terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A moção de censura

Via O País do Burro, eis o texto da moção de censura que o Bloco de Esquerda irá apresentar:

MOÇÃO DE CENSURA N.º 2/XI
MOÇÃO DE CENSURA AO XVIII GOVERNO CONSTITUCIONAL
EM DEFESA DAS GERAÇÕES SACRIFICADAS
Ao longo do ano e meio do seu mandato, o XVIIIº Governo adoptou uma política económica e social que tem atingido essencialmente os trabalhadores sem emprego e os jovens da geração mais preparada que o país já formou, que são marginalizados das suas competências para se afundarem num trabalho sem futuro. Existe hoje mais de um milhão de trabalhadores em situação totalmente precária, incluindo uma parte significativa sendo paga a troco de falso recibo verde, e promessas do Programa de Governo, como o fim dos recibos verdes no Estado, foram clamorosamente violadas. Ora, uma economia de exploração de salários mínimos é um cemitério de talentos e uma democracia amputada das melhores qualificações.
Esta Moção de Censura recusa por isso o gigantesco embuste da distribuição equilibrada dos sacrifícios e sublinha que o emprego e o salário têm sido destruídos pela cruel insensibilidade social que corrói a economia em nome da ganância financeira, e propõe uma ruptura democrática que evite a destruição implacável dos trabalhadores mais velhos pelo desemprego e dos mais novos no altar da precarização.
De facto, ao reduzir o apoio aos desempregados, o Governo deu um passo na sua estratégia agressiva quanto ao mercado de trabalho. O subsídio de desemprego passou a ser apresentado como um custo e não como um direito que decorre do próprio desconto do trabalhador, como um prejuízo e não como um acto de justiça. Agora, o Governo vai mais longe, procurando impor a redução da indemnização pelo despedimento, para o embaratecer e facilitar.
Deste modo, durante o seu mandato, apesar de ter perdido a sua maioria absoluta, o governo ignorou os sinais dos eleitores. Promoveu o agravamento da crise social com o aumento dos impostos, a queda do investimento público, a redução de salários, a degradação dos apoios sociais com a retirada do abono de família e de outras prestações a centenas de milhares de famílias, o aumento dos preços de medicamentos e outros bens essenciais e o congelamento das pensões.
Esta orientação conduz o país para o abismo da recessão. Agrava as dificuldades da economia em vez de lhes responder. Condena uma parte da população ao desemprego estrutural permanente, em números que a democracia portuguesa jamais conheceu. Reduz os rendimentos de trabalhadores e pensionistas. Esta política condena o país ao império do abuso.
A chantagem dos mercados financeiros, incluindo da finança portuguesa, que impõem juros em redor dos 7% ao refinanciamento a dez anos da dívida soberana, aprofunda as dificuldades da economia. Mas o governo respondeu a esta pressão favorecendo a finança ao agravar a transferência dos salários e dos impostos para os juros e, ainda, permitindo que os grandes bancos privados não paguem o IRC de lei. Esta situação é portanto insuportável. O país está endividado e a política orçamental precipita maiores custos de endividamento e restrições ao investimento, à produção e ao emprego.
Ora, um factor suplementar que agrava a crise actual é a forma como o governo tem desprezado os grandes combates democráticos pela qualidade dos serviços públicos do Estado Social, pela economia do emprego e contra a agiotagem financeira. Esta insensibilidade social é a causa da falta de confiança numa governação desgastada, que foge à responsabilidade, cultiva o favorecimento e provoca o apodrecimento da decisão política.
Exige-se por isso um novo caminho, com uma viragem da política económica para o combate à recessão. Exige-se a solução do défice fiscal para corrigir o défice orçamental, a solução do investimento criador de emprego e promotor de exportações e de substituição de importações, a solução da recuperação da agricultura para promover a soberania alimentar, a recuperação da procura interna com a defesa dos salários, a valorização das pensões e o combate à precariedade em nome da vida das pessoas.
O Governo, apesar de ter sido suportado por uma grande maioria parlamentar nas mais importantes decisões económicas, não responde às grandes prioridades nacionais, que são o combate ao desemprego, pobreza e precariedade, antes agrava as condições do trabalho para facilitar os despedimentos e portanto os salários baixos, seguindo a orientação do FMI que recomenda a desprotecção dos rendimentos e dos contratos dos trabalhadores. Esta resposta agrava as desigualdades na sociedade portuguesa e é por isso imperativo, em nome de uma política que se comprometa com a defesa das gerações sacrificadas, derrotar as medidas que promovem o desemprego e a precariedade e convocar a democracia para que decida as soluções para o país. Assim,
A Assembleia da República, ao abrigo do artigo 194º da Constituição da República Portuguesa, delibera censurar o XVIII Governo Constitucional.
As Deputadas e os Deputados do Bloco de Esquerda

