terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Quarta-Feira



1 de Fevereiro na Cooperativa Cultural Popular Barreirense
Rua Miguel Bombarda nº 64
Convidados:
Luís Pais Bernardo (TIAC)
Ricardo Pais Mamede (Ladrões de Bicicletas)
Ricardo Noronha (Unipop)
Moderação:
Pedro Canário (CCPB)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Poder e a Crise


Homenagem a Focault.

O Poder é o campo e a fábrica. O Poder é o chicote e a máquina, a jorna e o salário, o crucifixo e o corão, são caravelas em demanda dos infiéis, e são os infiéis. O Poder é Sodoma e Gomorra, Abel e Caim, Moisés e Ramsés, David e Golias. O Poder é a dona-de-casa, é o papá e a mamã, a escola primária, secundária, o Poder é acima de tudo a Universidade. O Poder é o Correio da Manhã e o New York Times. O Poder é a cerveja, o café e o maço de tabaco, são as férias na neve, o BMW e o ecrã de plasma, e o que se vê nesse ecrã de plasma. O Poder é poder.

A crise é o orgasmo feminino.

Immanuel Wallerstein - China e Estados Unidos: bem além dos mitos


As relações entre a China e os Estados Unidos são uma grande preocupação dos que se preocupam com política (jornalistas, blogueiros, políticos, burocratas internacionais). A análise tradicional vê uma superpotência em declínio – os Estados Unidos – e um país que emerge rapidamente – a China. No mundo ocidental, a relação normalmente é definida como negativa, sendo a China vista como uma “ameaça”. Mas uma ameaça a quem, e em que sentido?
Alguns vêem a “emergência” da China como a retomada de uma posição central no mundo – que o país já teve e estaria retomando. Outros enxergam um processo mais recente: Beijing estaria desempenhando um novo papel nas relações geopolíticas e económicas no sistema-mundo moderno.
Desde meados do século XIX, as relações entre os dois países tem sido ambígua. Por um lado, naquele momento os Estados Unidos começaram a expandir suas rotas de comércio com a China. Enviaram missionários cristãos. Na virada do século XX, proclamaram a Política das Portas Abertas, menos dirigida para a China do que para outras potências europeias. Pouco tempo depois, participaram, com outros países ocidentais, na campanha que sufocou a rebelião Boxer, contra imperialistas estrangeiros. Dentro dos Estados Unidos, o governo (e os sindicatos) procuraram evitar a imigração de chineses.
Por outro lado, havia um certo respeito – com algumas marcas de inveja – pela civilização chinesa. O extremo leste (China e Japão) eram os locais preferidos para trabalhos de missionários, à frente da Índia e da África, com a justificativa na suposição de que a China era uma civilização “mais avançada”. Talvez a isso estivesse relacionado ao fato de nem a China, nem o Japão, terem sido directamente colonizados, na maior parte de seus territórios. Por isso, nenhuma potência colonial europeia tentou reservar os dois países para seus próprios missionários.
Depois da revolução chinesa de 1911, Sun Yat-Sen, que viveu nos Estados Unidos, tornou-se uma figura simpática no discurso estadunidense. E na época da Segunda Guerra Mundial, a China era vista como uma aliada na luta contra o Japão. De facto, foram os Estados Unidos que insistiram para que a China tivesse uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Quando o Partido Comunista Chinês conquistou a maior parte do território e estabeleceu a República Popular da China, os dois países pareciam terem-se tornado inimigos mortais. Na guerra da Coreia, estavam de lados diferentes; e foi a participação militar activa da China, ao lado da Coreia do Norte, que garantiu que a guerra terminasse num impasse.
No entanto, após um tempo relativamente curto, o presidente Richard Nixon foi a Pequim, encontrou-se com Mao Tse Tung (ou Mao Zedong) e estabeleceu uma aliança de facto contra a União Soviética. A situação geopolítica parecia dar uma reviravolta. Como parte do acordo com a República Popular da China, os Estados Unidos quebraram suas relações diplomáticas com Taiwan (apesar de continuarem garantindo que a China não a invadisse). E quando Deng Xiaoping tornou-se líder da China, o país entrou num processo de lenta abertura para operações de mercado e integração nas correntes comerciais da economia-mundial capitalista.
Embora o colapso da União Soviética tornasse irrelevante a aliança China-EUA contra a União Soviética, as relações entre os dois países não mudaram realmente. Se algo aconteceu, foi uma aproximação ainda maior. Na situação em que o mundo se encontra hoje, a China tem um superávit significativo no balanço de pagamentos com os Estados Unidos. Mas investe muito deste saldo nos próprios títulos do Tesouro norte-americano, o que permite a Washington continuar a investir grandes recursos em suas múltiplas actividades militares no mundo todo (principalmente no Oriente Médio), assim como ser um bom consumidor de exportações chinesas.
De tempos em tempos, a retórica que cada governo usa em relação ao outro é um pouco dura, mas não chega nem perto da retórica da Guerra Fria entre os Estados Unidos e União Soviética. Ainda assim, nunca é sábio prestar muita atenção à retórica. Em assuntos globais, a retórica normalmente é usada para produzir efeitos políticos dentro de cada país, e não para expressar a política realmente em relação ao país ao qual se destina.
Deve-se prestar mais atenção às acções dos dois países. Em 2001 (pouco antes do 11/09), um avião chinês colidiu com um avião estadunidense, nas vizinhanças ilha Hainan. O avião dos EUA provavelmente estava espionando a China. Alguns políticos norte-americanos pediram uma resposta militar. O presidente George W. Bush não concordou. Ele desculpou-se razoavelmente com os chineses, e o avião foi devolvido junto, com os 24 militares capturados por Beijing. Nos vários esforços feitos pelos Estados Unidos para conseguir que a ONU apoiasse suas operações, a China discordou algumas vezes. Mas nunca vetou de fato uma resolução patrocinada por Washington. A precaução dos dois lados parece ser a forma de acção preferida, apesar da retórica.
Então, onde estamos? A China, assim como todas as potências de hoje, tem uma política externa multifacetada, envolvendo-se em todas as partes do mundo. A questão é: quais são as prioridades do país? Penso que a número 1 é a relação com o Japão e com as duas Coreias. A China é forte, sim, mas seria incomensuravelmente mais forte e se fosse parte de uma confederação do nordeste asiático.
A China e o Japão precisam um do outro – primeiro, como parceiros comerciais; além disso, para assegurar que não haja confrontações militares de nenhum tipo. Apesar de surtos nacionalistas ocasionais, eles estão se movendo nessa direcção. O movimento mais recente foi a decisão conjunta de realizar as operações comerciais entre as duas partes com suas próprias moedas – eliminando o uso do dólar americano, e protegendo-se das flutuações da moeda norte-americana, cada vez mais frequentes. Além disso, o Japão começou a considerar que o guarda-chuva do exército dos Estados Unidos pode não durar para sempre; e que portanto precisa de um acordo com a China.
A Coreia do Sul enfrenta os mesmos dilemas do Japão, e ainda precisa lidar com o problema espinhoso da Coreia do Norte. Para a Coreia do Sul, a China é a força de detenção crucial sobre os norte-coreanos. E para a China, a instabilidade da Coreia do Norte colocaria uma ameaça imediata para sua própria estabilidade. A China pode desempenhar, para a Coreia do Sul, o papel que os Estados Unidos já não têm condições de exercer. E nos termos complicados da colaboração que China e Japão desejam, a Coreia do Sul (ou quem sabe uma Coreia unida) pode jogar um papel essencial de equilíbrio.
Como os Estados Unidos percebem esses desenvolvimentos, não é razoável supor que o estejam tentando fazer chegar a um acordo com esse tipo de confederação do nordeste asiático, enquanto ela se constrói? Pode-se analisar a postura militar dos Estados Unidos no Nordeste, Sudeste e e Sul asiáticos não como construção de uma posição militar – mas como uma estratégia de negociação no jogo geopolítico que está em curso e que se desenrolará na próxima década.
Os Estados Unidos e a China são rivais? Sim, até certo ponto. São inimigos? Não, eles não são inimigos. São colaboradores? Eles já são mais do que admitem, e serão muito mais no desenrolar da década.

