sexta-feira, 28 de maio de 2010

Construir uma nação: ideologias de modernidade da elite moçambicana, por Jason Sumich (2)

AS ORIGENS E TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS DA ELITE MOÇAMBICANA DOMINANTE


Existem em Moçambique diversos grupos que podem reivindicar o título de elite — os régulos (autoridades «tradicionais»), os líderes religiosos, os estrangeiros associados a organizações internacionais poderosas, os membros mais importantes da classe mercantil indiana e os altos membros da RENAMO, antigos rebeldes que constituem hoje o partido de oposição oficial. Neste artigo concentrar-me-ei num grupo específico que parece constituir a elite socialmente dominante, ainda que não incontestada, de Moçambique e que é essencialmente composto pelos membros do partido governante da FRELIMO e pelos seus familiares e associados próximos. Não pretendo afirmar que este grupo é completamente homogéneo; de facto, existem diversas facções e clivagens sociais no seu seio. Tais clivagens estão relacionadas com os diversos antecedentes sociais dos membros da elite e incluem a etnia, a região, a religião e o nível de instrução. Existem também fissuras entre a velha guarda revolucionária, que participou na luta pela libertação, aqueles que aderiram ao partido pouco depois e a nova geração de «tecnocratas» que assumiram posições de destaque na fase final do período socialista ou já depois do mesmo. Algumas das actuais facções dentro da hierarquia da FRELIMO resultam destas diferenças, ainda que tendam geralmente a emergir em torno de tópicos como o papel da economia de mercado, a democratização e outras grandes questões. Embora muitos membros da elite tenham sérias divergências de opinião e, em privado, possam manifestar verdadeira animosidade uns pelos outros, há que não exagerar a importância destas clivagens. Para a liderança baseada em Maputo, pelo menos até ao momento, essas diferenças tendem a ser limitadas por um conjunto mais alargado de interesses comuns. É frequente a pertença simultânea a diversas facções, com pessoas a juntarem-se a uma ou outra em função do assunto em causa (Sumich e Honwana, 2007; Sumich, no prelo). Grande parte da liderança baseada na FRELIMO mantém-se unida através de laços de lealdade mútua, de amizade e por vezes de parentesco, bem como por meio de um sentido de identidade partilhada, resultante de experiências similares e reforçada por uma base ideológica. Embora as fissuras internas sejam muito reais, a elite de Maputo tem conseguido apresentar ao mundo exterior uma frente mais ou menos unida. Passarei de seguida a explicar as origens desta ideologia partilhada e as razões pelas quais constitui uma característica tão marcante dos estratos mais destacados da elite de Maputo.

A ideologia de modernidade defendida pelos membros da elite da FRELIMO está intimamente relacionada com os seus antecedentes sociais e a sua situação dentro do sistema colonial. A FRELIMO surgiu em 1962 como uma frente alargada que aliava três partidos de cariz mais regional (Mondlane, 1969; Newitt, 1995). Os primeiros anos do partido foram marcados pelo facciosismo e pela dissenção interna (Opello, 1975). Finalmente, entre 1968 e 1970, após uma série de lutas intestinas e do assassinato do primeiro líder, Eduardo Mondlane, as divisões internas atingiram o seu desfecho. A principal divisão do partido resultava da oposição entre as duas facções principais — uma radical e outra mais conservadora. A facção conservadora pretendia centrar os esforços na independência e, regra geral, seguia uma linha afro-nacionalista, enquanto a facção radical estava empenhada em universalizar a revolução social, vendo a independência apenas como um primeiro passo. O objectivo dos radicais era assumir o controlo do Estado e utilizar esse poder para remodelar completamente Moçambique e construir uma nova sociedade. Em 1970, a facção radical tinha triunfado sobre os seus adversários mais conservadores e unira o partido sob a sua liderança, ou, pelo menos, decidira adiar as divergências internas para depois da obtenção da independência (Vines, 1996). A facção radical assentava numa aliança entre uma pequena coligação de assimilados urbanos do Sul, mulatos, brancos e indianos, e uma elite emergente, mais rural, de moçambicanos do Norte educados em missões, excluindo frequentemente muitas elites do Centro do país que tinham antecedentes sociais diferentes (Hall e Young, 1997)(5). Embora os nortenhos, mais rurais, representassem uma secção importante da elite governante, concentrar-me-ei aqui nos assimilados do Sul, já que grande parte da ideologia da elite de Maputo é o resultado das experiências deste grupo, constituindo a base do «campo unificador» dentro do qual a elite tem operado. Os radicais do Sul eram não apenas comparativamente mais instruídos e mais empenhados na implementação da política geral da FRELIMO, como também desempenharam um papel central na formação da ideologia de modernidade, tendo deixado no partido e no Estado uma marca profunda que se manteve até ao período actual, mais tecnocrático.

Para compreendermos os tipos de posições ideológicas defendidas pela liderança da FRELIMO teremos de recuar à fase tardia do período colonial (1930-1975). Os assimilados constituíam uma elite africana emergente, em grande medida criada pelo Estado colonial com vista a limitar o poder das velhas elites crioulas (Cahen, 1992 e 1993). Este grupo tinha, geralmente, laços muito mais fracos com as formas de poder «tradicionais», constituindo, durante o período colonial, uma espécie de pequena burguesia africana, que era uma reduzidíssima minoria dentro da população indígena de Moçambique. Uma das estimativas mais comuns contabiliza-os em cerca de 5000 indivíduos numa população que rondaria os 8 200 000 antes da libertação (Sheldon, 2002). A estimativa talvez peque por defeito, já que inclui apenas as famílias mais importantes da classe dos assimilados (6). No entanto, independentemente do seu número total, os assimilados exerceram até à abolição oficial do sistema, em 1961, uma influência desproporcionada em relação à sua pequena dimensão numérica.

Para se obter o estatuto de assimilado era necessário satisfazer determinados critérios legais. Os candidatos tinham de jurar lealdade ao Estado colonial, falar apenas português nas suas casas, adoptar hábitos «europeus», abandonar crenças «bárbaras» e obter um atestado de um funcionário português que garantisse a sua probidade. Quem cumprisse estes requisitos recebia, teoricamente, os mesmos direitos legais que os portugueses. Embora assim não fosse na prática, os assimilados obtinham de facto uma ampla variedade de privilégios, como a isenção de trabalhos forçados, o acesso facilitado à residência urbana, à educação e ao emprego, e um pequeno conjunto de direitos civis, passando a estar sob a alçada da lei civil, ao contrário dos indígenas, que estavam sujeitos à lei «consuetudinária» (Mondlane, 1969; O’Laughlin, 2000; Penvenne, 1982 e 1989). Os assimilados tinham a possibilidade de obter um emprego nos mais altos bastiões da economia colonial a que um indivíduo de cor poderia aspirar, tornando-se assim enfermeiros, professores, ferroviários e pequenos funcionários públicos. O sistema colonial tendia a concentrar o capital mercantil nas mãos de interesses estrangeiros, pelo que a burocracia era a única via acessível a esta elite colonial emergente (Cahen, 1993, p. 49). Graças a estes privilégios, os assimilados eram geralmente vistos como um grupo à parte, distinto dos portugueses, bem como do resto da população africana (Penvenne, 1982).


(5) Durante o período colonial, os assimilados constituíam uma categoria privilegiada e detinham «tecnicamente» os mesmos direitos que os colonos portugueses. Se bem que muitos destes direitos não tivessem expressão prática, estes indivíduos gozavam de vantagens significativas em comparação com os chamados indígenas, que constituíam a vasta maioria da população africana de Moçambique.

(6) De acordo com uma comunicação pessoal de Paulo Granjo, fontes primárias (AHM 1961) contabilizam 1658 pessoas, incluindo as crianças, que obtiveram o estatuto de assimilado em Moçambique desde o início de 1950 até ao final de 1960, último ano em que este vigorou oficialmente. Tendo este estatuto sido instituído em 1917, é plausível que o número global de assimilados fosse superior à estimativa citada, mas não de uma forma muito marcante.

