quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Abaixo o jornalismo!

Será que eu sou assim tão inteligente? Não pode ser. Bem vistas as coisas, eu sei que nem o sou por aí alem. Qual será, então, a razão para que as coisas mais simples e óbvias sejam impossíveis de entender por quase toda a gente? Como se repetem por todo o lado as patranhas mais básicas, sem que ninguém se pareça aperceber delas?
O que é, hoje, um jornalista? Onde ficou, em que beco da história, o seu antigo papel crítico? Quando foi que o jornalista culto, atento, desconfiado, se começou a tornar uma espécie em extinção? Quem são, agora, os "jornalistas", que, com raras excepções, se limitam a servir de papagaios servis, de amibas que há muito esqueceram até a inteligência, quanto mais a capacidade crítica, e cujo papel passou a ser o de repetir as "informações" que são criteriosamente seleccionadas pelas "fontes", isto é, a narrativa condicionada, e muitas vezes falsa até ao tutano, que lhes é transmitida, e que aceitam e reproduzem sem por uma vez pestanejar?
Vou dar só um exemplo. Convido quem quiser a encontrar mais trinta mil exemplos lendo os jornais ou vendo telejornais. O projecto do Sarkozy para o aumento da idade mínima da reforma em França, significa aumentar a idade MÍNIMA da reforma (noto outra vez o MÍNIMA) para os 62 anos, e a idade da reforma para os 67. Alguém me explica porque é que TODOS, mas TODOS os jornais e telejornais se referem ao projecto como "aumentando a idade da reforma para os 62 anos"? Querem fazer de nós estúpidos, ou será que nós somos mesmo estúpidos? Inclino-me para a segunda hipótese, apesar de eu ser extraordinariamente inteligente. Somos também o saber colectivo, e por isso eu devo ser totalmente estúpido também, é a única explicação.
Quanto aos jornalistas propriamente ditos, atrevo-me a achar que, na maior parte dos casos, não o fazem por mal. Tornaram-se uns tarefeiros, uns técnicos, ou pior, uns operários, no mau sentido. Para eles agora o jornalismo é "produzir notícias", isto é, receber acriticamente as patranhas e embrulhá-las o melhor possível no seu papagueado pseudo-técnico, esse que demonstra risivelmente a sua vacuidade e a incapacidade de pensar, nem é a de pensar para além do discurso dominante, é a de pensar ipsis verbis. Deve ser por isso que os jornalistas actuais gostam tanto da companhia daqueles técnicos que são os economistas da treta que saltitam de noticiário em noticiário. Os jornalistas imbecis olham para eles com admiração, e os economistas vendidos olham para os jornalistas com comiseração. O negócio está feito, todos ganham. Essa classe profissional à qual pertenceram o Hemingway, o Mark Twain, o John Reed, o Sartre, olha agora para o Medina Carreira como um guru. Sinal dos tempos, não haja dúvida. Que tempos tão idiotas.
O projecto: acabar com o jornalismo. Nem mais um tostão para um jornal. Nem mais um segundo de atenção para um telejornal. Livremo-nos desta mediocridade rastejante e subserviente que lambe o rabo do poder. Eram o quarto poder? Eram a consciência crítica das sociedades? Isso mesmo, eram. Agora não passam de uns lambe-botas satisfeitos, dispostos a tudo para não perder a posição e a massa que o seu estatuto de cãezinhos lhes proporcionou. E se o jornalista imbecil é a regra, pior ainda é a excepção: o jornalista que tem uma ideia das coisas, mas se cala porque acha que mais vale estar por dentro do assunto (ilude-se tomando esse papel de desprezível colaboracionista como digno), ou, o mais habitual, porque vive bem, e mesmo sabendo que representa o papel de papagaio, o seu métier é o de jornalista, é a sua vocação, as suas skills - um tarefeiro, em suma. Pode ter mil razões, mas o que ele já não é de certeza é o tal quarto poder, a consciência crítica, ou seja o que for, e o que ele já não tem é nenhuma razão de interesse social para eu considerar a sua profissão diferente de a de cavar buracos.
Abaixo o jornalismo!

6 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

O jornalismo já foi muito importante, mas perdeu terreno quando inventaram o papel higiénico.

Anónimo disse...

Este Inácio...
Uma interpretação dos seus textos seria hilariante, mas deixo para outrém, que não tenho paciência.

A presunção e a crítica desbragada vêm antes da tentativa de compreensão, no caso dos jornalistas e das pressões da classe. Fale com um jornalista inteligente e verá que nem tudo é tão linear como desenha nessa celestial cabecinha. Voçê confunde umas quantas árvores com a floresta.

O estilo que usa é duma arrogância estúpida deixe que lhe diga, e por mais que o negue, denota um convencimento exagerado. Inteligente, eu vs jornalistas, estúpidos. Que coisa...

Para finalizar, fala do que não sabe, quinto poder é outra coisa, é o poder económico, o quarto poder é o que queria dizer, os media são o quarto poder (os media, não os jornalistas, repare bem na diferença). Por acaso o quinto poder até é um termo criado por um jornalista veja lá bem o estúpido, Ignacio Ramonet. Passe bem.

