terça-feira, 3 de abril de 2012

The End

Quem segue este blogue, e sei que são alguns, não pôde deixar de reparar na ausência de produção destas últimas semanas. A verdade é que outros afazeres, projectos que temos em mãos, e também, confessemo-lo, algum desinteresse, acabam por tornar inevitável esta decisão: está na hora de terminar.
É certo que não é a primeira vez que isto acontece; mas quer-me parecer que agora será mesmo de vez. Por isso, apetece-me fazer um balanço, já saudoso e de lagriminha ao canto do olho, sobre esta aventura que começou no verão do já distante 2005, depois de umas conversas alcoolizadas no Cais do Sodré, entre mim, o Armando Rocheteau, o João Carapinha, meu pai, e o Luis Palácios: "Vamos fazer um blogue"!
No princípio foi a extraordinária sinergia entre este que humildemente vos escreve, com as suas divagações político-teóricas, o Armando e as suas embirrações, o António Oliveira sempre em cima da agenda, o talento da Ivone Ralha, discussões infindáveis na caixa de comentários que terminavam tantas vezes em jantares regados na Palhota, um estranho Frade de Alvalade, os "Diálogos do Cais do Sodré" com o nosso saudoso TZA, o não menos saudoso Zé Maria que era mais que um comentador. Para mim, os melhores momentos do blogue.
Mais tarde, o Fernando Almeida Ribeiro, esse nosso inesquecível FAR, a teoria político-literária a entrar a mata-cavalos, artigos traduzidos de todas as revistas burguesas em modus operandi revolucionário-Castoriadis; os movimentos anti e pró-FAR; as primeiras chatices a sério, e as primeiras dissidências. Foi divertido, mas também deixou marcas, ou isto de ter um blogue eram só coisas boas? Também a Gabriela e a melancolia, o Fernando Rebelo e a poesia, o Pinto Sá a chatear o Guebuza (engraçado isso de ter visitas da secreta moçambicana), o Manuel Neves a arrumar os "liberais". Eramos um grupo giro e heterodoxo, mas a separação era inevitável, como naqueles amores demasiado intensos.
Depois, as magníficas colaborações do Fernando Mora Ramos, do Jota Esse Erre, do JSP. Gente que sabe escrever, e que o fez, orgulho-me tanto disso, aqui no 2+2=5.
Também por aqui andou uma mosca na sopa. Há coisas que eu não perdoo, e nunca perdoarei. Essa é uma delas. Foi a fase da peixeirada, a única da qual não guardo saudades, mas aprende-se com tudo. Ao menos serviu para testar os meus limites, sei que demasiadas vezes perdi as estribeiras. Aprendi com isso.
Nesta última fase, os resistentes Maturino, Santimano, João de Azevedo; o Luiz Inácio verrinoso; a Laura Nadar e o seu extraordinário olho para a imagem; dois óptimos bloggers em potência, cuja aventura terminará talvez cedo demais: o António Bizarro e o Tiago Sousa.
Todos os outros, os que estão ali, na coluna da direita, mas não foram mencionados neste post, foram também autores de momentos magníficos que fizeram o blogue (mesmo a mosca na sopa, pronto, antes de se tornar mosca na sopa). Perdoem-me se não os destaquei aqui, mas não podia falar de todos, não é?
Um balanço? Como disse uma vez o Armando numa das suas despedidas, fiz amigos e perdi amigos (felizmente fiz muitos mais do que os que perdi). Escrevi muito, desenvolvi-me muito na escrita, refinei muitas ideias, evoluí intelectualmente e como pessoa, aprendi sobretudo muito; foi, em 99% dos momentos, um grande, grande, prazer. Mesmo os outros 1% valeram a pena.
Até sempre camaradas!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Sinais

Desenho de Maturino Galvão

Este Sábado, no Barreiro


(Texto da Hey, Pachuco!):