Uma sugestão do Paulo Ferreira, retirado daqui.

Sinais

Desenho de Maturino Galvão

"Fuck you, Motherland"


O Ai Weiwei, outra vez? Sim, já sei, parece repetitivo, mas há aspectos em que é preciso insistir até que estes sejam compreendidos na sua totalidade ou, pelo menos, expo-los a isso. 

Há muito que Ai Weiwei deixou de ser só um artista e activista para passar a ser, como o próprio reconhece, uma marca pela singularidade, uma voz revigorante sempre que a paralisia toma conta de uma classe que teima em não querer apontar o dedo para não ter de se levantar. 

Ainda que no processo que conduz um artista a este tipo de exposição muito seja comprometido, este não será o caso a fazer as delícias de quem prefere olhar para um objecto pela sua forma, sem perceber o plano, que ainda não estando, o enquadra. Outros artistas há a pôr-se a jeito a isso, como o gigante Marina Abramovic que, radicado nos EUA, assume querer ser uma marca como a Coca-Cola. O papel de um e de outro, enquanto figuras de proa de autonomia emocional e intelectual, tem muitos paralelos, mas a obra sobreviver-lhes-á de modo muito diferente e será talvez aí que a questão da autenticidade presente em Ai Weiwei e ausente na Marina enquanto performer se fará valer. 

