terça-feira, 17 de julho de 2007

O socialismo e o estado

Esta polémica é muito esclarecedora, para que se entenda uma coisa: os "liberais" não fazem a mais pálida ideia do que seja o socialismo. Como as palavras são preciosas, e como determinadas mistificações tendem, infelizmente, a fazer escola, passo a esclarecer: "socialismo" e "estatismo" não são a mesma coisa. Há socialismos profundamente anti-estatistas e individualistas, tanto historicamente, por exemplo o socialismo libertário, o comunismo conselhista, ou o anarquismo social, como no presente, e cada vez mais no presente. Claro que não estou à espera que eles entendam isto. Como tive oportunidade de esclarecer aqui, nós, os socialistas, sabemos muito bem que o estado moderno é o estado capitalista, contra o qual nos batemos. Portanto, se o socialismo não é o estatismo, outra coisa será. A meu ver, é antes de mais a única filosofia política que se bate pela Liberdade. Mas para que os "liberais" entendessem isto, teriam de avançar um passo à frente da sua concepção redutora e minimalista de liberdade, e entender o que são relações assimétricas de poder entre os homens, e como estas são coarctoras da liberdade individual. Enquanto não se resolver este problema, de uma forma que permita a que cada homem se possa realizar individualmente, e plenamente fruir a sua liberdade, sem os constrangimentos que só os miopes não percebem, o maior dos quais a crescente assimetria na distribuição da riqueza, o estado é um mal necessário. Porque a alternativa "liberal" é ainda pior.

9 comentários:

Pedro Delgado Alves disse...

Para além de não saberem o que é o socialismo, estes liberais não sabem é o que é o liberalismo.

Tárique disse...

Discordo totalmente de que o Estado seja necessário. E sou socialista. O estado é essencial ao capitalismo, não ao socialismo. Digo mais: o Estado é necessariamente hierarquizante e por isso contrário ao socialismo como o entendo.

André Carapinha disse...

Caro Tarique:

A minha opinião é a de que, nesta fase histórica, o estado é um mal necessário. Reforço: um mal necessário.

É preciso, contudo, entender ao que nos referimos quanto ao estado. Neste post, que tem um alvo específico, os "liberais", entende-se o estado mais como o aparelho redistribuitivo da riqueza (os impostos, subsidios, gratuitidade nos serviços, etc., enfim, o que resta do "estado social") do que como o estado enquanto aparelho repressivo. É curioso (ou talvez não) que o grito de "menos estado!" dos "liberais" pretenda acabar com o estado social para manter (e reforçar) apenas o estado repressivo.

Igor Caldeira disse...

André, agradece-te o desprazer de me ver compelido a reler os imbecis insurgentes.
Já estou farto de escrever (e apesar disso não vou deixar de o fazer) sobre o suposto "liberalismo" dessa gente. Eu considero-me liberal e no entanto não partilho em nada das perspectivas daqueles (chamemos os bois pelos nomes) conservadores.

Por um lado, acho que é central a questão do individualismo
(http://blog.liberal-social.org/a-diferen-a-fundamental-entre-o-anti-estatismo-prim-rio-e-o-individualismo-sincero)

Por outro lado, para se perceber se determinada posição é ou não liberal, temos de perceber quais os objectivos últimos
(http://o-reino-dos-fins.blogspot.com/2007/07/libertarianismo-e-liberalismo-ii-tradio.html)

Quanto ao alegado estatismo do socialismo, momentos houve em que achei que seria possível trocar argumentos de forma séria. Obtive uma pequena resistência e depois um silêncio total. E não, não é porque eu tenha convencido o "liberal" em questão: ele é que, sensatamente, tendo percebido que o seu dogma nunca seria derrubado, deixou de responder.
(http://o-reino-dos-fins.blogspot.com/2007/06/brilhantes-estes-liberais-portugueses.html e ainda http://o-reino-dos-fins.blogspot.com/2007/06/sero-todos-os-socialismos-estatistas.html)

Igor Caldeira disse...

Já agora, a pessoa com quem troquei argumentos nos últimos dois posts que referi não é do Insurgente mas do Small Brother. São um bocadinho menos conservadores, mas um bocadinho só.

André Carapinha disse...

Igor, como reparar�s, eu coloco sempre esses "liberais" entre aspas, pelas mesmas raz�es que as tuas.

J� escrev� tamb�m, sobre o tema, em http://doismaisdoisigualacinco.blogspot.com/2007/05/liberais.html

Considero-me profundamente individualista, e o MLS at� � um movimento que vejo com alguma simpatia, embora, a meu ver, as suas propostas pade�am de alguma ingenu�dade quanto �s condi�es para a concretiza�o da liberdade do indiv�duo, como est� mais ou menos dito no final deste post, acima de tudo, o entendimento que ser� poss�vel "suavizar" a brutalidade do capitalismo, um pouco � maneira das sociais-democracias cl�ssicas. Para existir nem que seja um cheirinho daquilo a que se pode chamar liberdade para todos os homens (uma vez que o humanismo nos exige que os coloquemos todos como objecto da relex�o e da ac�o pol�tica) ser�o necess�rias outro tipo de propostas e de ac�o pol�tica, que n�o vejo no MLS. Mas essa � uma discuss�o que podemos continuar em outros moldes (e � natural que ache mais importante desmascarar os "liberais" conservadores que estar a reflectir sobre um movimento que, de alguma maneira, me est� mais ou menos pr�ximo).

Agrade�o-te tamb�m a refer�ncia aos (excelentes) posts que publicaste, aproveitando para recomendar a leitura dos mesmos aos leitores. Certamente que um liberal crit�ca muito melhor falsos "liberais" que um socialista...

Igor Caldeira disse...

Mesmo dentro dos liberais há (e estou longe de ser daqueles puristas - há-os em todo o lado) para quem temos de ser sempre os mais (qualquer coisa) - os mais à esquerda, os mais à direita, os mais socialistas, os mais liberais, etc.. De resto, nem poderia ser de outra forma, dado que sendo eu um liberal social (ou liberal progressista ou radical, como preferires) não sou (e orgulho-me de não o ser, um "puro".

Estes dois factos fazem com que, como tu, ache insuportável aqueles "liberais", não só pela sua estalinista presunção de pureza ideológica, como pela completa falsidade e desconhecimento básico dos princípios do liberalismo.

Estou de acordo quando dizes no post "Liberais" que há muito que aproxima os socialismos e os liberalismos, se não no campo económico (no caso da social-democracia a sobreposição pode ser quase total) pelo menos no das liberdades civis.

Abraços

Filipe Brás Almeida disse...

Igor. :-)

Igor Caldeira disse...

;-)