segunda-feira, 23 de julho de 2007

Da Capital do Império

Olá,

Hoje quero escrever-vos sobre algo que me aconteceu há mais de 40 anos e ficou-me gravado na memória para sempre.
Tenho no entanto em primeiro lugar dizer-vos que ao contrário de muitos eu não sou daqueles que tem grandes recordações da meninice. Sempre me espanta (e fico cheio de inveja!) quando ouço pessoas a recordarem coisas que se passaram quando tinham dez, oito ou mesmo cinco anos de idade. Eu praticamente não me lembro de nada do que se passou quando tinha essa idade, à parte marcos importantes como escola, casa, nomes de alguns colegas (da escola primária creio que só um!) e pouco mais. Dos professores da escola primária só me lembro do nome da Dona Deolinda, a professora porreira da terceira classe para onde fui transferido depois de ter apanhado um enxugo da palmatoadas da outra professora da terceira classe onde estava inicialmente, enxugo esse que me deixou as mãos inchadas que não pude esconder do meu pai que – para meu embaraço – foi à escola protestar junto do Professor Renato que era director, tinha pança grande e de quem toda a malta tinha um cagaço dos diabos. Eu ainda mais cagaço tinha dele porque um dia tinha sido levado à sua presença por estar a atirar pedras à mangueira frondosa que ficava na parte detrás da escola. Sei que fiquei acagaçado mas já não me lembro porquê.
O compromisso entre o Renato e o meu pai foi mandarem-me para a classe da Dona Deolinda. Não me lembro do nome da professora que me deu o enxugo de palmatoadas e já não me lembro também porquê. Tenho no entanto a dizer-vos que eu era assim um pouco pró burro com dificuldades em aprender tudo o que fosse com números e penso que foi isso que a irritou.
O facto de pouco ou nada me recordar da minha vida nessa altura pode ser um indicativo da importância que para mim teve o incidente aos 10 anos de idade e que sempre quis contar e que agora tenho a oportunidade e (penso eu) audiência para tal. Um dia estava sentado no passeio à beira da estrada, em frente à escola técnica Joaquim de Araújo à espera da boleia para casa que nesse dia o meu pai me tinha prometido.
É um passeio estreito esse, numa rua que sobe vinda dos bairros operários e da lata e caniço da cidade onde nasci, ali perto aliás do hangar dos machimbombos encarnados e brancos que não sei lá porquê me fascinavam e de onde eu já tinha aprendido para meu grande orgulho a saltar em andamento nos dias em que não tinha boleia do meu pai. E em que não usava a bicicleta, a que toda a malta chamava “burra”. A minha era uma Robin Hood, um pouco mais abaixo em categoria das Ralleighs mas sem dúvida uma “burra” bem boa. E além disso esta tinha mudanças. Três velocidades o que na altura era um luxo. Durou-me anos.
Pois nesse dia de nem “burra” nem machimbombo, creio que ao princípio da tarde de um Sábado, eu tinha deixado a minha pasta carregada de livros e cadernos que nunca abria, no passeio de cimento aos quadrados simétricos, afastada da berma da estrada e um pouco mais abaixo de onde eu estava sentado.
Lembro-me de ter olhado para baixo e de ver que um homem negro - que eu na altura considerei velho - a subir a avenida, um pouco vergado pelo calor e humidade da cidade pouco após a uma da tarde.
Corri para tirar a pasta do passeio a pensar que o “velho” ainda podia tropeçar na mesma. Cair. Magoar-se. Levantei a pasta. Vi o homem a olhar para mim. Corri de novo para o local onde estava sentado, agora com a pasta bem ao meu lado., a aconchegar-me a perna no meu assento à beira do alcatrão. Sem perigo de poder causar um acidente qualquer a uma qualquer pessoa menos prevenida.
Passaram-se uns segundos. Ou talvez um minuto. Não sei. Sei que o homem negro parou ao meu lado, olhou para mim com um ar de semi-irritado mas resignado e disse: “O menino tem muitos maus pensamentos”.
Eu pasmado, sentado à beira da estrada, agarrado à pasta, a olhar para cima para a cara irritada do homem. “Não vou roubar a sua mala,” acrescentou. Virou-me as costas e foi-se embora, chateado, talvez mesmo magoado.
Eu fiquei ali, nos meus 10 anos, ainda agarrado à pasta, sem palavras na boca. Espantado. Sem poder explicar.
Ainda hoje penso regularmente neste pequeno incidente. Não sei porquê.