Gente de cabeça erguida (3)


Através do Jugular cheguei a esta magnífica elegia a José Saldanha Sanches, texto de despedida da sua mulher, Maria José Morgado:

Despedida eterna*

Zé Luis: começámos esta tua última viagem (tu gostavas de viagens) na cama 56 dos serviços de cirurgia 1 do Hospital de Santa Maria. Lia-te poesia e um dia parámos neste poema da Sophia de Mello Breyner:


”Apesar das ruínas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,

A Força dos teus sonhos é tão forte,

Que tudo renasce a exaltação E nunca as minhas mãos ficam vazias”.

Assim foi.

No teu visionário e intenso mundo, a voracidade de um cancro traiçoeiro não te consumiu a alegria, a coragem, a liberdade. Entraste pela morte dentro de olhos abertos. O mundo que habitavas era rico de ideias, de sonhos, de projectos, de honradez e carinho. Percebemos o que ia acontecer quando no fundo do teu olhar sorridente brilhava uma estrela de tristeza. Quando te deixava ao fim do dia na cama 56 e te trazia no coração enquanto descia a Alameda da Cidade Universitária a respirar o teu ar da Universidade, das aulas e dos alunos que adoravas, do futuro em que acreditavas sempre.


Foste intolerável com a corrupção, com os cobardes e oportunistas. Não suportavas facilidades. Resististe à sordidez, à subserviência, à canalhice disfarçada de respeitabilidade e morreste como sempre viveste - livre.

Uma palavra para aqueles que te acompanharam nesta última viagem: para os melhores médicos do mundo, para as melhores equipas de enfermagem e de apoio, num exemplo de inexcedível dedicação ao serviço médico público. Vivi com emoção diária o carinho com que te cuidaram.

Uma palavra de gratidão sentida para o Professor Luis Costa e para o Paulo Costa. E para um velho amigo de sempre o Miguel.

Também para Laura e para o Jorge e para a minha mãe e toda a família que nunca te deixou. Por fim uma palavra para aqueles amigos que inventaram uma barricada contra a morte no serviço de cirurgia 1, cama 56, e te ajudaram a escrever, a pensar, a continuar a trabalhar: o João Gama, o João Pereira e senhor Albuquerque, cada um à sua maneira.

Suspiraste nos meus braços pela última vez cerca da 1,15 da madrugada do dia 14 de Maio. Vai faltar-me a tua mão a agarrar na minha enquanto passeávamos e conversávamos.

Provavelmente uma saudade ridícula, perante a força do exemplo e da obra que nos deixaste e me foi trazido por todos aqueles que te homenagearam – a quem deixo a tua eterna gratidão.

Tenham a coragem de continuar.

[16.05.2010 - Maria José Morgado]

Comentários

Perante o regresso da criança grande pseudo-anónima, que alguns dos leitores do blogue (aqueles que nos conhecem pessoalmente) já sabem muito bem quem é, não temos outra alternativa senão voltar à moderação de comentários. Mais uma vez lamento, mas há coisas que não se podem controlar, como a infantilidade de certas pessoas de horizontes muito estreitos.
Relembrando, são livres de comentar, apenas terão de esperar algum tempo para que o comentário seja aprovado (não muito, que será feito um especial esforço para estar em cima do acontecimento).
Um bem-haja aos nossos leitores e aos verdadeiros comentadores.

No Photos!!!

O realizador, a modelo, e o "protector" que não gosta de fotógrafos. Nova Iorque

Foto de Jota Esse Erre

Também não fico.

Perante comentários rascas não dá para ficar.
Quero que os intitulados críticos literários vão trabalhar devidamente. Não são credíveis, nem devem mencionar essa actividade no IRS. Não existem. Há quem crie e há quem receba a criação. Um "crítico" é apenas o intermediário manhoso, o leitor antecipado porque recebeu a obra de oferta, por convite. Não a pagou, viu, leu ou ouviu na diagonal. É o funcionário que é chamado a exercer fora de horas, às pressas, o impressioista de serviço que há-de sentir-se instituído a botar palavra em fecho de edição. Lêem uma vez e botam discurso. Vêem uma vez e botam discurso. Onde a análise, onde o exame sincero, honesto?... Vão procurar trabalho sério e honesto. Não se deixem ficar pelas impressões e aprendam a Ser. Deixem de lado os vossos carimbos gastos do gosto e do não-gosto, ó reles tarefeiros da chamada crítica literária para a qual todo o país onde viveis se está nas tintas.
Que ouse, ao menos, produzir algo de original quem ousa sentir-se no direito de 'criticar' algo que outrém criou.
Estou fora. Não acredito em blogues: são uma perda de tempo.

Os blogues são os jornaleiros que o não conseguem ser. Aquela gente que não se afirmou na Criação. Aqueles que não se sentiram bem no Ensino. Aqueles que não conseguiram lugar em nenhuma parte.

Por isso parto, sem saudade. Aqui voltei a ver e a lidar com o lado mais errado das pessoas: a gentinha, vulgar, rasca, desordeira que se acha alguém e que acaba sempre por meter a PSP na sua vida.
Para esse peditório...
nunca (espero...) darei.
Beijos e abraços.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Construir uma nação: ideologias de modernidade da elite moçambicana, por Jason Sumich* (1)

(Por sugestão do leitor Paulo Ferreira, publicamos este artigo de Antropologia Política sobre Moçambique, originalmente editado pelo Instituto de Ciências Sociais. Devido à sua extensão será dividido em partes)


INTRODUÇÃO


Um dia, durante o meu trabalho de campo em Maputo, a capital moçambicana, tive uma conversa com uma amiga, Josina. Na altura eu investigava a formação da elite governante de Moçambique e os seus modos de auto-reprodução social. Os pais de Josina tinham estado envolvidos na luta pela libertação, tornando-se membros destacados da FRELIMO após a independência(1). Embora alguns membros da sua família tenham militado num movimento revolucionário socialista, Josina autodefine-se como uma capitalista fervorosa e durante a nossa conversa defendeu reformas neoliberais puras e duras para Moçambique. Quando exprimi as minhas dúvidas de que semelhante modelo pudesse ajudar os mais pobres, ou seja, a esmagadora maioria da população, Josina respondeu que o meu problema era estar profundamente equivocado em relação à natureza da sociedade moçambicana. Na sua opinião, os pobres não tinham falta de oportunidades — simplesmente, não estavam interessados nelas:

"Há aqui uma enorme diferença que tu não compreendes, acho eu. Passas o tempo todo com pessoas como nós, instruídas e ocidentalizadas. Aqueles que são privilegiados, como nós, têm gostos e desejos que são muito diferentes dos das outras pessoas todas. É realmente uma questão de interesses. A maioria dos moçambicanos são camponeses, têm uma machamba [um pequeno lote de terra], vivem da agricultura, e é isso que lhes interessa e que os satisfaz. A sério que não precisam de instrução nem de mais nada, e a verdade é que nem sequer a desejam. Por exemplo, o meu pai tem raízes pobres, rurais. Gostava de ler, mas não estava assim tão interessado em continuar a estudar(2). Nunca se interessou por essas coisas até ao momento em que percebeu tudo o que os portugueses tinham, em comparação com o pouco que ele tinha. A maioria das pessoas deste país não está simplesmente interessada em nada disso. Só querem que as deixem cultivar as suas machambas em paz. Nós, os privilegiados, é que queremos e precisamos dessas coisas."