O documentário "Ai Weiwei: Never Sorry", realizado por Alison Klayman e galardoado em Sundance 2012 com o prémio especial de júri "Spirit of Defiance", acompanha-o desde 2008. Com isto, não só lhe amplifica a voz como acentua uma série de questões transversais, como a influência conseguida com a difusão na internet, a responsabilidade de um artista de ser uma voz atenta, crítica, disposta às metásteses da inquietação.

para quem mais não pode, que assista 
um vídeo para abrir o apetite aqui

domingo, 29 de janeiro de 2012

m31 - dia internacional da luta contra o capitalismo

Mais informação aqui
"Do pessimists have an ethics? If they do, do they always expect the worst, even in the face of well intentioned actions? For that matter, wouldn’t the true pessimist be unethical, precisely in the sense that they would be incapable of action? 

The problem is that pessimists still do things, even if all they do is complain. This is the double bind of a pessimist ethics – decision without efficacy, acting without believing, the abiding sense that, ultimately, everything will turn out for the worst, all will be for naught."

in  "Philosophical Doomcore", by Eugene Thacker

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Manuel António Pina - "Coragem", dizem eles


Theo Angelopoulos...

morreu hoje, aos 76 anos. Por ironia sórdida, atropelado por um polícia, de moto, enquanto rodava o seu último filme.
O "Olhar de Ulisses" foi um filme que me ensinou e me obrigou a ver tantas coisas de uma rajada só que não saberia que palavras escolher para agradecer tamanha partilha.
Que o tempo, do outro lado, corra ao mesmo vagar que este seu olhar.



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A consciência, a plenitude, o estado de alerta e, claro, o inconsciente

Parte de uma série que tenho acompanhado e onde se assiste a uma discussão sobre a mente, a massa, o cérebro, suas capacidades mas também, e sobretudo, sobre um conjunto de eventos que aparentemente constituem as fragilidades do ser humano e que aqui são muitas vezes tratados como marca de identidade. 
Porque as discussões tendem a juntar artistas, filósofos e cientistas, o objecto de estudo sai mais rico. Na rigidez do corpo é moldado um duplo corpo que desafia as regras e sobre ele assenta o problema de o próprio estar aqui ou sempre de fugida.
Um dos mais recentes episódios desta "Brain series", sendo que os outros podem ser encontrados aqui.

 dada a dificuldade em fazer upload do vídeo, fica o link na imagem.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

“O Deus da Carnificina” - Um happening retardado, ou a vingança de Polansky?


Desde a minha juventude que Polansky é uma figura incontornável do meu imaginário cinematográfico. Embora os seus últimos filmes não me fizessem colar às cadeiras do cinema como sucedia habitualmente, nem por isso deixavam de ter um nível acima da média (caso, por exemplo de O Pianista e do excelente The Ghost Writer ) e, apesar dos seus quase 70 anos, via-o como um génio maldito que iria resistir às amarguras da idade. O seu último filme, acabado de ver, suscitou-me algumas interrogações que conduziram a este breve (!) ensaio. O argumento do filme é muito simples: a partir de um desentendimento entre duas crianças num jardim nova-iorquino (?) em que uma delas acaba por sair algo machucada, todo o resto do filme desenrola-se numa troca de explicações entre dois casais muito civilizados da classe média americana, com vista sobretudo a encontrar uma forma pedagógica de responsabilizar/ culpabilizar o jovem agressor do seu irresponsável acto; todo o tempo fílmico desenrola-se no espaço algo limitado do apartamento dos pais da criança maltratada (algures num prédio central de Nova York!), onde as relações e tensão entre os casais se vão deteriorando gradualmente, transformando uma situação aparentemente simples de resolução num exercício masoquista de dissolução entre os quatro elementos (não faltando inclusive uma pequena guerra de géneros, sobretudo na fase mais alcoólica, transformando imprevisivelmente os maridos em aliados casuais face às respectivas esposas, aparentemente mais vulneráveis aos poderes do whisky de 18 anos). Trata-se, em certa medida, de um regresso à técnica do happening, que fez história nos anos 60 no cinema, e principalmente no teatro e na literatura (as peças teatrais de Sartre, que na altura fizeram grande furor, assentavam todas elas na estratégia do “huis-clos”); inspirada nas ideias terapêuticas de um psicólogo famoso na época, Jacob Moreno, e vista como alternativa à decadente e “burguesa” psicanálise freudiana, uma das técnicas do happening consistia em encerrar os actores em espaços mais ou menos fechados onde, a partir de situações imprevisíveis e espontâneas, se despoletava um psicodrama que os fazia sair das suas mascaras/defesas e, normalmente num contexto de tensão crescente, exporem as suas verdadeiras naturezas psico-motoras e sociais. Se no âmbito da prática clinica ela tinha em vista uma catarse libertadora de tensões reprimidas (Moreno foi o inspirador das psicoterapias de grupo), na cena artística dos anos 60 tinha por alvo principal desmascarar a moral burguesa, ridicularizando as suas falsas e reaccionárias (em linguagem revolucionária da época) convenções. Polansky, no início da sua carreira, e sem ser um ortodoxo, recorria com frequência a aspectos de este tipo de técnica, casos de “Faca na Água”, “Beco”, “Inquilino”, “Repulsa”.
A questão que se coloca agora, a propósito do filme em causa “Deus da Carnificina”, e quando tal técnica entrou há muito em desuso, trata de saber se, passado 40 anos dos libertadores anos 60/70, será ainda muito premente fazer da desconstrução da moral burguesa um grande alvo de ataque. Creio que não, e que a verdadeira intenção do filme oculta uma pequena maldadezinha pessoal do realizador em relação à América e ao seu sistema judicial, que não desiste de o trazer de volta, a fim de cumprir a pena por um acto praticado há mais de 40 anos num contexto social e de mentalidades completamente diferente do de hoje, transformando-o num bode expiatório dos seus vícios privados. Ainda há pouco tempo foi alvo de um processo vexatório na Suíça aquando da mais recente tentativa de o extraditar para os EUA, onde seria com certeza atirado aos bichos. Logo no início do filme intrigou-me um aspecto, para o qual não vi ainda qualquer referência da crítica: estando há muitas décadas proibido de pôr os pés na América, vivendo e trabalhando em países (França e Inglaterra sobretudo) fora da alçada de uma eventual e persistente extradição judicial, é estranho que toda a acção do filme se desenrole numa cidade do país que o remeteu à condição de acossado até morrer. Apesar da cena inicial das crianças localizar-se visivelmente num parque nova-iorquino, julguei que rapidamente a trama do filme fugiria para paragens mais acolhedoras ao realizador (creio que não mais filmou nos States depois do rocambolesco processo judicial); mas enganei-me, o filme continuou até ao fim na mesma cidade/território americano, apesar de ser perfeitamente indiferente à história em causa desenrolar-se aí, ou noutra qualquer cidade da Europa . É impossível que este aspecto não deva irritar solenemente as autoridades mais zelosas dos EUA, e daí ver neste filme uma vingança subtil de Polansky para com aqueles que fizeram dele o inimigo das publicas virtudes americanas. Estaria também assim explicada a opção pela referida técnica do happening (tudo se desenrolar num espaço minúsculo e fechado, facilmente concretizável em qualquer estúdio do mundo).*Quanto ao filme propriamente dito: vê-se com agrado, tem alguns momentos conseguidos de sarcasmo, mas sem deslumbrar, não acrescenta nada à sua longa e extraordinária filmografia, porventura o menos importante. Julgo que a intenção era outra.


