terça-feira, 29 de novembro de 2011

assim se faz



Vi recentemente este retrato de acções directas por um grupo de ativistas ambiental (e anti-capitalista e defensor da autonomia e auto-gestão, etc) que elogio pela clareza de ideias, pela crueza da descrição e por conseguir evitar as armadilhas da valorização exuberante de determinado tipo de comportamento; por fazer sobretudo o elogio do conhecimento, conseguindo assim estabelecer os paralelos desejados entre teoria e acção.

Independentemente dos meios de que cada um dispõe, o documentário faz um apelo conciso e despretensioso à desobediência civilizada, explicando estratégias de organização e apontando algumas diferenças entre o que define uma acção e/ou tomada de posição com consequências directas e os problemas que podem advir de manifestações e atitudes que não pretendem chegar a lado algum.

Apesar do filme não ter conseguido ainda distribuição, no seu espaço online é sugerido que a distribuição seja feita livremente nas acampadas de todo o mundo, tal como foi feito em Londres. Legalidades à parte e porque o mais importante é que a mensagem circule, aqui fica um link de acesso marginal. Quem se revir que divulgue!

Laura Nadar

Comunicado dos advogados dos detidos a 24 de Novembro

COMUNICADO SOBRE OS ACONTECIMENTOS DO DIA DA GREVE GERAL DE 24 DE NOVEMBRO DE 2011
Considerando a manifestação de 24 de Novembro em Lisboa, dia de greve geral, os momentos de brutalidade policial que aí ocorreram, a difusão mediática destes acontecimentos e a natureza das acusações formuladas contra os manifestantes, sentimo-nos obrigados a reclamar o “direito de resposta” para impedir a calúnia gratuita e a perseguição política.
Acreditamos, por aquilo que vemos, ouvimos e lemos todos os dias, que a televisão e os jornais são poderosos meios de intoxicação, de controlo social e de propagação da ideologia e do imaginário capitalista. A maioria das vezes recusamo-nos a participar no jogo mediático. Desta vez a natureza e gravidade das acusações impele alguns de nós a escrever este comunicado. A leitura que fazemos da realidade e daquilo que é dito sobre os acontecimentos do dia da greve geral tornam evidente que:
I. Está em curso acelerado a mais violenta banalização de um estado policial com recurso a agentes infiltrados, detenções arbitrárias, espancamentos, perseguições, bem como a justificação política de detenções e a construção de processos judiciais delirantes sustentados em mentiras.
II. Sobe de escala a montagem jornalístico-policial que visa incriminar, perseguir e reprimir violentamente – veremos mesmo se não aprisionar – pessoas que partilham um determinado ideário político, pelo simples facto de partilharem esse ideário. A colaboração entre jornalistas e polícias na construção de um contexto criminalizante tem o seu expoente máximo nas narrativas delirantes da admirável Valentina Marcelino do Diário de Notícias e das suas fontes, como José Manuel Anes do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo.
III. A participação na construção deste discurso por parte de inúmeras instâncias de poder, desde sindicatos e partidos até ao mais irrelevante comentador de serviço, cria o clima ideal para que o anátema lançado sobre os “anarquistas” ou os “extremistas de esquerda” ajude a legitimar a montagem de processos judiciais, a invasão de casas, as detenções sumárias. Ao contrário do que a maioria pensa, são realidades com as quais convivemos há já algum tempo.
Por isso mesmo, vimos deste modo dar a nossa versão do que aconteceu no dia 24 de Novembro. Sendo que acreditamos que estamos especialmente bem colocados para falar do que aconteceu porque criámos um “Grupo de Apoio Legal”, que acompanhou a manifestação e está a procurar defender judicial e publicamente os detidos nesse dia por forças da ordem pública.
Fazemo-lo não por se tratar de companheiros “anarquistas”. Aliás, não só nenhum deles se conhecia entre si antes de ser detido, como nenhum de nós conhecia previamente nenhum dos detidos – a própria polícia será testemunha de que nem sabíamos os seus nomes.
Fazemo-lo porque – ao contrário dos sindicatos – consideramos que é nossa responsabilidade, enquanto indivíduos lúcidos, activos e organizados, apoiar e mostrar solidariedade com todas as pessoas que se juntam a uma greve que nós também convocámos. Sobretudo para com aqueles que foram vítimas de repressão e perseguição na sequência desse dia.
Temos por isso acesso aos processos e estamos neste momento a reunir provas e testemunhos que possam repor a “verdade legal” que, sabemos já, chegará tarde de mais para ser atendida pelos ritmos e critérios jornalísticos. Sobre o que aconteceu no dia 24 Novembro em São Bento temos testemunhos, vídeos e fotos que documentam o seguinte:
