terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Anjo Antigo (3)

Pintura de João de Azevedo (2004)

Manifesto dos economistas aterrorizados (falsa evidência nº 8)

Falsa evidência n.º 8:

A UNIÃO EUROPEIA DEFENDE O MODELO SOCIAL EUROPEU 
A construção europeia constitui uma experiência ambígua. Nela coexistem duas visões de Europa que não ousam contudo enfrentar-se abertamente. Para os social-democratas, a Europa deveria dedicar-se a promover o modelo social europeu, fruto do compromisso obtido após a Segunda Guerra Mundial, a partir dos princípios que o mesmo consubstancia: protecção social, serviços públicos e políticas industriais. A Europa deveria, nesses termos, ter erguido uma muralha defensiva perante a globalização liberal, uma forma de proteger, manter vivo e fazer progredir o modelo social europeu. A Europa deveria ter defendido uma visão específica sobre a organização da economia mundial e a regulação da globalização através de organizações de governação mundial. Como deveria ter permitido aos seus países membros manter um elevado nível de despesas públicas e de redistribuição, protegendo a sua capacidade de as financiar através da harmonização da fiscalidade sobre as pessoas, as empresas e os rendimentos do capital.


A Europa, contudo, não quis assumir a sua especificidade. A visão hoje dominante em Bruxelas e no seio da maioria dos governos nacionais é, pelo contrário, a de uma Europa liberal, cujo objectivo está centrado em adaptar as sociedades europeias às exigências da globalização: a construção europeia constitui nestes termos a oportunidade de colocar em causa o modelo social europeu e de desregular a economia. A prevalência do direito da concorrência sobre as regulamentações nacionais e sobre os direitos sociais no Mercado Único permitiu introduzir mais concorrência nos mercados de bens e de serviços, diminuir a importância dos serviços públicos e apostar na concorrência entre os trabalhadores europeus. A concorrência social e fiscal permitiu por sua vez reduzir os impostos, sobretudo os que incidem sobre os rendimentos do capital e das empresas (as "bases móveis") e exercer pressão sobre as despesas sociais. Os tratados garantem quatro liberdades fundamentais: a livre circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capitais. Mas longe de se restringir ao mercado interno, a liberdade de circulação de capitais foi alargada aos investidores do mundo inteiro, submetendo assim o tecido produtivo europeu aos constrangimentos e imperativos da valorização dos capitais internacionais. A construção europeia configura-se deste modo como uma forma de impor aos povos as reformas neoliberais.

A organização da política macroeconómica (independência do BCE face às estruturas de decisão política, Pacto de Estabilidade) encontra-se marcada pela desconfiança relativamente aos governos democraticamente eleitos. Pretende privar completamente os países da sua autonomia tanto em matéria de política monetária, como de política orçamental. O equilíbrio orçamental deve ser forçosamente atingido, banindo-se qualquer política deliberada de relançamento económico, pelo que apenas se pode participar no jogo da "estabilização automática". Ao nível da zona euro, não se admite nem se concebe nenhuma política conjuntural comum, como não se define qualquer objectivo comum em termos de crescimento ou de emprego. As diferenças quanto à situação em que se encontra cada país não são tidas em conta, pois o Pacto de Estabilidade não se comove nem com as taxas de inflação nem com os défices nacionais externos; os objectivos fixados para as finanças públicas não contemplam a especificidade da situação económica de cada país membro.

As instâncias europeias procuraram impulsionar reformas estruturais (através das Grandes Orientações de Política Económica, do Método Aberto de Coordenação ou da Agenda de Lisboa), com um êxito muito desigual. Como o método de elaboração destas instâncias não é democrático nem mobilizador, a sua orientação liberal jamais poderia contemplar as políticas decididas a nível nacional, atendendo às relações de força existentes em cada país. Esta orientação não pôde assim alcançar os sucessos incontestáveis que teria, de outro modo, legitimado. O movimento de liberalização económica foi posto em causa (com o fracasso da Directiva Bolkestein); tendo alguns países tentado nacionalizar as suas políticas industriais, ao mesmo tempo que a maioria se opôs à europeização das suas políticas fiscais e sociais. A Europa Social continua a ser um conceito vazio de conteúdo, apenas se afirmando vigorosamente a Europa da Concorrência e a Europa da Finança.