*Quanto ao filme propriamente dito: vê-se com agrado, tem alguns momentos conseguidos de sarcasmo, mas sem deslumbrar, não acrescenta nada à sua longa e extraordinária filmografia, porventura o menos importante. Julgo que a intenção era outra.


Paulo Ferreira

Sinais

Desenho de Maturino Galvão

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Carta de José Mário Branco ao 15 de Outubro




Tenho acompanhado com interesse, evidentemente, todas as tentativas e experiências que têm vindo a ser feitas por todo o mundo na sequência da "primavera" do Cairo. Mas na minha experiência há um sarro do passado.
Meti-me na política aos 17 anos, estive preso pela PIDE, fugi para França em 1963 e voltei em 1974. Desde 64-65 e até há poucos anos, estive sempre ligado à extrema-esquerda de inspiração maoista. Como não sou realmente um político, mas sim músico, letrista e cantor, nessas pertenças e fidelidades fui sempre guiado por duas coisas:
- os grandes valores que, num artista, naturalmente convocam um lastro de radicalidade e, por outro lado,
- a fidelidade a homens políticos cujos escritos e posições públicas me foram parecendo melhor exprimir politicamente essa radicalidade.
O que me levou a ir entrando e saindo de colectivos onde me sentia em casa. Mas como afirmei pouco antes de deixar o último, que ajudei a fundar: "eu nunca saí de partido nenhum, os partidos é que foram saindo de mim".
As organizações políticas em que participei foram saindo de mim por duas razões principais, e supostamente opostas embora me pareça que são a mesma razão com sinais inversos, razões essas que nada têm de novas porque já vêm desde o último quartel do séc. XIX:
- ou perderam em radicalidade o que ganharam em "realismo", que é o eufemismo que usam para designar a capitulação e a adaptação ao capitalismo;
- ou se confinaram e estiolaram em pequenos grupúsculos, seitas e partidecos que, perdendo o contacto com o real, se satisfazem autofagicamente a proclamar verdades definitivas, directivas infalíveis para as massas e são totalmente incapazes de viverem hoje do modo como dizem querer que seja a sociedade de amanhã, prefigurando-a desde já em si mesmos.