_Não sabemos exactamente o que aconteceu nos segundos de agitação em que as grades de contenção foram derrubadas. Infelizmente não estávamos no local e não pudemos participar. Sabemos apenas que, na sequência dessa confusão, um grupo de três polícias infiltrados apontou um alvo, num canto oposto a onde se deu o derrube (na rampa junto à Calçada da Estrela). Esse alvo era um rapaz de 17 anos, estudante no Liceu Camões. Poucos minutos depois, já fora da manifestação e em plena Calçada da Estrela, os três homens não identificados abordaram o rapaz e enfiaram-no num carro sem anúncio prévio de detenção. Várias pessoas, entre elas alguns colegas e professores, manifestaram-se contra essa detenção, aparentemente injustificada. Mais tarde, outro homem com cerca de 30 anos é detido de forma idêntica.
_Pode-se ainda observar claramente em vários vídeos que as três detenções que tiveram lugar no local onde as barreiras policiais foram derrubadas foram levadas a cabo por agentes não identificados que entraram no corpo da manifestação para deter, arrastar e algemar sem qualquer aviso os manifestantes. Segundo as leis que os próprios dizem defender, qualquer detenção com estas características tem um nome: sequestro.
_Já no fundo da Calçada da Estrela, três jovens dirigiam-se ao Minipreço da Rua de S. Bento quando um grupo de quatro homens que não se identificaram como agentes policiais, agarrou um deles e o encostou à parede. Enquanto um dos agentes à paisana afastava os outros dois, um rapaz com 21 anos de origem alemã era agredido brutalmente, como foi testemunhado por várias pessoas e registado em vídeo. Tudo indica que o agente que a polícia diz ter sido ferido se magoou na sequência desta detenção ilegal no momento em que o rapaz alemão procurava resistir a uma agressão sem sequer perceber ainda o que lhe estava a acontecer. A polícia veio mais tarde justificar a sua acção pelo facto de o rapaz ser perigoso e procurado pela Interpol.
Parece-nos da ordem do fantástico que todos os jornalistas e comentadores que se pronunciaram sobre o sucedido pareçam acreditar que um juiz de instrução possa libertar imediatamente alguém procurado pela INTERPOL.
O que para nós fica claro, após os acontecimentos descritos, é que se preparam novos métodos de contenção social e se assiste a uma escalada na repressão de qualquer gesto de contestação.
Neste contexto, o anúncio de que o ataque às montras de repartições de finanças foi obra de “anarquistas extremistas” é o corolário de uma operação que visa marginalizar e criminalizar toda a dissidência e toda a oposição activa ao regime que se procura impor. Não é apresentada nenhuma prova, nenhum indício que sustente sequer uma suspeita, quanto mais uma acusação.
Tornou-se uma evidência nestes anos de crise que os Estados e os seus gabinetes de finanças, têm em curso um roubo organizado das populações, através de impostos que servem em grande medida para cobrir os grandes roubos nas altas esferas do poder e da economia. Neste sentido, a criminalização dos anarquistas, e a sua identificação como o inimigo interno, serve sobretudo para isolar esses acontecimentos do crescente sentimento de revolta e da tomada de consciência social que atravessa a sociedade no seu todo.
Dito isto, é preciso salientar que um “anarquista” é, antes de tudo, um defensor da liberdade individual, da autonomia e da organização horizontal e igualitária; Que, não existindo nenhum partido ou organização central que emita uma posição correspondente àquilo que “todos os anarquistas” pensam, este comunicado é apenas uma visão parcial de alguns indivíduos que partilham um património filosófico e social que são as ideias anarquistas. Uma versão naturalmente sujeita a críticas e discussão por parte dos nossos amigos e companheiros.
Por fim, gostávamos apenas de recordar a todas as pessoas que lutam para manter a sua lucidez, que o regime implantado no dia 28 de Maio de 1926 começou precisamente por se justificar com a necessidade de combater a anarquia e de reprimir os anarquistas, que nessa altura se organizavam em torno da Confederação Geral do Trabalho. Hoje é fácil perceber a natureza desse regime, nessa altura não o era.
Ontem como hoje, cada um de nós tem que decidir individualmente se toma posição activa contra o que está a acontecer ou se, com a sua passividade, colabora com o estado de coisas.
Grupo de Apoio Legal para o 24N
Lisboa, 28 de Novembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