Mi Casa es Tu Casa
Organização: Hey, Pachuco! Associação Cultural

O “Mi casa es tu casa” é um evento baseado num conceito de Fernando Alvim e que será inserido na Quinzena da Juventude do Município do Barreiro.
O evento decorre a 24 de Março em casas do centro da cidade.
O conceito é simples: a organização do evento convidou os habitantes do centro do Barreiro a abrir as portas da sua casa e receber, nas suas salas, concertos dos mais variados artistas.
Na tarde de 24 de Março o público desta iniciativa terá em mãos a localização das casas (identificadas com um letreiro à porta dos respectivos prédios e previamente anunciadas nas nossas comunicações), o horário dos concertos nessas mesmas casas, a lotação das salas e uma lista de artistas. No entanto, só a organização saberá onde é que os artistas tocarão.
Este conceito foi explorado, pela primeira vez, em Janeiro, na semana inaugural de Guimarães Capital Europeia da Cultura e foi um sucesso. Pretendemos que o mesmo se passe no Barreiro!

Casas:
14:25h e 16:55h - Rua Eusébio Leão nº10 - Lotação: 30
14:50h e 18:35h - Rua Álvaro Velho nº7 R/c - Lotação: 15
15:15h - Avenida Alfredo da Silva nº 38 1ºDtº - Lotação: 10
15:40h e 17:20 - Rua José Elias Garcia nº38 2ºEsq - Lotação: 15
16:05 e 17:45h - Largo Luís de Camões, Nº21, 3º - Terraço - Lotação: 25
16:30h - Rua Stara Zagora nº36 1ºEsq - Lotação: 10
18:10h - Avenida Henrique Galvão nº12 3ºDtº - Lotação: 10

Os concertos terão a duração de 20 / 25 minutos.

Bandas / Artistas:

The Raw Sample Project
Nicotine's Orchestra
Fast Eddie Nelson
The Sullens
L'Ocelle Mare
Radikal Satan
Tiago Sousa
Rai (The Poppers)
Killer E "The Snake"
Chicken Birdie Joey
Hell Hound"

sexta-feira, 16 de março de 2012

Apresentação da antologia 'Entre o Sono e o Sonho - Vol. III', da Chiado Editora, desta feita no Porto, no Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos. Dia 24 de Março às 15 horas.

domingo, 11 de março de 2012

Pesadelo Climatizado

 © Carlos Ferreiro*

"Um mundo novo não se constrói procurando esquecer o antigo. Um mundo novo alicerça-se num espírito novo, em novos valores. O nosso mundo poderia ter começado daquela maneira, mas hoje é sòmente uma caricatura. O nosso mundo é um mundo de coisas. É todo ele constituído por comodidades e luxos, ou então pelo desejo de os alcançar. O que mais tememos, ao alcançar o débâcle iminente, é sermos obrigados a abandonar as nossas futilidades, as nossas engenhocas, todos os pequenos objectos cómodos que nos tornaram tão desconsolados. Não há nada de admirável e de cavalheiresco, de heróico ou de magnânimo, nas nossas atitudes. Não somos almas tranquilas; somos presunçosos, tímidos, demasiado escrupulosos, enfastiados e instáveis."


"Há experiências feitas com acuidade e precisão, uma vez que os resultados são antecipadamente calculados. O cientista, por exemplo, põe sempre problemas solúveis a si mesmo. Todavia, a experiência do homem comum não é desta natureza. A solução da grande experiência está no coração; a busca, a inquirição, deve ser conduzida interiormente. Temos medo de confiar no coração. Habitamos os domínios do espírito, um labirinto em cujos sombrios recessos um monstro espreita para nos devorar. Temo-nos até hoje movido numa sequência mitológica de sonhos sem encontrarmos soluções, isto é, formulamos perguntas desacertadas. Só encontramos aquilo que procuramos, mas procuramos no lugar indevido. Temos de sair da obscuridade, de abandonar essas explorações que constituem apenas fugas originadas pelo medo. Temos de deixar de procurar às apalpadelas - de gatas. Temos de sair para os espaços abertos, erectos, completamente expostos."


