quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Kant - O que é o iluminismo (1)


Bem a propósito do post do Luiz Inácio mais abaixo, em que é citado este opúsculo fundamental do filósofo Immanuel Kant, resolvi publicar o dito por aqui. Devido à sua extensão, será dividido em partes. Este texto, um dos primeiros publicados por Kant, é, na minha modestíssima opinião, um dos seus mais brilhantes. Como foi realçado pelo Luiz nesse post, não chegou para ganhar o concurso, dizendo-nos algo sobre a justiça desse tipo de apreciações. Lembro-me de um professor meu da faculdade ter referido uma vez o nome do grande vencedor, mas a memória foi-se-me e não consegui descobrir pesquisando na net. Alguém sabe?

Resposta à pergunta: “O Que é o Iluminismo?”

IMMANUEL KANT


lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.

A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes), continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me

esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante todas as tentativas ulteriores.

É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso, porque não está habituado ao movimento livre. São, pois, muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu espírito arrancar-se à menoridade e encetar então um andamento seguro(...).

2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Juventude? então não foi publicado em 1784? não seria jovem, pelos padrões da época. Actualmente, seria, 60 anos é uma criança.

André Carapinha disse...

Tens em parte razão. O Kant só começou a publicar em 1781 (era ele que dizia que até aos 39 anos não se podia saber nada a sério, um conselho a que tenho de dar mais atenção). Nesse sentido, este texto é "de juventude" no sentido de ser uma das primeiras obras, mas não "de juventude" no sentido de ele ser "um jovem".

Mas para evitar confusões, vou alterar a expressão original "texto de juventude" para outra mais clara.