pode ser que assim lá vá


Uma curta animada do glaswegian David Shrigley sobre o futuro das Artes depois dos cortes esperados.

Laura Nadar

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O absolutismo na comunicação espectacular


Não pretendo com este texto fazer um escrutínio sobre o Anonymous, as suas possíveis intenções ou o seu modus operandi, apenas denunciar um modo de fazer jornalismo que cada vez mais se generaliza. Se a Jornalista queria fazer uma peça sobre um fenómeno mundial que tem ganho algum mediatismo de entre os movimentos contestatários e que se caracteriza pela ausência de um corpo central que o chefie, devia ter-se escusado a fazer uma peça de quase dois minutos onde praticamente só adjectiva o movimento e pouca ou nenhuma informação concreta dá. Não é algo que seja novo mas é cada vez mais escabrosa a forma como alguns temas se prestam tão facilmente a que um meio de informação, cuja missão devia ser o de informar, na lógica da pirâmide organizacional de um Estado Democrático, tendo em conta o direito do cidadão à informação e ao exercício do seu pensamento crítico, se torna num meio de propaganda e hegemonia cultural. É óbvio que vivemos um, cada vez mais claro, Estado de excepção em que muitos se auto proclamam como polícias da cultura dominante e da ditadura do senso comum e nos dão ordens precisas sobre a forma como devemos compreender ou não cada fenómeno social. Seja este fenómeno uma crise económica ou um movimento contestatário. Estes factores devem, antes de mais, fazer-nos reflectir sobre a natureza do sistema vigente cuja incapacidade de cumprir com a promessa que nos é feita à priori fica cada vez mais clara. 
Tiago Sousa

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Hoje à noite



Com este vosso humilde servo na banda sonora interpretada ao vivo e sonoplastia. 
Às 21:30 na Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique. Clicar na foto para mais pormenores.

Vai ser preciso largar

E ir...

Por agora fica um de uma série que pode ser vista aqui 

Cuidado! Não vale tropeçar nos clichés formais pelo caminho

Laura Nadar

Correio interno

(e-mail enviado ao Maturino Galvão):

Caríssimo:

A série de desenhos que me enviaste já foi toda publicada, com excepção de um, que achei que ficava já um bocado desactualizado devido ao tempo que vai passando. Aguardo então por mais, para quando puderes, claro. Agora que o único e exclusivo culpado por este estado de coisas, o Duarte Lima, vai passar uns tempos atrás das grades para motivos de catarse nacional, espera-se um rápido retorno à prosperidade deste nosso jardim. Sem qualquer dúvida que este será o mote para a implementação neste país de uma justa distribuição da riqueza, através de um sistema fiscal decente, de uma justiça rápida, eficaz e independente dos interesses, de reformas dignas, de salários ao nível da nossa utopia Europa. Vamos, aliás, e como sabes melhor que ninguém, recuperar o nosso papel histórico de farol da Europa, concretização do querido Quinto Império em modo pastiche. Mas apesar disto tudo, continuarás a ter matéria de sobra para os "Sinais", confio.

