sábado, 17 de fevereiro de 2007

Ano do Porco

Irra! A sombra do ‘politicamente correcto’ chegou ao simpático zodíaco chinês. O governo central da RPC determinou, assim mesmo, determinou, que é proibida, a utilização de imagens de porcos na publicidade alusiva ao signo do Ano Novo Lunar. Esta interdição, cujo objectivo é o de “não ofender”, desnecessariamente, diríamos nós, a comunidade muçulmana da China, recai, compreender-se-á, apenas sobre o média televisão.
À excepção da Nestlé e da Procter&Gamble, que investiram fortemente na fecundidade do signo em causa, ninguém se queixou de uma rasura que deixou indiferente a dita comunidade. Entrevistados para o principal canal da CCTV, os muçulmanos de Xian minimizaram a questão: “isso são coisas dos Han”. ‘Coisas’ de 900 milhões.
Uf! Chegámos a recear pelo futuro dos suínos…pelo que queremos deixar bem expressa a devoção eterna pelo nosso parente antropológico mais chegado. Chegue ele nos mais nobres presuntos, de farinheira, em costoletas, em lombo ou acém, com uma maçã na boca, com gambiarras nos globos oculares- previamente esvaziados-, de balichão ou à alentejana, agridoce ou polaco, com a família- javalis e javardos- ou desacompanhado, será sempre bem recebido. Nos tempos maus, até feito salsicha num cachorro ou fiambre em carcaça, lhe será prestada a devida homenagem.
Espiritualmente, o porco ainda é mais familiar. Sujeito mandrião- foi o último a passar o rio-, é dado à estultícia, na forma popular, é um grande fodilhão, augusto símbolo da lubricidade permanente, dá-se como emérito reprodutor, preza a prosperidade sem esforço, é pródigo e gastador. Não lê poesia.
Simbolicamente, é omnipresente. Seja Seth, seja a terceira incarnação de Vishnu, seja os três porquinhos, seja porco voador, porco equilibrista, bailarino ou professor. Nos tempos mais recentes, tem sido referenciado na filantropia internacional. Os famosos peacekeeping pigs.
Redesenhe-se, pois, o mapa mundi em nome do porco exilado das esferas kosher e halal, eriga-se um novo muro, sem vergonha e…pode entrar o almoço. Abençoado pelo nosso Santo António, padroeiro da récua, regado ponderadamente para que possamos brindar a todos os porcos. Na forma esdrúxula, como o little bit retarded Chavez da Venezuela, na forma épica como Koba, na forma doméstica como o piglet Mendes, ou na forma óbvia como Mugabe.
Façam boa nota de que um almoço de porco pode ser muito elevado. Como dizem os nossos vizinhos da Ibéria, do porco aproveita-se tudo…hasta la conversacion.

Kung Hei Fat Choi

JSP no Império do Capital

2 comentários:

Anónimo disse...

O porco é bom, mas o texto é óptimo!
Um abraço do J.F.

Anónimo disse...

Ò João Fróis; eu gosto mais de pato laqué ou de sushi chinês...O texto do JSP é magnífico: ironia e informação vivida-no-sangue-e-nas tripas. Assim é que é! FAR

PS: Entretanto, parece que o PR chinês está a tentar operar uma revolução democrática, e de " veludo", nas suas relações essenciais com os produtores do seu pulmão-essencial, o petróleo! Querem ver que vai " democratizar" Chavez, os émirs e o Ahmdinejad iraniano, de uma penada...