Henry Miller, in PESADELO CLIMATIZADO (THE AIR-CONDITIONED NIGHTMARE), Editorial Estampa, Lda., Lisboa, 1971

* [In: Jornal das Letras, 16 a 29 de Janeiro de 2008, a ilustrar o artigo: Luiz Pacheco (1925-2008) O Guerrilheiro da Escrita ]

sábado, 10 de março de 2012

Red Starr

O seu sonho era percorrer os corredores do poder, e vê-los transformados em casas de ópio e prostíbulos de luxo, espreitar através das janelas, e ver os corpos dependurados dos políticos a balouçar sob a acção da brisa da tarde.
Com um cocktail molotov em cada mão, ele e os seus companheiros de revolta levariam a cabo a tarefa de apagar a memória dolorosa de um tempo em que o poder corrompia, e a corrupção governava os destinos de todos.
Deus e a Pátria iriam a enterrar num fim de dia estival, e então a grande Família Humana juntar-se-ia para lhes prestar uma última homenagem, para pouco depois os condenarem ao eterno esquecimento. O fim de dois mil anos de cristianismo, em vez de significar um mergulho nas trevas e o fim da civilização, seria o inicio de uma nova era de harmonia e prosperidade.
Mas enquanto isso não acontecia, Red Starr mantinha-se entretido esfaqueando bófias e incendiando igrejas.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

"Save the Greeks From Their Saviors"

excerto do manifesto por: Vicky Skoumbi, Editor-in-Chief of the journal, “Alètheia”, Athens, Michel Surya, director of the journal «Lignes», Paris, Dimitris Vergetis, director of the journal, “Alètheia”, Athens. And : Daniel Alvara, Alain Badiou, Jean-Christophe Bailly, Etienne Balibar, Fernanda Bernardo, Barbara Cassin, Bruno Clément, Danielle Cohen- Levinas, Yannick Courtel, Claire Denis, Georges Didi-Huberman, Roberto Esposito, Francesca Isidori, Pierre-Philippe Jandin, Jérôme Lèbre, Jean-Clet Martin, Jean- Luc Nancy, Jacques Rancière, Judith Revel, Elisabeth Rigal, Jacob Rogozinski, Hugo Santiago, Beppe Sebaste, Michèle Sinapi, Enzo Traverso.

que pode ser lido na íntegra em português aqui, tradução de Alexandra Balona de Sá Oliveira e Sofia Borges. 


"O objectivo não deve ser o "resgate" da Grécia: sobre este ponto, todos os economistas dignos desse nome estão de acordo. Trata-se de ganhar tempo para salvar os credores conduzindo o país a uma falência em diferido. Trata-se sobretudo de fazer da Grécia um laboratório de mudança social que, num segundo momento, se generalizará a toda a Europa. O modelo experimentado nos Gregos é o de uma sociedade sem serviços públicos, onde as escolas, hospitais e centros de saúde caem em ruína, onde a saúde passa a ser um privilégio dos ricos, onde as populações vulneráveis são condenadas a uma eliminação programada, enquanto que aqueles que ainda trabalham são condenados a formas extremas de empobrecimento e precariedade.;
(...) 
O agravamento artificial e coercivo do problema da dívida foi utilizado como uma arma para tomar de assalto uma sociedade inteira. É com sabedoria que usamos aqui termos relevantes do domínio militar: trata-se de facto de uma guerra conduzida pelos meios da finança, da política e do direito, uma guerra de classe contra a sociedade inteira. E o espólio que a classe financeira conta arrebatar ao “inimigo”, são os privilégios sociais e os direitos democráticos, mas em última análise, é a possibilidade mesma de uma vida humana. A vida daqueles que não produzem nem consomem o suficiente, ao olhar das estratégias de maximização de lucro, não devem ser conservadas. Assim, a fragilidade de um país apanhado entre a especulação sem limites e os planos de resgate devastadores, torna-se na porta de saída por onde irrompe um novo modelo de sociedade adequado às exigências do fundamentalismo neoliberal. Modelo destinado a toda a Europa, e talvez até mais. Esta é a verdadeira questão e é por isso que defender o povo grego não se reduz a um gesto de solidariedade ou de humanidade abstracta: o futuro da democracia e o destino dos povos europeus estão em questão. Por todo o lado a “necessidade imperiosa” de uma austeridade “dolorosa, mas salutar” vai nos ser apresentada como o meio de escapar ao destino grego, enquanto esta por aí avança sempre em frente."