Aquilo que me interessou na resposta de Josina foi não apenas a sua semelhança com algumas das antigas justificações coloniais para a desigualdade, mas também o facto de ser um discurso bastante comum entre as pessoas ligadas à elite dominante, baseada no partido da FRELIMO(3). Ao longo da minha investigação notei que existia frequentemente entre os membros desta elite o pressuposto implícito de que, por serem instruídos e «modernos», eles eram fundamentalmente diferentes da vasta maioria da população do país. Este sentido de diferença interessou-me, já que era bastante comum entre pessoas que deviam a sua posição de privilégio a uma ligação pessoal ou familiar a um movimento político que, no seu período revolucionário, defendera um nacionalismo supostamente igualitário. Aparentemente, as noções de modernidade que outrora tinham estado na base de uma ideologia potencialmente emancipatória eram agora indicadores de diferença social.

O presente artigo traça as mudanças e continuidades de uma ideologia de modernidade entre uma elite baseada em Maputo desde as suas formulações iniciais sob o regime revolucionário de Samora Machel (1975-1986), passando pela queda do socialismo, até à introdução da democracia neoliberal sob a presidência de Joaquim Chissano (1986-2005). Após a independência, Moçambique conheceu um turbilhão de mudanças políticas e sociais. Em 1977, a FRELIMO apresentava-se como um partido marxista-leninista de vanguarda; em 1983, durante uma brutal guerra civil, foram introduzidos os primeiros esforços de uma perestroika moçambicana e, a partir de 1989, o partido começou a evoluir no sentido da democracia neoliberal. Contudo, subjacente a estas mudanças dramáticas, tem persistido, ainda que em mudança também, uma ideologia de modernidade que se tem revelado central nos esforços da elite para legitimar o seu papel e o seu estatuto em Moçambique, tanto dentro do próprio grupo como perante a nação em geral. Baseio-me aqui no trabalho de Ferguson, o qual defendeu que, em África, a «modernidade» deve ser entendida como uma categoria «local» utilizada pelos indivíduos como meio de explicarem o seu lugar no mundo e como poderosa afirmação de igualdade (1999, 2002 e 2006). Em Moçambique, as ideias são também categorias «locais» utilizadas pelos indivíduos para explicarem o mundo, mas é importante sublinhar que há frequentemente mais do que uma única e incontestada categoria local. Além disso, no caso de Moçambique, esta categoria «local» tem diversos significados; a ideologia de modernidade da elite baseia-se em ideias de igualdade com o mundo exterior, das quais retira legitimidade, mas constitui também um poderoso instrumento para a criação de desigualdade. A promoção da elite enquanto modelo ideal de modernidade e enquanto único sector social capaz de introduzir essa modernidade na nação constitui, por si só, uma reivindicação de poder. Fornece um plano para a estruturação e implementação de um conjunto de crenças partilhadas e uma justificação para a hierarquia; nesse sentido, serve de «campo unificador» que promove a coesão das elites (v. Gledhill, 2002)(4). Para compreendermos adequadamente esta ideologia de modernidade tere- mos de a analisar etnográfica e historicamente desde a independência do país até à actualidade. Nas páginas seguintes analisarei o modo como esta ideologia se converteu no projecto de uma elite nacionalista para a criação de uma nação independente. Como veremos, durante o período imediatamente posterior à independência a ideologia de modernidade da elite, na sua forma nacionalista revolucionária, exprimiu-se por meio de uma vasta tentativa de redefinição do lugar de Moçambique no palco mundial, já que o território passara de colónia dependente a nação soberana com base na mobilização massiva da população. Este primeiro esforço fracassou devido à crise económica e a uma devastadora guerra civil que estalou em 1977 e se prolongaria até 1992. O colapso da versão nacionalista revolucionária da modernidade não lançou o descrédito total sobre o ideal; pelo contrário, conduziu à reformulação conceptual do mesmo. No período pós-socialista, a ideologia de modernidade foi despojada de grande parte da sua antiga ênfase sobre a mobilização de massas. Em vez de redefinirem o lugar de Moçambique entre a comunidade global das nações, muitos membros da elite procuram agora integrar-se a si próprios em poderosas redes internacionais. Assim, esta ideologia funciona actualmente, cada vez mais, como um sinal de status e uma afirmação de poder social por parte da elite. Por um lado, continua a legitimar a posição das elites ao manter de pé a promessa de progresso e, por outro, permite a essas mesmas elites afirmarem-se como as únicas detentoras das competências e capacidades necessárias ao cumprimento dessa promessa. Na prática, a ideologia de modernidade funciona também como um símbolo de afirmações quotidianas de poder social, as quais, ainda que possam ser contestadas, são normalmente compreendidas pela população em geral — pelo menos em Maputo, a zona que me é mais familiar.

Para ilustrar a minha argumentação começarei por examinar as origens e as transformações sociais da elite em questão e o modo como esse processo permitiu o desenvolvimento da ideologia de modernidade. Passarei de seguida a analisar o modo como esta ideologia é inculcada nas gerações mais jovens através da educação e a forma como se exprime através da auto-apresentação e do consumo. Concluirei o artigo com uma breve análise do contributo do caso moçambicano para a literatura antropológica e, mais especificamente, para os temas de África e da modernidade.


* LSE, Crisis States Research Centre/Development Studies Institute.

(1) A FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) conduziu uma bem sucedida luta de libertação contra Portugal, o poder colonial, e tem-se mantido continuamente no governo desde a independência do país, em 1975.

(2) Durante o período colonial, a vasta maioria da população era analfabeta. O facto de o pai de Josina saber ler e ter acesso a livros pode significar que os seus antecedentes eram mais privilegiados do que ela supõe.

(3) Descrevo a formação desta elite na secção seguinte do presente artigo (Ideologias de modernidade da elite moçambicana).

(4) Não pretendo afirmar que esta ideologia é incontestada — os debates são frequentes e acalorados no seio da elite da FRELIMO. Defendo, sim, que esta ideologia fornece as bases do discurso utilizado pela elite, bem como muitas das premissas, mesmo para perspectivas rivais.

O anúncio

Modelos a serem fotografados para um anúncio. Brighton Beach Nova Yorque

Foto de Jota Esse Erre

A ver azul...

Como se fosses o meu tecto. O meu abrigo. Como se fosses (quem sabe?...) o último reduto.
Nos teus olhos.
Amanhã, talvez...
Nos teus cabelos.
Talvez outro dia...
Na incerteza dos teus braços.
Irei ao teu encontro.
Numa espera cada vez mais desesperada.
Amanhã?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

(Mais um caso de) violência policial no Bairo Alto

"Dois jovens garantem que foram espancados, na madrugada desta terça-feira, no Bairro Alto, em Lisboa, por vários polícias, tendo sido uma das vítimas obrigada a uma intervenção cirúrgica ao maxilar.

Vasco Dias, 19 anos, e Laura Diogo, 18 anos, encontravam-se perto do Largo Camões quando a jovem começou a fazer «percussão» num caixote do lixo. «Um indivíduo à civil, que não se identificou, começou a mandar-me calar em tom agressivo e a chamar-me nomes. Até me deu um estalo», contou Laura ao tvi24.pt.

Eram cerca das 3h30 e surgiram então «mais polícias», «com a farda azul da PSP», mas que «não estavam identificados». «Eu tentei olhar para as placas com os nomes e não as vi», garantiu.

O jovem tentou ajudar a amiga, mas, segundo esta, «atiraram-no para o chão e espancaram-no», enquanto ela própria era alvo de mais agressões. «Nem falaram com ele. E depois fomos algemados e levaram-nos para a esquadra da Praça do Comércio num carro normal da PSP», acrescentou.

Laura não foi identificada e tentou falar com os pais, mas negaram-lhe qualquer telefonema porque «não estava detida, logo não tinha direitos». Os dois estudantes estiveram cerca de uma hora na esquadra, «com os polícias sempre a insultarem-nos e a mandarem-nos calar». Confirmou ainda que o «indivíduo à civil» era, afinal, um agente, porque o viu depois na esquadra.