Um abraço

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Paulo Granjo: apelo aos comerciantes

O Paulo Granjo publicou um apelo muito interessante aos comerciantes para que adiram à Greve Geral, que abaixo se reproduz. Ele diz-nos que irá passar o texto aos da sua zona, que conhece pessoalmente, e com quem tem, portanto, relações que o tornam alguém credível aos seus olhos. Uma ideia muito válida, que pode ser partilhada por todos, já que o texto foi disponibilizado para download aqui (adaptando o quinto parágrafo).


APELO AOS COMERCIANTES

Caro Senhor comerciante:
É verdade que nos dias de greves a facturação costuma ser um pouco melhor.
É também verdade que as greves costumam ser feitas pelas pessoas que trabalham para outras, e não por quem tem o seu próprio negócio.
É verdade, ainda, que nas greves gerais as lojas costumam continuar abertas, dando a impressão de que tudo está normal e de que os comerciantes não têm nada a ver com o assunto.
Mas esta Greve Geral também tem a ver consigo. E muito.
Veja o meu caso: Desde o início do ano que levo para casa menos X% do salário. No Natal, vou receber quase menos XXXX euros de subsídio. No ano que vem, querem continuar a cortar-me no ordenado e não me querem pagar nem o subsídio de Natal, nem o de férias. E lá para Março vou pagar mais de IRS.
Quem é que acha que vai sofrer com isso, para além de mim e da minha família?
Não é o banco, pois a esse tenho sempre que continuar a pagar a casa.
São as compras que lhe faço a si e aos seus colegas que irão ficar cada vez mais pequenas, tal como as de todas as outras pessoas na minha situação. É também o senhor quem vai sofrer com isso.
Quanto mais o país ficar parado no dia 24, mais hipóteses há de que as coisas não sejam assim no ano que vem.
Ao fechar a porta do seu estabelecimento no dia da Greve Geral, estará a defender os interesses dos seus clientes e estará a defender os seus próprios interesses.
Peço-lhe que pense nisso.
Ass: NOME, PROFISSÃO