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sustentabilidade e "empobrecimento"

Uma das novidades do tipo de organização que se tem procurado fazer um pouco por toda a parte, e à qual nós aqui damos o nosso modesto contributo, é a de tomar em consideração a questão da sustentabilidade, rejeitando de algum modo o consumismo exacerbado. Esta assunção em nada é contraditória com a defesa do que se tem chamado de "direitos adquiridos" (eu não gosto desta terminologia; prefiro chamar-lhes "direitos", e pronto). Os responsáveis pelo ataque a estes direitos são ao mesmo tempo os que mais contribuem para a perpetuação do tal modo de vida insustentável, e os que mais defendem (porque tem a ganhar com isso) o consumismo e a loucura de uma economia baseada em comprar tudo e deitar logo tudo fora. Vide por exemplo a dependência do petróleo, e o facto de hoje, toda a gente saber que as soluções ecologicamente mais viáveis, economicamente mais razoáveis, e mais, que reduzem drasticamente a dependência dos estados a das pessoas face aos humores dos mercados, não são postas em prática ou sequer incentivadas devido aos interesses que os actuais modos de produção de energia movem, e aos lucros que originam. Não tenho qualquer dúvida de que a rejeição deste modo de vida irá levar a um relativo "empobrecimento", que terá de ser acompanhado por um novo paradigma na produção e no consumo, mas é preciso entender o que isto do "empobrecimento" quer dizer; se se entender "empobrecer" por ter uma televisão em vez de três, ou ir cultivar legumes em vez de os tirar da prateleira de um supermercado, eu posso chamá-lo assim. Macroeconomicamente, se isso quer dizer baixar até algo drasticamente o PIB, com certeza. Mas o PIB, ou os indicadores de consumo, são medidas da riqueza a priori distorcidas, por serem aquelas que interessam ao sistema de produção-lucro-consumo. Há outras maneiras de medir a "riqueza", e mais importante, o bem-estar dos cidadãos, como têm provado economistas que não são os-mesmos-de sempre-da-situação-que aparecem-em-todos-os-programas-televisivos. E há algo, a meu ver, ainda mais importante: a construção de um modo de vida mais razoável e sustentável, e que tenha em consideração os interesses das pessoas, só pode acontecer se se puser em causa de uma vez por todas o dogma do lucro e os mecanismos de acumulação do capital. Se se deixa de comprar playstations, isto provoca o desemprego a milhares de pessoas; ora, se isto não for acompanhado de uma lógica diferente de redistribuição da riqueza, se o dinheiro permanecer nas mãos de uns poucos, isto vai originar miséria a rodos. Para que uma coisa destas funcione, é preciso acabar com a acumulação desenfreada, em especial aquela que não tem origem em qualquer coisa que seja produtiva. Podemos viver melhor, com menos dinheiro no total (menos PIB, lá está) desde que o dinheiro que exista, enfim, os bens que são produzidos, sejam orientados para o interesse geral, através de um mercado que não permita a especulação, mas sim a troca livre e justa. Concluindo: acabar com o capitalismo e substituí-lo por outra coisa qualquer que realmente funcione para toda a gente e não só para uns quantos (eu tenho um nome para isto, e não é especialmente novo, mas prefiro não o colocar aqui, para não nos desviarmos do assunto).

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Feira de Economia Solidária



"Esta á a primeira Feira, que se irá repetir quinzenalmente, aos sábados
Procuramos criar alternativas, apoiar saídas e divulgar projectos e ideias, que nos ajudem a resolvermos nós próprios os nossos problemas. Gostaria muito de contar contigo, com a tua presença. E, se pretenderes apresentar aquilo que consideres um bom contributo para esta Feira e ou para ti próprio, contacta-nos. Ainda é possível acolhermos mais gente. Agradecemos que divulgues esta iniciativa. Vale a pena. No dia 25 contamos contigo. A cooperação entre nós é necessária."
Zé Luis Felix

Michel Focault por ele mesmo (1)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

The Weight of Chains

Este é um documentário difícil de escrever, tal como o seu objecto de interesse. À primeira vista pode parecer um exercício sobre a Jugoslávia comunista, retratada com o seu sistema de saúde grátis, transportes públicos e habitações a preços razoáveis, emprego para todos, uma taxa de literacia de 91% e esperança média de vida de 72 anos, enfim… um sistema em que se produz para que todos possam desfrutar dos bens comuns. 