Vasco foi separado da amiga, porque «quis apresentar queixa», e tudo terminou com um outro agente «à paisana» a «acalmar as coisas» e a mandá-los embora. Os jovens apanharam então um táxi para o hospital de S. José e Vasco Dias teve mesmo de ser submetido a uma cirurgia porque se encontrava com o maxilar fracturado, conforme confirmaram fontes hospitalares ao tvi24.pt.

«Eu vou fazer queixa. Estou neste momento no hospital, onde me vão fazer exames porque tenho alguns ferimentos superficiais e depois vou apresentar queixa», reforçou Laura.

O tvi24.pt tentou contactar Vasco Dias para confirmar em que modos a queixa foi apresentada, mas o jovem, que continua internado, não consegue falar. «Durante duas a três semanas ele vai ter de estar de boca fechada e come por uma palhinha», revelou Filipa Gonçalves, uma amiga que visitou o alegado agredido."

Notícia na TVI24 via Spectrum.

Núcleo de Arte (domingo). Maputo, Novembro, 2009

Foto de Sergio Santimano

A poeira assenta

Este blogue volta a ter os comentários sem moderação.
Desenho Maturino Galvão

terça-feira, 25 de maio de 2010

Aguarela

O dois mais dois continua lindo...
Encharco-me no amarelo e tudo vai seguindo...

Talvez não veja bem. Talvez...

Nem sempre as coisas correm bem.

Eu, por mim, vou seguindo.
Vou escutando as conversas diárias
nas linhas ferroviárias.
Contemplo pés, cheiro os sovacos
e miro casacos.

Construo uma poesia feita de conversas de ocasião.

É a minha aguarela: aquela mistura das cores.

Gente que vem. Gente que se dilui.
Gente

(como uma gota de água que vem ao encontro da cor da aguarela...)

Mundo cão da cultura

Parece que o mundo da cultura reuniu há tempos com o Papa. Creio que, quem o nomeia assim, refere certamente aquele “mundo” que estará disponível para reunir com o Papa – os VIPES da corte instante - e fazer a parte de que está disponível para continuar a ilustrar os dogmas da Igreja com as suas pinceladas, os seus filmes monocromático/lentos e de plano fixo, colaborar nas diversas manhas do arrependimento espectacularizado, ajudar a ocultar o cortejo de atrocidades identificador da instituição – Inquisição, colaboracionismo com os nazis e pedofilia - num perdão redentor que abra portas a recomeços que pisarão os mesmos caminhos que, de novo, levem a outro perdão, num ciclo mesmo infernal – os ciclos da história são isso mesmo (e a Igreja não é imune à história, mesmo como máquina milagreira, Fátima sem os diabólicos bolcheviques seria um falhanço): regressos que nunca são idênticos mas que mantêm a humanidade aquém da promessa da igualdade, da fraternidade e da paz.

O funcionário de Deus não pode mais do que gerir as crises e como Estado que é, correr atrás dos fogos que se ateiam nos âmbitos recônditos das violências que eram seladas e que não cessarão, agora que é impossível esconder as verdades atrás dos muros de pedra ancestral que formam as paredes das Igrejas, dos Mosteiros, dos Conventos, das Casas Paroquiais – é isso que a viajem em cena há pouco realizou: um grande espectáculo capaz de preparar uma sondagem mais favorável ao magistério deste Papa, uma sondagem branqueadora face à dimensão do crime mais recente.

A era do vídeo e este reality show constante do espectáculo do mundo alimenta-se de drama permanente em clímax de histeria e apocalipse, e o drama, negativo, faz mais jeito porque preenche de modo mais intenso emocionalmente, ocupa mais eficazmente a totalidade do cérebro, gera sentimento de impotência e oculta o que se passa mesmo: uma regressão da democracia, da transparência, do poder do voto e uma acumulação da riqueza, por via especulada, branqueadora, tóxica e traficada, nos bolsos de meia dúzia de Estados Particulares e das suas Tropas – um mundo cada vez mais o mesmo.

Todos sabemos que a diversidade não são discursos, mas sim uma consequência das estruturas do real em movimento conformando a vida e as vidas – a Igreja e os imigrantes, o Estado e a Igreja, a Igreja e Berlusconi, a Igreja e a pedofilia, a Igreja e a Escola em que a Igreja continua a ineficácia das catequeses, impossível que é de a fazer coincidir – à escola - como qualidade ética, dinâmica de aprendizagem e qualificação profissional, com a esfera da produção e das profissões, dependente das deslocalizações assassinas e do negócio dos despedimentos apoiado nas leis que o executam – quem duvida que as indemnizações servem os donos e não os empregados, que uns mantêm fortunas e que outros ao fim de um tempo esgotam as reservas? Desemprego, horizonte produtivo?

Tudo isto, como admirador de Cristo e das liberdades, me enoja. Tanto lixo para debaixo do tapete revela uma disposição, mesmo quando se repete que o crime aconteceu já não dando para escondê-lo nenhuma sábia ocultação. Estratégia mais inteligente e dizem que este Papa o é. Será? Necessitará? Não basta sê-lo, papa, mito e santidade?

O mundo da cultura, desculpem-me, não é representado pelo velho Oliveira nem por nenhuma estrela do nosso pequeno firmamento, sempre disponível para a medalhinha, a comenda, a homenagem, consenso apaziguador e paroquial – rectangulozinho reconfirmado nas medidas, por muitas águas internacionais que o multipliquem. O mundo da cultura é mundos de culturas.

O que chocou nesta coisa foi o desejo de absoluto e a disponibilidade todo o terreno das tropas de choque da campanha mediática, agindo com cio de primas donas e o “dar a anca” dos culturais do costume e do sistema – o poema é do Mário Henrique Leiria.

Que seja claro que aqueles que cedem nestas circunstâncias ao espectáculo do “diálogo” mostrado – o exemplo pela imagem tem um fundo milenar -, não o continuam no resto do ano, nem todos os dias, a fazê-lo, e a maior parte daqueles que trabalham culturalmente com as populações raramente se encontram com a Igreja pois ela não está lá, está de guarda ao bafio das sacristias e ao vício militante da hierarquia burocratizada e estanque – os missionários é outra história. Aí estou de acordo com o Papa: metam-se na política, metam-se na economia, metam-se nas artes e sejam tão capazes disso como a mais rica tradição artística, a dos Leonardos e dos grandes pintores e escultores de temas mítico-religiosos. Nada mais comovente que a Pietá, tão diferente desta Igreja de bugigangas, plástico fluorescente e vídeo convertida. E tão longe dos sapatos Prada (é assim que se escreve?)

Fernando Mora Ramos

segunda-feira, 24 de maio de 2010

(Mais) um esclarecimento, que se espera o último

Compreendendo a posição do Armando, até por motivos que são conhecidos de quem com ele priva, permito-me discordar (e também concordar, já lá vamos). Não, ela (e tu), não tem razão. A calúnia e o insulto anónimos não o são menos por ser anónimos (pelo contrário, são muito mais condenáveis). Também não são menos graves por não me serem directamente dirigidos, e sobretudo quando pretendem atingir amigos meus (são como família, como já tive oportunidade de afirmar). Ora quem, como eu, acompanha blogues há mais de seis anos, e nunca publicou um comentário anónimo em qualquer um (e isto inclui alguns inflamados, que a carne é fraca), tem uma grande dificuldade em entender pretensas indignações - que na verdade, e como se viu, não passam de manipulações - daqueles que cobardemente escondem a cara enquanto insultam a seu bel-prazer. Tenho muito orgulho em assumir o meu nome, mesmo quando ajo menos bem, e não conheço outra maneira de ser. E com certeza que admito que perdi a verve em certos momentos. A carne é fraca, lá está, e resistir a provocações nem sempre é possível. Lamento pela forma, que não pelo conteúdo, e sobretudo por este desenlace.
Continuo no blogue, com a forte esperança de que o Armando um destes dias regresse, quando a poeira assentar.

