terça-feira, 31 de agosto de 2010

Jorge Palma - Portugal, Portugal

Fidel e os homossexuais


Através do Vias de Facto cheguei a esta notícia: Fidel Castro assume a sua responsabilidade na ignóbil perseguição que o regime cubano moveu, até muito dentro dos anos 80, aos homossexuais. Não lhe fica mal assumir os erros, embora seja muito difícil de acreditar que estes se devessem, como Fidel argumenta, a estar muito preocupado com outras coisas na altura. Na verdade, a perseguição aos homossexuais era regra na época, não tivesse Fidel, logo em 1959, declarado que os gays "não podem ser revolucionários"; ou, em 1971, decretado a homossexualidade como "patologia anti-social" (e não vale insinuar que se tratam de calúnias de "agentes da CIA", como é habitual quando se critica Cuba. Estas questões estão amplamente documentadas, constam até de resoluções do PC Cubano, e encontram-se facilmente em inúmeros sites ligados aos movimentos LGBT. Por exemplo aqui, mas há muitos outros. Pesquisem!). Também é curioso que seja agora assumida uma perseguição que negou em 1992, quando afirmou: "Nunca promovi políticas contra homossexuais"!


A tímida assunção de culpa de Fidel trouxe-me à memória a extraordinária autobiografia de Reinaldo Arenas, "Antes que Anoiteça"; um calhamaço de 500 páginas que li de seguida, em nove ou dez horas, sem intervalos para comer (acreditem se quiserem). Também deu um filme com Javier Bardem (em cima uma imagem do mesmo), que não vi. Imprescindível esta narração da extraordinária saga de Arenas, da sua desilusão com a revolução, das perseguições que a sua condição de homossexual lhe acarretou, e do modo sistemático como foram executadas, trágica mas com pormenores caricatos (por exemplo: tais foram as calúnias sobre Arenas, "agente da CIA", "terrorista", e etc., que quando é preso é respeitado na prisão como um indivíduo extraordinariamente perigoso - ele, um escritor - o que lhe vale uma estadia bem mais tranquila que à grande maioria dos homossexuais). Bem melhor estaria Fidel se assumisse por inteiro os preconceitos da cultura revolucionária dos "barbudos", machista até ao tutano, e o sofrimento que provocou, em vez de se limitar a pôr as culpas nos "outros", ou no "ambiente que se vivia". A culpa é de todos em geral, a culpa não é de ninguém em particular, já dizia o José Mário Branco.

Recomendo

Estive a ler este livro de Martha Nussbaum, "Not for Profit: Why Democracy Needs the Humanities". Recomendo vivamente e aproveito para indicar uma boa crítica ao mesmo na New Statesman: http://www.newstatesman.com/books/2010/06/value-democracy-nussbaum-arts
Apesar de alguma ingenuidade nas soluções (alguém acredita que se vá apostar nas humanidades assim sem mais nem menos, sem que se mudem algumas coisas importantes que estão por trás?), tem pelo menos o mérito de nos apontar uma pista para a origem da quantidade de imbecis que falam na televisão, ou escrevem nos jornais. Apenas, e, segundo a autora, por causa, da sua formação em economia ou gestão, e do seu desprezo para com as ciências sociais e humanas.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Nova aquisição

Em cima do fecho do mercado anunciamos a contratação do António Bizarro, grande criador de máximas, dardos e aforismos, e também de muitas outras coisas.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Correio interno


André,

Aqui vão mais uns [desenhos]. Os políticos voltaram de férias mais parvos ainda, matéria para laracha não faltará.
Pensava eu, que o orçamento de 2011 não seria aprovado, mas as eleições presidenciais estragam este cenário. Cavaco já chiou para que não lhe estraguem o arranjinho de Belém. Quedas de Governo podem influenciar a sua reeleição logo à primeira. Por outro lado, PP Coelho, se for inteligente, espera que o PS reduza o défice, ou ver se o défice baixa; governar com um défice elevado é suicídio político, e lá se ia a bela aura de láparo sabedor e salvador. Assim, sempre manda umas bocas, achega-se como pessoa equilibrada, com soluções, não as põe em prática, e dá matéria intelectual para o povo falar nas tascas (ou no seu moderno equivalente: os blogs). Por que ele sabe perfeitamente o significado preciso de “reduzir despesa”: com certeza que não é despedir juízes, médicos, polícias etc., cantoneiros, jardineiros, contínuos etc., talvez; reduzir a despesa significa apenas baixar o valor das pensões. Tem sido tentado nas futuras, mas não chega, têm de baixar as actuais. Não sei se PP Coelho está numa dessas. Possivelmente não seria reeleito, ou talvez sim, o povo português também é parvo, como os seus políticos.  

