“(…) Vemos então o cavalo, percorrendo o seu pequeno trajecto entre um passado próximo de cavalo de passeio, ou de corrida, ou de carga, ou de tiro, em casa de particulares abastados, e o matadouro. Passa a maior parte do tempo estacionado, com um ar de desânimo, a cabeça tão baixa quanto lho consentem os varais e arreios, quer dizer quase na calçada. Mas a corrida transforma-o, pelo menos de começo, talvez por causa das recordações que desperta, pois que o simples facto de correr e puxar não deve encantá-lo por aí além, sendo as condições o que são. Mas quando os varais se levantam, prevenindo-o, de que finalmente acaba de entrar um cliente ou quando pelo contrário a correia do dorso começa a pesar-lhe na espinha, conforme o cliente se tenha instalado no sentido da marcha ou no talvez ainda mais repousante do recuo, então levanta a cabeça, estica os jarretes e põe um ar quase contente. (…)”
Samuel Beckett, Malone está a morrer, Don Quixote, 2003, p.89
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