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Fuck you and your politics

774 shares, 477 comentários, 1.414 pessoas fizeram “like”. É o novo fenómeno viral do facebook e inclui uma polémica (ver aqui) entre uma banda quase desconhecida, os Evols, e uma resposta idiota de um funcionário da Everything is New, a conhecida promotora de espectáculos. Gostava de alinhar umas quantas ideias sobre este assunto:
Passando os olhos na diagonal pelos comentários que se escrevem sobre o caso, apercebemo-nos que a grande razão para a indignação das pessoas é o facto da proposta da promotora ir no sentido de não existir qualquer tipo de compensação monetária para a banda actuar. Nem pagamento de cachet nem qualquer ajuda com as despesas inerentes. Na minha perspectiva esta indignação está relacionada com uma ideia geral de trabalho. O trabalho é compreendido como tendo um objectivo. O da recompensação monetária por um esforço que de outro modo poucos motivos teríamos para empenhar. Existe uma relação directa entre o trabalho e a necessidade de sobrevivência e uma relação que surge num segundo plano, e que se fecha numa minoria, de pessoas que trabalham para sobreviver mas retiram outros proveitos da relação de trabalho, como realização pessoal, desenvolvimento intelectual ou independência de patrões. Aquilo que fenómenos como a precaridade, os estágios não-remunerados, ou outras formas de trabalho mal pagos deixam latente é que retirando o único factor pelo qual trabalhamos o que sobra desta relação é a posição de prostração e subjugação do indivíduo ao trabalho. Só nesta altura parecemos encontrar motivos para nos revoltarmos contra esta relação apesar das circunstâncias serem exactamente as mesmas quer sejamos remunerados ou não. Quantos de nós, bem pagos ou mal pagos, não sofremos o famoso “Sunday Blues” quando nos lembramos da obrigação que temos na segunda feira? Quantos de nós não gostariam de poder responder na exacta medida que o nosso patrão nos merece? Ou fugir do trabalho num belo dia de sol? A verdade é que a relação que temos com um trabalho a horas marcadas, funções designadas, sem autonomia ou liberdade crítica e de pensamento é naturalmente uma relação contraproducente. O trabalho é em grande medida uma execução maquinal e repetitiva que nos ocupa uma fatia considerável do dia-a-dia e nos sorve energias e predisposição para desenvolvimento individual. 
Existe no entanto um grande número de pessoas que desenvolve outro tipo de actividades que lhe dão muito mais prazer e que sentem ser muito mais consequentes, sem que com essa actividade retirem qualquer tipo de recompensa monetária ou retirem apenas recompensa residual. Normalmente chamamos a isso hobbys ou passatempos. Estas actividades estão em grande medida muito mais relacionadas com o desenvolvimento das nossas valências e vocações. Quando a frustração de uma vida virada para o trabalho nos horroriza parece surgir em nós uma natural ambição de realização fora do seu âmbito. Em grande medida o fenómeno da música encontra aqui um eco. 
Quantos músicos não-profissionais trabalham arduamente no desenvolver das suas ideias criativas ou na busca de carreiras de sucesso? Talvez seja algo pouco claro para a maioria das pessoas mas o desenvolver de um projecto deste género depreende a colocação de muitas horas de trabalho que não é remunerado e investimento que não tem um consequente e imediato retorno. Em parte a Everything is New sabe isso muito bem. Crê que está a dar uma oportunidade de exposição aos músicos, e na realidade está, que se for bem empreendida pode corresponder num retorno posterior. Por isso, não é assim tão estranho, que músicos toquem de borla em determinados eventos, disponibilizem a sua música de forma gratuita na internet, ofereçam discos na compra de bilhetes para concertos, ou outras estratégias de exposição semelhante. Estes músicos compreendem que ocupam um lugar de produtores na cadeia de consumo cultural. Um dos factores que os poderá levar ao sucesso é a exposição da sua obra. Talvez surpreenda muita gente mas num outro festival promovido pela mesma Everything is New, e que tem o apoio de uma grande empresa de telecomunicações que até dá a cara por um projecto direcionado para a distribuição de música gratuita na internet, existe um palco, com o mesmo nome deste projecto que vos falo, onde os músicos tocam sem receber cachet. Assim como possa parecer estranho para muita gente a constatação de que os músicos que fazem o chamado circuito de uma reconhecida loja de artigos culturais recebam muito pouco para o fazer. Muitas vezes o músico oferece o que tem para vender pois sabe que o seu potencial cresce na medida em que mais pessoas sigam o seu trabalho e potencialmente se possam tornar compradores dessa música. É uma estratégia de marketing utilizada em muitas indústrias. Oferta de um determinado produto emergente como forma de chamar a atenção para as suas potenciais qualidades. 
Existe no entanto uma contradição latente, que mais uma vez tem um correspondente com a relação de exploração que vivemos nas relações mercantis actuais. Estas empresas fazem muito, mesmo muito dinheiro com a música. E é apenas reflexo da sociedade capitalista que vivemos que, na altura de dividir o proveito que retiram dos eventos que promovem e para o qual os artistas são uma peça fundamental, sejam eles cabeças de cartaz ou abertura de palcos secundários, o façam de modo tão desigual e injusto. Seguindo esta lógica de raciocínio a crítica volta-se contra os próprios músicos e contra o próprio público. Os mesmos que se fazem mostrar pelos números indicados no início deste texto. Quem alimenta este sistema são, em última análise, eles próprios. Se de facto indigna assim tanto as pessoas que situações destas aconteçam com artistas de que gostam, ou que poderão vir a gostar, talvez fosse importante pensar se, em vez de protestar no facebook ou enviar emails de protesto para as caixas postais destas empresas, não deveriam rever as suas relações de consumo. Os festivais ou concertos de massas são o desenrolar de um processo de mercantilização espectacular e por isso estão emprenhados do mesmo espírito contra o qual nos revoltamos no dia-a-dia. A socialização mediada por imagens em que o fim não é nada, o desenrolar é tudo. Exercício de imagens-objecto adornadas tendo em vista a ficção da produtividade moderna. Não é mais do que a dominação do homem quando a economia já os dominou totalmente. Um deslocamento da realização humana do ser para o ter e do ter para o parecer. A degradação da vida colectiva num universo especulativo. Uma reconstrução material da ilusão religiosa como tão bem nos mostra Guy Debord através destas considerações retiradas do seu livro A Sociedade do Espectáculo.
Talvez da próxima vez em que estejamos a pagar por um bilhete devamos considerar se nos apetece mesmo dar dinheiro e atenção a estes seres abjectos que são os concertos de massas ou se não estaremos interessados em procurar experiências que possam ser mais reais e profundas. Porque esse circuito paralelo, felizmente, ainda vai existindo. Os próprios músicos devem assumir a sua quota-parte e considerar o seu papel. Se pretendem continuar a fomentar este tipo de relação com o seu público e com a indústria ou desbravar caminhos que os levem a conquistar uma independência mais consequente em relação a estas grandes corporações. Assumir claramente se querem fazer parte deste joguete. Se querem ser um peão nas mãos do espectáculo ou pretendem eliminar a mediação entre a sua produção artística e o consumo da mesma. 
Se queremos contestar e superar estas lógicas estabelecidas devemos compreender que a sabotagem das suas relações é o primeiro passo a desenvolver. Todos temos um papel considerável na aceitação destas normas ao exercer o nosso papel de consumidores, de empregados ou produtores. Ao colocarmo-nos na posição de detentores das nossas decisões ou de aceitarmos alienar esse poder. É certo que as relações são por demais complexas. E primeiro que tudo é preciso iniciar um processo de descodificação e desconstrução da realidade. É igualmente complexo descortinar os procedimentos de cada um dos agentes envolvidos. É por isso que é tão importante discutir estas questões em voz alta para que possamos reflectir em conjunto sobre os modos de superar estas relações tendo em vista a capacidade de tornar a crítica consequente e a acção fundamentada.