domingo, 23 de maio de 2010

Vou direito ao assunto. Vou deixar o 2+2=5. Depois do que se passou na caixa de comentários não pode ser outra a minha posição. Não se trata de uma questão de tomar partido numa querela e dar razão a este ou aquele. Também não tem que ver com a natureza dos blogues e, ou, a caixa de comentários e as suas várias opções. Fiz isto com amigos, uns mais antigos que outros. Com causas e micro-causas. Um projecto com gente que se sentia de esquerda ou tinha vindo das esquerdas. Uma coisa diversa, plural e provocatória. Foi sempre, para mim, ir ao encontro de afectos estivessem eles lá atrás ou ainda estivessem a chegar. Entenderão assim que depois do episódio com a Ana Cristina Leonardo não tenha outra alternativa. E quando a Ana Cristina diz ao André o que se segue: “Quanto ao resto, anónimos e etc., o blogue aceita comentários anónimos. Como não vi publicado nenhum que atentasse ao teu bom nome, ou ao da tua família... não vejo razão para tanta histeria e tanto post inflamado acompanhado de cantos militantes. Quem não quer ser chateado, não se estabelece. Decides vir fazer insinuações torpes em público - nas quais, pelos vistos, insistes. Não devias. É feio.”, tem razão. Tendo ponderado o bastante e nada mais havendo a dizer, despeço-me de todos com um forte abraço.

PS.
1. Farei chegar ao correio do blogue o material que tenha dos menbros que não postam directamente;
2. Este post está fechado a comentários.

Deus lhe pague.


«Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego»

Chico Buarque, in Construção (Deus lhe pague);

Homem sem tecto, Lisboa, Chiado, Outubro de 2009;

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Gente de cabeça erguida (2)

Mundo Cão


Nas últimas semanas mudei a minha visão do mundo. O “Quando o povo tem fome tem o direito de roubar”, do Belmiro, ajudou nisso.

Percebi também que a Grécia continua a abalar consciências. No Secundário costumava ouvir dizer que aquilo que identificava os gregos, face aos outros povos da altura, era a ausência de chefes. Obedeciam à lei e à ordem e assim combatiam. Os gregos da Antiguidade, bem entendido. Hoje anda meio mundo excitado com o cão grego libertário, que se passeia entre manifs e morde as pernas aos polícias.
Lembrei-me que as minhas cadelas podem ter nesta crise um papel. A Lex , como o nome indica, está do lado da ordem e quer filar o Belmiro. Já a Boom, mais alternativa, quer andar na boa-vai-ela atrás do Kanelos.

Nada como um banho para aclarar ideias.

Da vossa,

Josina MacAdam

quinta-feira, 20 de maio de 2010


Nascer do sol na Costa do Sol. Maputo. Outubro de 2009

Foto Sérgio Santimano

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Para que não serve um blogue

A discussão sobre para o que serve um blogue é antiga e tem obra feita, alguma dela por aqui (mas muita ainda para produzir, evidentemente). Vou deixar mais um modesto contributo, desta vez pela negativa, e especificamente sobre as caixas de comentários dos blogues. Estas de certeza que não servem para: promoção de agendas ocultas; insultos pessoais; difamação a coberto do anonimato; poluição de diversos posts com o mesmo comentário; aquilo a que já por aqui se chamou de "troca de correio pessoal" - zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades; em resumo, fazer perder o tempo e a paciência dos membros do blogue, que são aqueles que para ele contribuem, e fazem dele o que é, para o bem e para o mal, com lateralidades de todo dispensáveis.

A partir deste momento este blogue tem os comentários moderados. Todos podem continuar a comentar, inclusivé anónimos, e inclusivé o/a ex-anonimo/a que precipitou esta decisão - desde que o faça com juízo - as regras estão ali acima bem expostas. Obviamente que os comentários não ficarão disponíveis de imediato, mas faremos um esforço por aumentar a frequência no blogue, de modo a diminuir o tempo de espera. Peço especial compreensão para estes primeiros um, dois dias, enquanto nos habituamos ao sistema.

Uma palavra final para a Sofia, pessoa que nem conheço pessoalmente, e que, chegada de fresco a este blogue, observou um simples post de boas vindas a ela dirigido transformado numa peixeirada sem sentido nenhum. Espero que ela perceba que, primeiro, tudo isto foi feito por uma pessoa que eu sei quem é, cujo objectivo é o de atingir outros, que não a ela; e, finalmente, que agora poderemos todos concentrarmo-nos naquilo para que um blogue como este pode e deve servir.

Gente de cabeça erguida (1)



Dedicado a "Anónimos" cobardes e delatores. Na esperança sincera de que algum dia entendam o que diz esta canção da grande Mercedes Sosa.

Comprovando, mais uma vez, que do caos nasce a luz, aproveita-se a triste intervenção do(a) ex-anónimo(a) para inaugurar uma série sobre alguns daqueles que, ao contrário dele(a), entendem que a vida é algo mais que satisfazer pulsões mesquinhas e vaidades medíocres.

No Arrastão

A União Nacional da Opinião, por Daniel Oliveira.

«Para a União Nacional dos comentadores e economistas do bloco central são estes os responsáveis pelo estado em que estamos: os funcionários públicos; os trabalhadores supostamente protegidos pelas nossas leis laborais; os cidadãos em geral, que vivem endividados e acima das suas possibilidades; o excesso de peso do Estado; e o excesso de impostos para a classe média-alta.

Repare o leitor que entre os responsáveis nunca está a banca, que além de nos ter enfiado nesta crise e ter sido salva pelos nossos impostos ainda paga menos ao fisco que todas as restantes empresas. Nunca está a elite económica constituída por meia dúzia de famílias que têm o Estado como refém dos seus negócios e os partidos como reféns da sua vontade. Nunca estão dos gestores mais bem pagos da Europa no País com o salário médio mais baixos da Europa.

Repare o leitor que por uma qualquer coincidência nunca estão, entre os responsáveis pelo estado em que estamos, quem realmente tem poder neste País. Não espanta. É muito radical ser “politicamente incorrecto”. Mas é preciso olhar bem para o chão que se pisa. Não consta que com a simpatia de funcionários públicos, professores, sindicalistas, desempregados, beneficiários do Rendimento Social de Inserção ou trabalhadores menos abonados se arranjem e se mantenham bons empregos. Há que dizer e escrever coisas chocantes, mas sem chocar as pessoas erradas.(...)»

A ler na íntegra aqui.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Modelo


Uma modelo a ser preparada para a foto. Brighton Beach, Nova Iorque

Foto Jota Esse Erre

Sinais


Desenho Maturino Galvão

"Caixinha com rodas"

É na próxima sexta-feira, às 18.30h., na sala de teatro do Passos Manuel.
Trata-se da apresentação do exercício final dos meus alunos do curso de Artes do Espectáculo - 10º ano.
Construído a partir de textos da nossa Gabriela Ludovice.
Tem a duração de vinte minutos e começa mesmo à hora marcada.
Gostava mesmo de vos ver por lá.

