terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Correio Interno


 André,

            Mais um ano de crescimento português, este 2011. Exportar! parece ser o concordante mote. A classe política dos variados quadrantes ulula: “crescei e exportai!”. E o défice descerá. A riqueza regressará. E o consumo poderá ser, desafogadamente feito, fora da época dos saldos e mais uns fiapos de carne irão à mesa do povo.
2010 excedeu expectativas. O nobre povo “submarinizou-se”, “histórionatou-se”, “PTou-se”, “SCUTou-se”, “PECizou-se”, “papou-se”: – visitaram-no não menos que dois Papas, Bento e Barack – povo que, por uma unha envernizada, não ganhou o Mundial de Futebol. (E ainda houve a mitose de Ronaldo). Este é o povo bafejado. O povo linha da frente. E percebe-se porquê? devotado a Maria, Ela lhe põe a mão por baixo, amparando-o de males e conduzindo-o nas boas acções do mercado do Senhor.
            Deveras, a maneira de ser português, só pode ser milagrosa. Há dias circulavam notícias de que mais um conclusivo estudo concluía que os jovens liceais não sabiam ler, contar, raciocinar, tricotar e outros verbos imprescindíveis à condição bípede. Alevantaram-se vozes concordantes: que era uma vergonha, uns analfabetos, uns burros excluídos do deleite de um Eça de Queirós ou de um Moita Flores, onde é que isto vai parar? no futuro, não compreenderão as traduções do Google Tradutor nos produtos chineses? Mas, o mais interessante, é que ninguém se lembrou: em primeiro lugar, que essa conversa da “burricidade” vem do tempo de Viriato; e segundo, que esses mesmos jovens saem do liceu e, milagre!!!, se tornam gabaritados intelectuais, que escrevem nos jornais, nos blogs, nos livros e revistas, abalizadas opiniões, precisamente, desabafando contra as trovas da burrice que grassa.
            Outro milagre!!! é a História do nosso actual pesar ter começado apenas há 15 anos, parece quererem excluir Cavaco do relógio de cuco do tempo. No tempo dele também não havia dinheiro para se construir o Centro Cultural de Belém, no entanto, construiu-se e derrapou-se à brava, muitos enriqueceram, outros receberam salário, e a economia vivificou. Talvez o professor de economia sabe-tudo aconselhe que gastar é um bom deal, que um TGV, um aeroporto, mais estrada, menos estrada, serão bons benchmarkingspara o povo que, em 2011, terá Presidente e Governo novinhos em folha.

            Um abraço,

Maturino Galvão

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