A história da Praça Tahrir é diferente, e eu, que vivi o Maio 68 em Paris e o PREC em Portugal, regozijei-me, como toda a gente de bem, por mais uma queda de um ditador conseguida pelo clamor e pela coragem das ruas. Tempos novos, formas de luta novas.
Tenho tentado reflectir sobre isso e o seu alcance, à luz da única coisa que mantenho bem viva: a minha recusa da iniquidade do capitalismo, a minha exigência de "outra coisa" que "essa é que é linda" (ver, por exemplo, http://passapalavra.info/?p=40478).
Mantenho também um interesse continuado - mas forçosamente à distância - pelos poderosos movimentos sociais de base do povo pobre do Brasil, da Argentina, do México, e de outros países, que têm vindo a lutar por coisas essenciais como terra para cultivar, tecto para se abrigar, direito à água, à cidade, ao trabalho, ao descanso, etc.
Estes, só posso segui-los à distância porque, em Portugal, há tanto tempo que não há nada que se pareça; o povo parece apático, cheio de medo, sem raiva nem desconcerto, sempre bem enquadrado por uma elite de burocratas que há 30 anos o fazem gritar que "o custo de vida aumenta, o povo não aguenta" e a classe dominante a rir-se lá em casa respondendo "aguenta sim senhor, a prova é que gritam o mesmo há 30 anos!".
Convenço-me de que, neste longo caminho aos sacões, deixou de haver - por muito tempo - lugar para generalidades, para proclamações (gerais), para grandes desígnios colectivos. Há lugar, sim, para lutar começando pelo que está perto, pelo que está em baixo, pelo que está agora: o que está mal na minha casa, no meu prédio, no meu bairro; o que está mal na minha empresa, onde por definição não existe democracia, mas que é o centro da minha sobrevivência; na minha escola, seja eu aluno (força de trabalho em formação) seja eu professor (formador de força de trabalho), aquele o produto, este o produtor. Um período que será longo, de lutas defensivas e de lenta reacumulação de forças. O selo de qualidade daquilo a que se chama "lutas" é agora, para mim, a sua concretude, porque a maior parte daqueles que se dizem militantes confundem acção com actividade - e não é de agora.

Plataformas como a 15O são somatórios que só podem ter o peso que é, no melhor dos casos, a soma do peso das suas parcelas. O mesmo direi do que poderão ser o 21 de Janeiro e outras datas afins. O grande erro - parece-me - é que quase toda a gente pensa "o que é que eu vou lá buscar?", quando deveriam pensar "o que é que eu vou lá levar?". É como nos grupos artísticos: a criação colectiva resulta do que se vai pondo na cesta comum ao longo dos dias, esses dias em que parece não se passar nada. É esta a minha visão, completamente wilhelm-reichiana.

E isto passa-se mais assim nas revoltas de "classe média" do que propriamente nas revoltas dos pobres-mesmo-pobres. E acho que percebi porquê. É que, contrariamente aos pobres cuja vida toda é dar sem receber, as "classes médias", que têm ainda muito a perder, não sabem como se pratica o verso de Fernando Pessoa: "Só guardamos o que demos". Duvido até que o compreendam. Por isso "vão lá buscar", em vez de "irem lá levar".

Para o capitalismo, ou antes, para os capitalistas, a produção de bens imateriais (serviços, cultura, lazer) tornou-se desde há muito uma produção em massa para uma massa de consumidores (que são, em grande parte, os seus produtores), como se fossem pão, detergentes, casas ou carros. Mas a "classe média", que está a sofrer um lento processo de proletarização, tem vindo a ser proletarizada (incluindo os profissionais liberais - advogados, médicos, professores, artistas plásticos ou performativos) mas ainda não teve tempo nem experiência para deixar de ser pequeno-burguesa - individualista, idealista, socialmente apática e pusilânime.

[NOTA: eu não estou a afirmar que os proletários têm consciência proletária, bem pelo contrário, infelizmente a esmagadora maioria deles está também impregnada de uma cultura e de uma moral burguesa que lhes é injectada em doses cavalares a toda a hora; mas a própria vida prática se encarrega de lhes tornar evidente a classe a que pertencem; só que, não vislumbrado como sair disso, não se arriscam.]

Daí que, nas acampadas, haja aquele ar de carnaval sociocultural, onde se fala de coisas muito sérias, o que é bom, mas onde o carburante são as palavras em si mesmas, e não o gesto. Não é radicalidade, mas sim e apenas uma transgressão, uma aparência de radicalidade. Vou para o meio de uma praça, levo à boca as mãos em concha e grito "Quero mudar o mundo!"; mas as formiguinhas vão passando de lado, no seu afã de escravas; só fica, eventualmente, quem não precisa de fazer o gesto imediato da sobrevivência. Passe a conversa à Raúl Brandão... mas estou enganado?

O meu tema actual - que, como a palavra indica, está cheio de promessas - é o vazio. "Le creux de la vague". Não, ainda, o súbito recuo do mar na praia antes do tsunami, mas um intervalo côncavo de duração não mensurável entre dois ciclos históricos. Não creio que se possa descer mais fundo, e isso dá-me esperança. É preciso que a juventude "média" dê o salto para o lado de lá, onde estão os pobres a sofrer, muito calados, sem (des)tino. "Vou ao fundo da lama / Do outro lado / Do outro lado da mente / Do outro lado da gente / Do lado da gente do outro lado / Do lado da gente que vive de frente / Da gente que vive o futuro presente" (Margem de Certa Maneira, 1972 (!!!)).

