quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sustentabilidade e "empobrecimento"

Uma das novidades do tipo de organização que se tem procurado fazer um pouco por toda a parte, e à qual nós aqui damos o nosso modesto contributo, é a de tomar em consideração a questão da sustentabilidade, rejeitando de algum modo o consumismo exacerbado. Esta assunção em nada é contraditória com a defesa do que se tem chamado de "direitos adquiridos" (eu não gosto desta terminologia; prefiro chamar-lhes "direitos", e pronto). Os responsáveis pelo ataque a estes direitos são ao mesmo tempo os que mais contribuem para a perpetuação do tal modo de vida insustentável, e os que mais defendem (porque tem a ganhar com isso) o consumismo e a loucura de uma economia baseada em comprar tudo e deitar logo tudo fora. Vide por exemplo a dependência do petróleo, e o facto de hoje, toda a gente saber que as soluções ecologicamente mais viáveis, economicamente mais razoáveis, e mais, que reduzem drasticamente a dependência dos estados a das pessoas face aos humores dos mercados, não são postas em prática ou sequer incentivadas devido aos interesses que os actuais modos de produção de energia movem, e aos lucros que originam. Não tenho qualquer dúvida de que a rejeição deste modo de vida irá levar a um relativo "empobrecimento", que terá de ser acompanhado por um novo paradigma na produção e no consumo, mas é preciso entender o que isto do "empobrecimento" quer dizer; se se entender "empobrecer" por ter uma televisão em vez de três, ou ir cultivar legumes em vez de os tirar da prateleira de um supermercado, eu posso chamá-lo assim. Macroeconomicamente, se isso quer dizer baixar até algo drasticamente o PIB, com certeza. Mas o PIB, ou os indicadores de consumo, são medidas da riqueza a priori distorcidas, por serem aquelas que interessam ao sistema de produção-lucro-consumo. Há outras maneiras de medir a "riqueza", e mais importante, o bem-estar dos cidadãos, como têm provado economistas que não são os-mesmos-de sempre-da-situação-que aparecem-em-todos-os-programas-televisivos. E há algo, a meu ver, ainda mais importante: a construção de um modo de vida mais razoável e sustentável, e que tenha em consideração os interesses das pessoas, só pode acontecer se se puser em causa de uma vez por todas o dogma do lucro e os mecanismos de acumulação do capital. Se se deixa de comprar playstations, isto provoca o desemprego a milhares de pessoas; ora, se isto não for acompanhado de uma lógica diferente de redistribuição da riqueza, se o dinheiro permanecer nas mãos de uns poucos, isto vai originar miséria a rodos. Para que uma coisa destas funcione, é preciso acabar com a acumulação desenfreada, em especial aquela que não tem origem em qualquer coisa que seja produtiva. Podemos viver melhor, com menos dinheiro no total (menos PIB, lá está) desde que o dinheiro que exista, enfim, os bens que são produzidos, sejam orientados para o interesse geral, através de um mercado que não permita a especulação, mas sim a troca livre e justa. Concluindo: acabar com o capitalismo e substituí-lo por outra coisa qualquer que realmente funcione para toda a gente e não só para uns quantos (eu tenho um nome para isto, e não é especialmente novo, mas prefiro não o colocar aqui, para não nos desviarmos do assunto).

1 comentário:

cocatuga disse...

Poderia começar-se pelo Direito Financeiro e Fiscal, eliminando a quase totalidade das contribuições, impostos e taxas e criando um imposto geral e progressivo incidente sobre a riqueza individualmente apropriada, no caso de residentes no território nacional e sobre os capitais que cabem a proprietários e investidores, sigulares e colectivos, residentes no estrangeiro ou de qualquer forma exportados. Por outro lado a despesa do Estado teria de ser completamente redefinida na lei orçamental para tomar à letra a Constituição, sendo o espírito e a prática da aplicação do dinheiro dos contribuintes o sustentáculo do sistema de educação e ensino, da investigação, da cultura, da saúde, da habitação social, das obras públicas com relevância económica e de integração do todo territorial, bem como da segurança social, deixando de haver solidariedade intergeracional, cabendo ao Estado zelar pelos desprovidos. Teria de haver a extinção das forças armadas e a completa reestruturação das polícias.