Para que a Europa possa promover verdadeiramente o modelo social europeu, colocamos à discussão duas medidas:
Medida n.º 16 : Pôr em causa a livre circulação de capitais e de mercadorias entre a União Europeia e o resto do mundo, renegociando se necessário os acordos multilaterais ou bilaterais actualmente em vigor;

Medida n.º 17 : Substituir a política da concorrência pela "harmonização e prosperidade", enquanto fio condutor da construção europeia, estabelecendo objectivos comuns vinculativos tanto em matéria de progresso social como em matéria de políticas macroeconómicas (através de GOPS: Grandes Orientações de Política Social).

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

In Lato Sensu

Eu sou a disrupção anódina
na mais incerta epígrafe
dos sentidos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Manifesto dos economistas aterrorizados (falsa evidência nº 7)

Falsa evidência n.º 7:

É PRECISO ASSEGURAR A ESTABILIDADE DOS MERCADOS FINANCEIROS PARA PODER FINANCIAR A DÍVIDA PÚBLICA 
Deve analisar-se, a nível mundial, a correlação entre a subida das dívidas públicas e a financeirização da economia. Nos últimos trinta anos, favoráveis à liberalização total da circulação de capitais, o sector financeiro aumentou consideravelmente a sua influência sobre a economia. As grandes empresas recorrem cada vez menos ao crédito bancário e cada vez mais aos mercados financeiros. Do mesmo modo, as famílias vêem uma parte cada vez maior das suas poupanças ser drenada para o mercado financeiro (como no caso das pensões), através dos diversos produtos de investimento e, inclusivamente, em alguns países, através do financiamento da sua habitação (por crédito hipotecário). Os gestores de carteiras que tentam diversificar os riscos procuram títulos públicos como complemento aos títulos privados. E encontram-nos facilmente nos mercados, em virtude de os governos terem levado a cabo políticas similares, que conduziram a um relançamento dos défices: taxas de juro elevadas, descida dos impostos sobre os altos rendimentos, incentivo maciço à poupança financeira das famílias para favorecer a capitalização através da poupança reforma, etc.


Ao nível europeu, a financeirização da dívida pública encontra-se inscrita nos tratados: com Maastricht, os Bancos Centrais ficaram proibidos de financiar directamente os Estados, que devem encontrar quem lhes conceda empréstimos nos mercados financeiros. Esta "repressão monetária" acompanha a "liberalização financeira" e gera exactamente o contrário das políticas adoptadas após a grave crise da década de 30; politicas de "repressão financeira" (drásticas restrições à liberdade de movimento dos capitais) e de "liberalização monetária" (com o fim do regime do padrão-ouro). Trata-se de submeter os Estados, que se supõe serem por natureza despesistas, à disciplina dos mercados financeiros, que se supõe serem, por natureza, eficientes e omniscientes.


Como resultado desta escolha doutrinária, o Banco Central Europeu não tem por isso legitimidade para subscrever directamente a emissão de obrigações públicas dos Estados europeus. Privados da garantia de se poderem financiar junto do BCE, os países do sul tornaram-se presas fáceis dos ataques especulativos. De facto, ainda que em nome de uma ortodoxia sem fissuras, o Banco Central Europeu – que sempre se recusou a fazê-lo – teve de comprar, desde há alguns meses a esta parte – obrigações de Estado à taxa de juro do mercado, de modo a acalmar as tensões nos mercados de obrigações europeu. Mas nada nos diz que isso seja suficiente, caso a crise da dívida se agrave e as taxas de juro de mercado disparem. Poderá então ser difícil manter esta ortodoxia monetária, que carece, manifestamente, de fundamentos científicos sérios.


