terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dilma

Tenho dois amigos brasileiros, ambos acima dos cinquenta anos. Partilham um passado de extrema-esquerda e pertencem à ínfima minoria de não-religiosos. Ambos falam dos EUA de um modo que nós, europeus, simplesmente não conseguimos entender: as recordações dos golpes, das perseguições e torturas, que os americanos patrocinaram por toda a América Latina ("o seu quintal") pelos anos 60, 70 e 80, são demasiado presentes, por vezes até para que se possa discutir a política americana de um modo equilibrado com eles. Isto para dizer que o Brasil, queira-se ou não, é outra coisa. Esses meus amigos, uns radicais do pior, exultam com a vitória da moderadíssima Dilma Roussef. Dizem-me que, pela primeira vez na sua vida, olham para o seu país e vêm a vida de facto a melhorar, que pela primeira vez faz-se uma efectiva distribuição da riqueza produzida, e, mais importante até, que o Brasil passou a caminhar de cabeça erguida, que se recusa a continuar a ser o quintal dos americanos e a coutada privada dos caciques. Tudo isso, dizem-me, o devem a Lula, e por isso partilho com eles a sua alegria pela vitória da candidata da continuidade, e o facto de, finalmente, se sentirem vencedores. Isto que acima descrevi, a impressão nítida de que as coisas estão a melhorar, não é algo que se sinta muito neste "mundo ocidental", e por maioria de razão ainda menos neste nosso Portugal, e por isso devíamos olhar para esse Brasil e aprender algumas coisas. Por exemplo, que é, apesar de tudo, possível governar à Esquerda, com independência, com um governo suficientemente forte para se marimbar nos "mercados financeiros" e nas "inevitabilidades" do discurso dominante, e fazer uma sociedade avançar através de receitas que por aqui se consideram velhas e ultrapassadas, como sejam promover o desenvolvimento económico e a redistribuição da riqueza. Com certeza que por cá as condições são diferentes, mas serão assim tão diferentes?

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Por enquanto distribui-se riqueza, e Lula fez, quando o ciclo económico se inverter, será necessário tirar aos pobres para dar aos ricos (como todos sabem das lições de economia).