Um abraço
Maturino Galvão
Cada vez que uma música dos Coldplay passa na rádio morre um gatinho.

Kant - O que é o iluminismo (2)


(...) Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade. Sempre haverá, de facto, alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabelecidos da grande massa que, após terem arrojado de si o jugo da menoridade, espalharão à sua volta o espírito de uma estimativa racional do próprio valor e da vocação de cada homem para pensar por si mesmo. Importante aqui é que o público, antes por eles sujeito a este jugo, os obriga doravante a permanecer sob ele quando por alguns dos seus tutores, pessoalmente incapazes de qualquer ilustração, é a isso incitado. Semear preconceitos é muito danoso, porque acabam por se vingar dos que pessoalmente, ou os seus predecessores, foram os seus autores. Por conseguinte, um público só muito lentamente consegue chegar à ilustração. Por meio de uma revolução talvez se possa levar a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento.
Mas, para esta ilustração, nada mais se exige do que a liberdade; e, claro está, a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade, a saber, a de fazer um uso público da sua razão em todos os elementos. Agora, porém, de todos os lados ouço gritar: não raciocines! Diz o oficial: não raciocines, mas faz exercícios! Diz o funcionário de Finanças: não raciocines, paga! E o clérigo: não raciocines, acredita! (Apenas um único senhor no mundo diz: raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes, mas obedecei!) Por toda a parte se depara com a restrição da liberdade. Mas qual é a restrição que se opõe ao Iluminismo? Qual a restrição que o não impede, antes o fomenta? Respondo: o uso público da própria razão deve sempre ser livre e só ele pode, entre os homens, levar a cabo a ilustração; mas o uso privado da razão pode, muitas vezes, coarctar-se fortemente sem que, no entanto, se entrave assim notavelmente o progresso da ilustração. Por uso público da própria razão entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado. Chamo uso privado àquele que alguém pode fazer da sua razão num certo cargo público ou função a ele confiado. Ora, em muitos assuntos que têm a ver com o interesse da comunidade, é necessário  um certo mecanismo em virtude do qual alguns membros da comunidade se comportarão de um modo puramente passivo com o propósito de, mediante uma unanimidade artificial, serem orientados pelo governo para fins públicos ou de, pelo menos, serem impedidos de destruir tais fins. Neste caso, não é decerto permitido raciocinar, mas tem de se obedecer. Na medida, porém, em que esta parte da máquina se considera também como elemento de uma comunidade total, e até da sociedade civil mundial, portanto, na qualidade de um erudito que se dirige por escrito a um público em entendimento genuíno, pode certamente raciocinar sem que assim sofram qualquer dano os negócios a que, em parte, como membro passivo, se encontra sujeito. Seria, pois, muito pernicioso se um oficial, a quem o seu superior ordenou algo, quisesse em serviço sofismar em voz alta acerca da inconveniência ou utilidade dessa ordem; tem de obedecer, mas não se lhe pode impedir de um modo justo, enquanto perito, fazer observações sobre os erros do serviço militar e expô-las ao seu público para que as julgue. O cidadão não pode recusar-se a pagar os impostos que lhe são exigidos; e uma censura impertinente de tais obrigações, se por ele devem ser cumpridas, pode mesmo punir-se como um escândalo (que poderia causar uma insubordinação geral). Mas, apesar disso, não age contra o dever de um cidadão se, como erudito, ele expuser as suas ideias contra a inconveniência ou também a injustiça de tais prescrições. Do mesmo modo, um clérigo está obrigado a ensinar os instruendos de catecismo e a sua comunidade em conformidade com o símbolo da Igreja, a cujo serviço se encontra, pois ele foi admitido com esta condição. Mas, como erudito, tem plena liberdade e até a missão de participar ao público todos os seus pensamentos cuidadosamente examinados e bem-intencionados sobre o que de erróneo há naquele símbolo, e as propostas para uma melhor regulamentação das matérias que respeitam à religião e à Igreja. Nada aqui existe que possa constituir um peso na consciência. Com efeito, o que ele ensina em virtude da sua função, como ministro da Igreja, expõe-no como algo em relação ao qual não tem o livre poder de ensinar segundo a sua opinião própria, mas está obrigado a expor segundo a prescrição e em nome de outrem. Dirá: a nossa Igreja ensina isto ou aquilo; são estes os argumentos comprovativos de que ela se serve. Em seguida, ele extrai toda a utilidade prática para a sua comunidade de preceitos que ele próprio não subscreveria com plena convicção, mas a cuja exposição se pode, no entanto, comprometer, porque não é de todo impossível que neles resida alguma verdade oculta. De qualquer modo, porém, não deve neles haver coisa alguma que se oponha à religião interior, pois se julgasse encontrar aí semelhante contradição, então não poderia em consciência desempenhar o seu ministério; teria de renunciar. Por conseguinte, o uso que um professor contratado faz da sua razão perante a sua comunidade é apenas um uso privado, porque ela, por maior que seja, é sempre apenas uma assembleia doméstica; e no tocante a tal uso, ele como sacerdote não é livre e também o não pode ser, porque exerce uma incumbência alheia. Em contrapartida, como erudito que, mediante escritos, fala a um público genuíno, a saber, ao mundo, por conseguinte, o clérigo, no uso público da sua razão, goza de uma liberdade ilimitada de se servir da própria razão e de falar em seu nome próprio. É, de facto, um absurdo, que leva à perpetuação dos absurdos, que os tutores do povo (em coisas espirituais) tenham de ser, por sua vez, menores (...). 