Mas este modelo de prosperidade em que coabitavam diferentes etnias ameaçava, das mais variadas formas, o ideal capitalista. À medida que o filme avança começamos a ver os sinais de alarme: depois de aflorados e ultrapassados os episódios da 1ª e 2ª guerras mundiais, damos connosco na Jugoslávia pós Tito e a pensar na crise, na estrutura da União Europeia, na Nato e nos Estados Unidos de Clinton e dos Bush e nos esquemas usados para arrepiar caminho por este pedaço de terra e sugar-lhe lucro. 

Daí em diante este documentário torna-se nauseante, dados os factos, os indícios e o que o subtexto diz sobre a estrutura humana e a natureza do mal. O que acrescenta sobre a resistência à guerra civil acrescenta também em relação à propaganda hardcore a incitar ao ódio entre etnias (atenção antes e depois dos 00:30 há sketches publicitários imperdíveis) Não há povo mais mártir do que aquele que ignora o direito à liberdade. Faltam palavras para ilustrar a viagem que se faz nestas 2 horas, mas parece-me importante que a façam, apesar do tom discutível do narrador e da sombra apocalíptica que paira sobre o documentário. 

O que fica é, sobretudo, a ideia de que somos uma colónia e que estamos a ser empurrados para a guerra. Não o saber, agora, pode ser bom, um sinal de que estamos a viver o momento presente (que é a única coisa que vale a pena viver), mas fica no ar que de futuro, quando aqui quisermos recuar veremos com clareza o caminho que estamos a percorrer às cegas. 


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Do 21 de Janeiro

© Sofia Silva

O novo fascismo

O novo fascismo vai ser assim: existe uma ideia a ser germinada há tempos e tempos, em livros, revistas, publicações, artigos de que poucos se tem apercebido mas eu sim, e que é a ideia genial e germinal do "bom governo". Um bom exemplo é este: http://www.clubedoslivros.org/2011/04/nobreza-de-espirito-de-rob-riemen.html. Estes tipos vão buscar a coisa ao Platão e à República, entendendo nada ou distorcendo tudo do que aí foi escrito pelo grande, genial, Platão, e colocando deliberada e vorazmente o acento na ideia do "bom governante", do "governante filósofo"; ou seja, a ideia de que precisamos de ser "governados" por gente que Sabe, por tipos que entendem as Questões da governação, por sábios, enfim, por "técnicos". E que tipo de sábios precisamos nós hoje em dia, confrontados com as assombrações fantasmagóricas, assustadoras, horripilantes do "mercado", senão os técnicos do tipo dos "gestores"?
O "técnico gestor", a forma do novo dirigente fascista, obtém a sua legitimidade não do voto democrático mas da sua essência enquanto "gestor" da situação. Os partidos "democráticos" apoiam-no enquanto governo "técnico"; e quando a coisa vai a eleições, pode-se escolher: vota-se no PS, no PSD ou no CDS, mas o "técnico gestor" nunca vai a votos. A sua legitimidade não emana do voto mas de algo muito superior: o seu carácter técnico, as suas habilidades como gestor. Ele forma governo e é primeiro-ministro não porque o povo o tenha escolhido para tal, mas porque é uma inevitabilidade; é preciso que os melhores governem o país nestes tempos de crise, e os melhores, nem há dúvida quem seja, senão os melhores gestores que há à venda no mercado. O pormenor de esses mesmos serem os tipos que governam as empresas-chave que engendraram esta derrocada do mundo ocidental, não é um pormenor. É só mais uma ilusão. Ninguém viu, ninguém soube, ninguém está a ver. O novo fascismo é mesmo assim, uma farsa no lugar de uma tragédia, " gerindo" uma tragédia ainda maior. Uma espécie de Aliança Nacional elevada à potência, com "alternativas" e tudo, como se se votasse só nas facções da Aliança Nacional, nem o Salazar alguma vez pôde sonhar com algo tão funcional, coitado.
E já está aí em marcha, não o entenderam ainda? Olhem lá para os actuais governos da Grécia e da Itália, com os seus "gestores" saídos directamente da Goldman Sachs para "gerir" o desastre. Nós também aguardamos pelo António Borges, a menos que...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Para o amante de fotografia que possa estar na dúvida...