Para resolver o problema da dívida pública, colocamos em debate duas medidas:

Medida n.º 14 : Autorizar o Banco Central Europeu a financiar directamente os Estados (ou a impor aos bancos comerciais a subscrição de obrigações públicas emitidas), a um juro reduzido, aliviando desse modo o cerco que lhes é imposto pelos mercados financeiros;
Medida n.º 15 : Caso seja necessário, reestruturar a dívida pública, limitando por exemplo o seu peso a determinado valor percentual do PIB, e estabelecendo uma discriminação entre os credores segundo o volume de títulos que possuam: os grande rentistas (particulares ou instituições) deverão aceitar uma extensão da maturidade da dívida, incluindo anulações parciais ou totais. E é igualmente necessário voltar a negociar as exorbitantes taxas de juro dos títulos emitidos pelos países que entraram em dificuldades na sequência da crise.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Há Pessoas com Música Dentro

Há pessoas com música dentro de si.
Um rufo interior com melodias de amor.

Há pessoas que ressoam no seu corpo um
timbre límpido de uma felicidade tonal.

Entre a fruta e o legume, aquela mulher
sussurrava uma melopeia indefinida, mas
certa, no volume e na altura sonora.

Pouco sei dos ritmos do silêncio e das
esferas do sonho. Mas aquela música
estava na contradança perfeita do mundo.

E perto da mulher em suave maresia na salsugem dos dias,
mulher feérica e sapiente, enigma da erva e orégão aromático
deixei-me ficar, fitando-a no seu frugal abastecimento da vida.

Durante a minha estada naquele mercado, o perfume do
seu rumorejar interior perpassou na minha mente e
levei para o caminho esse breve suave toque de um canto.

Depois da viagem, regressado das vagas alterosas da fértil
imagem sentida, deparei-me diante de casa com um saco
cheio de fruta e erva-doce para a combustão dos sonhos.

Mulher da erva, som escandido na primavera dos afectos,
verdura impassível do seu suave canto na lassidão do dia.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Lisbo-a-njos

O nosso João de Azevedo é um dos participantes da colectiva Lisbo-a-njos, a inaugurar na quarta-feira, 22 de Dezembro, na Galeria Paula Cabral. Poderemos, certamente, admirar in loco alguns dos trabalhos que tem apresentado pelo 2+2=5, e que continuaremos a publicar. A não perder. Mais informações aqui.

And everything Goes back to the beginning

And everything Goes back to the beginning

«"That is art." This time I caught her and said, "No, it is not artl On the contrary, it is nature," and prepared myself for an argument. When nothing of the sort occurred, I reflected that the "woman within me" did not have the speech centers I had. And so I suggested that she use mine. She did so and came through with a long statement.
I was greatly intrigued by the fact that a woman should interfere with me from within. My conclusion was that she must be the "soul," in the primitive sense, and I began to speculate on the reasons why the name "anima" was given to the soul. Why was it thought of as feminine? Later I came to see that this inner feminine £gure plays a typical, or archetypal, role in the unconscious of a man, and I called her the "anima." The corresponding £gure in the unconscious of woman I called the "animus. ".»

C. Jung, in 'Confrontation with the Unconscious', Memories, Dreams, Reflections
Laura Nadar

Manifesto dos economistas aterrorizados (falsa evidência nº 6)

Falsa evidência n.º 6:

A DÍVIDA PÚBLICA TRANSFERE O CUSTO DOS NOSSOS EXCESSOS PARA OS NOSSOS NETOS

A afirmação de que a dívida pública constitui uma transferência de riqueza que prejudica as gerações futuras é outra afirmação falaciosa, que confunde economia doméstica com macroeconomia. A dívida pública é um mecanismo de transferência de riqueza, mas é-o sobretudo dos contribuintes comuns para os rentistas.