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sobre a exposição do João de Azevedo (3)

ALGUMA APRESENTAÇÃO, DOS CROCOS E MINHA
« Ce que je constate : ce sont les ravages actuels ; c'est la disparition effrayante des espèces vivantes, qu'elles soient végétales ou animales ; et le fait que du fait même de sa densité actuelle, l'espèce humaine vit sous une sorte de régime d'empoisonnement interne - si je puis dire - et je pense au présent et au monde dans lequel je suis en train de finir mon existence. Ce n'est pas un monde que j'aime. » Levy Strauss, 2005.
Estes crocodilos são uma consequência da minha estadia em Timor-Leste durante dois anos, desde Fevereiro 2005. As pinturas são feitas com tintas acrílicas, a sua maior parte sobre papel Fabriano de algodão 600- 850 gr.
A capa do disco do Zeca Afonso "Com as minhas Tamanquinhas" é o meu cartão de visita mais antigo, feita no Verão de 1975. Nascido em 1950, tinha então 25 anos. Foi por essa altura que parei com a pintura, quando vim de Itália para Portugal, onde passei a fazer outras coisas. Porém, em Itália, fui pintor activo, entre 1972 e 1975. Fiz duas exposições individuais e participei em várias colectivas (em Itália e fora). Parei então de pintar porque nessa altura me parecia desajustado fazer coisas para pessoas com dinheiro comprarem. Tive quase vergonha, hesitação, pouca autoconfiança. Queria mudar de vida, mas não sabia bem para que vida mudar. Deixei-me ir, durante muitos anos, sempre acompanhado pelos pincéis, que ficavam numa caixa fechada.
Desde então tenho participado, desde 1977, em actividades do (por vezes mau) desenvolvimento. Entre elas: quase 10 anos nas Nações Unidas, no Níger e, desde 2001 como consultor independente, em África e Ásia.
O recente regresso às pinturas deve-se, em primeiro lugar, à vontade de fazer trabalho manual. Fazer trabalhar as duas partes do cérebro, como alguns dizem. Passar por cima do determinismo que nos impele a manifestar apenas uma pequena parte dos nossos talentos, usar apenas uma parte do nosso corpo, a escolher ou a cabeça ou as mãos, ou outra parte qualquer. Sei que pintar me dá muito gozo; que o trabalho manual voltou a ter peso, que é mesmo necessário. Penso que para o futuro é preciso fazer um trabalho mais integrado, mais holístico. O pouco que sabemos sobre nós próprios aponta para essa necessidade: reintegrar as nossas forças, os nossos lados emocionais, os nossos lados espirituais, o nosso interesse pelo ambiente. É hoje difícil para mim imaginar que alguém se possa desenvolver sem nada acrescentar à qualidade de vida dos outros. Este é o tipo de coisa para a qual é difícil imaginar como falar delas (cito, indirectamente, Boyatzis).
Timor e as minhas citações dos crocodilos. Com os significados profundos dos crocodilos fui aprendendo na prática – e não só nos livros – que as sociedades primitivas não tinham os homens no centro do universo (desnecessário citar Lévi Strauss). A natureza e os outros seres vivos foram desvalorizados, “arrancando-lhes o homem para o colocar num lugar de eleição”, o que na altura foi considerado, no mundo ocidental, como uma conquista do Iluminismo. Esse desprezo pelo ambiente virá daí. Com Timor, com a minha vivência com aquelas pessoas, esta convicção “ganhou-me” para o lado dos crocodilos.
Estes animais têm ali uma ambiguidade significante, com alta densidade histórica. As lendas (isto é, a forma como se diz e se acredita na história) são povoadas pelos crocodilos. Apesar de algumas tentativas de normalização, eles continuam presentes no imaginário como parceiros dos sonhos e da vida real. Nessas narrativas tomam várias cores, segundo as zonas, as ocasiões, as intenções, as testemunhas. As mulheres de certos povos mauberes não são mulheres senão à vista, porque mal voltam as costas, são crocodilos. Um rei de um outro povo deu a filha mais velha ao crocodilo, para ganhar a guerra. Outro rei, de outro povo ainda, fez um acordo com os crocodilos para deixar passar os seus soldados, a fim de surpreender o inimigo invasor pela retaguarda.
Os crocodilos não atacam se estás tranquilo, se tens a “consciência em paz”. O desembarque dos Indonésios, em 1975, foi largamente anunciado por muitos crocodilos que apareceram na baía de Dili. A reparar bem, a própria ilha de Timor tem a forma de um crocodilo.
Há sempre uma narrativa segundo a qual “na semana passada” os crocodilos vieram e levaram 4, 5 ou 6 pessoas. Esses animais são a parte escondida e mágica do espírito timorense. Têm do bom e do mau. Eu cito essas histórias não para as ilustrar, mas porque procuro essa percepção, a humanidade nesses animais.
Acrescento que o crocodilo em Timor, tal como entre os aborígenes australianos (os últimos aristocratas, segundo Levy Strauss), e que eu consegui visitar, é um animal sagrado (lulik), sendo considerado pelos timorenses como antepassado. Daí o nome de avô, bei-nai. É o senhor das águas, o we-nai. Segundo o mito de origem, é considerado o responsável pelo povoamento de Timor.
Esses animais são geralmente muito respeitados, são rápidos e poderosos. Podem, de facto, atacar e comer pessoas. Toda a região está infestada. Na costa norte da Austrália é absolutamente proibido tomar banho nas praias, de Novembro a Abril. Eles pululam na baía de Darwin, por exemplo. São os saltwater crocodiles (Crocodylus porosus), que atingem facilmente 4 metros (às vezes mais) de comprimento, são ultrarápidos no ataque e vivem entre a água doce e a salgada. Existem desde há talvez 200 milhões de anos, são dos mais velhos sobreviventes, hoje espécies protegidas.
No meu caso, e com eles, voltando aos pincéis depois de tantos anos, jogo com as cores, para espantar e seduzir os parceiros e os públicos. Crocodilos homens e mulheres, e vice-versa, homens e mulheres crocodilos. Acasalamentos, pesadelos, combates; não ilustro nada, são citações de ocasiões que poderiam ter acontecido. Em Dili fui obtendo algum feed back. Uns velhos disseram-me: “Até parece que o senhor João estava lá!”.
Texto e foto de João de Azevedo