Da Capital do Império

Obama reduz fundos para Combate à SIDA

A luta contra a SIDA vai nos próximos tempos deparar com enormes dificuldadades de financiamento devido a dois factores:
1) A crise económica/financeira mundial;
2) A administração de Barack Obama.
Comecemos por recordar alguns factos. O financiamento da luta contra a SIDA através do mundo e particularmente em África tem sido feito essencialmente através de duas fontes, nomeadamente A) o Fundo Presidencial para Alívio da SIDA (iniciado por George W. Bush e conhecido pelas iniciais PEPFAR) e B) o Fundo Global de Combate à SIDA, Tuberculose e Malária.
É no caso do Fundo Global que a crise financeira internacional entra em jogo. Quando criado em 2001 pela então Secretário-geral da ONU Kofi Annan o Fundo Global previa um “pote” de 7 mil milhões a 10 mil milhões de dólares.
Na prática os Estados Unidos (quem mais poderia ser?) deveriam contribuir com 50 cêntimos americanos por cada dólar doado pela comunidade internacional.
Mas as outras nações têm doado tão pouco que o govenro americano tem pago anualmente muito menos do que aquilo autorizado pelo Congresso americano. Desde a sua fundação o fundo gastou 6 mil milhões de dólares e o ano passado recebeu menos 3 mil milhões do que havia previsto forçando o fundo a reduzir as suas doações em cerca de 12%.
Para além disso o orçamento do governo americano para 2011 prevê uma redução de 50 milhões de dólares da contribuição dos Estados Unidos para o fundo.
Mas não é só para o Fundo Global que a administração Obama está a aplicar reduções. O PEPFAR de George Bush está autorizado pelo congresso a gastar entre 2008 e 2013 48 mil milhões de dólares. O seu orçamento tem sido na realidade de cerca de sete mil milhões de dólares anuais. A administraçao Obama avisou já os receptores dessa ajuda (entre os quais organizações que operam em Moçambique) que não devem esperar aumentos por pelo menos nos próximos dois anos.
Em Moçambique organizações envolvidas em actividades relacionadas com o PEPFAR vão encerrar alguns programas.
Talvez surpreedente para alguns é que a decisão da administração Obama não se deve a somente a questões económicas. Obama criou a sua propria Iniciativa Global de Saúde e as suas prioridades não são a SIDA.
E se é verdade que os activistas da luta contra a SIDA estão em fúria a verdade é também que Obama e a sua adminsitração têm razão quando afirma que mais vidas serão salvas se se concentrar fundos em doenças infatis facilmente curàveis ou preveníveis. Muito mais gente morre no mundo de doenças tratáveis ou que podem ser prevenidas como infecções respiratórias (mais de quatro milhões de mortes por ano), meningite (174.000 mortes por ano), tétano (214.000 mortes por ano), tosse convulsa (entre 200.000 e 300.000 mortes por ano), sarampo (530.000 mortes por ano), diarreia (2,2 milhões de mortes por ano), malária (entre 1 e 5 milhõe de mortes por ano).
Eu sempre fui de opinião que a razão por que se deu tanto enfâse à SIDA se deve ao facto de ser uma doença que afecta ou pode afectar também o mundo desenvolvido e para a qual não há cura. Para aquelas doenças que há cura ou que são preveniveis mas que não afectam o mundo desenvolvido pouca atenção se presta. Um milhão de mortes por malária e 530.000 de sarampo por ano deveria ser o suficiente para criar fundos mundiais de combate como foram feitos para a SIDA. Mas pouca atenção se presta a isso.
Um estudo aqui divulgado revela que para tratar um paciente da SIDA no Uganda durante toda a sua vida (desde que a doençaa é detectada até a sua morte) custa ceca de 11.500 dólares.
Com gastos de 1 a 10 dólares pode-se salvar mais vidas em prevenção e combate à diarreia, malária, sarampo e tétano com atibioticos, redes mosquiteiras, filtros de água e vacinas.
Não é simpático e talvez seja mesmo um pouco cruel falar-se em termos de custos e gastos para avaliar vidas humanas. Mas governar é ter que escolher. Na maior parte das vezes entre o mau e o pior. Essas escolhas envolvem sempre fundos limitados e em alguns casos como agora essas limitações são agravadas por uma crise.
Mas por muito que custe não é de admirar a escolha de Barack Obama. É lógica. Ao fim e ao cabo Obama é produto da Universidade de Chicago onde, segundo se diz, “as mentes são frias e analíticas quando o resto do mundo se emociona”, mentes que “seguem os factos até aos seus extremos lógicos”.

Da Capital do Império,

Jota Esse Erre

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Feira do Livro Anarquista

Carregar na imagem para ver o programa em detalhe.

17 de Maio: um grande dia para Portugal

Hoje foi grande dia para Portugal, no seu caminho para os valores da civilização e do respeito por todos os seres humanos: foi promulgada a lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Também ficou claro que Cavaco o fez a contra-gosto, supostamente para não "arrastar" a questão. Mas não deixou de apresentar um pedido de desculpas público ao país pela ousadia, não vá o eleitorado da direita chatear-se. Antes assim, pois muitos já supunham que a lei não passaria pelo PR. Por feliz coincidência o anúncio da promulgação acontece no Dia Mundial contra a Homofobia, cujas celebrações incluíram a Marcha contra a Homofobia e a Transfobia, em Coimbra, a cuja divulgação este blogue não se associou apenas por lapso meu.

A cabeleireira


Nova Iorque é uma cidade onde se encontram nas ruas os fotógrafos e seus modelos. Aqui uma modelo a ser peparada. Meat Packing District, Nova Iorque.

Foto Jota Esse Erre

Boas vindas...

...À Sofia Aguarela, mais recente aquisição do 2+2=5!

(Este post tem os comentários fechados, a partir das 14:45 de 20 de Maio, por razões óbvias.)

Mundo Cénico.


Se arrepia, é porque é bom. Se faz tinir os ouvidos, como eco gordo numa sala fechada ou um par de chapadas estalando perto dos tímpanos, é porque é excelente.

Just whistle


Lauren Bacall e Humphrey Bogart

Sinais


Desenho Maturino Galvão

domingo, 16 de maio de 2010

Amor na blogosfera


Fatal Attraction. Directed by Adrian Lyne. With Michael Douglas, Glenn Close, Anne Archer

A caixa de comentários do blogue atrai-me.

anaCrónica 20

Papadofila/ ludicasta

O papa semeia semeia semeia e nada
O crente vai mais casto atrás da carne ou da uva
Na banda larga e mesmo na vizinhança
Cometer com outra gana o que lhe proibiram em coro
E os padres com tanto rapazinho de pobreza exposta
À castidade dedicam santa aspirina remédio santo
Na busca da disfunção eréctil que os desatormente
Pois não há idade para pertencer aos Céus
E só se pertence sem desejos a eles
Dominada a besta e entregues ao breviário
Este entre mãos para tê-las ocupadas
Sem sucumbir ao entre pernas teodolito
Medidor de fronteiras e odores
E desaforado vertiginoso cobremaníaco

E porque não a excisão
Da gaita pois que o berbigão é delas
E não dos ordenáveis proprietários de castos pirilaus?

O papa semeia semeia semeia
E lá ordenam senhoras os anglicanos
A poucos metros de São Pedro
Praça da sua janela global
- Se há de oportunidade é a dele em poliglotismos alemanizados
Ritual mais que ateu pois apenas ecrã e microfone
Nem altar nem tecto sistino nem nada
Só plano americano e primeiro também e claro
Mais que água benta a mineral -

Intérpretes pois as senhoras
Do velho e do novo testamentos
O que só no masculino está prescrito
Pois só pelo filtro da cinzenta massa
Macha a palavra pode ser exegetada
Como deve ser

O papa semeia semeia e nada
O povoléu enche a praça
Curte a terapia em catarse concertante
E depois regressa ao pecado
Todas e cada um o seu
A mulher do parceiro certamente
Pois é mais picante que a própria
A masturbação penitente
No genuflexório pois
Para o mais novo ordenança ainda
Na presença dos mármores
E dos arrependidos
Das paredes pendurados
E mesmo os mais devotos
Tudo devem ao Tartufo
Pois o diabo está no neurónio instalado
Como uma carraça tresmalhada
Que o desejo não pede para entrar
Já lá anda