sábado, 28 de agosto de 2010

Música para a rentrée (1)



Vou deixar por aqui algumas propostas musicais, coisas bem actuais, para marcar a rentrée 2010, e a ver se se suporta melhor o terrível mês de Setembro que aí vem.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Kant - O que é o iluminismo (1)


Bem a propósito do post do Luiz Inácio mais abaixo, em que é citado este opúsculo fundamental do filósofo Immanuel Kant, resolvi publicar o dito por aqui. Devido à sua extensão, será dividido em partes. Este texto, um dos primeiros publicados por Kant, é, na minha modestíssima opinião, um dos seus mais brilhantes. Como foi realçado pelo Luiz nesse post, não chegou para ganhar o concurso, dizendo-nos algo sobre a justiça desse tipo de apreciações. Lembro-me de um professor meu da faculdade ter referido uma vez o nome do grande vencedor, mas a memória foi-se-me e não consegui descobrir pesquisando na net. Alguém sabe?

Resposta à pergunta: “O Que é o Iluminismo?”

IMMANUEL KANT


lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.

A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes), continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me

esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante todas as tentativas ulteriores.

É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso, porque não está habituado ao movimento livre. São, pois, muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu espírito arrancar-se à menoridade e encetar então um andamento seguro(...).

Rentrée

A período de lassidão está a terminar. É altura para a rentrée no 2+2=5.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O fogo

Eu adoro este país. Agora toda a gente descobriu de repente, que quase todos os incêndios são criminosos. A sério? E os outros anos todos, os anos 80, 90, 2003, 2005, não se lembraram disso? Nessa altura, quem o dissesse em voz alta era, no mínimo, apelidado de teorizador das conspirações, e o que nos explicavam, pacientemente, era para não fazer fogueiras na floresta, ter cuidado a assar bifanas no campo, ou não mandar beatas pelo vidro dos carros (a sério que sempre adorei a das beatas), já que a culpa era nossa, dos incures portugas. Bom, agora que já se pode dizer em voz alta o que toda a gente sempre soube, e milhares de hectares ardidos depois, talvez fosse altura de reinvestir na guarda florestal, em vez de mais uma tonelada de soluções mágicas.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Panda Bear - Benfica


A partir do minuto 4:30. Mas a anterior, "Last Night at the Jetty", também é excelente. Há um video no youtube com o tema "Benfica" e imagens do glorioso nos anos 60, mas a qualidade do som é péssima. Para quem não sabe, o americano Panda Bear integra os Animal Collective, e, pela fortuna do amor, vive em Lisboa há já alguns anos. Parece que entretanto lhe foi crescendo também o amor ao Sport Lisboa e Benfica.

Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010)



"Em meados do século passado desembarquei em Lisboa com uma bicicleta e uma caixa de tintas a óleo na bagagem. Eram prendas preciosas, uma de aniversário e outra por ter feito o 2º ano do liceu, de que tinha conseguido não me separar quando por decisão familiar fui nessa altura remetido de Moçâmedes para fazer em Santarém, num prazo de 5 anos, o curso de regente agrícola. Mas nem da bicicleta nem das tintas a óleo nunca mais voltei a fazer uso. Passei esses 5 anos na condição de aluno interno, a residir no próprio estabelecimento escolar, e tanto as tintas a óleo, que eram o reconhecimento dos meus mais evidentes talentos de infância, como a bicicleta, que era uma adjectivação de gloriosas adolescências coloniais, foram sacrificadas à disciplina e ao programa da minha estadia em Portugal. Fiz o que tinha a fazer dentro do prazo previsto, fui sendo bom aluno e isso me foi assegurando o direito de vir a Angola com passagens por conta do estado durante quase todas as férias grandes. E em 1960, com 19 anos, voltei definitivamente à jóia da coroa do império português para começar a fazer pela vida, até hoje e a partir daí, conforme as circunstâncias e segundo os meus próprios critérios...
Não estou, porém, evidentemente, a contar a estória pelo princípio. Quando de facto fui embarcado em Moçâmedes com destino a Santarém, eu estava também a ser remetido ao exacto local do meu nascimento biológico e de onde, mais cedo portanto, tinha vindo com a família, que entretanto emigrava arruinada mas servida ainda de criada branca e acompanhada de cães de caça, desembarcar em Moçâmedes. De qualquer maneira o que me calhou na vida foi estar de volta a Angola com um curso médio já feito quando a maioria dos sujeitos angolanos da minha classe etária e com recursos para estudar, com alguns dos quais eu tinha feito o 2º ano do liceu, estava a ser, por sua vez, expedida para a metrópole para estudar em faculdades. Não beneficiei, assim, nem de uma iniciação universitária comum nem da escola de cativação ideológica que também foi para a minha geração a casa dos estudantes do império, por exemplo, e pelo menos duas consequências maiores para o meu percurso biográfico terão resultado desta configuração das coisas : a primeira é que o lugar onde vim ao mundo, na Europa, sempre constituiu para mim, desde que me lembro a enfrentar a vida e a reflectir nas coisas, uma referência de exílio; a segunda é que tudo quanto pela vida fora se me foi revelando em termos de relação com o tempo histórico que foi o meu, e determinando o meu lugar cívico no mundo, acabou de uma maneira geral por me ocorrer a maior parte das vezes de maneira directa, física e existencialmente interpelativa, e não raro brutal, para só vir a impor-se de forma ainda assim mentalmente muito elaborada e muito ruminada, nalguns casos, teoria ajudando, quase sempre só depois.
*
Lembro-me de ter nascido, ou então de ter mudado inteiramente tanto de alma como de pele, pelo menos uma meia dúzia de vezes ao longo da vida e nenhuma delas foi lá onde terei, pela primeira vez, dado conta da luz do mundo. De que havia uma matriz geográfica que essa é que me dizia de facto muito intimamente respeito pela via quem sabe de uma qualquer memória genética, dei conta aos doze anos - lembro-me sempre de cada vez que ainda por lá passo e se calhar é para isso que ando sempre a ver se passo por lá – a comer pão e com um ataque de soluços no meio do deserto de Moçâmedes, por alturas do Pico do Azevedo. E de que havia uma razão de Angola que colidia com a razão de Portugal, disso dei definitivamente conta já a trabalhar nas matas do Uíge quando, em março de 1961, eclodiu a sublevação nacionalista no norte de Angola. Sobrevivi então aí absolutamente à justa e a tempo de me refazer de tanta perplexidade e de tanto horror, tanto insurreicional como repressivo, quando a seguir, numa memorável noite em Luanda, houve quem me sussurrasse, em passeio pelas ruas da baixa, versos nacionalistas de Aires de Almeida Santos e de Viriato da Cruz que me revelaram uma alma de Angola que se me vinha oferecer sob medida e pela via do arrepio para eu ajustar à razão de Angola que a sublevação tinha acabado de me dar a reconhecer in vivo, e de que a partir daí passei a socorre-me para ver se conseguia conferir algum sentido à condição de orfão do império a que a vida, apercebi-me logo, me tinha destinado. Quando logo a seguir, também, a idade e o desamparo me colocaram com um papel na mão para apresentar-me no Huambo ao serviço da tropa colonial, e depois fui transferido para Luanda, já tinha conseguido que alguns mais-velhos da luta clandestina nacionalista me atribuíssem mínimas tarefas menores, como dactilografar, para posterior distribuição pelos musseques, poemas