Sinais

Desenho de Maturino Galvão

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Protesto da Geração À Rasca



Através do Facebook cheguei ao anúncio deste protesto, que, como se comprova pelo texto abaixo, parece muito diferente do habitual neste tipo de movimentações internéticas, o "são todos iguais, andam todos a roubar o zé-povinho" - pelo contrário, a uma análise bastante lúcida da situação parece corresponder um programa reivindicativo certeiro:

PROTESTO APARTIDÁRIO LAICO E PACÍFICO.
Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal. Protestamos:
- Pelo direito ao emprego! Pelo direito à educação!
- Pela melhoria das condições de trabalho e o fim da precariedade!
- Pelo reconhecimento das qualificações, competência e experiência, espelhado em salários e contratos dignos!

Porque não queremos ser todos obrigados a emigrar, arrastando o país para uma maior crise económica e social!

Manifesto

Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal.
Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país. Estamos aqui, hoje, porque não podemos continuar a aceitar a situação precária para a qual fomos arrastados. Estamos aqui, hoje, porque nos esforçamos diariamente para merecer um futuro digno, com estabilidade e segurança em todas as áreas da nossa vida.
Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza - políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.

Caso contrário:

a) Defrauda-se o presente, por não termos a oportunidade de concretizar o nosso potencial, bloqueando a melhoria das condições económicas e sociais do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração, que não pode prosperar.
b) Insulta-se o passado, porque as gerações anteriores trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade. Desperdiçam-se décadas de esforço, investimento e dedicação.
c) Hipoteca-se o futuro, que se vislumbra sem educação de qualidade para todos e sem reformas justas para aqueles que trabalham toda a vida. Desperdiçam-se os recursos e competências que poderiam levar o país ao sucesso económico.

Somos a geração com o maior nível de formação na história do país. Por isso, não nos deixamos abater pelo cansaço, nem pela frustração, nem pela falta de perspectivas. Acreditamos que temos os recursos e as ferramentas para dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal.
Não protestamos contra as outras gerações. Apenas não estamos, nem queremos estar à espera que os problemas se resolvam. Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela.

http://geracaoenrascada.wordpress.com/

geracaoarasca@gmail.com

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A moção de censura e o Bloco de Esquerda

