João Miranda baralha e volta a dar. Segundo este excelso defensor da inevitabilidade e positividade intrínseca ao capitalismo (de onde é que conhecemos isto?), a responsabilidade dos 40 anos de guerras em África, dos líderes corruptos, de "não se interessarem pela educação e pela ciência", de as instituições não funcionarem, e creme de la creme, de seguirem teorias económicas erradas (que são...), não é, nem um bocadinho, mas mesmo nada, dos países ocidentais (como antes também do bloco comunista, refira-se). Sugere-se a João Miranda que vá ler: primeiro, estudos sérios sobre os efeitos do colonialismo em África (que, presume-se, também é da responsabilidade dos africanos). Segundo, estudos sérios sobre os conflitos geopolíticos e económicos que atravessaram e atravessam o continente negro, designadamente as responsabilidades dos EUA, da URSS, da França e do Reino Unido em golpes de estado, guerras civís, genocídios, delapidação de recursos, etc.
A questão, JM, não é que os pobres sejam uns "coitadinhos", e que a culpa seja sempre dos "ricos maus". Os pobres, em geral, sabem muito bem do que precisam, como sabem do que não precisam. Conhece a recente revolta dos povos do Delta do Niger (Nigéria) contra a exploração petrolífera pela Exxon e Esso nos seus territórios? Pois é, esses pobres perceberam muito bem que dalí não viam nem um tostão, dos recursos que pertencem à terra deles. Gostaria de ver respondidas pelo JM as seguintes questões, muito simples, relativas a um país que conheço muito bem:
1) Qual o nivel de vida do angolano médio, e quantos passam fome?
2) Quem explora os diamantes e o petróleo em Angola?
3) E essas companhias, quantos lobistas tem no congresso americano, e quantos elementos das mesmas estão ou estiveram ligados à administração Bush, como antes à Clinton e à Bush-pai?
4) Quem são os maiores aliados do presidente angolano, José Eduardo dos Santos?
P.S: Uma vez que o nivel da argumentação chegou a "se o André perecebesse o capitalismo não era anti-capitalista", deixe-me devolver-lhe a bola.
4 comentários:
A bandeira da República Popular de Angola tem no seu centro uma catana, uma roda dentada e uma estrela, dispostos de maneira idêntica à conhecida foice, martelo e estrela.
No indice de liberdade económica
http://www.heritage.org/research/features/index/
...lembra-se, capitalismo=liberdade económica
Angola aparece em... 139º lugar entre 157 países. Atrás da Serra Leoa e do Tadjiquistão, mas à frente da Coreia do Norte, do Sudão, de Cuba, de Laos, do Haiti e do Zimbabwe.
Agora as respostas às suas perguntas:
«1) Qual o nivel de vida do angolano médio, e quantos passam fome?»
Baixo e muitos. Conhece algum regime comunista ou similar que não tenha como consequência um baixíssimo nível de vida? E mesmo quando regressa a liberdade económica, é preciso tempo para recuperar dos malefícios. Nunca menos de uma geração.
«2) Quem explora os diamantes e o petróleo em Angola?»
Certamente, alguém escolhido pela nomenklatura do regime, como acontece sempre neste tipo de repúblicas 'populares'. Custa-me a crer que tenha havido um concurso público internacional e transparente ou que haja concorrência neste sector.
«3) E essas companhias, quantos lobistas tem no congresso americano, e quantos elementos das mesmas estão ou estiveram ligados à administração Bush, como antes à Clinton e à Bush-pai?»
Não sei, mas o Bush não manda em Angola. Só se quem lá está deixar.
«4) Quem são os maiores aliados do presidente angolano, José Eduardo dos Santos?»
Antigamente eram os russos, os cubanos, a Alemanha de leste, o Kabila, etc. Agora, já restam poucos amigos desses. Já foram corridos.
Caro jcd:
Antes de mais deixe-me dizer-lhe vivi am Angola, precisamente nos anos da "República Popular", e hoje tenho família e amigos por lá.
A República "Popular" de Angola, hoje em dia, de "Popular" só tem a catana, a roda dentada e a estrela na bandeira. Trata-se de uma cleptocracia criminosa, à maneira pós-soviética. Mas, como o mundo mudou, também o capitalismo lá chegou; hoje em dia, em Luanda, v. pode comprar tudo o que tem cá. Mas mesmo tudo. Se tiver dólares. Luanda, por sinal, é a cidade mais cara de África.
Quanto a capitalismo= liberdade económica, de facto Angola não é um exemplo, mas tem pelo menos suficiente liberdade económica para as petrolíferas americanas, francesas e chinesas, para a DeBeers, para as empresas de construção civil portuesas, etc, a preço de saldo.
As respostas às suas respostas:
«1) Qual o nivel de vida do angolano médio, e quantos passam fome?»