Abraços,
Da capital do Império

Jota Esse Erre

21 comentários:

Ana Cristina Leonardo disse...

Já agora, deixe-me contar-lhe o episódio que mais me impressionou até hoje, em matéria de racismo. Uma vez, em São Tomé,estavamos meio perdidos sem saber que direcção tomar. Ao longe vi aproximar-se uma velha magra e pachorenta que vinha tranquilamente fumando o seu cigarro. Comecei a chamar «Minha senhora! Minha senhora!», cada vez mais alto e cada vez mais próxima e ela nada. Pensei que fosse surda. Quando estava bem à frente dela, comecei de novo: «Minha senhora, será que me pode dizer...». Ela olhou para mim espantada e depois olhou à volta. Foi então que percebi: não lhe tinha passado pela cabeça que «minha senhora» fosse com ela. Nunca mais a esqueci.

Táxi Pluvioso disse...

Não vejo onde está o racismo.

No episódio em Moçambique, trata-se de um nítido caso “jamesjoyciano”. O que se passa na minha cabeça é diferente do que se passa na cabeça do outro que me observa. Como, por exemplo, quando saímos para a rua enfarpelados na última moda. Nós, sentimo-nos os maiores, os mais bonitos, top of the world, os outros, vêem-nos como um tipo vestido (ou penteado) de forma ridícula.

O episódio de São Tomé é um caso de vaidade portuga. Não se percebe por que carga de água acha que os povos que colonizou “falam” a sua língua. Que este conjunto de fonemas “minha senhora” lhes diz alguma coisa. Se tivesse falado na língua local, com certeza, teria obtido outra resposta.

“C’est le coeur qui fait l’éloquence” (Quintiliano) mas é o cérebro que nos prega partidas. Faz-nos ver coisas que não existem.

Ana Cristina Leonardo disse...

Oh taxi pluvioso! A chuva será demasiada por aí, não? A senhora em são tomé fala português. Tanto, que acabou por me indicar correctamente o caminho. Só que «minha senhora», não é expressão que ela estivesse à espera que lhe fosse dirigida, para mais por uma «branca». Pensaria que eu estava a falar com outra pessoa... Às vezes, de se querer ser tão eloquente e tão vaidosamente portuga, perde-se o norte da conversa. E, quanto ao Joyce, que eu saiba nunca esteve em África.

Táxi Pluvioso disse...

Tenho dúvidas nesse "falar português". Parece-me que se "perdeu o Sul" daquilo que é uma língua e o seu consequente "falar". Seria fastidoso estar aqui a explicar as diferenças, em termos de estruturação do cérebro, entre língua materna e uma língua apredendida. Dou apenas um exemplo. Se for na rua e lhe gritarem "milady", também não deverá pensar que estão a falar consigo. Saberá falar inglês, mas aquele som não se lhe aplica automaticamente. E, não reagir, não significa que não seja uma lady, ou ache estranho, um ser superior como um inglês, se dignar dirigir-lhe a palavra...

Não percebi a observação final sobre o Joyce não ter estado em África. É obrigatório para se escrever? Ou para ser lido pelos "desvaidosos" portugueses, agora chamados orgulhosamente europeus? Referia-me à cena da praia no "Ulisses", que trata de um mecanismo psicológico, e nada tem a ver com viagens de avião (ou ecológica bicicleta) para que continente seja.

E quanto à eloquência é coisa que me falta. Quando preciso dela recorro a um agência de casting, como agora se faz...

Anónimo disse...

Estava para comentar. Mas depois do TP responder desisti. O TP, coitado, é absolutamente ignorante sobre esta matéria.