Por isso... talvez apareça, não prometo. Estou a tratar do que está aqui perto: fazer música e mais música, inventar novas canções, novos espectáculos, ajudar outros músicos a serem melhores. Ler e ouvir música. Cantar de vez em quando as canções que tenho para dar ao público. É isso.

José Mário Branco, músico e poeta

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A arte de sofrer

THE ART OF SUFFERING, by Pascal Bruckner, from Perpetual Euphoria: On the Duty to Be Happy, 
published by Princeton University Press Translated from the French by Steven Rendall. 

“There is a terrible blindness in happiness. Just as trash, in the consumerist universe, ends up invading every space and reminding us of its existence in countless nauseating ways, so suffering, unable to express itself, has begun to proliferate, increasing our awareness of our vulnerability. The West’s error, in the second half of the twentieth century, was to give its people the mad hope that an end would soon be put to all calamities; famines, poverty, disease, and old age were supposed to disappear within a decade or two, and a humanity cleansed of its immemorial ailments would appear at the gateway to the third millennium having proudly eliminated the last traces of hell. Europe was supposed to become, as Susan Sontag put it, the sole place where tragedies would no longer occur. 
(...)
Democracy is ambivalent about suffering; because it rejects suffering, suffering is made the basis of rights that are always being newly discovered. Democracy’s great issues are first of all negative: reducing poverty, putting an end to inequality, fighting disease. A contradiction inheres in the designation of the problems we are trying to do away with: if all suffering gives someone a claim to a right and provides a foundation for the latter, physical and psychological pain gradually becomes the measure of all things. What was previously seen as a matter of course is now seen as unjust, arbitrary.” 

Salvé 2012! Saravá país de emigrantes!

Tenho andado muito calado, mas há algumas boas razões para isso. Primeiro, aquelas com as quais vocês, meus milhões de leitores órfãos de guia, não tem nada a ver; e depois, o facto de me faltar um vinho tinto à altura do acontecimento que é escrever neste blog. Pois isso está remediado, já que me foi dado a beber um Quinta do Crasto Vinhas Velhas 2008, que me fez subir a inspiração e a vontade de comunicar. Não que exista nada de especial para comunicar. No caso, apenas que farto de balanços de 2011, aqui venho, pelo contrário, anunciar o ano da redenção: 2012. O ano em que qualquer português com dois dedos de testa e uma licenciatura e um mestrado tem um caminho muito lógico a percorrer: fugir desta choldra, e tentar a sua sorte noutro sítio qualquer, de preferência um em que se fale uma língua muito esquisita que não domine, porque o mundo é dos aventureiros e os portugueses são mestres em aventuras, ou não fosse este o país que deu novos mundos ao mundo à conta da fome em solo pátrio (sim, os descobrimentos). Enfim, pelo menos o vinho nacional está cada vez melhor, mas graças aos mecanismos da globalização também isso pode ser remediado num desses países em que se falam as línguas que não domino, já que hoje em dia se faz vinho bom em quase todo o lado. Vamos em frente, Portugal, que 2012 será um desses anos, tipo 1498, em que se verão portugueses ao monte a chegar à Índia, desta vez não aventureiros-piratas de espada em punho, mas técnicos de Informática. Ou 1484, mas em vez do Diogo Cão nas costas de Angola, construtores civis e electricistas. Ou 1500, mas em vez do Álvares Cabral implacável com os gentios, gestores e CEOs implacáveis para com a concorrência. A mim, excitam-me estas novas oportunidades, e dou graças a Deus e ao meu bom povo por ter posto no governo uns tipos como os que lá estão, que tem a coragem e o bom senso de identificar este desígnio nacional de dar novos mundos aos portugueses, e de em coerência nos aconselhar a emigrar. Mas descansem, leitores: emigrado ou não, vou continuar a aparecer por aqui, para espalhar a boa nova. Desde que o vinho seja bom.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Adeus a 2011


