sexta-feira, 30 de abril de 2010

Fim do Dia


Metro de Nova Iorque, cerca das 20h. Abril de 2010

Foto Jota Esse Erre

Agruras de um imigrante

«Há quase doze anos aqui, continua-me a custar suportar a estupidez e a ignorância das pessoas, e a propaganda das rádios. Não mudou nada depois da exposição pública das indignidades e dos crimes contra a Humanidade perpetrados pelo bando de mafiosos a quem Dick Cheney – e o carocho George Bush – abriu as portas da Casa Branca. As estatísticas demonstram que apenas 30% dos americanos se revêem nos ideias “liberais” e laicos. Os outros 70% não se chocam com a multidão de desdentados que se auto-denominou “the Teabaggers” e promove pelo país os ideais do Ku-Klux-Klan.»

Filipe Castro no Esquerda Republicana, a ler na íntegra aqui.

anaCrónica 19

Gosto e política cultural

O estudo de Augusto Mateus pôs dedos na ferida: a indiferença do governo quanto às actividades culturais artísticas, por um lado e a explicitação da diversidade constitutiva de um sector económico feito de três partes, a criação artística e as suas tradições disciplinares patrimoniais, as indústrias culturais e a dimensão criativa própria das mercadorias, na esfera lata do mercado, o design de objectos de consumo.
Convém aliás aqui clarificar que a dimensão criativa de actividades industrializadas, que obedece à satisfação de lógicas massivas de gosto elas próprias induzidas pela estratégia quantificadora do marketing que promove os diversos produtos na relação de concorrência, nada tem a ver com a actividade artística, esta desligada de objectivos imediatos, destinada ao fruidor cidadão potencial, solitário ou em assembleia, a públicos mais iniciados e não ao consumidor perdido na massa – uma, virada para o humano, a outra, para o mercado. Uma coisa é a linguagem imprevisível da criação artística, cujos códigos de leitura têm de ser reinventados sucessivamente porque não se trata de dar a ler algo já lido, outra coisa é a aplicação de normas de gosto estandartizadas para satisfazer padrões de vida que encontram na sofisticação do design uma dada exibição de status, particularmente através da lógica das marcas que, no presente, estabelecem uma norma geral de comportamento e sinais exteriores de troca simbólica consumível e ideológica, a aparência como essência possível. Não é por acaso que a maioria dos chamados políticos anda de gravata e essa gravata tende a hipertrofiar o nó num claro assumir de um certo “mau gosto” papalvo contra um certo “bom gosto” - um nó mais discreto e menos berrante – dos usos de famílias mais antigas. Este exemplo parece ridículo mas merece ser referido, pois tem carácter normativo por via informal e é revelador das mentes: ninguém os obriga a andar assim, mas de facto o uso é praticado como exibição e geral, normativo por costume. Desde que a sociedade ganhou aliás este carácter de democracia massiva e falsamente igualitária que as classes médias chegadas de fresco – os “parvenus” de Marivaux -, têm imposto as suas referências de “mau gosto” como bandeira da própria ascensão vencedora como gosto dominante. A diversidade, neste aspecto, não passa de um simulacro e o”mau gosto”, enquanto expressão de um poder da quantidade, é de facto, esmagador.
Nestas coisas, o respeito das tais minorias revela-se no plano de uma clara inveja social, confundindo-se muitas vezes aquilo que é de ordem estética com aquilo que é de ordem elitista. Não há bronco nenhum que não apelide de elitista, não aquilo de que não gosta porque formatado pelo tal “mau gosto” que o impede de gostar - no plano do juízo funciona na mesma zona em que se pode pensar o estético, o gostar não gostar dependente da comunicação imediata – mas aquilo que ele entende que, não percebendo, não passa de algo elitista que a tal democracia igualitária tem de liquidar para que, nivelando tudo pela tal lei do tudo nivelado pelo mesmo, tenhamos uma ordem democrática do gosto, um gosto comandado pelas massas médias e remediadas. Este pratica-se contra as veleidades aristocráticas do estético, identificadas com as tais elites que são perniciosas e a que se associam os desgraçados dos artistas, na realidade, mais artesãos que criaturas mundanas – artesãos do corpo e cabeça, das linguagens do enigmático. A ideia de “uma arte elitista para todos” não lhes passa pela cabeça. Ora, esta, é a ideologia do poder actual em matéria de gosto, uma ideologia da incultura estética e dos consumos designer, fundos de vernissage e berardices pavlovianas com amplificação mediática súbita e mesmo reacções papalvlovianas deslumbradas com a riqueza dos ricos, as massas despertando alegremente como parte e percentagem orgulhosa da maior estatística cultural – como no guiness, esse cúmulo da estupidificação oscarizada.
E este é o problema. Do mesmo modo que descrimina numa política a importância da ciência como factor de desenvolvimento libertador – que não o é em si, pelo contrário, o que justamente implica a marca orientadora de uma política – é imprescindível discriminar, numa política, a cultura como forma de fomentar as actividades estéticas da criação artística, que não têm um quadro de rendibilidade imediato pois não são realizadas para nenhum mercado, mas são actividades humanas essenciais, aquelas que no fundo identificam no ser os seus objectivos humanos – ainda recentemente José Gil falou desta dimensão ontológica da criação artística.
Será que isto não entra pelos olhos dentro? Mesmo a actividade artística regular, como a dos teatros, está mais próxima daquilo que enquanto actividade estético-literária caracteriza Os Lusíadas do que daquilo que vai no design dos móveis da IKEA. Não há relação entre as actividades do gosto formatado e a invenção artística. D. Quixote, por muito que o formatem e concentrem e imitem e reduzam a sigla e sinopse, não dispensa a leitura, essa actividade sem rendibilidade imediata – exemplo radical é o romance de Joyce agora editado, Finnegans Wake (15 anos levou Joyce a escrever o romance inacabado e agora mais de trinta levou o estudioso que fixou o texto a fazê-lo para uma leitura possível). Nada compro nem vendo nas horas perdidas da leitura, perco tempo e dinheiro – a leitura é tão “inútil” quanto a criação e tem os mesmos vícios. Mas ganho algo, ganho até inteligência criativa – ela anda aí a tal artificial, mas não funciona sem mão - aplicável a lógicas de exercício laboral dedicadas à economia. Mas estas não são nem de consequência directa, nem de medida imediata, não são mensuráveis. Será que isto não se entende? Não se entende que é de outra esfera e que é com esta esfera que uma política cultural do artístico se tem de entender? Uma política cultural é uma política da estruturação da criação artística e é uma política da leitura, das capacidades de ler a complexidade actual das linguagens. E é também uma política da relação umbilical das duas coisas.
Em relação ao Ministério da Cultura: mais orçamento, mais do dobro, mais do triplo, e obviamente um programa e competências organizacionais e dinâmicas. E não vale a pena falar de cortes. Neste momento é promover o desemprego apenas. Só um grande aumento dos dinheiros para a cultura pode promover a ideia de “uma cultura elitista” para todos, a única ideia socialista possível.