A decisão do Bloco de Esquerda em apresentar uma moção de censura ao governo Sócrates é discutível. É-o, sobretudo, porque se segue ao desastre que foi o apoio a Alegre nas presidenciais (o apoio nas condições em que foi feito, não o apoio em si), e porque aparece aos olhos de todos como uma tentativa do BE de se defender de ataques à sua esquerda, que repetidamente o acusam, algo infantilmente, acrescento, de colagem ao governo. Ora, o pior nesta moção pode muito bem ser esta aparência de "tacticismo" politiqueiro, que contrasta com o que a actuação do BE nos tem habituado. Para mais, não é segredo que os últimos tempos a definição sobre o caminho que o Bloco irá tomar tem originado divergências, primeiro do seu lado esquerdo (no apoio a Alegre), e agora da sua ala direita (vide Daniel Oliveira). E depois, como nota o Filipe Tourais, no BE há esse estranho hábito de, quando há divergências, as pessoas as assumirem em público, demitirem-se dos orgãos a que pertencem, etc, o que, é bom de ver, contrasta e de que maneira com os hábitos monolíticos e de rebanho dos restantes partidos parlamentares.
Mas o que me motiva a escrever este post é outra coisa: a propósito destes últimos acontecimentos, e, como acontece habitualmente quando se trata do Bloco, confundindo os seus desejos com a realidade, vieram os comentadores instalados anunciar o inicio de um "processo de definhamento" do BE, da sua "decadência", do "fim de um ciclo". Vasco Pulido Valente, com o mau gosto habitual, chega a chamar-nos, a nós, votantes do BE, de atrasados mentais (não vê como alguém com um QI maior que 50 possa votar em tal partido. A este respeito, uma boa resposta é esta do Zé Neves); e o inefável Rui Moreira, no Jornal da RTP2 de ontem, anunciava, de dentes arreganhados e a salivar da boca, o início do processo de "PRDização" do Bloco ("até envolve uma moção de censura e tudo"...), ignorando o evidente absurdo de comparar um partido efémero, originado por um projecto de poder unipessoal, e sem ideologia definida, com um partido-movimento de crescimento sustentado de eleição para eleição nos últimos 10 anos, e com um lugar perfeitamente definido no espectro ideológico, o que permite, evidentemente, a fixação do seu eleitorado de uma maneira que seria impossível a um partido como o PRD. Acrescentam as patranhas e os mitos sempre repetidos e sempre desmentidos de eleição para eleição, os de que o eleitorado do Bloco é "flutuante", "inconstante", "jovem",  quiçá querendo dizer que os eleitores do BE são um monte de freaks que fumam ganza e não sabem bem o que fazem, ou miúdos que saíram agora da escola, coitadinhos, ou os restos dos líricos de 74-75. Ou, com um ar mais grave e analítico, juram para quem os quiser ouvir que o partido "não tem bases", "não tem implantação" ou "tem poucos militantes", por mais que a realidade desminta qualquer uma destas mentiras. Estes comentadores, movidos pelo seu ódio ao BE, que sabem ser o grande factor de novidade da política portuguesa, e a grande ameaça ao status quo instalado da "alternância democrática", tomam, como disse, os seus desejos por realidades, porque tem medo do Bloco. Tem medo que o Bloco chegue ao poder e estrague o arranjinho politico-constitucional de 1975; tem medo que o Bloco provoque uma verdadeira inflexão do panorama político à esquerda, porque o Bloco, ao contrário do PCP, um partido instalado nos seus feudos, ambiciona crescer, quer o poder, quer alterar o status quo onde estes comentadores se sentem como peixes na água, já que o sistema os tem tratado bem nos últimos 30 anos.
O que conforta é saber como estes vampiros se enganam. É que o Bloco de Esquerda, sabemo-lo bem, não é nenhum PRD. O lugar que ocupa corresponde ao posicionamento político de centenas de milhar de portugueses, que estão à esquerda do PS mas rejeitam os tiques autoritários, anti-democráticos, burocráticos e controleiros do PCP. É a esquerda democrática em Portugal: verdadeiramente esquerda, e verdadeiramente democrática. Quer trabalhar também em formas outras de modificar as relações sociais e económicas, e aprofundar a democracia, a participação e a cidadania, rejeitar e revolucionar o modo de vida capitalista, mas sabe que é essencial que este projecto político-social esteja representado no parlamento de uma maneira forte, e não rejeite chegar ao poder por via eleitoral (porque não? Desde que não renegue os seus princípios, isso significaria uma mudança evidente nas relações de poder neste país). Houve erros estratégicos nos últimos tempos, sim, e devem ser discutidos, com certeza, e se calhar pela primeira vez o Bloco vai perder votos nas legislativas, pois é bem possível. São dores de crescimento. Mas aqueles que sonham com a implosão do BE, sonham acordados, e se confundem de modo tão espúrio os seus desejos com a realidade, então para que servirão esses analistas? Mais uma vez a realidade, na forma de eleições, irá desmentir os sonhos húmidos destas luminárias, e acordá-los para a dura verdade: o Bloco de Esquerda veio para ficar, é melhor contarem com ele.