de revolta de autoria anónima e esclarecedora má qualidade. Mas depois foi uma data de gente presa e a tropa só não me entregou também à pide porque o comandante da secção de justiça do quartel a que eu pertencia era casado com uma filha de Moçâmedes e decidiu arriscar, e os informou que preso já eu estava, por razões disciplinares. Passei ainda uns tempos fardado de soldado português a fazer desenhos no quartel-general, mas depois fui requisitado, como técnico agrário, pelo instituto do café, e mandado para a Gabela e mais tarde para Calulo. Ligações políticas efectivas com a insurgência nacionalista, nunca mais encontrei maneira de as restabelecer... e também nada ajudava... nem a cor da pele que é a minha nem o cargo de engenheiro que ocupava... e o máximo que consegui foi ser dado como persona non grata pela administração do Libolo, junto com um padre basco e um médico português, e afastado compulsivamente dali. Pouco para currículo político.
Arranjei então outro emprego e mudei para a Catumbela, onde fui responsável pela pecuária de uma grande empresa açucareira. E foi nessa condição que levei tal volta passados três anos - de mim para mim e a sós ou quase e a arriscar os meus primeiros poemas afundado no interior do imenso platô de Benguela, extremo norte do deserto do Namibe, onde, em plena fúria, tinha posto cinco mil ovelhas a pastar e a parir e doze furos artesianos a puxar água do fundo do deserto - , levei então tamanha volta que andei os três anos seguintes a derivar pelo mundo. Estive em Hamburgo, em Copenhaga e em Bruxelas, sempre na pista da insurgência nacionalista, mas quando finalmente consegui chegar a Argel, para contactar com as forças da luta, ninguém ali me levou a sério ou então voluntaristas como eu já tinham lá que chegasse e até nem sabiam muito bem o que é que lhes haviam de fazer. Foi depois disso e de outros precalços que acabei mais tarde por ver-me a exercer funções de chefe de fabricação de cerveja em Lourenço Marques - Maputo - e estive a seguir em Londres, com um dinheiro que pedi emprestado, a fazer um curso de realização de cinema e de televisão. Na sequência dessa volta toda é que acabei por voltar a Angola em 1974 e por passar a noite de 10 para 11 de Novembro de 1975 no município do Prenda, em Luanda, a filmar às zero horas, que foi uma hora zero, a bandeira portuguesa a ser arreada e a de Angola a subir no mastro.
*
Se a razão para estar agora aqui a contar estas passagens da minha vida é ter escrito até hoje meia dúzia de livros, então já nessa altura, quando foi da independência, tinha o primeiro livro de poesia publicado. Era o resultado da volta que tinha levado na Talamanjamba, no interior do platô de Benguela. E tinha muita escrita alinhavada e era a altura e a idade de anotar quase tudo. Quase tudo poesia. E disso dirão os próprios livros. Quanto à vida cívica, de cidadão angolano comum, de opção e de condição, de 75 até 81 fiz pela a vida e pela revolução realizando filmes para a televisão angolana e para o instituto angolano de cinema. E guardo a satisfação muito particular de ter visto a bandeira de Angola hasteada em muito lugar distante e mítico do mundo, em Samarkanda, por exemplo, precisamente por eu estar lá com trabalho meu. Mas entretanto foi deixando de dar para continuar a querer fazer cinema, e escrevi então um texto académico anti-cinema-etnográfico para juntar a um dos filmes que tinha feito – Nelisita – e obtive com isso o diploma da escola de altos estudos em ciências sociais, de Paris, o que me deu imediato acesso à condição de doutorando. Foi então o meu tempo de investigações de terreno, nas praias piscatórias de Luanda, e da minha modesta participação na reformulação de toda a teoria das identidades colectivas, em Paris. Durante essa meia dúzia de anos vivi entre pescadores, nas praias da Samba Grande e do Mussulo, e doutores, na Sorbonne e no Boulevard Raspail. A partir de 87, já doutorado, passei a dar aulas de antropologia social para arquitectos, na universidade de Luanda, e a aproveitar sabáticas para ir dar aulas também, e consumir bibliotecas, em Paris outra vez, Bordéus, São Paulo, Coimbra... Em 89 andei ainda por Cabo Verde a tentar filmar de novo, mas isso é mais é para esquecer. Depois, a partir de 92, fui arranjando maneira de ir passar cinco meses, todos os anos, misturado com os pastores do Namibe de quem, desde menino, andava a querer saber como conseguiam organizar a sua sobrevivência e a sua existência, tão diferenciada de tudo quanto os pressionava à volta. Foi para dar notícia disso sem ter de escrever naquele tom da escrita académica – de teses e artigos fui achando que já tinha tido a minha dose - que adoptei então essa maneira de escrever que depois me pôs na pista de uma meia-ficção-erudito-poético-viajeira em que venho insistindo.