Fernando Mora Ramos

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Radiohead - "2+2=5"

quinta-feira, 29 de abril de 2010


Ilha de Moçambique. Novembro de 2009

Foto Sérgio Santimano

Os aldeões e os saqueadores

«Quando o bando de saqueadores passa pela aldeia os aldeões entregam-lhe o que têm. Fazem por manter a compostura e a humildade para lhes agradar. Talvez assim partam mais depressa e escolham outra vítima do saque. Assim se comportam os Estados perante os salteadores da modernidade.»

Grande, grande post do Daniel Oliveira, no Arrastão, a ler na íntegra aqui.

Sinais


Desenho Maturino Galvão

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Algodão Neve


Após a neve. Fairfax. Virgínia

Foto Jota Esse Erre

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Sobre o Plano de estabilidade e crescimento (PEC)

- Posição do Grupo de Trabalho «Economia e Sociedade» da Comissão Nacional Justiça e Paz

1. Considerando a importância de que se reveste o Plano de estabilidade e crescimento (PEC) recentemente apresentado pelo Governo à Comissão Europeia, o Grupo de trabalho «Economia e Sociedade» (GTES) da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) considera seu dever e responsabilidade manifestar a sua opinião sobre as orientações de política financeira, económica e social constantes desse documento, em virtude das implicações que as mesmas poderão ter na vida pessoal e colectiva dos portugueses, nos próximos anos. Movem-nos preocupações pela construção de uma sociedade mais justa, mais inclusiva, mais solidária e onde seja possível um verdadeiro desenvolvimento humano.

2. Dada a situação financeira do País, e o modo como ela é apreciada pelo mercado internacional e pelas instâncias comunitárias, mais cedo ou mais tarde, haveria de surgir a necessidade de um programa de equilíbrio das contas públicas e de contenção do endividamento dos portugueses, para dar segurança aos credores, permitir o acesso ao crédito no mercado internacional e conter o respectivo custo. Por isso, não subestimamos o esforço feito pelo Governo para apresentar um programa de ajustamento credível, com recurso a corte na despesa pública e aumento das receitas do Estado.
Esse esforço deveria ser acompanhado por uma activa procura de consenso entre os partidos na aplicação de medidas incluídas, ou a incluir, no PEC, manifestando a seriedade com que encaram a situação do país

3. Ainda assim, o GTES quer expressar, desde já, as suas preocupações quanto às possíveis consequências negativas que poderão decorrer da respectiva execução, se, entretanto, não forem seguidos outros rumos e tomadas outras medidas directamente votadas ao desenvolvimento sócio-económico, à contenção do desemprego, à correcção das desigualdades nas suas várias vertentes e à erradicação da pobreza, que continua a atingir parte significativa da população portuguesa.