P.S: Alguns amigos, de que o efémero colaborador deste blogue Luís Palácios é exemplo, sabem que eu costumava dizer que ponderaria juntar-me ao Bloco no dia em que as coisas começassem a correr mal pela primeira vez. Talvez seja este o momento.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sobre a exposição do João de Azevedo (2)


Fotos de Ivone Ralha



Novas peregrinações

A globalização trouxe outros mundos ao mundo, desde sempre. Aumentando-o, gizando-o em novas direcções, abrindo novos planos, também e sobretudo imaginários, que antes lá não havia. E de cada vez a seu modo assim se fez e faz e tornará a fazer até que o tempo coincida absolutamente com o espaço.
Agora, que a globalização já não se faz com naus nem caravelas, mas com computadores e bolsas on-line capazes de alimentar a cobiça (madre-eterna) daqueles mais ansiosos do vão poder do mundo, e com as notícias em directo da TV, a outra peregrinação global, a do espírito, essa faz-se também ela de outro modo: onde antes, meio milênio atrás, o Fernão Mendes Pinto de gloriosa memória elocubrava as aventuras de uma descoberta maravilhada desse cruzamento incerto entre mito e história, hoje outros entendem, desentendem, sobre-entendem, numa epifania breve, as janelas que se abrem de repente sobre os planos mais incertos e caóticos do tempo, e o desdobram, mostrando-o em outras dobras, em outras convulsões, em outras configurações.
Assim João de Azevedo.
Longamente hipotecado a uma paixão aventureira que o levou aos trópicos, de Moçambique ao Niger e a Timor passando por tantos outros lugares, João trouxe, porque levava para tanto a intuição, notícia de outros mundos haver, para além da racionalidade estreita deste nosso em perpétuas crises, outros lugares onde o trágico coabita com o vulgar e o ordinário, paredes meias com o sonho, fazendo e desfazendo entre este e a chamada realidade. Uma realidade menos óbvia do que a nossa, já se vê. Onde os animais ainda e sempre falam.
E se nessas aventuras chegou a colaborar de perto, apaixonadamente, com o renascimento de nações, ou captar o essencial desse registo gráfico, quase diagramático, de uma visão outra do mundo, que depois igualmente sabe traduzir em longas e sábias conversas noite fora, em que descreve os mitos como se os houvera assistido desde o seu nascimento, é nos seus quadro de longa e paciente factura que mais os elabora, re-elabora, tornando-os pouco a pouco seus e nossos, através do seu sábio e sempre inocente olhar.
Já se vê que o crocodilo é um poderoso símbolo erótico. E que, como a todo símbolo, o melhor é não o afectar a uma única coisa, já que de muitas fala, e ao mesmo tempo. E já se vê que ele caminha veloz nestas pinturas, onde também a cor transporta a alegria das descobertas mais vastas do espaço e do tempo. Mas, humaníssimo, e não só por ser portador desses impulsos vitais, também ele o temível crocodilo é retrato e auto-retrato, mágico instrumento de uma soberana re-interpretação do mundo, deste e do outro, mensageiro subtil que se desloca entre os dois.
Os crocodilos de João de Azevedo, as suas ninfas, as suas cores quase puras, são outros tantos sinais cantantes de haver sempre mais mundos e contadores de histórias desses mundos, hoje como antes, há muito tempo atrás na peregrinação do outro. Porque perpétuo é o homem no seu sonho como na sua imperfeição.
São artes destas que tornam o mundo maior. E que no-lo trazem, paradoxalmente, até junto à porta.
Obrigado João.

Bernardo Pinto de Almeida
Janeiro 2011

Sinais

Desenho de Maturino Galvão

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Cadáver Ex-Quis Isto

Surripiaste um beijo na despedida
- Não se faz, disse eu com fervor

Isto dos enganos e das esperas
não é para mim. Não te quero
ver mais. Desaparece na Calçada
do Escombro. Rola por aí abaixo
e chora o tempo todo de um
declive ensimesmado. Cuida
de ti, aprende a ser mais
calma e fria. Fazia-te bem
um pouco mais de ego

E assim, vou rir-me de ti
Mais uma aventura para
contar aos meus botões
Sou forte e selvagem
Vou para onde quero
Não sei o que me falta

Não me falta mesmo nada,
estou convicto disso. Ficas
avisada de que mais vale
um carinho na mão do
que dois beijos a voar

Talvez ainda pela Calçada
Vais ranhosa e sem postura
Mas o que importa é que
aprendeste a lição do mestre
que fez uma obra-prima

A prima do mestre-de-obras
essa, tornou-se prostiputa
ganhava bom dinheiro em
bares alternativos. Pelo menos
a vulgaridade não fornicava
com ela. Mas a alta sim.

