Pau e Pinho
Conforme prometido, por uma vez, cumprida a palavra, aqui estamos a pretexto de sublinhar a ‘negrito’ a, pensamos, inadmissível gaffe de Cavaco Silva. Que tantou intrigou o Táxi Pluvioso.
Pois, o senhor professor chamou a Belém, para uma conversa em família, os amiguinhos da Imprensa indígena (subcontinente), no aquecimento para a visita oficial ao Indostão. Aparentemente, acreditando no que viria a ser divulgado nos média da Índia, Cavaco Silva asseverou que é muito mais fácil fazer negócios com indianos do que com chineses. Pois, sabeis vós, a China não é uma democracia. Segredo mal guardado e desvendado quando José Sócrates afinava a visita oficial à China?!
Mais do que elaborar sobre as ‘consequências’ presumíveis da boutade, que se resumiram a algumas hesitações formais no agendamento da visita e a um downgrade cerimonial à chegada, convirá reflectir sobre o enquadramento cultural do modus operandi. 500 anos passados e determinados sectores do pensamento estratégico português mantêm em vigor a doutrina de Gama. Que, grosso modo, passa por dizer aos de Cochim que os de Calicute são umas bestas, e aos de Calicute que as bestas são os de Cochim. Assim mesmo, sem a elegância de um paradoxo, e fazendo jus à ‘teoria’ que defende a existência do Homo Lusitanus: uma variante do Homo Sapiens que se caracterizava por um crâneo rombo, ligeiramente desviado, cerca de 15 graus, para a direita, dispositivo adequado à casquinada, à graçola, e ao gargalo, esqueleto pequeno, curvo, e, segundo as últimas escavações de Foz Côa, apresentava-se com uma mão à frente e outra atrás. Infelizmente, é contagiosa esta tendência marginal para o disparate.
Não obstante, a profunda preparação técnica da da visita do Primeiro-Ministro, muito por mérito do secretário de Estado Serrasqueiro, Manuel Pinho entregou de bandeja o constrangimento mediático. De facto, afirmar na China, perante os chineses, que o Portugal moderno, da UE e da inovação, oferece salários baixos como vantagem comparativa oferece salários baixos…Bom, só faltou referir a mansidão do povo em geral, a tolerância à penúria e uma taxa razoável de adaptação às novas tecnologias. Uma tradição que remonta ao SG Ventil.
JSP
3 comentários:
"Somos um povo de brandos costumes"
Mais um brilhantíssimo texto de JSP: onde o espírito crítico nos é servido por uma muito bem puxada linguagem metafórica, onde a ironia não esconde um conhecimento profundo e dialéctico dos problemas.Que são enormes. Qual a força geopolítica de Portugal? Por exemplo, a Alemanha- o dito " motor e credor da U.E.- está a deslocalizar algumas das suas producoes de automóveis para China e India. A razão não se radica nos olhos bonitos da dr. Angela Merkl, dura de roer e de uma austeridade de gelo. FAR
Afinal não foi assim tão grave. Pensei que ele tivesse mencionado Vassalo e Silva durante a revista às tropas quando a banda tocava o hino português. Ou sugerido o Joaquim de Almeida como uma óptima voz para os cantarolantes filmes de Bollywood. Ou oferecido uma camisa de caxemira ao Presidente da maior manada democrática do mundo. Ou, numa embaraçante branca protocolar, se lhe varresse da memória aquelas letras todas do nome do primeiro-ministro e lhe tivesse chamado Musharraf.
A viagem foi um sucesso de estalo e Cavaco trouxe para Portugal… … … … bem, deve ter trazido qualquer coisa. Mais um milagre do santinho de Boliqueime para o nosso país.
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