© Jeff Wall, after "Invisible Man" by Ralph Ellison, the Prologue 1999–200

...se ir a Santiago de Compostela ver a exposição do Jeff Wall vale ou não a viagem, espero com isto dar um último empurrão no sentido de IR. A exposição "Jeff Wall: the Crooked Path" fica por mais duas semanas no Centro Galego de Arte Contemporânea. 

Ver meia dúzia das suas imagens icónicas seria suficiente para justificar a viagem, mas há mais:

Para quem nunca presenciou um Jeff Wall, o momento é especial. As histórias inacabadas ganham vida e as personagens dão mais indicações. O tamanho e as caixas de luz permitem-nos olhar para todo e qualquer pormenor, confirmando que por detrás do acto obsessivo dessa realidade ficcionada está um autor que exige o domínio de toda a mise-en-scène, assim controlando toda a estrutura narrativa e libertando-se a ele próprio no acto da leitura, de receber as imagens, de as completar, as compreender. Não há erros, não parecem haver desfoques acidentais e só nas últimas impressões a jacto de tinta pode haver algum desconforto, ainda que a ruptura seja puramente técnica. 

Para quem já viu Jeff Wall, o discurso expositivo oferece muito mais. Não só porque o percurso do autor é ornamentado e preenchido pelas obras dos seus pares, permitindo, indicando e em muito poucos casos forçando associações, mas também porque esses autores seus contemporâneas são eles mesmos pedras basilares da História contemporânea, desde a literatura à fotografia, passando pelo cinema, a pintura, a escultura, a performance e a instalação. Temos Thomas Ruff, Thomas Struth e Bustamante, Otto Schulze e Winogrand, uma prova única de Horsfield e os únicos Gursky que até hoje desfrutei de ver. Há referências a André Breton, Bergman, Duchamp e a lista de argumentos segue. 

Já a caminhar para o fim da exposição uma dupla de naturezas-mortas de Christopher Williams que nos deixam a salivar. De uma forma bem mais desajeitada, espero ter aberto o apetite. 


© Christopher Williams Bergische Bauernscheune, Junkersholz, Leichlingen 2009

Em caso de fiscalização...

Para aqueles que aderiram ou vão aderir ao boicote ao pagamento dos transportes públicos, aqui fica alguma informação útil sobre procedimentos a ter caso se deparem com um fiscal.
Informação sobre os direitos estabelecidos na lei ajudam pelo menos a fundamentar uma estratégia de acção, ainda que a própria estrutura dessa e/ou outras leis possa não ser merecedora de muito respeito.

A multa não deve ser paga!

  Os passageiros que adiram ao boicote devem ao máximo evitar a fiscalização. Aconselha-se a vigilância constante tanto nas estações como dentro do transporte para evitar os fiscais.                               

No entanto, em caso de confrontação com um fiscal :
» Não agredir verbal ou fisicamente pois o protesto é contra o governo e não contra os trabalhadores.
» Fornecer  BI e cooperar com o fiscal
» Aconselha-se o fornecimento de uma MORADA ERRADA(apenas para baralhar o sistema e dificultar ao máximo o trabalho da entidade que regula as contra-ordenações que é o IMTT)
» Os fiscais não obrigam o utente a pagar no local.

    »
A Direcção-Geral dos Transportes Terrestres e Fluviais(IMTT) é a entidade competente para a instauração e instrução dos processos de contra-ordenação.
      Esta entidade não tem autoridade para instaurar processos judiciais, nem para prender 
nem penhorar o utente.                            .

    Ou seja, caso o IMTT quisesse recorrer à justiça para cobrar a multa, teria de apresentar queixa 
contra o utente multado no tribunal. Meter acções em tribunais é extremamente dispendioso em termos 
de dinheiro e recursos Humanos.Por outro lado, os tribunais operam muito lentamente                .

    O IMTT arrisca-se a perder mais dinheiro do que o valor da multa se  abrir um processo no tribunal.                             .
    Por outro lado, imagine que fosse aberto um processo judicial; o processo prescreveria no prazo de 1 ano devido ao seu pequeno valor (ver artigo 27 DL n.º 433/82, de 27 de Outubro)

    Estão excluídas as hipóteses de penhoras ou prisão porque a multa não é crime.