Hoje continuo a não conseguir andar por fora muito tempo sem devolver-me ao murmúrio de Luanda, à noite, que sobe das traseiras da minha casa na Maianga, onde a vizinhança me trata por brancurui, e sem continuar a meter-me sempre que posso por esses suis abaixo, a penetar desertos e a inventar pastores. Procurei sempre, sob qualquer situação ou regime, e fosse quem fosse que estivesse a mandar, viver a condição de cidadão comum. Lido mal com o privilégio, caiba ele a quem couber, até a mim mesmo, e nunca consegui deixar de sentir-me, tanto antes como depois da independência, tido como minoritário, quer dizer, subalterno ou intruso que incomoda sempre, desde que dê nas vistas. Acho que entretanto sosseguei bastante, na vida, quando, já faz algum tempo, dei conta que afinal não só jamais viria a ser o melhor do mundo, quanto mais cá na banda. E que também não tinha obrigação nenhuma de o ser. Mas uma das questões pessoais que se me anda agora, com a idade, a por com mais frequência, é a de saber se será possível continuar a envelhecer sem sucumbir de todo a uma senilidade insuportavelmente azeda ou sem incorrer também numa dessas beatitudes patetas e patéticas que pretendem fundamentar-se numa sabedoria qualquer que a idade acumulada por si só garantiria. É verdade que um percurso biográfico se faz de tempos, de lugares, modos, percepções, ocorrências, experiências, resultados, aquisições, perplexidades, digestões e ressacas. Mas também é verdade que eu não vou nunca deixar de permanecer muito irremediavelmente ingénuo, embora não de todo burro, e de lidar muito mal com toda a ordem de leviandade, de irresponsabilidade, de arbitrariedade, de mentira, de prepotência, chantagem, esperteza, insolência e soberba, e de achar que o que mais envenena as relações entre as pessoas, quaisquer relações, é o uso e o abuso da boa-fé dos outros. E é disso que o mundo está cheio e a bem dizer se faz. E há de fazer-se sempre, talvez, porque afinal, parece, é assim mesmo que ele é. Temo não chegar nunca a ser capaz, mesmo senil, de vir a conformar-me com isso. E o resto são umas ideias minhas que ando ainda cá com elas."

Biobliografia, retirada do Site da Cotovia.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Capitalismo de casta