Já na baixa, os edifícios
ficam a cair de podres,
porque por este país à
beira falência plantado
não se gosta do passado.
E ter memória é só para
os elefantes. Já me
chamaram de camelo
por pensar. Mas penso
que o centro deveria
ter mais gente. De
preferência pensante.

Este é um cadáver esquisito. Não sei quem o deixou fenecer aqui na minha fenêtre. E como fica bem em Portugal um poema horizontal com paroles em Francês e o resto o bom do inventês, essa língua-procariota, criada por um idiota. Mas entre a rima e o enclave, prefiro o riso que uma bola à trave. Se ainda fosse num poste de alta-tesão. Mas agora é cedo para agoirar os sorrisos do presente. Faça-se à estrada e calcorreie os resquícios do Macadame, em pedra lioz e abrasiva. Se não estava no dicionário, é porque está de acordo com a Hortografia dos nabos e da couve-flor, embora prefira a couve-tronchuda, pois sabe-me melhor no ouvido. Das falácias do infinito, trasfego a deuteronímica visão do mundo em pentateucos sem fim. Compro cigarros ao desafio, só pelo prazer de poder perder e deixar-te viciado na Nico Atina. Afina agora o diapasão do mundo, e só escrevo isto porque soa bem, como uma onda forte que rebenta sobre a praia, essa diáspora do infinito. Se tu gostasses de palavras como eu, comeria-las a todas as horas do porvir. Desde o pequeno-grande-almoço do desejo até à ceia dos pontos cardeais, esses geoabraços em coordenadas sem fim, sem fim, sem fim. Tudo o resto são ordinarices dos números. Entre os cardinais e os ordinais, prefiro a cardina, essa bebedeira sem fim da lama e do que mais suão e puro existe. Nascemos do sangue e da imundície. Para quê lavarmos a face da nossa pequenez?
Não passa de puro dislate essa máscara da personalidade que queremos à força colocar no rosto da ingenuidade. E assim vamos, educados pela conspurcada e vil sociedade esquisita, tal como este cadáver que aqui jaz e apodrece na sevícia do amor. Na demanda de novos infernos, a soez e torpe indiferença do céu, é aspergida pela chuva dos ditirâmbicos seres da tautologia destas palavras. Pode ser uma redundância minha, mas adoro os pleonasmos que se repetem ad nauseum. Além do Francês, também fala Latim, dizia o cão no seu latir habitual, ou seja, no pleonasmo habitual. De tanta habituação, o cão ficou viciado nas palavras cruzadas das pernas da sua dona. Tantas cruzes e abraços, que mais parecia que estava na romaria da Páscoa. Vou-me folar daqui antes que fique fulo de todo. Bem dizia o meu pai, que trabalhava na fábrica de óleo Fula, que quem se deita tarde, sofre muito. Não sei de quê, talvez de pouco sono. Mas isso, nada como um bom sonho para compensar as horas fúteis de sono. Basta tirar uma letra e já está! Tudo se resolve neste meu país do sul, onde não acontece nada. Pode ser que a morte tenha sido ao Meio-Dia, a deste cadáver adiado e maltrapilho. Talvez seja tempo de o cremar na pira de incenso e mirra. Os louros fica para quem os quiser. Eu sempre preferi as morenas, as de pele branca, as matarruanas, as atarracadas, as tresloucadas. Quanto a issos, não se podem fazer nadas! Grandes rabecadas vou eu levar quando finalmente lerem isto, os dois ou três visionários do tremoço, já que o cajú está caro, é muito calórico e eu sempre detestei gordos. Por isso nunca seria um bom nutricionista. Fiz-me ao deserto e encontrei um oásis. No palco, encontrei a redenção para os meus pecados. Posso agora, finalmente fenecer em paz. Sou o cadáver mais esquisito e feliz de mim mesmo, na maresia de um encanto que ainda estou por deslindar. Descubro-te ou não, mas cubro-te e encubro-te na sageza de um abraço fugaz e tão sentido.
Pena que os ponteiros do relógio nunca estejam em sentido único. Há sempre vias transversais para fazer obviar o sentimento. Para quando uma festa dos sentidos, uma catarse de sonho, um poema verdadeiro, uma prosa pensada em livros sem fim? Tudo isto, isto, isto que aqui escreves e lês, são demenciais discursos fúnebres para o triste fim da humanidade que pensa. Por isso, inscreves na metonímia um lastro de insensatez e estupidificante langor intelectual. Volto à fórmula inicial, em que H2So4 é o ácido súlfurico que um dia te corroeu a garganta com verborreica fatalidade. Só o Gedeão é que percebia destas coisas da química dos fluidos e das matérias. É tão bonita a ciência a brincar com a arte. São seres fecundos e belos, que instigam sempre a um porvir mais talentoso. Já brinquei e amei com ambas, às mil revoluções por minuto na esfera celeste do teu beijo. Ah! E foi por isso que cá vim, pelo teu beijo, por mim recusado.
Hoje sim, consegui finalmente ser um grande escritor, escrever muito, repetir muito, acrescentar às palavras esses espaços que as tornam tão belas. Tal como a pausa, na música e no teatro, esses silêncios que dão dimensão ao uni verso. Um verso apenas para perderes a cabeça. Foi pelo beijo que me perdi e reencontrei nas faldas do teu rosto. E chego à conclusão que este cadáver está bem melhor agora para ti, para receber finalmente esse teu beijo em surdina acidental.

