sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Cadáver Ex-Quis Isto

Surripiaste um beijo na despedida
- Não se faz, disse eu com fervor

Isto dos enganos e das esperas
não é para mim. Não te quero
ver mais. Desaparece na Calçada
do Escombro. Rola por aí abaixo
e chora o tempo todo de um
declive ensimesmado. Cuida
de ti, aprende a ser mais
calma e fria. Fazia-te bem
um pouco mais de ego

E assim, vou rir-me de ti
Mais uma aventura para
contar aos meus botões
Sou forte e selvagem
Vou para onde quero
Não sei o que me falta

Não me falta mesmo nada,
estou convicto disso. Ficas
avisada de que mais vale
um carinho na mão do
que dois beijos a voar

Talvez ainda pela Calçada
Vais ranhosa e sem postura
Mas o que importa é que
aprendeste a lição do mestre
que fez uma obra-prima

A prima do mestre-de-obras
essa, tornou-se prostiputa
ganhava bom dinheiro em
bares alternativos. Pelo menos
a vulgaridade não fornicava
com ela. Mas a alta sim.

Já na baixa, os edifícios
ficam a cair de podres,
porque por este país à
beira falência plantado
não se gosta do passado.
E ter memória é só para
os elefantes. Já me
chamaram de camelo
por pensar. Mas penso
que o centro deveria
ter mais gente. De
preferência pensante.

Este é um cadáver esquisito. Não sei quem o deixou fenecer aqui na minha fenêtre. E como fica bem em Portugal um poema horizontal com paroles em Francês e o resto o bom do inventês, essa língua-procariota, criada por um idiota. Mas entre a rima e o enclave, prefiro o riso que uma bola à trave. Se ainda fosse num poste de alta-tesão. Mas agora é cedo para agoirar os sorrisos do presente. Faça-se à estrada e calcorreie os resquícios do Macadame, em pedra lioz e abrasiva. Se não estava no dicionário, é porque está de acordo com a Hortografia dos nabos e da couve-flor, embora prefira a couve-tronchuda, pois sabe-me melhor no ouvido. Das falácias do infinito, trasfego a deuteronímica visão do mundo em pentateucos sem fim. Compro cigarros ao desafio, só pelo prazer de poder perder e deixar-te viciado na Nico Atina. Afina agora o diapasão do mundo, e só escrevo isto porque soa bem, como uma onda forte que rebenta sobre a praia, essa diáspora do infinito. Se tu gostasses de palavras como eu, comeria-las a todas as horas do porvir. Desde o pequeno-grande-almoço do desejo até à ceia dos pontos cardeais, esses geoabraços em coordenadas sem fim, sem fim, sem fim. Tudo o resto são ordinarices dos números. Entre os cardinais e os ordinais, prefiro a cardina, essa bebedeira sem fim da lama e do que mais suão e puro existe. Nascemos do sangue e da imundície. Para quê lavarmos a face da nossa pequenez?
Não passa de puro dislate essa máscara da personalidade que queremos à força colocar no rosto da ingenuidade. E assim vamos, educados pela conspurcada e vil sociedade esquisita, tal como este cadáver que aqui jaz e apodrece na sevícia do amor. Na demanda de novos infernos, a soez e torpe indiferença do céu, é aspergida pela chuva dos ditirâmbicos seres da tautologia destas palavras. Pode ser uma redundância minha, mas adoro os pleonasmos que se repetem ad nauseum. Além do Francês, também fala Latim, dizia o cão no seu latir habitual, ou seja, no pleonasmo habitual. De tanta habituação, o cão ficou viciado nas palavras cruzadas das pernas da sua dona. Tantas cruzes e abraços, que mais parecia que estava na romaria da Páscoa. Vou-me folar daqui antes que fique fulo de todo. Bem dizia o meu pai, que trabalhava na fábrica de óleo Fula, que quem se deita tarde, sofre muito. Não sei de quê, talvez de pouco sono. Mas isso, nada como um bom sonho para compensar as horas fúteis de sono. Basta tirar uma letra e já está! Tudo se resolve neste meu país do sul, onde não acontece nada. Pode ser que a morte tenha sido ao Meio-Dia, a deste cadáver adiado e maltrapilho. Talvez seja tempo de o cremar na pira de incenso e mirra. Os louros fica para quem os quiser. Eu sempre preferi as morenas, as de pele branca, as matarruanas, as atarracadas, as tresloucadas. Quanto a issos, não se podem fazer nadas! Grandes rabecadas vou eu levar quando finalmente lerem isto, os dois ou três visionários do tremoço, já que o cajú está caro, é muito calórico e eu sempre detestei gordos. Por isso nunca seria um bom nutricionista. Fiz-me ao deserto e encontrei um oásis. No palco, encontrei a redenção para os meus pecados. Posso agora, finalmente fenecer em paz. Sou o cadáver mais esquisito e feliz de mim mesmo, na maresia de um encanto que ainda estou por deslindar. Descubro-te ou não, mas cubro-te e encubro-te na sageza de um abraço fugaz e tão sentido.
Pena que os ponteiros do relógio nunca estejam em sentido único. Há sempre vias transversais para fazer obviar o sentimento. Para quando uma festa dos sentidos, uma catarse de sonho, um poema verdadeiro, uma prosa pensada em livros sem fim? Tudo isto, isto, isto que aqui escreves e lês, são demenciais discursos fúnebres para o triste fim da humanidade que pensa. Por isso, inscreves na metonímia um lastro de insensatez e estupidificante langor intelectual. Volto à fórmula inicial, em que H2So4 é o ácido súlfurico que um dia te corroeu a garganta com verborreica fatalidade. Só o Gedeão é que percebia destas coisas da química dos fluidos e das matérias. É tão bonita a ciência a brincar com a arte. São seres fecundos e belos, que instigam sempre a um porvir mais talentoso. Já brinquei e amei com ambas, às mil revoluções por minuto na esfera celeste do teu beijo. Ah! E foi por isso que cá vim, pelo teu beijo, por mim recusado.
Hoje sim, consegui finalmente ser um grande escritor, escrever muito, repetir muito, acrescentar às palavras esses espaços que as tornam tão belas. Tal como a pausa, na música e no teatro, esses silêncios que dão dimensão ao uni verso. Um verso apenas para perderes a cabeça. Foi pelo beijo que me perdi e reencontrei nas faldas do teu rosto. E chego à conclusão que este cadáver está bem melhor agora para ti, para receber finalmente esse teu beijo em surdina acidental.

Quis receber esse teu beijo
Deste-me uma bofetada
por tanta insensatez
e tempo de espera,
nas deambulações
horizontais da
inconsequente
vida dos sonhos.

Hoje pensei tanto
em ti
que derrapei neste
caudaloso leito
com margens
bem fortes e
cruéis. Falo de ti,
poeta. Aquele
grande Rio Eufrates,
aquela Margem da
Alegria. São coisas
tuas e minhas.
Que partilhaste
em densos nevoeiros,
por causa da Serra
onde vivias.

E por agora chega!
Amo e sonho na tua boca pintada.

Surripio-te um beijo na alvorada
-Não se faz! disseste tu com amor.

2 comentários:

LOUVA A GREVE PERMANENTE EM DEUS disse...

a maquina em deus anda com avarias

penso eu de que

P.leo N'asno disse...

ou é necrofilia?