2011 foi o ano em que, para além da angústia anteriormente experimentada mas mais dificilmente compreendida, a realidade sócio-económica entrou pela minha vida adentro e me confrontou, com mais crueldade e firmeza que nunca, com a injustiça dos mecanismos da sociedade moderna. Talvez pelas suas causas nefastas, cada vez mais presentes no meu quotidiano, talvez pela coincidência de em anos anteriores me ter fascinado cada vez mais pela a origem e o significado da Condição Humana, a necessidade de respostas foi o que mais regeu o meu ano de 2011. Neste contexto fui levado a envolver-me nalguns momentos que me deram a conhecer diferentes pessoas, cujo espírito se mantém exaltado pelos mesmos motivos. Este foi o ano em que participei na chamada Acampada do Rossio. Me entusiasmei, me entediei e me desiludi. Foi o ano em que vi a Avenida da Liberdade cheia por diversas vezes e quis crer na existência de pessoas auto-determinadas e inconformadas e me voltei a desiludir quando a roda-viva das eleições me mostrou cabalmente que enquanto durar o circo político irá manter-se condenada a vida pública a uma espécie de beco sem saída. Foi o ano em que busquei por isso outras realidades. Fui encontra-las nos livros, nas reuniões espontâneas ou organizadas. Com amigos e com desconhecidos. Com pessoas que percebem muito e com pessoas que se desunham para tentar perceber alguma coisa. Foi o ano em que encontrei no RDA pessoas das duas estirpes. Em que me tentei debruçar sobre as insurreições passadas, noutros países, noutros períodos históricos. Da comuna de Paris ao anarco-sindicalismo da Barcelona debaixo de guerra civil. Na incrível coincidência da nossa realidade com a realidade dos povos argentino ou grego. Foi o ano em que tentei decifrar mais um pouco da obra de Proudhon, em que me embrenhei apaixonadamente nas palavras de Kropotkin e Emma Goldman, em que me sonhei com o espectador emancipado descrito por Rancière. Em que quis perceber porque é que a retórica da classe operária deposita tanta fé na Greve Geral e também os motivos pelos quais o seu impulso revolucionário se encontra circunscrito a uma existência meramente mitificada.

Mas também foi um ano de música. Foi o ano em que um seguidor meu, tão a propósito, falou das coincidências da minha música com a música de Gurdjieff e descobri assim a sua obra. Foi o ano em que me arrepiei com Valentin Silvestrov e o seu Requiem for Larissa ou me fascinei com a imensurabilidade da obra de Toru Takemitsu, em que tremi a ouvir as interpretações de Introitus e Am Rande des Abgrunds de Sofia Gubaidulina, durante um ciclo seu no CCB. Foi o ano em que vi o Schlippenbach numa sala apertada de paredes de tijolo no Barreiro, e pensei que estava dentro de um livro do Kerouac, não era verdade porque a asséptica lei anti-tabaco não ajuda ao romantismo da coisa. Foi o ano do Tilbury no Maria Matos e da primeira audição ao vivo do Prélude à l’après-midi d’un faune pela Orquestra Sinfónica da Casa da Música. O ano em que voltei a estar perto do sítio onde estive quando os Konono nº1 tocaram no Jardim Botânico, apenas desta vez estava mais perto do mar, e ao lado das Kalimbas havia agora mais guitarras eléctricas e três baterias e já não me lembro quantos músicos em palco. Mas sem dúvida que me recordei que a simplicidade é o âmago da questão. O ano de vibrar com música realmente vibrante em Lisboa dos incontornáveis Hernâni, Sousa (o outro), Ferrandini, Norberto, Sei Miguel, Rodrigo o Amado e o Pinheiro, Silva, Maranha, Mota, e mais uma porrada de outros nomes que agora não me ocorrem mas que sei que quando publicar este post me vou mutilar por não ter escrito. Foi o ano em que achei que dificilmente iria existir uma banda Pop mais perfeita que os Animal Collective e em que dei graças por ter provado uma porrada de cervejas novas e ter visto o Panda Bear na cidade fria de Bruxelas. E depois, calcorreei a mesma cidade fria a pé, por cerca de 50 minutos, por que já não havia Tram e fui teimoso demais para apanharmos um táxi. Foi o ano em que corri o país com o meu amigo Baltazar e Ricardo e nos rimos bastante, riu-se menos o Baltazar porque agora tem um puto pequeno e já não acha muita piada a ficar a pé até altas horas. Valoriza mais o seu sono tranquilo. Foi o ano em que vi, alguns, amigos a sair do país, e vi outros, menos, a voltar.

Foi o ano em que me desloquei mais vezes do que antes à cinemateca para tentar sorver a realidade perspectivada pelos grandes do cinema. Em que o discurso do personagem Albert Lory me alertou para a ideia peregrina de que “A sabotagem é a derradeira arma de um povo derrotado”. E, falei com tanta emoção deste filme que acabei por recebê-lo num DVD dentro de um saco de plástico mal embrulhado para que não mais me esqueça da sua importância. Foi ano em que busquei as imagens belas de Tarkovsky, em que encontrei os meus 15 minutos de filme preferidos no início do Hiroshima Mon Amour, e o meu diálogo preferido no início do Le Mépris (totalement, tendrement, tragiquement), e em que me perdi em discussões inconsequentes sobre a duração do La Dolce Vita.

Sem dúvida que foi um ano em que comecei muita coisa e acabei tantas outras. Mas as coisas que acabei, sei que fazem parte do que me constitui e as coisas que tenho pela frente são o motivo pelo qual ainda vou acreditando que apesar de toda esta borrada que é a civilização moderna, ainda vale a pena tentarmos fazer alguma coisa de útil e deixar um mínimo contributo para o grão de areia que é a nossa existência no universo.