4. Reconhecemos que é delicada a situação em que o nosso País se encontra face aos mercados financeiros, nomeadamente no que respeita ao nível de défice público, recentemente agravado pela necessidade de fazer face aos efeitos da crise mundial; ao endividamento público e privado já alcançado e correspondentes encargos com a dívida externa. Sabemos, também, como, no actual contexto de liberalização do mercado financeiro, os credores adquiriram e conservam tal poder que os torna particularmente exigentes em matéria de garantias e de custo do dinheiro.
Em nosso entender, porém, o PEC sendo um esforço do Governo português para ir ao encontro dessas exigências de credibilidade externa, não deve esconder ou ignorar os verdadeiros problemas estruturais de um País que enfrenta um processo de reestruturação acelerada do seu processo produtivo, num contexto de globalização e financeirização crescentes e de crise mundial por superar. Assim sendo, o problema português de conseguir o equilíbrio financeiro não é uma situação singular que apenas diga respeito aos portugueses, antes está correlacionada com o ambiente externo.

5. Por isso, o GTES denuncia a presente desregulação do mercado financeiro mundial - que cria situações muito gravosas para as pequenas economias em dificuldade - e desejaria que, particularmente no âmbito da União Europeia, se fizessem os indispensáveis esforços para que, com a maior brevidade, se encontrem caminhos de uma eficiente regulação financeira do mercado mundial.

6. Por outro lado, consideramos que a União europeia e a sua moeda única só terão viabilidade se vier a existir, a curto prazo, uma coordenação reforçada da política económica e financeira de todo o espaço comunitário, a qual, em nosso entender, deve visar objectivos de desenvolvimento humano sustentável (do ponto de vista ambiental e de coesão social). Uma tal política deverá vincular o Banco Central Europeu (BCE), de modo a que a política monetária da responsabilidade desta entidade esteja efectivamente ao serviço da economia comunitária e seus estados-membros.

7. Também não aceitamos a brandura com que as instâncias comunitárias têm agido em relação aos offshores ou o facto insólito de o BCE não dispor de capacidade para apoiar os países em dificuldade financeira, obrigando estes a ter de recorrer ao crédito dos bancos privados e a suportar juros abusivos e demais condições não raro especulativas, e, por outro lado, consentindo que os bancos privados se refinanciem junto do BCE a taxas de juro quase nulas.

8. Merece, igualmente, denúncia e reprovação o excessivo poder adquirido por certas agências de rating e o papel que as suas classificações têm, de facto, nas condições de acesso ao crédito e custo do mesmo. Não se compreende que a União Europeia não se tenha ainda dotado de uma unidade independente de avaliação de risco financeiro ao serviço de uma governação comunitária.

9. Portugal, como País membro da União, deve usar da sua capacidade de intervenção para que a U.E. disponha da competência e dos meios necessários para aperfeiçoar os seus mecanismos de governação à escala comunitária e de influência na construção de uma forma adequada de regulação democrática do mercado global.

10. Relativamente às medidas preconizadas no PEC, cabe chamar a atenção para algumas das suas possíveis consequências negativas que, ao longo da sua vigência, deverão, do nosso ponto de vista, ser corrigidas, bem como apontar caminhos que, em nosso entender, deveriam ser seguidos.

11. Quanto aos cortes nas despesas, estão contempladas no PEC metas aceitáveis no que se refere à contenção de gastos gerais considerados supérfluos, maior racionalização nas aquisições de bens e, principalmente, uma redução significativa com gastos em consultadorias em outsourcing. É fundamental que a Administração pública procure patamares de eficiência e eficácia, aos menores custos.

12. Já no que respeita a reduções na despesa social, é oportuno lembrar que aquela não pode ser vista como um custo: deve antes ser considerada como um investimento no capital humano e, bem assim, como um instrumento de coesão social e uma condição necessária para cumprir um dever de equidade e solidariedade, sobretudo em tempos de crise económica.

13. Com as dificuldades que se avizinham, é fundamental que o Estado não deixe de cumprir o seu papel de protecção social, em particular no combate à pobreza e à protecção dos desempregados. De igual forma, deve assegurar a oferta pública de bens e serviços essenciais, com destaque para a educação e a saúde, com adequados padrões de qualidade.

