quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Capitalismo de casta

Um país como Portugal, com a sua gritante falta de cultura cívica, pouca tradição democrática, escassa literacia, mais a desgraçada tradição católica do respeitinho pela autoridade, tornou-se rapidamente um terreno perfeito para o capitalismo de casta. Não que o capitalismo de casta seja uma coisa portuguesa; é o que se passa em todo o lado, e o correcto seria chamá-lo apenas de capitalismo. Uso a expressão para que se entenda "o estádio do capitalismo", à boa maneira marxista. Uma vez que as características deste "estádio" do capitalismo estão à vista de todos, não deveria ser necessário eu enumerá-las, mas suspeito que nem todos as vislumbram à frente dos seus olhos. Pelo que passo a referir: a distância absoluta entre os poderosos e os outros todos, o sentimento de inacessibilidade aos poderosos, a noção de intangibilidade dos poderosos, a casta superior em reprodução sobre si mesma, um sentimento de impotência dos outros todos relativo às "injustiças" com que a casta superior, de um modo cada vez mais explícito, age no sentido da sua perpetuação. Isto passa-se em todo o lado em que o capitalismo de casta se exprime de um modo veemente (praticamente em todo o lado), mas em Portugal, devido ao que acima foi exposto, a coisa passa-se, não de maneira essencialmente diferente, mas com algum despudor adicional. E pode passar-se assim, também, já que este país olha sempre para os outros como uma espécie de graal adormecido, onde a nossa miserável exigência pode encontrar uma resposta fácil, uma solução - esta é a desvantagem dos povos empobrecidos e sem cultura cívica dentro do capitalismo de casta.
Um dos momentos onde se nota como Portugal é óptimo terreno para o capitalismo de casta é a indignação selectiva, que sempre vem ao de cima, sobre os privilégios de determinadas pessoas, e acima de todos dos políticos. Acha-se que os privilégios atribuídos são resultados de acções individuais, são prémios, recompensas que o sistema oferece, mas com isso não se vê que os verdadeiros privilégios estão sempre, sempre, a escapar-se-nos dos olhos, e mais: que é o sistema que nos está sempre a escapar-se-nos dos olhos! Porque a verdadeira imoralidade não é aquela que aparece, de vez em quando, como "escândalo", e especialmente no caso dos políticos, que são figuras menores do capitalismo de casta: o que é imoral é a maneira como tudo funciona, é a máquina dos privilégios, que há muito deixou de ter a ver com o mérito, a livre iniciativa, e outras estórias de encantar, e funciona hoje apenas para a perpetuação da casta. A nossa "indignação" quanto aos privilégios dos políticos funciona como mais um fenómeno de encobrimento, e que não deixa de ser alimentado pela casta superior.

3 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Não me parece. O que parece, é o motor do aparelho psíquico a trabalhar: a inveja.

Contra o capitalismo de casta há uma solução: casar com as filhas dos ricos, nas telenovelas funciona, na vida real funcionará ainda mais.

Táxi Pluvioso disse...

... e um exemplo simples é o caso do Mister. É a inveja que move os adversários de Queiroz, pura e simples.

tugulês disse...

Portugal é um país demasiado pequeno, tacanho, bimbo, inculto,
iletrado, fechado, corrupto, mas... pretensioso. Valha-lhe isso!
Só tenho pena que o Carlos Queiroz se tenha deixado envolver por esta corja de oportunistas. Salve-se quem puder!!!