Tiago Sousa

Sinais

Desenho de Maturino Galvão

Correio Interno - Um balanço de 2011 (3)


André,

            A fé nos líderes, em Portugal, é um cimento estrutural, um betão armado pela comunidade para trepar no andaime do progresso, bem-estar e acepilhar o cartão de crédito no El Corte Inglés. Aqui “onde a terra se acaba e o mar começa e onde Febo repousa no oceano”, antes de o mar começar e mesmo que Febo ressone há lugares sagrados de fáceis acessibilidades – verniz moderno, culto, educado, da velha palavra “acessos”, de Sá de Miranda: “como eu vi correr pardaus / Por Cabeceiras de Basto, / Crescer em cercas, e em gasto / Vi por caminhos tão maus, / Tal trilha, e tamanho rasto” – lugares fortes de sacralidade que o povo “acessibiliza” num instante, chamados Estádios de Futebol. Neles o líder é o arquétipo do país. Gilberto Madaíl, um velhote savant de coisas da bola, sobre Paulo Bento, treinador da seleção nacional: “sempre me impressionou o seu carácter, a sua forma de liderança”. António-Pedro Vasconcelos, um velhote savant de coisas da bola, sobre o mesmo tópico ou temática: “é o meu seleccionador, pessoalmente, uma vez que sou comentador desportivo, dá direito a todo o meu apoio”.
Aquando da queda do Governo, os líderes rodopiaram como carrinhos de choque numa feira popular. Jorge Lacão, ministro dos Assuntos Parlamentares, balanceia: “todos acabaram de ver o que ocorreu agora na assembleia da República. Uma coligação negativa…”. “Coligação negativa”, será um ding-a-ling, um penduricalho, na boca socialista por umas semanas, para acomodar, no cérebro, o acontecimento traumático (partidário) da queda do Governo (da cor). Ainda em Abril, no XVIIº congresso do PS, se ouvia esta bonita expressão que no goto caíra.
Do lado da oposição fervia-se outro leite, líquido mais científico, dessa ciência, soubesse a Maya e dela teria linha de valor acrescentado para previsões, a Ciência Económica. A conceituada Manuela Ferreira Leite, que para o mundo quando seus lábios movem, moveu os lábios: “eeee não penso que o ponto essencial, neste momento, seja o que vai ser compreendido (pelo povo), aquilo que foi aqui bem dito, e expresso, é que eeeee o Governo perdeu a confiança, e isso está absolutamente traduzido diariamente na forma como os mercados reagem, a despeito de todas as medidas que têm ‘tado a ser tomadas”. E reforçou a viga do seu telhado económico: “os mercados não reagem a um Governo no qual não confiam”.
Passos Coelho, o líder da oposição, posiciona-se: “quero fazer uma brevíssima declaração para dizer ao país e aos portugueses, que a crise em que Portugal tem vivido, de há muito tempo a esta parte, será enfrentada com determinação por todos nós. Chegamos a um período em que os mercados não têm confiança em Portugal”. As duas entidades, país e portugueses, premiarão essa vontade de determinação com o cargo de primeiro-ministro. Outro líder do arco da governação, Paulo Portas também se posicionou: “Portugal tem que pagar o que deve; pôr a sua economia a funcionar; sanear as finanças públicas e evitar a exclusão dos mais desfavorecidos”, e os devedores, os patrões, os trabalhadores, os desfavorecidos premiar-lhe-ão com um cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros.
A revolução portuguesa não virá de mais um infante D. Henrique crente em rios de ouro na costa africana, nem de uns pastorinhos crentes numa azinheira coscuvilheira, nem de militares crentes nas Pandur, virá dos Estádios de Futebol. Deles virão baionetas nuas de cravos para enterrarem na chicha da mudança. Particular, em inocentes jovens, Raffaella Fico: “perdi a virgindade com Ronaldo”, e universal, em sábio povo: “em tempo de guerra todo o buraco é trincheira”. As eleições no Sporting, dia 26 de março, são um exemplo da polvorosa revolucionária que depredará o país se o “limite dos sacrifícios” for transbordado (ainda está muito longe). Houve cânticos de “Lopes Godinho vai pró cara%&” e porrada entre os fãs de Bruno Carvalho e os fãs de Lopes Godinho, vencera o candidato desvalorizado pelas sondagens. Bruno Carvalho, o líder derrotado, acalmava: “calma! calma, calma!! calma!! deixem-me … oiçam, oiçam, oiçam, oiçam, por favor, todos … nós estamos em cima das coisas, vamos ver o que é que se passou e eu explico…”. Foram todos para casa, xixi, cama, a panela de pressão descomprimiu, ele não explicou, mas foi um bom ensaio do poder de adunar dos líderes. Os mercados estão avisados, se continuarem a não ter confiança em Portugal.


Um abraço,  
Maturino Galvão  

P.S. - Isto afinal ainda não saiu do mês de março, e nem sequer passou pelos acontecimentos no mundo, e houve alguns muito importantes como o ataque de tusa de Strauss-Kahn e os pepinos espanhóis, veremos se tenho tempo para continuar.