De facto, baseando-se na crença, raramente comprovada, de que a redução dos impostos estimula o crescimento e aumenta, posteriormente, as receitas públicas, os Estados europeus têm vindo a imitar os Estados Unidos desde 1980, adoptando uma política sistemática de redução da carga fiscal. Multiplicaram-se as reduções de impostos e das contribuições para a segurança social (sobre os lucros das sociedades, sobre os rendimentos dos particulares mais favorecidos, sobre o património e sobre as cotizações patronais), mas o seu impacto no crescimento económico continua a ser muito incerto. As políticas fiscais anti-redistributivas agravaram, por sua vez, e de forma acumulada, as desigualdades sociais e os défices públicos.

Estas políticas de redução fiscal obrigaram as administrações públicas a endividar-se junto dos agregados familiares favorecidos, através dos mercados financeiros, de modo a financiar os défices gerados. É o que se poderia chamar de "efeito jackpot ": com o dinheiro poupado nos seus impostos, os ricos puderam adquirir títulos (portadores de juros) da dívida pública, emitida para financiar os défices públicos provocados pelas reduções de impostos… Por esta via, o serviço da dívida pública em França representa 40.000 milhões de euros, quase tanto como as receitas do imposto sobre o rendimento. Mas esta jogada é ainda mais brilhante, pelo facto de ter conseguido convencer a opinião pública de que os culpados da dívida pública eram os funcionários, os reformados e os doentes.


O aumento da dívida pública na Europa ou nos Estados Unidos não é portanto o resultado de políticas keynesianas expansionistas ou de políticas sociais dispendiosas, mas sim o resultado de uma política que favorece as camadas sociais privilegiadas: as "despesas fiscais" (descida de impostos e de contribuições) aumentaram os rendimentos disponíveis daqueles que menos necessitam, daqueles que desse modo puderam aumentar ainda mais os seus investimentos, sobretudo em Títulos do Tesouro, remunerados em juros pelos impostos pagos por todos os contribuintes. Em suma, estabeleceu-se um mecanismo de redistribuição invertido, das classes populares para as classes mais favorecidas, através da dívida pública, cuja contrapartida é sempre o rendimento privado.


Para corrigir de forma equitativa as finanças públicas na Europa e em França, colocamos em debate duas medidas:

Medida n.º 12: Atribuir de novo um carácter fortemente redistributivo à fiscalidade directa sobre os rendimentos (supressão das deduções fiscais, criação de novos escalões de impostos e aumento das taxas sobre os rendimentos…);

Medida n.º 13 : Acabar com as isenções de que beneficiam as empresas que não tenham um efeito relevante sobre o emprego.

Anjo Antigo (1)

Pintura de João de Azevedo (2004)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Natural Blues.



«Oh lordy, trouble so hard,
Oh lordy, trouble so hard,
Don't nobody know my troubles but God,
Don't nobody know my troubles but God.»
Moby, Play - Natural Blues, 1999;

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Manifesto dos economistas aterrorizados (falsa evidência nº 5)

Falsa evidência n.º 5:

É PRECISO REDUZIR AS DESPESAS PARA DIMINUIR A DÍVIDA PÚBLICA 
Mesmo que o aumento da dívida pública tivesse resultado, em parte, de um aumento das despesas públicas, o corte destas despesas não contribuiria necessariamente para a solução, porque a dinâmica da dívida pública não tem muito que ver com a de uma casa: a macroeconomia não é redutível à economia doméstica. A dinâmica da dívida depende de vários factores: do nível dos défices primários, mas também da diferença entre a taxa de juro e a taxa de crescimento nominal da economia.