14. Quanto ao previsto congelamento dos salários na administração pública, entendemos que se trata de uma medida injusta e com previsíveis consequências negativas do ponto de vista da desejada sustentação da actividade económica, pelo lado da procura. Mesmo admitindo ser necessário reduzir o volume total das despesas com pessoal, tal redução deverá fazer-se de modo equitativo, aproveitando para consagrar um leque salarial mais justo e restringindo o recurso a prémios, despesas de representação e outras de que beneficiam os gestores e os quadros técnicos superiores. Nunca à custa de redução indiscriminada de salários, pela via do respectivo congelamento. Não pode esquecer-se que o padrão de remunerações da Administração Pública serve de referência ao sector privado.

15. Idêntico reparo merece a intenção do PEC quanto à diminuição do emprego na função pública, medida, também ela perigosa, dado que há sectores da Administração e serviços públicos onde, já hoje, existem manifestos défices de recursos humanos. Por outro lado, não pode esquecer-se o elevado nível de desemprego existente no País e o papel que, nestas circunstâncias, o Estado (Administração central e Autarquias) pode desempenhar na necessária sustentação do emprego.

16. No que toca à despesa em investimento público, dado o seu impacto em termos de incentivo à actividade económica e na criação de emprego, entende o GTES que importa, sobretudo, apostar numa selectividade rigorosa e orientada por critérios de satisfação de necessidades reais e de bem comum.
O PEC prevê a desaceleração em alguns projectos de investimento público, o que parece sensato, mas não deveria descurar os investimentos públicos destinados à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos ou a servirem de incentivo à modernização e reestruturação do tecido produtivo.

17. A este propósito, cabe lembrar que as pequenas obras públicas de desenvolvimento local se apresentam com efeitos, directos e indirectos, relevantes do ponto de vista da utilização dos recursos humanos locais e absorção do desemprego, além de que se traduzem, imediatamente, no bem-estar das respectivas populações locais, servindo, por isso, objectivos de coesão social, que não podem deixar de ser contemplados em qualquer estratégia de ajustamento. O incentivo à expansão da economia social e solidária deveria merecer a devida consideração.

18. No que concerne ao aumento das receitas públicas, entendemos que na execução do PEC não deve perder-se de vista a necessidade de corrigir as grandes desigualdades na repartição da riqueza e do rendimento existentes no País e aproveitar esta oportunidade para proceder a uma adequada reforma do nosso sistema fiscal e de contribuição para a Segurança Social.

19. Julgamos que, neste período de ajustamento, seria admissível o recurso a novas fontes de receita, como, por exemplo, a constituição de um Fundo de emergência consignado a objectivos de erradicação da pobreza ou de criação de emprego, com base num adicional de tributação a recair sobre espectáculos e divertimentos ou bens considerados de luxo.

20. Do mesmo modo, considera o GTES que se impõe um esforço complementar para acelerar a cobrança de montantes elevados de impostos em dívida assim como a tomada de medidas de prevenção da fuga considerável de receitas fiscais através de paraísos fiscais.

21. Prevê o PEC o recurso à alienação de participações do Estado num conjunto de empresas estratégicas. Entendemos que abdicar dessas participações é prescindir de uma certa margem de intervenção na economia, além de que se trata de obter receitas imediatas de uma só vez, mas prescindindo de receitas futuras.

22. No âmbito das parcerias público-privadas, é de desejar que se procedam a reapreciações de cada situação concreta, de molde a procurar acautelar não só a esperada qualidade dos bens contratualizados como também a partilha equitativa dos correspondentes riscos financeiros.

23. Reconhece o GTES que não é da sua competência debruçar-se sobre aspectos de ordem técnica implicados no PEC e na sua execução; tão pouco considera que deva pronunciar-se em termos análogos à das diferentes facções partidárias ou parceiros sociais. As considerações feitas neste documento relevam de uma concepção de economia não divorciada de uma ética social que tem como referenciais a dignidade da pessoa humana e o bem comum.

24. É neste horizonte, que julgamos dever alertar para que a consequência mais negativa que poderia decorrer deste PEC é ele alimentar a ilusão de que constitui a chave para enfrentar os nossos problemas de desenvolvimento a médio prazo. Com efeito, o País precisa de um rumo para um desenvolvimento sustentável, do ponto de vista ambiental e de coesão social e não é um mero crescimento económico que o permite alcançar.

