terça-feira, 17 de julho de 2007

Mambo 22


Quantos caroços tenho? Ainda tenho um buraco entre as costelas, tenho espaço para mais duas, diz-me. Por que tenho o que resta destes frutos, na concha da mão? São para pôr no prato, é aí o sítio exacto onde deixá-los, diz-me. Tenho de comer coisas vermelhas, não me quer com anemia. Nada de puxar pelo enorme babete, tem os desperdícios que tenho deixado cair durante todo o almoço. Admito que a pontaria já não é a mesma. Mas quem é que é igual para sempre? Não me posso sujar, dá trabalho aos outros, emporcalhar-me. Podem ver-me de calças. Agora tenho de usá-las, não me quer de saias, diz-me. Odeio isto, tanto quanto deve detestar ver-me as varizes escuras. Vivo num tempo de perdas. Tenho a minha casa muito arrumada, tudo está organizado como num hospital. Os objectos têm um destino que já não é o da minha vontade, pouco decido. Tudo funciona mas tudo é meu como se o não fosse. A mulher dorme no quarto ao lado, cuida de mim como se fosse o seu bebé, embora me chame a sua avozinha. Deve ter quase a minha idade, mas está boa das pernas, da cabeça, dos braços, da língua, da vida. É o meu sargento, diz-me. Usa uma bata larga que lhe fica justa. Manda e desmanda nos meus mais inocentes gestos - Gostas de andar descalça, mas tens de pôr as chinelas, minha querida, o chão da cozinha é perigoso. Perigoso? Perigoso é perder a identidade e ficar aprisionada dentro da teia dos raciocínios dos outros, desses que sabem quem são e o que sou, porque o meu quem está em desuso. Tenho de viver sob o meu íntimo tecto, com esta estranha que tem duas grandes mãos que me dão banho quando lhe apetece a ela e não propriamente a mim. Noto com tristeza, como ela fotografa com um olhar caridoso as minhas últimas cicatrizes e esfrega-me e esfola-me, sem que me deixe nova. Compra-me em branco favado, soutiens e cuecas. Vou habituar-me a gostar de coisas bonitas, diz-me. Uso simplesmente fardos, já não tenho direito à minha subjectividade. Gostam por mim. Obriga-me a repetir as frases da velha cabeça dela, sim, porque eu já não tenho discurso que seja razoável e ela não me quer muda. – Vá, diga comigo: Que tenha um bom dia! – Baralho-me. Salto palavras e ela desgosta-se, como uma eterna professora. Diz-me de novo uma por uma, até que eu emita por fim aqueles sons que ela julga interessantes. Quando consigo, junta aquelas mãos que me invadem e aplaude-me. Há-de levar-me pela sombra da tarde, para apanhar ares, diz-me. Talvez um dia destes, ao teatro. A realidade da irrealidade?
Tive uma visita. Seguia-a pela casa. Tento do modo mais concreto possível, abeirar-me da liberdade. Trazia esse cheiro ainda na alegria dos olhos. Acho que a minha visita feriu-se nos cacos do que deve ser o mundo, para mim. Mas deixou-me ficar. Mostrei-lhe com os mais arrojados arranjos dos músculos da cara, o meu desejo de descer fulminantemente a escadaria toda até à rua e não regressar, absolutamente. Perder-me de vez!
Mas a minha visita é sem coragem. Serve inutilmente, para me dizer até breve.
Por que razão não posso ter o tempo que me apetecer os caroços de cerejas, na mão que segura nada?


P.S. – Ela (destituída de si) nunca lerá este blogue!

1 comentário:

Anónimo disse...

"Nunca digas nunca".