Ele há outros cometimentos
Que assinalam que o bicho mano
Só mano é na solto-manidade total
Sem trela nem rédea
Assim à moda do natural
Mas tal receita não tem evangelho que a prescreva
Nem bula que a torne medida
Tragédia da contradição
Que só muita contrição atenua
Sem garantia pois
Atenua atenua atenua

O papa semeia semeia
E as meninas vão com as meninas
E os rapazes com os rapazes
Já de Safo a coisa vem
E sabe-se que o Sócrates o Alcibíades papava
Ou era papado pelo infante discípulo
Belo mas não sábio
Daí vem o Papado como período
Papado durante o período
O período para a ordem masculina casta da coisa
É o equivalente do período
Para a ordem feminina da coisa
Essa fronteira que o papa re-semeia
Constantemente
Para salvar o mundo claro
Da guerra civil dos sexos
Pois se sangram é por alguma razão
Que eles apenas sangram por trás e quando
As almorróidas vindas da especiaria assassina visitam
Sem passaporte as partes merdoprodutoras
Portanto este papado é o papado do período do teólogo
Que mais Aristóteles das metafísicas é Rástzingaro
Para as impor assim duro às mais que físicas
As verdadeiras metas espirituais
Pura teoria e pura abstracção descorporificada
Baseada na pura ideia e transparência
A que sobrevoa por falta de gravidade que a persiga
Sem base material que a figure
Pois o sangue do senhor é de facto vinho
E este vem da inocência da uva
Sem consciência
Fruta é
E nada é
Como a outra
A maçã
Feita com o demóino
E pura traição avermelhada
O papa semeia semeia
E o berlusconho colhe da aura
Os ardores da erecção amiga
Nas páginas nacionais de referência
Para gáudio colectivo e memória de Nero exaltada
Em busca das chamas infernais romanas que tudo redimam

Pelos paparazis colhida a gaita ex ministerial de leste
No foco de uma teleobjectiva
Prova que a Europa vai de vento em popa
E que não há melhor reforma que a dos ex mandantes
Pois melhor que biagra é sem ele erigir a coisa aos céus
Por efeito da pura natureza das coisas contracenando

Pois agora que me refaço
Das dores mediáticas que tive
Quase traumatizantes
Dedico ao senhor dos Prada
Este poemO de alento
Com finalidade didáctica

Desejo e oro com ele
Para que a castidade
A dívida púbica resolva
E comova os especuladores
E suas agências ratzingas

É tudo uma questão
de desErecção cósmica

FMR

Ilha de Moçambique. Novembro de 2009

Foto Sérgio Santimano

Sinais


Desenho Maturino Galvão

sábado, 15 de maio de 2010

quarta-feira, 12 de maio de 2010


Pintura João de Azevedo

O dia em que meu pai foi Ringo Starr


(Desenho João Neves)

Quando o JSP aqui homenageou o Roberto Carlos e o Barroca, fez referência ao Clube Roberto Carlos da Mafalala e lembrei-me de mais esta história. Por inabilidade minha, da qual não são culpados, para a entenderem ajudaria, para quem não viveu esses tempos, ler A Curva do Rio, do Naipaul, e qualquer dos Coetzee, que descreva a África do Sul.
O Barroca era um português de gema. Um Oliveira da Figueira na figura e na capacidade adaptativa. Era um bravo. Na adolescência tinha sido mandado, de castigo, para a metrópole, fazer o equivalente ao 9º ano, num internato de padres, no Norte de Portugal. Não o vergaram. Na tropa (só dois do grupo do meu pai lá foram parar) perdeu a arma durante a recruta. Foi mandado noutro castigo, agora não familiar, para a guerra no Norte de Moçambique. Debaixo de um ataque, ganzado e bêbado, foi o único a responder ao ataque inimigo. Apocalypse Now avant la lettre. Nestas andanças cafrealiza-se. Recusa a cultura do colonizador. Celebra a vida onde ainda ela faz sentido. Entra pelos compound e descobre que há uma grande festa moçambicana enquanto o caldeirão não rebenta. Arrasta os amigos e leva-os a essa enorme descoberta. Uma espécie de Os últimos dias de Saigão. Um dia desafia-os para irem a uma festa no Clube Roberto Carlos. Música do melhor. Dilon Djindji , rock e claro, música do patrono. Mal saíram do carro foram muitíssimo bem recebidos. Com tombazanas e tudo. Todos, eram seis, ficaram com os nomes de um dos Beatles, mesmo que repetido. Mesmo o meu pai, i.e. o Ringo, o Ninito, i.e. o George, e o Luís Filipe. Esse mesmo Luís que entrava, em 1978, sem camisa, nas tascas da Almirante Reis, em Lisboa, a berrar que era o Sandokan e a passar por cigano (e que na Mafalala era o Paul). Essa festa, com muito de tudo e do bom, acabou com uma carga da brigada da polícia montada que se desviou dos Beatles e varreu os outros à bastonada. Penso que terem vivido isso implicou escolhas fortes. Não terá sido o primeiro momento, também não foi o último, mas foi um dia decisivo na conversão deles à democracia e ao multiculturalismo em liberdade. O Barroca, como vos disse o JSP, morreu no Brasil. Os outros andam por aí no samba-rock. É do fado. Gilberto Freire tinha razão.

Josina MacAdam




(Fotos dos Beatles da Mafalala)

Serge Gainsbourg e a arte da provocação pura e dura (2)

Sinais


Desenho Maturino Galvão

terça-feira, 11 de maio de 2010

O mar existe...

E um dia encontras-te em frente ao mar e vais soltando as tuas verdades, foges para Sul e encontras-te, descobres o teu novo rumo.
Depois, vem um nevoeiro imenso.
Recordas apenas um brilho de um olhar, um sorriso, a quentura de um corpo, uma mão que se enlaçou na tua.
Depois, há uma névoa confusa. Puta que pariu estes tempos!
Mar que já não vejo, ondas confusas que me enrolam, nuvens cheias de cinzas!
De tudo, a partir de agora, desconfio. De todos descreio.

Uivo à beira de um desgosto.
Não creio em nada.

O mar existe.
Essa é a única certeza...

Ilha de Moçambique. Novembro de 2009

Foto Sérgio Santimano

Das "polémicas", reais ou inventadas

Não me parece que haja nenhuma polémica em especial neste blogue, de momento. No entanto, impõe-se um esclarecimento quanto ao tal de Agostinho Lopes e outros assuntos: primeiro, acho estranho que se identifique a "canalha totalitária", que a há, e foi até bem nomeada pelo Armando nos comentários ao post, com a prática política de um partido tão inócuo, parlamentar, e dentro do sistema como é hoje o PCP. Segundo, no meu caso pessoal faço questão de não ter vacas sagradas, detesto rebanhos e ainda mais pastores. O exercício de memória do Agostinho Lopes quanto à história das privatizações em Portugal é fundamental, por muito que isso doa a quem insiste em acreditar (esses sim) em cantigas de embalar sopradas com a palavra mágica, "esquerda", e assim dormem um sono sossegado enquanto se vai dando cabo daquilo que significa isso mesmo, a esquerda. Terceiro, que quem me conhece, ou quem lê este blogue, sabe muito bem onde me situo perante os valores democráticos, e a exigência, tanto na prática política como intelectual, como ainda (e isso é o mais importante) na forma como se vivem os valores que se apregoam, da democracia, da liberdade e da solidariedade; por isso mesmo me espanto, oh se me espanto, que perante os maiores ataques à democracia alguns fiquem calados, preferindo continuar a confundir a forma com o conteúdo, satisfazendo-se com o mínimo denominador comum, recusando a exigência em troca, lá está, de um bom travesseiro onde deitar a sua cabeça. Quarto, dizer que é pena que alguns anónimos-não-tão anónimos, que demonstram à exaustão desconhecer o que é a democracia e a liberdade, na prática da sua vida de todos os dias, aí onde é decisivo, pretendam lançar veneno, acusando à boa maneira do novo estalinismo pessoas que estão muito acima delas, que vivem de cabeça erguida recusando o anonimato, que assumem as suas opiniões, debatem ideias e não lançam lama para cima de outros, que parece ser a única maneira como esta gente opera no mundo, eles lá saberão porquê. Quinto, e por último, tenho a certeza absoluta que a amizade e o respeito intelectual que me unem a quase, quase todos os actuais e antigos colaboradores deste blogue se mantém intactos, e que, à nossa maneira e escala, o 2+2=5 continuará a ser um blogue à esquerda e um espaço de liberdade.

