quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Viva Allende!


"I don't see why we need to stand by and watch a country go communist due to the irresponsibility of its people." - Henry Kissinger

Desde a morte de Pinochet que o Insurgente, e em menor escala o Blasfémias, tem-se dedicado a uma verdadeira campanha de desinformação e intoxicação sobre a figura e a actividade política de Salvador Allende. O propósito é evidente: como surge demasiado escandaloso o apoio declarado ao ditador (exceptuando o Claudio Tellez do Insurgente, que não tem vergonha das suas tendências proto-fascistas), tenta-se suavizar a sua imagem com o argumento das circunstâncias: que o Chile estaria no caos, e que o golpe de 1973 teria sido uma inevitabilidade, quando não um verdadeiro acto patriótico. Para o fazer, escrevem-se as maiores diatribes na tentativa de demoniozar Allende. Leu-se por exemplo, que perseguia e torturava, tal como Pinochet, ou que queria instaurar a ditadura, como Pinochet fez. Nesta campanha repugnante a História não ocupa lugar: como fontes, apenas vemos artigos de pura propaganda de think-tanks ultraliberais ou neoconservadores como o Cato Institute e outros. Mas há algo que não bate certo nesta história: onde estão as vítimas de Allende? Os jornais que encerrou, os partidos que proibiu? Onde estão as vozes a denunciar terem sido torturadas, presas ou os seus familiares mortos? E como é possível que, querendo instaurar a ditadura, tenha ido a votos em eleições parlamentares, três anos depois de eleito, tendo reforçado a votação? Recomendo a este respeito aos nossos "liberais" este breve resumo, que nada tem de esquerdista, sobre esses anos. É verdade que ignora o boicote económico e atribui todas as culpas da crise à actuação do governo, mas é precisamente por isso que eu o recomendo, para contrapor aos textos paranóicos e mentirosos que devoram como lei divina.
O que Allende tinha de verdadeiramente perigoso para estas mentes é, paradoxalmente, o contrário do que o acusam: a ideia que o guiou toda a vida, a de construir o socialismo através da democracia, e não contra ela. Evidentemente, não seria a democracia "liberal", ou "burguesa", antes uma ideia peregrina, a democracia "social"; mas o seu comprometimento com os principios democráticos e a vontade popular, que sempre respeitou, é inatacável. Os "liberais", que nos seus blogues já começam a revelar-se opondo liberdade e democracia, como se uma pudesse existir sem a outra, que nos perdoem, mas nesta matéria não recebemos lições deles.

Uma excelente análise sobre Allende pode ser encontrada neste artigo de Tomás Moulian no Le Monde Diplomatique, edição brasileira.

13 comentários:

Anónimo disse...

O golpe de Estado de Pinochet/USA no Chile constitui, depois do nazi-fascismo, a maior machada no desenvolvimento civilizacional do mundo e em particular do ocidente.

Armando Rocheteau disse...

Democracia só conheço a "liberal" ou "burguesa". Não me parece que o termo se possa aplicar a outras vias. Mais, não gostaria de viver fora do quadro em que vivemos. Aqui, na Europa, nos EUA. Tive um cheirinho doutras "democracias" no passado. Fugi delas.
No essencial, para além deste reparo, concordo com o André.

André Carapinha disse...

Armando:

Não me parece que aquilo do que fugiste tenha algo a ver com o que chamei de "democracia social", nem sequer com democracia de qualquer género.

De facto só conhecemos a democracia "liberal", e a miséria brutal que gera. Infelizmente, experiências como as do Chile de Allende foram raras, e os resultados foram os que se conhcem. Não sendo do interesse de nenhum dos blocos geopolíticos da época (isto do socialismo pela via da democracia não era de facto nada que agradasse a Brejnev, como se compreende).

Nos anos 50/60 deu-se uma crítica radical à ortodoxia marxista (vide Althusser, p.ex.), que, um pouco abstardamente, viria mais tarde a originar o "eurocomunismo". Allende era um caso curioso, na medida em que evoluiu do PS para a esquerda. Não era um marxista de origem, embora tivesse elementos marxianos. O seu PS era de facto um PS da ala esquerda, mesmo da altura. Poucas vezes terá estado no poder um partido com que me identifique tanto como este.

Abraço

(aparte: então não tens novidades sobre aquele assunto?)

Manuel Neves disse...

André:
Para já, teria o maior gosto em conhecê-lo e discutir ideais consigo. Está convidado para vir a uma casa de estudantes marxistas.
Depois, eu sou um "allendista" fervoroso, porque acho que é o melhor caso da prova da diabolização do comunismo. O golpe patrocinado pelos EUA é uma machadada na democracia (da qual sou a favor), e que mostra muito bem como muitos neoliberais não teriam o menor pudor em tomar tal posição se um dia um verdadeiro partido de esquerda ganhasse eleições.
Armando: não acho que um regime marxista forçosamente seja anti-democrático. Aliás, Marx nada diz acerca disso. As coisas de que fugistem nada têm a ver com isto.