Baixo e muitos. Conhece algum regime comunista ou similar que não tenha como consequência um baixíssimo nível de vida? E mesmo quando regressa a liberdade económica, é preciso tempo para recuperar dos malefícios. Nunca menos de uma geração.»
Os países africanos que não adoptaram modelos comunistas estão na mesma situação. E em Angola, no tempo do comunismo, vivia-se melhor (o angolano médio, entenda-se).
«2) Quem explora os diamantes e o petróleo em Angola?»
Certamente, alguém escolhido pela nomenklatura do regime, como acontece sempre neste tipo de repúblicas 'populares'. Custa-me a crer que tenha havido um concurso público internacional e transparente ou que haja concorrência neste sector.»
Alguém que comprou o regime, mas a quem nunca vi o jcd criticar o comportamento.
««3) E essas companhias, quantos lobistas tem no congresso americano, e quantos elementos das mesmas estão ou estiveram ligados à administração Bush, como antes à Clinton e à Bush-pai?»
Não sei, mas o Bush não manda em Angola. Só se quem lá está deixar.»
E quem lá está pode agradecer ao Bush e aos chineses o facto de ter o maior exército da África austral para acabar, p.ex., com rebeliões em Cabinda (mais uma motivada em grande parte pelo sentimento de injustiça quanto à partilha dos recursos- é em Cabinda que se produz a maior parte do petróleo angolano).
«4) Quem são os maiores aliados do presidente angolano, José Eduardo dos Santos?»
Antigamente eram os russos, os cubanos, a Alemanha de leste, o Kabila, etc. Agora, já restam poucos amigos desses. Já foram corridos.»
São os EUA e a China.
De qualquer modo, já sei o que me vai dizer: cada um cuida dos seus interesses, os americanos dos deles, os angolanos idem, mas isso é algo que nos separa inexoravelmente, que calculo nunca vá entender.
André
E o que é que uma cleptocracia tem a ver com capitalismo? Compreende mesmo o que é liberdade económica?
O que tem hoje em Angola não é muito diferente do que tinha durante o comunismo, com alguma abertura e menos dinheiro gasto com a guerra.
Nos anos do pós-guerra, quando Savimbi andava escondido pelas matas, fui a Luanda por causa de potenciais investimentos subsidiados com dinheiros da ajuda internacional. Só havia uma condição para conseguir investir: 1/3 era para os que estavam no governo. O intermediário aparecia sempre na altura certa. Quem não paga, não entra.
As empresas portuguesas que por lá tinham ficado, trabalhavam para uma contabilidade virtual. Vendiam ao estado e o estado nunca lhes pagava, mas reconheciam um lucro fictício nas contas em Portugal. Para compensá-las, o governo dava-lhes mais umas obras que ou eram pagas pelos países de ajuda e onde podiam meter a unha para compensar o resto, ou voltavam a não ser pagas.
Os comerciantes que não eram do MPLA estavam sempre à espera de ver entrar pela porta a polícia fiscal. A acusação era sempre a de especulação económica. A margem máxima a praticar era definida pelo estado e estava em 32%, nominal. Isto, para uma inflação de 3 dígitos. Os comerciantes davam uns milhares de angolares aos polícias e lá ficavam a praticar a especulação económica, quase sem clientes. Às vezes, os fiscais eram compreensivos. Um comerciante que vendia depósitos de água pediu-lhes clemência: "já cá estiveram hoje colegas vossos..." e eles foram-se embora, combinando voltar na semana seguinte.
Já nessa altura se podia comprar de tudo em Luanda, no Roque Santeiro. Estive na casa do membro do MPLA de ligação, branco, formado em Portugal e convicto da superioridade do socialismo e que nem sequer tinha um posto elevado na hierarquia, mas cujos equipamentos e nível de luxo expositivo metiam num canto as coisas que vemos hoje nas casas dos melhores cromos de Portugal. Foi nessa casa que vi o primeiro grande ecrã de plasma da Pioneer, que custava em Portugal, na altura, 9000 contos.
Isto era a Angola comunista. Não sei se mudou para pior, mas não me parece possível. O simples facto de haver mais comércio é suficiente para melhorar um pouco o nível de vida de muitos angolanos.
jcd:
Sem dúvida que conhecemos a mesma Luanda, com a ressalva que eu conheci a anterior, a "comunista" (paradas, braço estendido, bandeiras vermelhas, o "Camarada Presidente", etc.)
Acredite que mudou para pior. O Roque Santeiro, antes o supermercado da cidade, tornou-se uma megastore de artigos de luxo. Moram mais dois milhões nos bairros de lata e a taxa de mortalidade infantil e de subnutrição é absurda para uma cidade, mesmo em África. Na altura do "comunismo" era inferior.
Neste momento, o sistema económico angolano é semelhante ao de quase todos (quase?) os países da África negra, tenham tido ou não experìências comunistas.
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