Anónimo disse...

ter dúvidas é normal. quanto à eloquência e à vaidade, limitei-me a retribuir-lhe os elogios. mas se não consegue perceber que o colonialismo teve efeitos tão trágicos como o de impedir uma mulher santomense (que fala português, repito)de achar possível que «minha senhora» lhe é dirigido, não haverá James Joyce que lhe valha.

Táxi Pluvioso disse...

A atitude paternalista em relação aos subdesenvolvidos fica tão moderno em nós. Quase tão moderno como ser ecologista. E nada tem a ver com perceber os "efeitos trágicos do colonialismo". É pura vaidade. Para nos sentimos melhor à noite nos lençóis de seda. Faz bem ao ego.

Na resposta ao outro comentário. Eu sou ignorante em todas as matérias e não só nos comentários dos blogues.

Anónimo disse...

Há meia dúzia de anos,
andava eu em Maputo a fazer
"chapa 200", quando um preto
se virou para mim e pediu:
- Branco... dá boleia!
- Ya, preto, sobe! - volvi.
- Preto? - admirou-se.
- E você não me chamou de branco? - questionei.
- Pois é... - diz-me ele.
Acabamos a beber uma "2M"
no "Xiquelene".

Anónimo disse...

Ter pertencido a uma minoria étnica/racial - apesar de em 99% dos casos económicamente e politicamente previlegiado - é um acontecimento histórico que só num Império tardio, como o "nosso", se viveu.
Não houve nada igual.
Portanto, a cartilha dos outros nada valem.
Ainda falta reflectir e apresentar esta novidade sociológica.

Anónimo disse...

Oh TP, esqueci-me deste dado: até aos meus 24 anos nunca me passou pela cabeça que seria português.

Anónimo disse...

O que está em causa é um malentedido. Um malentendido pode ser dramático e nunca podermos esquecê-lo ainda que passadas várias fases da vida. Tenho pavor a malentendidos.

Anónimo disse...

Caro c.indico. E depois dos
24 alguma vez pensou em ser
moçambicano?

Anónimo disse...

Para o Táxi Pluvioso. Pelos vistos, continua a chover a potes aí pelos seus lados. Como não me conhece de lado nenhum, vou só esclarecer o seguinte: não sou paternalista, nem em relação aos «subdesenvolvidos» nem a ninguém. Em algumas coisas, sou moderna, noutras sou muito conservadora. E não uso lençóis de seda. Tudo isto não seria necessário, se o Táxi fosse capaz de ouvir (ler) os outros sem tantos preconceitos e «teorias» na cabeça. Eu limitei-me a contar um episódio que me aconteceu. Dele tirei uma moral (vê, posso ser muito conservadora...). Se não concorda, está no seu direito. Mas não é preciso vir atirar-me com a sua bagagem cultural para cima, que acredito seja pesada, nem fazer juízos sobre coisas que eu não disse. Pela minha parte, estou disposta a crêr que se terá tratado de um mal-entendido ou de uma questão de hermenêutica (como vê, também posso ser muito pós-moderna)

Táxi Pluvioso disse...

Finalmente chegámos ao cerne da questão. Tratou-se de um episódio do qual retirou uma moral. Que é o que escrevi no primeiro comentário. Não foi a velhota que lhe disse “oh menina, eu não lhe respondi, porque ‘minha senhora’, é como chamam a senhora da casa grande lá na roça”. Foi você tirou essa ilação. Não achou estranho que, perante um grito, mesmo que ela não considerasse ser-lhe dirigido, virasse a cabeça para ver o que era. (Se fosse uma portuguesa olhava logo). Talvez exista outros factores culturais que você não tomou em conta na sua conclusão. Como eu disse, o cérebro prega-nos muitas partidas, faz-nos ver coisas que não existem.

Mas se está feliz com a sua explicação para essa experiência em São Tomé, muito bem, assim é que dever ser. As pessoas devem ser, em primeiro lugar, felizes, e NUNCA aceite poder estar errada. Se for preciso parta para a guerra para defender as suas convicções. (Aceito perfeitamente que indivíduos como eu sejam “napalmizados” ao som da Cavalgada das Valquírias).