Ora, se o crescimento da economia for mais débil do que a taxa de juro, a dívida cresce mecanicamente devido ao "efeito de bola de neve": o montante dos juros dispara, o mesmo sucedendo com o défice total (que inclui os juros da dívida). Foi assim que, no início da década de noventa, a política do franco forte levada a cabo por Bérégovoy – e que se manteve apesar da recessão de 1993/94 – se traduziu numa taxa de juro durante muito tempo mais elevada do que a taxa de crescimento, o que explica a subida abrupta da dívida pública em França neste período. Trata-se do mesmo mecanismo que permite compreender o aumento da dívida durante a primeira metade da década de oitenta, sob o impacto da revolução neoliberal e da política de taxas de juro elevadas, conduzidas por Ronald Reagan e Margaret Thatcher.


Mas a própria taxa de crescimento da economia não é independente da despesa pública: no curto prazo, a existência de despesas públicas estáveis limita a magnitude das recessões ("estabilizadores automáticos"); no longo prazo, os investimentos e as despesas públicas (educação, saúde, investigação, infra-estruturas…) estimulam o crescimento. É falso afirmar que todo o défice público aumenta necessariamente a dívida pública, ou que qualquer redução do défice permite reduzir a dívida. Se a redução dos défices compromete a actividade económica, a dívida aumentará ainda mais. Os comentadores liberais sublinham que alguns países (Canadá, Suécia, Israel) efectuaram ajustes brutais nas suas contas públicas nos anos noventa e conheceram, de imediato, um forte salto no crescimento. Mas isso só é possível se o ajustamento se aplicar a um país isolado, que adquire novamente competitividade face aos seus concorrentes. Evidentemente, os partidários do ajustamento estrutural europeu esquecem-se que os países têm como principais clientes e concorrentes os outros países europeus, já que a União Europeia está globalmente pouco aberta ao exterior. Uma redução simultânea e maciça das despesas públicas, no conjunto dos países da União Europeia, apenas pode ter como consequência uma recessão agravada e, portanto, uma nova subida da dívida pública.

Para evitar que o restabelecimento das finanças públicas provoque um desastre social e político, lançamos para debate duas medidas:
Medida n.º 10: Manter os níveis de protecção social e, inclusivamente, reforçá-los (subsídio de desemprego, habitação…);
Medida n.º 11: Aumentar o esforço orçamental em matéria de educação, de investigação e de investimento na reconversão ecológica e ambiental…tendo em vista estabelecer as condições de um crescimento sustentável, capaz de permitir uma forte descida do desemprego.

Origem do Mundo (2)

Pintura de João de Azevedo (1993)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

“Taste is formed in those moments when aesthetic emotion is massive and distinct ; preferences then grown conscious, judgments then put into words, will reverberate through calmer hours ; they will constitute prejudices, habits of apperception, secret standards for all other beauties. A period of life in which such intuitions have been frequent may amass tastes and ideals sufficient for the rest of our days. Youth in these matters governs maturity, and while men may develop their early impressions more systematically and find confirmations of them in various quarters, they will seldom look at the world afresh or use new categories in deciphering it.”
RARENESS OF AESTHETIC FEELING, Little Essays, Santayana
© Michel Medinger, Glass Eye
Laura Nadar

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Quero perdoar

Quero perdoar a toda a gente, mas há uns tipos que me irritam em demasia. Por exemplo, estes, que insistem em fazer obras no meu prédio.

O grande programa revolucionário

ESTAMOS A LUTAR CONTRA O QUÊ??
Estamos a lutar contra o desespero das nossas vidas. Estamos a lutar contra nós próprios, queridos amigos. Estamos a lutar contra os persas, os gregos, os romanos, os cristãos, contra toda a gente. Estamos a lutar contra nós próprios, contra a nossa incomensurável culpa. Contra aquilo que todos somos, a herança dos mortos. Morramos primeiro, e aí podemos fazer escola!
Somos cordeiros destinados ao sacrifício, e devíamos perdoar a essa gente que nos oprime. O seu destino é o pó, como o nosso. Tarde ou cedo, também eles se esquecerão das vãs glórias que estupidamente perseguem. Nós estamos a lutar contra moinhos de vento. O movimento das coisas do mundo é uma estúpida ilusão de plenitude no presente - ninguém sabe o seu destino na verdade! O poder e a gula, de que vos vale na verdade?! O sofrimento dos mais miseráveis dos miseráveis - isso que toda a gente esquece, mesmo quando pensa lutar a favor de algo, a favor deles, que miséria - não percebem que só estamos a lutar por nós mesmos? Isso será sempre o testemunho da maior beleza que existe em viver: nunca desculpar, nunca compreender, mas perdoar sempre. O grande programa revolucionário está escrito há dois mil anos.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Parafraseando Meslier, feliz a Humanidade só o há-de ser quando o último futebolista tiver sido enforcado com as tripas do último dos treinadores de futebol.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Woven Hand e Última vez (2)