Luiz Inácio disse...

Tem razão quanto ao quarto poder, foi distracção e alterei. Quanto ao mais, está a comparar o Ramonet aos avençados das redacções que andam por aí? Já experimentou ler outro jornalista, Serge Halimi, e saber um pouco sobre o que é, e como se comporta, hoje, essa classe profissional?
Se os jornalistas de hoje não são uns carneiros imbecis que repetem os mantras soprados das "fontes" e das suas direcções de informação, e fazem-no com um sorriso nos lábios, então o que se demitam em bloco, que se recusem a fazer o que fazem, qualquer coisa desse género. O que fazem há muito que já não é jornalismo, e se serve certamente para lhes encher o prato de comida, pelo menos que assumam que agora são apenas uns empregados.
E olhe que eu também tenho amigos jornalistas. Curiosamente, a opinião deles é muito semelhante à minha neste aspecto.
E finalmemente, quanto ao "eu inteligente vs. jornalistas estúpidos", aguardo demonstrações do contrário. Se será certamente fácil demonstrar que eu sou tudo menos inteligente, boa sorte para essa gigantesca tarefa de encontrar uma réstia de inteligência e sentido crítico no jornalismo actual.

Anónimo disse...

Quantos quer?
Em Portugal? Concorde-se ou não com eles e só assim de cabeça.
Ferreira Fernandes, Alexandra Lucas Coelho, Nuno Ramos de Almeida, Miguel Portas (era até ir para o PE), como o Daniel Oliveira, foi durante muitos e muitos anos antes de ter optado pelo o activismo politico a tmepo inteiro. Carlos Vaz Marques, João Paulo Menezes, Fernando Alves,Paulo Alves Guerra. Fernanda Câncio, Ana Sá Lopes, Teresa de Souza ( não gosto especialmente do estilo de nenhuma das três, mas que são boas jornalistas não há dúvida). Em termos económicos leia com atenção Manuel Esteves, Sérgio Anibal, João Ramos de Almeida, Rui Jorge, Elisabete Miranda, Luís Reis Ribeiro, Luís Rêgo e depois diga que são correntes de transmissão. E isto sem estar a perder muito tempo a pensar em mais nomes.

Quanto aos novos cães de guarda que fala conheço bem, mas não confunda o Peres Metelo, o Ricardo Costa e Martin Avilez (sobrinho da outra avilez , ah pois é!!) com a massa de jornalistas. Nem tudo anda a jantar com empresários e a contratar uma empregada por cada filho.

O jornalismo é uma actividade complexa em que a noticia, o público, a opinião própria, a das fontes, do editor, do director, devem ser equilibrados. E claro, a necessidade de comer e o desejo de ter uma vida confortável também entram na difícil equação.E sim, o jornalismo estar pejado de gente que devia fazer outra coisa, também. E sim, a frustração do jornalismo não ser o que se deseja também. Mas certamente que é muito mais difícil e complicado do que eu inteligente vs eles estúpidos. Há muita gente de qualidade no jornalismo, há muita gente que pensa por a sua cabeça e faz bom trabalho. Criticar sem reconhecer o que de bom se faz no jornalismo actual, para se concluir "fim ao jornalismo", não me parece que ajude muito na boa selecção que se deve fazer daquilo que ouvimos e lemos.
O problema não é de todos, pode até ser da maioria, mas não é de todos. Há, como em tudo o resto, que saber escolher.

Luiz Inácio disse...

Qaunto aos jornalistas que mencionou no seu comentário: alguns sim, alguns não. E quanto aos jornalistas de economia que mencionou: esqueça. Ainda há por aí uns tipos a escrever decentemente sobre economia, mas não são certamente os que mencionou. E para dizer a verdade, nem são jornalistas. Perdoe-me, mas os únicos que conheço escrevem no Le Monde Diplomatique, e na sua maioria nem são jornalistas.

Agora, quanto à meia-dúzia de jornalistas decentes que mencionou, e sobre os quais concordo inteiramente, a Lucas Coelho, a Fernanda Câncio, o Fernando Alves, outros de que não concordo nada, e curioso como teve de ir buscar dois inactivos como o Portas e o Oliveira para compor o ramalhete, mas outros certamente, como o Joaquim Fidalgo, o Nuno Simas, a São José de Almeida. E outros ...

Agora. Ponto nº1: vá aqui: http://static.publico.clix.pt/files/fichatecnica/

Veja quem são os editores do Público. E ponto nº2. Diga-me como um jornalista como estes que mencionámos há pouco consegue conviver com mentiras como as que mencionei na minha posta, mentiras que, calculo, que entenda a dimensão.

O que é que estes "jornalistas" estão a fazer no meio disso? A ganhar a papa? Pois.

Internacional Strikista Positivista disse...

Acho que vocês tem todos razão, e não tem razão ao mesmo tempo.