Tiago Sousa

terça-feira, 8 de novembro de 2011

"Como um grego ensina a um alemão a História das dívidas"

Absolutamente essencial este post do Aventar.

10 de Novembro, Assembleia da República

Preparação de uma Assembleia Popular do Barreiro

Realizou-se no Domingo ao fim da tarde a primeira reunião de preparação da Assembleia Popular do Barreiro. Uma das decisões que tomámos foi a de todos os participantes na mesma comunicarem as sua própria conclusões daquilo que por lá se passou, em vez de se delegar esta responsabilidade num só. Algo que julgamos ir ao encontro do espírito que propomos para esta iniciativa. Abaixo, o meu relato:

Da nossa reunião, penso terem ficado claras e serem motivo de consenso algumas coisas essenciais, que destaco: a primeira, que reconhecemos que esta iniciativa se insere nas movimentações que tem ocorrido um pouco por todo o mundo, e que configuram um novo modo de resistência. Parece-nos que a pedra de toque desta novidade é o seu carácter de base, horizontal e aberto, e que reconhece como o problema essencial a falta de democracia, querendo isto dizer que, apesar dos mecanismos de legitimação de poder da democracia representativa, a participação das pessoas nas decisões que afectam o rumo das suas vidas é escassa, quando não quase nula. Partindo deste pressuposto, entendemos que o alargamento da participação democrática é absolutamente essencial, e que se essa não é a vontade dos poderes, formais ou fácticos, cabe-nos a todos nós contribuir para tal.