Manifesto dos economistas aterrorizados (falsa evidência nº4)

Falsa evidência n.º 4:
A SUBIDA ESPECTACULAR DAS DÍVIDAS PÚBLICAS É O RESULTADO DE UM EXCESSO DE DESPESAS

Michel Pébereau, um dos "padrinhos" da banca francesa, descrevia em 2005, num dos seus relatórios oficiais ad hoc, uma França asfixiada pela dívida pública e que sacrificava as suas gerações futuras ao entregar-se a gastos sociais irreflectidos. O Estado endividava-se como um pai de família alcoólico, que bebe acima das suas posses: é esta a visão que a maioria dos editorialistas costuma propagar. A explosão recente da dívida pública na Europa e no mundo deve-se porém a outra coisa: aos planos de salvamento do sector financeiro e, sobretudo, à recessão provocada pela crise bancária e financeira que começou em 2008: o défice público médio na zona euro era apenas de 0,6% do PIB em 2007, mas a crise fez com que passasse para 7%, em 2010. Ao mesmo tempo, a dívida pública passou de 66% para 84% do PIB.
O aumento da dívida pública, contudo, tanto em França como em muitos outros países europeus, foi inicialmente moderado e antecedeu esta recessão: provém, em larga medida, não de uma tendência para a subida das despesas públicas – dado que, pelo contrário, desde o início da década de noventa estas se encontravam estáveis ou em declínio na União Europeia, em proporção do PIB – mas sim à quebra das receitas públicas, decorrente da debilidade do crescimento económico nesse período e da contra-revolução fiscal que a maioria dos governos levou a cabo nos últimos vinte e cinco anos. A longo prazo, a contra-revolução fiscal alimentou continuamente a dilatação da dívida, de recessão em recessão. Em França, um recente estudo parlamentar situa em 100.000 milhões de euros, em 2010, o custo das descidas de impostos, aprovadas entre 2000 e 2010, sem que neste valor estejam sequer incluídas as exonerações relativas a contribuições para a segurança social (30.000 milhões) e outros "encargos fiscais". Perante a ausência de uma harmonização fiscal, os Estados europeus dedicaram-se livremente à concorrência fiscal, baixando os impostos sobre as empresas, os salários mais elevados e o património. Mesmo que o peso relativo dos factores determinantes varie de país para país, a subida quase generalizada dos défices públicos e dos rácios de dívida pública na Europa, ao longo dos últimos trinta anos, não resulta fundamentalmente de uma deriva danosa das despesas públicas. Um diagnóstico que abre, evidentemente, outras pistas para além da eterna exigência de redução da despesa pública.
Para instaurar um debate público informado acerca da origem da dívida e dos meios de a superar, colocamos em debate uma proposta:

Medida n.º 9: Efectuar uma auditoria pública das dívidas soberanas, de modo a determinar a sua origem e a conhecer a identidade dos principais detentores de títulos de dívida e os respectivos montantes que possuem.

Origem do mundo (1)


Pintura de João de Azevedo (1993)

Sinais

Desenho de Maturino Galvão

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Mãe-Aniversário

No menos certo de mim, eu sei que te servi, mãe.