Crisis, what crisis ?


Supertramp - crisis, what crisis ?

Baile dos Bombeiros

Aí está ela, a auspiciosa conjunção astral que configura uma nova Era Luxitana. Na retícula ibérica habitada pelo Povo Eleito já soam os cantos da boa-aventurança: Pur-Tu-Gal, Pur-Tu-Gal, Pur-Tu-Gal.
Devidamente alinhados e conjugados, os planetas Fátima, Futebol e Fado vão demonstrar, mais uma vez, o excepcionalismo dos Lusitanos. Citius, Altius, Fortis. Estão abertas as Olimpíadas da Razão e, obviamente, os atletas são todos Portugueses.

Mas vejamos porque os Deuses dedicaram os seus melhores planetas a Portugal, elevando os seus habitantes e fazendo da sua História o Olimpo dos outros bípedes. Sim, que nisto de Deuses, todos eles respondem a outros Deuses, ad infinitum. À excepção, claro, de um supranumerário que convenceu o ruminante Abraão- as misteriosas ervas que mastigou a caminho de Ur foram retiradas do mercado- da sua...excepcionalidade.

O planeta Fátima, como se sabe, é consagrado no Altar do Mundo. Aí acorrem regularmente, não tanto como gostariam, os devotos trinitários. Quando foi necessário avivar a centelha da humanidade que fenecia na Grande Guerra e na bancarrota financeira, assegurando que os ismos que aí vinham seriam suplantados pela oração, a escolha recaiu sobre a Zona Centro. O umbigo de Portugal... visto de perfil.
Hoje, uma vez mais, em plena catástrofe financeira, bem como as aflitivas crises associadas e dependentes, Portugal recebe o mais alto dignitário da sua religião. E já se diz que a presença física de Benedito, e a significância espiritual, ajuda os crentes a suportar a(s) crise(s). O real significado da coisa, da crise, as suas amplitude e latitude, foi, é de dizer, capturado pela banalização e pela conspiração. Krisis? What krisis? Ruminavam nas trevas pré-digitais os jurássicos embora premonitórios...SUPERTRAMP.

Declaração de interesses: Estas linhas só involuntariamente ofenderão alguém. Temos o maior respeito pelas religiões do Livro e por todas as outras e não nos escudamos nas catacumbas da psiquiatria ou nas zonas de conforto da Literatura. Fica a nota sobre o excelente “2666” de Roberto Bolaño, onde se descreve uma ‘funny condition’, a fobia aos símbolos religiosos, e circula secundariamente uma personagem penitente, que se dá a conhecer por mijar em todas as igrejas de Sonora e Sinaloa. Iconoclasta e incontinente. Gostaria, a propósito, que não continuassem a desrespeitar a minha condição de ateu.

O planeta Fado, o mais pequeno dos três, é muito complexo. Transversal e subterrâneo.
Conta a lenda que o fado cresceu afidalgado e plebeu, marialva e covarde, ébrio e virtuoso, catártico e depressivo. Esta ambiguidade negou-lhe os galões da urbanidade. Erudita acima, mas cheira rural. Pisca modernidade, mas sonha com o integralismo lusitano.
A descontinuidade de Abril desferiu-lhe severas e bem merecidas pauladas, mas o vírus resistiu e, como a psoríase totalitária, deita a cabeça de fora sempre que pode. Ele é uma alma redescoberta, ele é identidade profunda, ele é teatrinhos e musicais La Féria, ele é cantantes e cantandeiras nas boas assessorias culturais. Ajoelhai. Ele é o Senhor Fado.
Só falta convencer os Portugueses que se devem comportar como numa qualquer produção de Bollywood. De cinco em cinco minutos, esteja-se onde estiver, fazendo o que quer seja, canta-se o Fado. Isto não é ser conformista, isto é estar conformado. Se a tristeza aperta... canta-se o Fado e trocam-se as vogais.
Por exemplo, o cidadão dirige-se a um banco, pode ser o BPP que já não existe, e pede um empréstimo para comprar pão, para tratar a avozinha entrevada, pagar a renda, ou mesmo para despesas sumptuárias. Água, Luz, estudos dos filhos. O balconista dá nega. Acto contínuo, o cidadão, que é fadista e crente, em vez de protestar deve entoar: Nããããão häháháhá dinheeeeeeeeeiro.

Declaração de interesses:

O fado, embora musicalmente muito limitado, deve ser desfrutado em local próprio, mal iluminado, bem regado, e com par de bandarilhas na mão.


Por fim, o planeta Futebol. Que na langue de bois deve escrever-se planeta Benfica.
Com a conquista do trigésimo-segundo campeonato, e coincidindo com a visita de Benedito, e a retoma do Fado, podemos dizer que está de regresso o futebol de regime. Semi-totalitário, quase unânime, orgulhoso, glorioso, seis milhões de irmãos e quatro milhões de bastardos, primos, estrangeirados, liberais.
Atentemos nos emblemas (cartazes, faixas, slogans) e cruzemo-los nas órbitas dos planetas Fátima e Fado:
“Graças a Deus Sou do Benfica” e “Obrigado Pai”. Entrámos numa década prodigiosa, anunciada pela Águia Vitória e apoiada pelo movimento anti-taxidermia dos No Name Boys.

Declaração de interesses:

Não somos simpatizantes do SLB. Felicitamos o clube da roda de bicicleta pela vitória no nacional 2009/2010. A despeito de o Benfica, como notou Domigos Paciência, ter feito um terço do campeonato contra dez jogadores, e, explicou Rui Oliveira e Costa, dos exercícios de contabilidade criativa, ao nível de um Goldman Sachs. Jogadas entre o Benfica Clube e o Benfica SAD que fizeram golo no défice swap.

Bom, toda esta lenga-lenga para alertar, mercê da conjugação planetária favorável, para o surto de criatividade lusitana que aí vem. As possibilidades são todas, mas, convém saber, estender-se-ão preferencialmente, Presidente Silva dixit, para o Mar e para o Artesanato. Mais tarde, corrigiu-se a cousa do artesanato para ‘indústrias criativas’. Solte-se a vontade que o talento e a imaginação sobejam. Milhões de portugueses- leia-se, benfiquistas- acelerando as suas motas-de-água (caravelas) Atlântico dentro, com os Açores na bússola e o sonho na Patagónia. Ou a vibrante indústria criativa das Caldas da Rainha.
Pur-to-Gal, Pur-To-Gal, Pur-To-Gal.
Muito estranhamos, por tudo isto, os desentendimentos que por aqui grassam a pretexto de uma personagem que desconheço: Agostinho Lopes. Lamento.
Poderemos contribuir, nestes tempos de verbas longas do FMI, recordando o exemplo de Vasco Gonçalves quando, na iminência do colapso das contas públicas, apresentava a solução: “Não precisamos de empréstimos (FMI), precisamos de fregueses”.
Portanto, o freguês webmaster Armando Rocheteau que não dê importância à canalha totalitária. Lembre-se, caro Armando, que estas gentes defrontam-se com sérias dificuldades no relacionamento com a Verdade, com a Realidade e com a Liberdade.
Deixo-lhe um conforto axiomático: o socialismo real não é verdadeiro; e o paradoxo do filho da puta: como sei que sou livre?
Avé.

JSP