Estas conclusões inserem necessariamente esta iniciativa nos movimentos ocorridos recentemente também em Portugal, como o 12 de Março, acampada do Rossio ou 15 de Outubro. Contudo, todos nós assumimos que no caso português tem existido algumas situações de que discordamos: uma excessiva "politização", no mau sentido, por parte de organizações já existentes, e a colonização do movimento por activistas com agenda definida; e um carácter excessivamente formal e que de algum modo mimetiza os mecanismos da democracia representativa. Por outro lado, este movimento mundial encontra-se, pela sua natureza, em permanente reconfiguração, o que origina, também, que o formato que adopta é variável. Sendo esta iniciativa destinada à criação de uma Assembleia Popular do Barreiro, as suas características terão de diferir de outras, já que tem em conta o seu carácter local. Isto, noto de novo, sabendo nós que a promoção da participação democrática, da auto-organização, da discussão de todos sobre os problemas de todos, é em si transformadora e desafiadora das relações de poder existentes.

O que acima foi escrito serve de base para aquilo que queremos concretizar. Assim, é nossa intenção que esta assembleia não exista com carácter legislativo. Ou seja, que não sirva para aprovar resoluções, para pretender representar "o povo", para marcar uma posição colectiva. Antes, que seja composta de três momentos essenciais: discussão, organização e acção. Discussão, porque entendemos que muitas pessoas sentem o alheamento dos processos de decisão, a necessidade de se exprimir e de ouvir o próximo, o isolamento e impotência face às decisões que afectam as suas vidas. Organização, porque achamos que mais importante que aprovar resoluções numa assembleia que mais não fazem que replicar a democracia representativa, com o risco quase inevitável de por esta via se criarem novos "representantes do povo", "vanguardas" a quem este delega a concretização do que é decidido, o importante é a criação de grupos de trabalho, em que cada um participe do modo que entenda adequado, e que respondam aos problemas que cada qual entende serem os principais e os seus. Acção, porque destes grupos se espera que tenham um carácter eminentemente prático. Quanto a este último e decisivo aspecto, pensamos ser importante apostar tanto na auto-organização propriamente dita, respondendo a problemas do próprio quotidiano das pessoas (por exemplo a dinamização de hortas colectivas, redes solidárias para suprir carências, etc.), como na organização ao nível da consciencialização política e cultural (debates, mesas-redondas, etc.), como, quando for caso disso, na acção de resistência a decisões que a todos nos afectam (por exemplo, as anunciadas intenções de quase aniquilamento da rede de transportes que nos serve). Sempre, ressalvando mais uma vez, que este será o papel de pessoas auto-organizadas em grupos e não da assembleia enquanto órgão legitimador e que delega o seu poder em representantes.

Também consideramos ser essencial que aqueles que agora se reúnem para arrancar com esta iniciativa adoptem o papel única e exclusivamente de dinamizadores, e não de organizadores, ou muito menos de "vanguarda" do que quer que seja, bem como a adopção de uma postura ética muito clara, de tipo não-autoritário. Concretizando, o que se pretende é que, a partir de regras mínimas muito simples (por exemplo: um limite de tempo nas intervenções, para que todos possam falar), a liberdade seja a regra (por exemplo: que todos digam o que entenderem, sem que haja uma "organização" que decida o que é relevante).

A esta primeira reunião sucederão outras em preparação. Dar-se-à conta aqui do que se achar pertinente. Mais uma vez reforço que, pelo exposto no primeiro parágrafo, o texto acima apenas me vincula a mim e a mais nenhum dos que participaram na reunião.