25. O modelo de crescimento implícito no PEC parece sobretudo assentar nas exportações. Ora, hoje é geralmente reconhecido que um tal modelo não é garantia de real desenvolvimento e não assegura que sejam alcançados objectivos, em nosso entender fundamentais, como sejam: a equitativa repartição do emprego e do rendimento; um trabalho digno para todos; a igualdade de oportunidades no acesso ao progresso; a prioridade da erradicação da pobreza; a promoção da qualidade de vida dos cidadãos.
26. Como já em outras ocasiões a CNJP afirmou, insistimos em que a pobreza não é uma fatalidade. Significa, apenas, que há necessidades básicas de uma boa parte da população a que o mercado, nas actuais circunstâncias, não dá resposta e, por conseguinte, a erradicação da pobreza deve ser considerada um objectivo explícito de toda a política pública e não uma mera questão residual ou hipotético efeito secundário de um qualquer crescimento económico. É fácil demonstrar que pode haver elevado índice de crescimento económico com agravamento da pobreza e da exclusão social.

27. Por outro lado, todos nós reconhecemos que há necessidades colectivas no domínio da educação, da saúde, da segurança, da habitação, que estão por satisfazer e cuja satisfação deve ser tida como objectivo a atingir por uma estratégia de desenvolvimento que, para o efeito trace metas concretas, pois estas não se alcançarão apenas com o mero crescimento económico entregue a uma lógica do mercado sob a hegemonia dos interesses do capital financeiro internacional.

28. Não pode, igualmente, esquecer-se que está por enfrentar o processo de reestruturação do processo produtivo em curso e a passagem a uma economia baseada no conhecimento. Há sinais positivos devidamente destacados no texto do PEC, nomeadamente no domínio da expansão dos serviços e na intensidade da componente tecnológica, mas há que traçar uma estratégia clara de transição que permita fazer face aos custos sociais das indispensáveis reestruturações e sua repartição equitativa.

29. Com esta sua tomada de posição, o Grupo de Trabalho «Economia e Sociedade» da CNJP quer oferecer às comunidades cristãs e à sociedade civil um estímulo para que reforcem o seu interesse e empenhamento na construção de um mundo mais justo e por isso também mais feliz. Dirige-se, igualmente, aos poderes públicos na perspectiva de um serviço de cidadania e de responsabilidade democrática, que reclama maior empenhamento por parte do governo e de outras entidades com participação nas instâncias comunitárias no sentido de pugnar por uma construção europeia mais sólida e mais respeitadora de valores éticos comuns.

O Grupo de Trabalho “Economia e sociedade”
27 Abril 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010


Pintura João de Azevedo

AnaCrónica 18

Fecho-ecler

O botão parecia ter morte anunciada quando o fecho-ecler surgiu. Este mecanismo tem todas as vantagens que o tempo e o jeito fazem coincidir com a moral da época, fresca como fruta sem armazém, e permite a adequação das rotinas a um ritmo de vida cada vez mais veloz a caminho de novas velocidades ainda mais velozes: fechar um sobretudo de botões com casas à maneira é de todo em todo diferente de zipar um blusão na iminência de um espirro, em que parte do mundo for, da Gronelândia ao cabo Espichel, o que para botão pode ser constipação – nos intervalos a brisa malvada espreita o peito e ataca as costas onde o olho não chega. E para maior adesão à vitória todo o terreno do fecho-ecler, já o vemos há muito tempo também lançando os colchetes no desuso, mercado nostálgico dos amantes das patines sépia das imagens em papel e das velharias mercadificáveis – só mesmo um velho, humano mesmo, não tem mercado.
Claro que os botões se mantêm nas linhas da frente mais sofisticadas, as linhas eróticas e sem necessidade de indicativos. Tirados um a um fazem mais calor que arrefecem, são jeito de uma ginástica dos dedos e mãos a caminho da terra prometida: outra haverá? Com um fecho-ecler, a poesia da coisa vai-se no ruído inevitável e na rapidez que amolece. Tudo o que é precoce – e o tempo que anda mais rápido que o corpo faz abortar sensações e emoções - trai a possibilidade de vir a ser o que é, pois às coisas é devida a sua maturação, assim sabemos do trigo mas também do joio, essa gramínea mal tratada de que também se fez cerveja, e que, como o chicharro, se destinava às mandíbulas inferiores no tempo em que o salmonete e o linguado hierarquizavam as famílias em patamares de gosto e simbólicas estatuídas de distância social. De lá para cá a revolução do palato estruturou outras distâncias. As de hoje são fabricadas em tempo recorde e nada têm com sangue mas com roleta especulativa e obviamente saque e pilhagem, o que faz o seu sangue, vermelho industrial. Se muito se vêem, esses abismos, é para menos se verem e para provocar a vertigem invertida do salivar de boca da massa na sua psicologia ascensional de contágio constante, o vírus ansioso do cimo do cume a roer a corda da existência.
Mas eis que o anacrónico regressa com o ciclo dos regressos em prospectiva semeada a marketing – na música é constante essa plasticidade do retorno -, como a energia eólica ou solar. Nada mais primitivo do que o moinho de vento e o bife na pedra à moda do equador, ou o peixe seco em estendais de fedor, arenque e carapau, carne seca também. Mais simples ainda são os diversos canibalismos, tão sofisticados hoje, movidos a energia maxilar instintiva. A propósito: estou a ver a imagem do bispo Sardinha a ser grelhado pelos Tupinambás, com mitra, sotaina, os sapatos (Prada?) e tudo. Seria pedófilo? Não, era mesmo bispo. O João Ubaldo é que diz que em Itaparica a carninha branca dos holandeses, sabor a leitãozinho, era preferida à dos portugueses, com muito nervo. Nem para comer.
Quanto ao fecho-ecler foi um grande progresso e os nossos dirigentes progressistas sempre o disseram: o progresso e a modernidade hão-de levar-nos da leviandade, em direcção ao futuro, por muito que roer seja duro – é preciso é bons dentes.
Seguir-se-à ao ecler o fecho digital? Mas esse sempre houve. Estamos mesmo zipados de todo.