Um país como Portugal, com a sua gritante falta de cultura cívica, pouca tradição democrática, escassa literacia, mais a desgraçada tradição católica do respeitinho pela autoridade, tornou-se rapidamente um terreno perfeito para o capitalismo de casta. Não que o capitalismo de casta seja uma coisa portuguesa; é o que se passa em todo o lado, e o correcto seria chamá-lo apenas de capitalismo. Uso a expressão para que se entenda "o estádio do capitalismo", à boa maneira marxista. Uma vez que as características deste "estádio" do capitalismo estão à vista de todos, não deveria ser necessário eu enumerá-las, mas suspeito que nem todos as vislumbram à frente dos seus olhos. Pelo que passo a referir: a distância absoluta entre os poderosos e os outros todos, o sentimento de inacessibilidade aos poderosos, a noção de intangibilidade dos poderosos, a casta superior em reprodução sobre si mesma, um sentimento de impotência dos outros todos relativo às "injustiças" com que a casta superior, de um modo cada vez mais explícito, age no sentido da sua perpetuação. Isto passa-se em todo o lado em que o capitalismo de casta se exprime de um modo veemente (praticamente em todo o lado), mas em Portugal, devido ao que acima foi exposto, a coisa passa-se, não de maneira essencialmente diferente, mas com algum despudor adicional. E pode passar-se assim, também, já que este país olha sempre para os outros como uma espécie de graal adormecido, onde a nossa miserável exigência pode encontrar uma resposta fácil, uma solução - esta é a desvantagem dos povos empobrecidos e sem cultura cívica dentro do capitalismo de casta.
Um dos momentos onde se nota como Portugal é óptimo terreno para o capitalismo de casta é a indignação selectiva, que sempre vem ao de cima, sobre os privilégios de determinadas pessoas, e acima de todos dos políticos. Acha-se que os privilégios atribuídos são resultados de acções individuais, são prémios, recompensas que o sistema oferece, mas com isso não se vê que os verdadeiros privilégios estão sempre, sempre, a escapar-se-nos dos olhos, e mais: que é o sistema que nos está sempre a escapar-se-nos dos olhos! Porque a verdadeira imoralidade não é aquela que aparece, de vez em quando, como "escândalo", e especialmente no caso dos políticos, que são figuras menores do capitalismo de casta: o que é imoral é a maneira como tudo funciona, é a máquina dos privilégios, que há muito deixou de ter a ver com o mérito, a livre iniciativa, e outras estórias de encantar, e funciona hoje apenas para a perpetuação da casta. A nossa "indignação" quanto aos privilégios dos políticos funciona como mais um fenómeno de encobrimento, e que não deixa de ser alimentado pela casta superior.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sinais

Desenho de Maturino Galvão

A Escola Móvel

O Ministério da Educação decidiu fechar a Escola Móvel, criada para filhos de profissionais itinerantes, como feirantes e artistas de circo. O desvario "pedagógico" em Portugal chega a este ponto, o de acabar com as poucas coisas boas que se fizeram. A razão, já se sabe, é que custa muito dinheiro. Desta vez não se pode justificar os encerramentos e agrupamentos para poupar, com ridículos motivos "pedagógicos"; neste caso, não dava mesmo para justificar.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Justiça divina no Andanças

Um tipo não pode estar sossegado em São Pedro do Sul, no festival Andanças, a galar freaks, emebebedá-las, drogá-las, dançar o raio das danças e levá-las a cambalear para dentro da tenda, que tem de vir um mega-incêndio acabar com aquilo tudo? Oh justiça divina, foi a primeira vez que fui, e levei comigo o fogo, e mais de uma maneira de foguear.
Quanto ao resto, confirma-se o que me tinham dito: é o melhor festival em termos de gajas que me foi dado ver. Recomendo, mas sem incêndios.

Uma frase de verão


Uma das mentiras mais repetidas: "é a última e a seguir vamos embora"

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A preguiça, a cobardia e a classificação no concurso

"A preguiça e a cobardia são as causas por que os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio, continuem, no entanto, de boa vontade menores durante toda a vida; e também por que a outros se torna tão fácil assumirem-se como seus tutores"

Isto escreveu Kant na famosa resposta à pergunta "O Que é o Iluminismo?", publicada em 1784 em resposta a um repto de um jornal qualquer.
 O grande filósofo ficou, como se sabe, em 2º lugar no concurso, atrás de um iluminado que se perdeu na memória dos tempos.

FMM 2010 - N'Diale

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Um plano, desta vez, menos inclinado

Que o debate político ao nível dos media em Portugal está inquinado e inclinado, não é novidade. Raramente é quebrado o ciclo dos profetas da desgraça mais ou menos neoliberais, com a sua receita única, fechar, cortar, desinvestir, despedir. Enquanto qualquer imbecil com um MBA ou professor de Economia da linha dominante é convidado ad nauseam para repetir as patranhas do costume, as excelentes vozes do lado oposto são quase sempre silenciadas, de um modo tal que parece não existirem.
Num dos programas mais inclinados deste panorama, precisamente o Plano Inclinado da SIC Notícias de 31 de Julho, e numa raríssima abertura ao pluralismo político, Carvalho da Silva deu um baile ao pessimista de serviço, Medina Carreira, e ao neoliberal de serviço, João Duque. O programa está no youtube, por inteiro e em seis partes, e, garanto-vos, vale a pena ver. Deixo aqui os links.