Quis receber esse teu beijo
Deste-me uma bofetada
por tanta insensatez
e tempo de espera,
nas deambulações
horizontais da
inconsequente
vida dos sonhos.

Hoje pensei tanto
em ti
que derrapei neste
caudaloso leito
com margens
bem fortes e
cruéis. Falo de ti,
poeta. Aquele
grande Rio Eufrates,
aquela Margem da
Alegria. São coisas
tuas e minhas.
Que partilhaste
em densos nevoeiros,
por causa da Serra
onde vivias.

E por agora chega!
Amo e sonho na tua boca pintada.

Surripio-te um beijo na alvorada
-Não se faz! disseste tu com amor.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Jornadas Anticapitalistas

"Num momento em que o capitalismo se revela como crise e esta serve de pretexto à dissolução das últimas garantias do Estado social, numa altura em que dinheiros públicos pagam a bancarrota de bancos e seguradoras perdidos nas aventuras dos mercados,  em que o capital desbasta recursos naturais em prol do benefício de muito poucos,  em que a democracia procura sobreviver à crescente perda de legitimidade representada pela corrupção no seio do poder político ou  pelas elevadas taxas de abstenção nos actos eleitorais, num contexto de generalização do uso de dispositivos de segurança, controlo e mercadorização da palavra e do corpo, nós, como outros em todo o mundo, escolhemos organizar-nos.
Ocupamos um espaço fora da política institucional. Não pretendemos representar ninguém, nem nos orientamos por uma lógica programática. Não nos junta uma direcção, mas uma afinidade que se encontra mais numa rejeição óbvia do capitalismo do que em eventuais proximidades ideológicas. Entregamos em exclusivo a uma assembleia, horizontal, aberta e informal, todos os momentos de decisão. Uma assembleia em que todos podem a todo o tempo tudo decidir.
As Jornadas anticapitalistas são a proposta que apresentamos. O seu programa permanece e permanecerá sempre em aberto e outras acções, que com ela se identifiquem ou solidarizem, poderão e deverão ter lugar. Este documento é, por isso, também um apelo à mobilização de todos os anticapitalistas e antiautoritários.
Propomos um conjunto de diferentes actividades e acções a decorrer no período de 1 a 8 de Março, que conte com acções de rua, debates, visionamento de filmes, jantares e festas, entre outros, que proponham saídas para este modo de vida e que critiquem de forma radical e directa o sistema capitalista. Estamos de acordo que não queremos esta ou qualquer outra economia capitalista e, nessa recusa, criamos um terreno comum, onde os contributos acompanham as diferentes sensibilidades num processo colectivo de discussão, decisão e acção."