Abraços, Manel


PS: Armando, como "padrinho" do blog, aviso-te que mais cedo ou mais tarde, hei-de ter que escrever sobre futebol e sobre o meu Benfica.

Armando Rocheteau disse...

Manel:
Esta é uma casa livre. Falo do blogue. Duvido que num regime marxista existisse fora da clandestinidade.
Conto contigo e com o André para debatermos estas, e outras, questões. Quando é que jantamos?
De qualquer modo teremos reflexão alargada no próximo dia 21.

P.S. O Fernando e o André são também benfiquistas. Eu gosto de minorias, como diria o Knopfli, de um só se necessário for.

Armando Rocheteau disse...

Althusser? Aquele que dilacerado com questões marxistas acabou em personagem de tragédia? Li-o. Foi um tempo, ou será templo?,de que saí curado.

Armando Rocheteau disse...

Marx? O Groucho ou aquele casado com uma princezinha alemã? Aquele que deixou morrer filhos à fome. Que pôs o amigo da indústria a perfilhar-lhe os bastardos da criada.
Porra! Não houve um regime que marxista que tivesse dado certo. Vamos falar sobre isso?
Não me venham é com "Bíblias". Nem com messianismos judaico-cristãos.

Um grande abraço para o André e para o Manuel, de quem sou amigo. É isso, segundo Epicuro, que nos faz iguais aos deuses. Que me perdoem nesta divergência. ( O pedido de perdão deve-se à minha educação cristã-marxista).

André Carapinha disse...

Armando:

Estás, como de costume, a confundir o marxismo com o comunismo soviético. Nunca que te ocorreu que até o teu PS tem bases marxianas (é mais correcto dizer assim)?

Já sei que leste o Althusser e que te curaste. Já falámos muito sobre isso. Eu também não simpatizo assim por aí além com ele, mas é um momento importante para o marxismo, a crítica à ortodoxia.

E sobre isso de "os regimes marxistas não terem dado certo", que simplismo. Onde é que houve um "regime marxista"? E, para quem conheça o Marx e o veja à luz do século XXI, que sentido faz, ou fez, falar-se em "regime"? Só isso é uma contradição nos termos. Essa é a razão primeira do falhanço desses ditos "regimes"- nunca sequer o deviam ter sido.

Allende quis governar dentro do regime republicano e democrático incorporando na sua política elementos marxianos, mas não só. Apenas isso. O que é muito. Bastante mais perigoso do que implantar ditaduras megalómanas com base em pr incipios pseudo-marxistas. Abraço

Manuel, aceito de bom grado esse convite. Porque não apareces no nosso aniversário (vai ser publicitado aqui em breve)? Faz-me só um favor, não me trates por você, ok? Abraço

Manuel Neves disse...

Armando, até posso responder ao argumento "o marxismo nunca resultou" com um também falacioso: o capitalismo também não. Antecipo-me já à resposta dos regimes dos países nórdicos, lembrando que é a exploração da mão de obra barata (africana, indonésia, o que quiserem...) que permite esse bem estar. Para vivermos todos como a Suécia, precisávamos dos recursos de 5 planetas Terra.
André, dia 21 não dá, já o disse ao Armando, porque tenho exame dia 22.Esta segunda era óptimo para mim.

Grande abraço, Manel

Armando Rocheteau disse...

Meus caros:
Li Marx. Os germes do totalitarismo estão lá.
Peço-vos desculpa por não vos responder em post. Dar-me-ia muito trabalho e a quadra natalícia não ajuda.
Gosto desta democracia. Não só é o menos mau dos regimes, como diria Churchill, como ainda, como diz Morin, é o único que não se reclama de uma verdade científica.
Também gostei muito que o grande Soares tivesse metido o socialismo na gaveta. E sob a batuta dos engºs Guterres e Sócrates o país avançou.
Termino com uma citação do vosso campo: "alegre e verde, verde e alegre, será o mundo sobre as nossas campas" ( salvo erro do "L' affaire Rosenberg" de André Delvaux).
Abraços

Armando Rocheteau disse...

A citação é dos Rosenberg e é dirigida aos filhos. Penso que aparece no manual do Georges Politzer. A minha memória já não é o que era.
Abraços renovados.

Anónimo disse...

Marxianos?! Marcianos!?

Anónimo disse...

O calcanhar de Aquiles de Allende foi exactamente ter governado em democracia, sem censura, em liberdade de expressão.
Marx escreveu no seu tempo e é nesse contexto que tem de ser lido. Não se confunda com a traição de Lenine e do Estado Soviético, em particular de Staline.
Quanto ao Manuel, marxista democrata e do Benfica...apesar da idade ainda me apaixono outra vez.