há a remota hipótese de que os descontentes do PS votem BE, mas isso já sucedeu nas últimas eleições, não dará para aumentar o número de deputados e agora há que contar com os descontentes do BE). bfds