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sinais

Desenho de Maturino Galvão

Sobre a exposição do João de Azevedo (1)


Fotos de Ivone Ralha



João Croco

Esta  manhã encontrei umas cartas, religiosamente bem guardadas, do meu amigo João de Azevedo. Tinham sido enviadas de Roma, onde vivia nos anos 70. E, ao lê-las, senti-me, se não culpado, pelo menos irritado comigo mesmo. É que, no alegre caos em que nos deixávamos perder, não fui capaz de ver o seu desejo mais pungente. E, no entanto, quantas vezes nestas cartas não era exactamente essa a questão! Pintar, desenhar, era o que o fazia feliz. Mas nunca afirma poder dedicar-se exclusivamente a isso. Os ideais políticos da nossa juventude não o permitiam. No entanto o caminho estava aberto: galeristas e coleccionadores interessavam-se pelo seu trabalho, interesse que o João só tinha então em conta do ponto de vista da subsistência.

Exaspera-me tentar hoje conquistar tudo o que foi então adiado. Na verdade o conflito começa na adolescência. João quer entrar na faculdade de Belas-Artes de Lisboa contra a vontade do pai que prefere vê-lo a estudar engenharia naval. Não seguirá nenhum dos caminhos. Depois de um ano na Faculdade de Direito, foge aos dezoito anos da ditadura salazarista, pedindo asilo político na Bélgica onde começa uma nova história. A sua existência torna-se rica, generosa e inventiva. E chega agora a hora de, sem reservas, desfrutar dos pincéis desfrutando do seu talento em plenitude.

Foi ele mesmo quem compreendeu que essa hora chegara, e fico contente por isso. A reviravolta deu-se em Timor, onde passou dois anos de 2005 a 2007. Nesta ilha de forma estranhamente parecida com a de um crocodilo, apaixonou-se pelas lendas locais e pela relação intensa que os Timorenses mantêm com a figura do crocodilo. Resultou daí uma série de pinturas de cores explosivas onde o homem e o sáurio se cruzam como se fossem um centauro invertido.

Assim como em Picasso com o encontro do homem com o touro – pensando em particular nos quadros que dizem respeito ao Minotauro – o encontro do homem com o crocodilo de João de Azevedo tem uma natureza fortemente erótica. Inquietante, também: haverá figura mais evocativa da castração que o crocodilo? Perguntem ao capitão Hook que pensa ele disto.
Mas para os falantes a castração está no coração da economia do desejo. No seu seminário “A relação do objecto”, Jacques Lacan evoca o crocodilo para ilustrar a alegria maternal devoradora, e do falo faz um bastão que se posiciona entre os dois maxilares não deixando que se fechem. Não sei o que os timorenses pensariam desta analogia!

Em Moçambique onde o João trabalhou onze anos, um pintor conhecido tem o nome de Malangatana Ngwenya, que significa Malangatana Crocodilo. Em Timor, ele torna-se João Crocodilo!

Yves Depelsenaire, psicanalista da  École de la Cause Freudienne (ECF), crítico de arte e autor de “Le Musée Imaginaire Lacanien”, (Lettre Volée, Bruxelas, 2009)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Head in a cage

Brain like an orchestra

«"I would like to turn my attention now to the well-adapted, who are classified as "not ill," those who compete successfully, who dominate, possess, and conquer - in other words, those who appear to be free of anxiety, stress, and suffering. The attempt to divide people into categories of ill and not ill is doomed to failure because it does not take into account the real illness that being a victim produces. If this crucial aspect of our development is ignored, then our understanding of history must remain incomplete. Our desire to understand human history will be frustrated as long as we are not capable of recognizing the ubiquity of the stranger within, an inability that comes about because we are forced to deny the terror and pain we were once exposed to. This prevents us from recognizing our victimization and its source, with the result that obedience is perpetuated because it provides a false sense of security. If we disobey, then we are overwhelmed by feelings of guilt. ".»
A. Gruen, in 'The Need to Punish: The Political Consequences of Identifying with the Aggressor
in The Journal of Psychohistory, Vol 27, No.2, Fall 1999.
©André Masson, Surrealist mannequin 'Head in a Cage' (1938)
Laura Nadar

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

ZECA MEDEIROS - Fados, Fantasmas e Folias

Zeca Medeiros, o Cantautor magistral, poeta, crooner, actor, realizador Açoriano está de volta com este duplo álbum. Imprescindível. Eu, que já o ouvi, aconselho vivamente. E na próxima sexta, dia 11 de Fevereiro, 22 horas, actua no Teatro Cinearte- A Barraca. Entrada Livre e venda do CD. Vai ser memorável.
Com muitos artistas convidados como Rui Veloso, João Afonso, Uxia, entre muitos outros. Oiçam aqui o tema, com a cantora galega, "Santiago Campo d'Estrelas (À Galiza)".
http://www.myspace.com/283629900/music/songs/78327598
Maré Negra: NUNCA MAIS!
Sejam Felizes!