sexta-feira, 6 de julho de 2007

Analogias não impossíveis

Capítulo XXIV
Entre amigos se há-de dizer e se há-de dar ouvidos à verdade.

"(...) Todavia, sou forçado a confessá-lo, como disse o nosso Terencio no seu Adriana:
“A benevolência gera a amizade; a verdade, o ódio”.
Sem dúvida a verdade é molesta se produz o ódio, este veneno da amizade.

Mas a magnanimidade é-o ainda mais, porque para a indulgência culpável, pelas faltas de um amigo, ela deixa-o precipitar-se em suas ruínas. Mas a falta mais grave é a que despreza a verdade e se deixa conduzir ao mal pela adulação. Este ponto reclama toda a nossa vigilancia e atenção. Afastemos o ácido das nossas advertências, a injúria dos nossos reproches; que a nossa complacencia (sirvo-me voluntário da expressão de Terêncio) seja farta de urbanidade; mas longe da nossa baixa adulação, este auxiliar indigno de um amigo e mesmo de um homem livre.

Lembremo-nos que se vive com um amigo diferentemente de como se vive com um tirano.

Quanto àquele cujos ouvidos se fecharam à verdade ao ponto de não entender mesmo a boca do amigo, é preciso desesperar da sua salvação.

Conhece-se a frase de Catão que, entre outras,. ficou proverbial:
“A amargura dos nossos inimigos, serve-nos bem mais que a doçura dos nossos amigos: aqueles nos dizem quase sempre a verdade; estes, jamais”.

O que lia de desarrazoado é que os amigos que se advertem não se encolerizem do que deve causar-lhes pena, e o façam ao contrário do que deve não lhes causar
nenhuma. Em lugar de se encolerizar de haver mal agido, eles o são de ser repreendidos. Enquanto que, ao contrário, eles se deveriam afligir da falta e alegrar-se da censura."

Diálogo Sobre a Amizade - Cicero

1 comentário:

Anónimo disse...

Toda esta veia poética tem uma caleidoscópica, ou Scriboulante como diz Derrida, repercussão nos trabalhos magistrais de Harold Bloom, sobre o Amor e a Poesia. Bom achado e não deixe de perseguir esta sua intuição poderosa. Avanti.FAR