FMR

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Análise crítica de uma análise crítica

O blogue Cinco Dias é um histórico que albergou, e ainda alberga, gente muito respeitável. Contudo, ultimamente tem servido de pousio a determinadas personagens cuja companhia intelectual muito pouco se recomenda. O maior de todos, sem dúvida, um controleiro de nome Carlos Vidal, aliás um figurão (infelizmente) conhecido de alguns outros carnavais. Não há espaço aqui para uma descrição detalhada de todas as alarvidades já lá escritas pelo estalinista controleiro. E eu, como tem notado os leitores, também não tenho estado muito dado a escrever, seja sobre política seja sobre outros blogues.

Acontece que me saltou a tampa com este post. O controleiro aqui revela-se em todo o seu esplendor. Em relação à esta canalhice alarve, a que chamamos “post” por falta de termo mais adequado, apraz-me só dizer isto:

1 – Uma democracia determina-se precisamente por não impedir uma manifestação, seja de seis ou de seis mil pessoas, quer a maioria da população esteja de acordo ou não.

2 – Insinuar que os opositores a qualquer coisa são “traidores a soldo do inimigo” é um método que infelizmente conhecemos bem demais, que apenas revela quem o pratica. Além de se tratar de uma falácia deveras utilizada por fascistas de direita ou de esquerda como o nosso Vidal, denuncia enorme fragilidade intelectual, desconfiança no uso da razão, incapacidade em argumentar dentro de um quadro de linguagem a que se chama de “discursivo”, em suma, o pior do defeito a que chamamos, por maioria de razão, de “imbecilidade”.

E quanto à caixa de comentários desse abjecto “post”, há a referir que:

1 – Dizer que Cuba não tem presos políticos, pois isso está mesmo é entre a cegueira e a insanidade completa;

2 – Dizer que Cuba é uma democracia “porque tem eleições” revela a concepção diminuída de democracia que os controleiros estalinistas possuem. O Estado Novo também tinha eleições, e até com algumas semelhanças (havia eleições, o que havia era um partido só). Há que ter a esperança de que algum dia entendam que a democracia é muito mais que eleições. E que se aqui defendemos a democracia é porque defendemos a Liberdade, e ainda não encontrámos forma melhor de viver em Liberdade que aquela que se consubstancia numa organização política democrática.

A 1 de Maio no Maxime (4)


GRUPO DE TEATRO ENXADA MYSTIC

Grupo de Teatro criado no seio da XII Internacional Strikista-Positivista.
A peça “A Madrugada Rubra – O Material Tem Sempre Razão”, escrita por Karl Marxime e adaptada pelo operário-lutador Barreirense, Alípio Silva Mendes Silva, é apresentada no Cabaret Maxime no dia 1 de Maio. Faz sentido, dado que visa, precisamente, a luta de classes, a luta contra o capital, a luta contra os porcos-burgueses, enfim, a luta em geral - citando a tradução de Mendes Silva: “A fome imperialista não se mata com uma colher!”

FAT PACK
Os Fat Pack não são de ano algum.
Duo romântico constituído por Frank Sinistro (A voz) e Maestro Nick Internationale (O piano), tocam canções intemporais, contemporâneas e serôdias, temas estultos. São classe, estilo, inovação e o contraponto perfeito às parvoíces de esquerda que se irão ouvir na primeira parte do show – Fat Pack é música para gente gira, endinheirada e que sabe estar.

As Estátuas também morrem


Alain Resnais

Roubado ao Coisas do Arco da Velha

segunda-feira, 26 de abril de 2010


Ilha de Moçambique. 2002

Foto Sérgio Santimano

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Uma constatação

Este blogue pode aparentar estar a ficar assim para o reaça, mas é só isso mesmo, aparência. No fundo, no fundo, continuamos os mesmos grandes esquerdalhos de sempre. O que nos diferencia da maior parte dos esquerdalhos é o sentido de humor - gostamos de rir, e de rir de nós mesmos. O que faz toda a diferença, mas que também faz de nós uns incompreendidos.