Falo de paternalismo no sentido de vermos racismo em tudo, como agora é moderno fazer-se. Faliram os ideólogos, faliram as grandes causas e as pessoas andam esfomeadas de algo que lhes dê sentido à existência. Então, abraçam os subdesenvolvidos como a última tábua de salvação. Coitadinhos precisam tanto de nós!

PS: a tirada sobre a minha bagagem cultural é desonesta porque não tenho nenhuma. Passei pelo seu blogue, e a minha bagagem cultural não chega aos calcanhares da sua.

Ana Cristina Leonardo disse...

Táxi pluvioso, não, a senhora em São Tomé não se virou para mim e não me explicou: «Cara amiga, peço perdão, nunca me ocorreu que se me dirigisse dada a a cor da minha pele», nem sequer: «Cara senhora, ia tão distraída a pensar com os meus botões nas nossas diferenças culturais e linguísticas...». Nada disso. Simplesmente eu ia na rua e tentei falar-lhe, e ela não respondia porque achou que não era com ela. Não, não confirmei a conclusão. Achei deselegante. E sim, é uma história com moral. E a moral é: o pior do colonialismo é ser capaz de se entranhar na pele dos próprios colonizados. Não está de acordo, paciência. Mas, Táxi Pluvioso, se atravessássemos a vida sem tirar conclusões morais do que nos acontece, seriamos ainda mais trogloditas do que já somos.
Para terminar esta conversa que, parece-me, como se diz em bom português, já deu o que tinha a dar, e a propósito do seu «coitadinhos, precisam tanto de nós» aconselho-o apenas a ver ou a rever o Viridiana do Buñuel. É um filme terrível. Precisamente porque é uma grande filme com uma tremenda moral.
PS - Eu não vejo racismo em tudo. Acho até que o racismo pode ter as costas bem largas. E, quanto às tábuas de salvação, aprendi a nadar há muitos anos. Sem bóia.

Anónimo disse...

Anónimo : são as tais singularidades destes processos. Queria ser, mas não me deixaram. Ainda hoje não sei porquê. Aplicaram-me o 20/24, sabe o que é?

Táxi Pluvioso disse...

Viridiana? É aquele da cena da última ceia? A propósito de se tirar conclusões (acertadas ou falsas), aconselho uma revisita (duvido que façam o filme) ao caso de Amadou Diallo, por acaso guineense, creio, que ao entrar em casa foi interpelado pela polícia de Nova Iorque, ao meter a mão ao bolso, foram disparados sobre ele 41 tiros. Acertaram-lhe 19. É uma boa média para um equívoco. Pois, ele tirou a carteira que o cérebro (?) dos polícias viu como arma.

O que é um 20/24?

Anónimo disse...

TP : não lhe digo. Se quer falar sobre este assunto, estude primeiro.

Anónimo disse...

alguem tem algum comentario a fazer ah historia do Jota Esse Erre?

Táxi Pluvioso disse...

Saber é poder. Eis uma boa atitude. Se calhar é de esquerda? Pela parte que me toca, sou contra o estudo e os quadros interactivos.

A história do Jota Esse Erre? Espero ansioso que ele poste outra. Gosto muito de as ler. Esta já deu o que tinha a dar.

Anónimo disse...

Eu explico: 24 horas/20
quilos de bagagem. Nem mais
um minuto e nem mais uma grama. Esta era uma "lei" que em Moçambique se aplicava para expulsar os
"Xiconhocas". Mas nem todos
os que por ela foram abrangidos eram "Xiconhocas"
ou seus familiares. Eu não
fui "bafejado", apesar de
ser (ainda) um "Xiconhoca" e
de ter o meu BI e passaporte
moçambicanos. Coisas da Revolução ou... algum jeitinho para lidar com o Mundo. Ou será da sorte?
Um abraço ao Tó, do João.
Bem hajam o Táxi Pluvioso e a A. C. Leonardo. Casem-se!