Sempre fui aquele rapaz que ia à drogaria com a nota de 20 escudos para comprar
a lixívia com que lavavas os alvos lençóis, ou a acetona com que limpavas as unhas
destemperadas de cor. Ou na padaria, quando comprava aqueles papos-secos que
eu tanto gostava. E que cheirinho tinham. E os palmiers que eu comprava com os
5 escudos que o teu pai, o meu avô Peixe me dava. E quando ele me chamava com
a sua voz tonitruante para lanchar lá em baixo as suas torradas com azeite?
Ele com o seu dedo indicador espalhava o azeite pela torrada. E que sabor!
Que bela infância no seio de uma família maluca! Com risos e gritaria, gente doida
a viver na pobreza de uma felicidade inusitada. E agora, estou mais velho, mãe.

Hoje és tu quem celebras o diadema do mar salgado no estrepitar da vida. Mais
um ano de conquistas e derrotas, de vivências e experiências. E eu, sempre a
derivar na paisagem agreste. Sempre a fugir de ti, na esperança de me tornar
mais crescido. E quando eu andei a pedir-te a bicicleta nova? Aquela cromada,
com jantes amarelas, da Confersil? Tão bonita que era. E lá passei de ano e tive-a!
Anos mais tarde arrependi-me de te pedir estas coisas. Que custam caro, a que
ainda não dava valor, porque não sabia ainda o que era ter de gerir a vida e os
dinheiros. E os all-star que te pedi, vermelhos, lindos? Sou tão infiel e absurdo.
Devia ser mais humilde e recatado. Ser menos criativo e certinho. Vestir bem
e fazer a barba. Ser homem e não apenas um sobre vivente. Ter um emprego
mais confiável e estável, como diz o pai. O teatro, essa loucura em que me meti,
como o pai a desaprovou. Sim, como experiência, aventura. Não como vida, sonho,
utopia e dose maciça de loucura. Mas tu mãe, sempre disseste: - deixa-o fazer
o que ele quer! Tu tens essa inteligência que todas as mães têm. Saber respeitar
o espaço e o tempo do filho. Dar-lhe o ar e asas para voar. Mesmo sem o céu azul
da bonança. Ver-me soletrar as sílabas da vida em devaneios sem fim. Auscultar
a minha dúvida num compasso sempre certo e eficaz. Gostar de ti é amparar-me
nos teus braços, nas tuas palavras mesmo que irónicas ou subtis. Mesmo que na
mais despudorada palavra ou chamada de atenção para os atrevimentos do mundo.

Mãe, hoje és ainda mais sábia que toda a faculdade da vida. Mesmo com todas as
minhas leituras, os meus estudos e graduações, és e serás sempre a Mestra de
olho vivo ao percalços da ciência e da razão. A docente mais arreliadoramente
picuinhas e chata. Por isso és mãe e tens de aguentar as diatribes de um filho
sempre rebelde e muitas vezes incapaz de dizer que te amo. Custa tanto amar
e depois passar o resto dos dias a fingir que te odeio, a desvalorizar a tua educação.
Porque um filho tenta sempre matar o pai e a mãe, faz parte do percurso do
pássaro bisnau, sair da asa e dizer que está tudo errado o que nos foi ensinado
e aquilo que vivemos em família. Faz parte; a arrogância do filho é sempre algo
a que uma mãe tem de se sujeitar, mas no fim, no fim mãe, é de ti que preciso.
No dealbar desta história, és tu quem vence e me convence das heresias do filho
em crescimento lento para a tua idade, a da sageza do espírito e a beleza do olhar.

Por tudo isto, eu sei que vou continuar teu servo e fiel engulho que tens de receber
no teu colo, no teu acalorado braço forte e simplesmente sempre presente.
Sem olhar para trás. No navio de espelhos mais vivo de uma cotovia, a anunciar
o canto da primavera mais branda e serena nos teus olhos. Até já, mãe delicodoce.

Woven Hand e Última vez (1)