A 1 de Maio, no Maxime (3)

Sobre o tradutor:

Alípio Silva Mendes Silva (Barreiro, 13 de Novembro de 1887- 31 de Dezembro de 1946), operário Barreirense, dedicou a sua vida à luta por uma terra sem donos.

Abalado pelo início da ditadura em Portugal, lançou-se na tarefa hercúlea de traduzir e adaptar o texto “Morgenrot- Das Material ist immer Recht” de Karl Marxime, tendo passado os seus últimos vinte anos de vida a trabalhar neste projecto, durante o dia, dedicando a noite à luta.

A sua caligrafia humilde e os seus parcos, senão nulos, conhecimentos de Alemão, transportam o texto de Marxime para uma nova dimensão da palavra. A linguística strikista-positivista encontra nesta obra o seu expoente máximo.

Mendes Silva morreu, às mãos da PIDE, a 31 de Dezembro de 1946, durante a tortura de passagem-de-ano. As suas últimas palavras foram: “Mataram-me com desdém. Já é meia-noite?”.

A 1 de Maio, no Maxime (2)

Sobre o autor:

Nos apontamentos de Alípio Silva Mendes Silva, Karl Marxime é descrito como sendo o pseudónimo de Heinrich Gähnenriesige, marinheiro e operário fabril, nascido em Ratzburgo, em 1847.

A única nota com laivos de biografia encontrada nas anotações de Mendes Silva ilustra o autor como sendo “um sábio trabalhador, humilde, com uma inteligência acima da média.” Mendes Silva refere também que “…o fulano que me vendeu o livro disse-me que o autor é muito conhecido na União Soviética e que o próprio Lenine tem um exemplar que lê, todos os dias, antes de se deitar na tábua com pregos a que chama cama. ”

Até aos dias de hoje, são estas as únicas informações disponíveis sobre Karl Marxime.

A 1 de Maio, no Maxime (1)

GRUPO DE TEATRO ENXADA MYSTIC

apresenta:

MARXIME-LENINIME

A MADRUGADA RUBRA – O MATERIAL TEM SEMPRE RAZÃO

AUTORIA: KARL MARXIME

TRADUÇÃO E ADAPTAÇÃO: ALÍPIO SILVA MENDES SILVA

Com:

Pai – Ricardo Guerreiro

Mãe – Bruno Rosa

Filho – André Carapinha

Outro Filho – Carlos Alves

Narrador – Carlos Ramos

Narrador 2 – Pedro Enguiça

Burguês – Nélson Oliveira

Operário 1 – António Pinto

Operário 2 – Miguel Afonso

Da Capital do Império

Uma história da China

A acreditar no que se apregoa por toda a parte a China irá nas próximas décadas assumir o controlo do mundo. Só que isso não vai acontecer. É um mito, tal como na década de 1960 e 1970 havia o mito de que era o Japão que ia ultrapassar os EUA e tornar-se na grande potência mundial.
Em primeiro lugar há que dizer que o “milagre económico” da China não deve ser negado. É uma das verdadeiras provas dos benefícios da globalização e do realismo económico. Mas o sucesso da China está agora rodeado de mitos.
Exemplos:
1) Investimento estrangeiro. É verdade que a China se tornou num dos grandes pólos de atracção de Investimento Directo Estrangeiro. Mas em comparação com os Estados Unidos é uma ninharia. Em 2008 o Investimento Directo Estrangeiro nos Estados Unidos foi de 325.300 milhões de dólares. Uma subida de 37% em relação a 2007. Na China foi de 27.514 milhões uma queda de pouco mais de 27% em relação ao ano anterior. Mais preocupante para as autoridades chinesas é que o investimento directo estrangeiro está em queda desde 2005.
2) A economia da China está prestes a ultrapassar a dos Estados Unidos. Longe disso. Este ano é possível (não uma certeza) que a economia da China ultrapasse a do Japão. O que a acontecer a tornará na segunda maior economia do mundoou seja ... um pouco acima de um terço da economia americana.
Para além disso a economia americana também cresce. Quando a economia americana cresce 3% ao ano, a China só para não perder terreno tem que crescer 8%. Sendo a economia chinesa baseada nas exportações um estudo do Banco Mundial afirma que para manter o seu actual nivel de crescimento acima dos 8 por cento a China terá que duplicar a sua fatia das exportações mundiais nos próximos 10 anos. Isso não vai acontecer. “A dependência da China num crescimento baseado nas exportações é insustentável,” disse recentemente o Presidente do Banco Mundial Robert Zoelick.
Habituados que estamos em vêr as “lojas do china” em todo mundo a venderem relógios, sapatos, televisões esquecemo-nos que na verdade é só isso que a China produz e exporta: produtos de consumo de baixo valor ou produtos electrónicos para consumo em massa.. Em termos de valor dos produtos exportados (como por exemplo aviões, produtos de alta tecnologia) os Estados Unidos produzem 20 por cento da manufacturação global desses produtos ou seja o dobro da China
Os problemas da China avolumam-se porque os países desenvolvidos (Europa, Estados Unidos) estão agora cientes de que parte do problema financeiro que ia destruindo as suas economias se deve à grande acumulação de reservas na China que facilitou a manutenção de crédito barato criando “bolhas” que irónicamente se estendem agora à própria China. As pressões para a China valorizar a sua moeda só tendem a aumentar
Para além de isso comparar números do PIB é totalmente irrealista. A população da China é 1.300 milhões; a dos Estados Unidos é de pouco acima dos 300 milhões. O PIB per capita da China é actualmente 1/7 do PIB per capita dos Estados Unidos. O seu rendimento per capita é neste momento acim da Ucrânia mas abaixo da ... Namíbia
Para além disso cerca de um terço de todo a investigação e desenvolvimento (research and development) do mundo ocorre nos Estados Unidos (veja-se a “limpeza” anual nos Nobel) onde em parte devido a isso a produtividade do trabalhador americano é quase 10 vezes mais do que a produtividade do trabalhador chinês. Esta diferença não vai desaparecer na proxima geração.
A economia chinesa está também cheia de “buracos” que existem e se multiplicam no actual sistema repressivo de controlo de informação. Um exemplo: um estudo a circular entre especialiststas na economia chinesa estima que dívidas não listadas de companhias de investimento chinesas podem ascender a 34% do PIB da China, um número que talvez seja um indicativo do porquê da queda sistemática nos ultimos anos dos investimentos estrangeiros na China.
Um dos grandes problemas a que a China faz face é a questão demográfica. Um recente estudo do Pentágono referiu se a isso como o problema “4-2-1”. Não se trata de uma táctica de futebol. Quatros avós têm dois filhos e um neto, resultado da política da “uma criança por familia” o que significa que se está a assistir a um fenómeno único no mundo: A China está envelhecer antes de enriquecer. O número de trabalhadores entre os 15 e os 24 anos de idade deverá cair um terço nos próximos 12 anos. Com trabalhadores jovens mais raros os salarios vão ter que subir e isso começa já a sentir-se. O mês passado na provincia de Guangdong (o principal centro de exportações da China) o salário minimo foi aumentado 20%.
Sei que nada no mundo segue uma via linear. Tudo pode correr bem na China e mal no ocidente. Para além disso um aspecto da realidade chinesa que me continua a impressionar é o realismo da liderança chinesa. Por isso muitos destes problemas ( e outros como os problemas étnicos no seu vasto país que resultam violência esporádica ou os propblemas politicos) poderão ser resolvidos com sucesso.
Ao fim e ao cabo foi uma declaração do primeiro-ministro Wen Jiabao quem me levou a investigar os factos para esta crónica.
“O grande problema da economica chinesa é que o seu crescimento é instável, desiquilibrado, descordenado e insustentável”. Foi Wen quem disse isso. Em 2007 e tinha toda a razão. Seria bom que deixassemos de ter uma exuberância irracional quando falamos da China. Wen não a tem.

Da capital do Império,

Jota Esse Erre

domingo, 25 de abril de 2010

Neve


Fairfax, Virgínia

Foto Jota Esse Erre

Sinais


Desenho Maturino Galvão

25 de Abril

Há 36 anos eu não tinha nascido. O problema dos aniversários não é o do tempo que passou. É envelhecermos mal. Tipo onça ao sol. Há porém datas que me confortam. “imaginam as damas, as senhoras, as jovens e as adolescentes que só pelo 25 de Abril se tornou possível saírem à rua e ocuparem espaços públicos sem serem mandadas, impedidas, molestadas ou incomodadas? Não sejam modestas em demasia, minhas caras concidadãs, vocês foram, sobretudo por mérito vosso (pois claro), a conquista menos corroída, porque mais estrutural, daquela madrugada.”(Vias De Facto). Daqui grito já um grande: Viva o 25 de Abril. Mas nem tudo por cá é alegria. O meu pai a propósito da data teve uma discussão sobre o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Acabou mal. Também só um reaça como ele é que se ia lembrar da associação. E logo frente à namorada, que me faz lembrar a Pasionaria. Lá vai ele acabar o dia abraçado aos amigos a cantar o Vieille canaille. Hoje o João Neves fazia anos e já não estão todos. Também não estão sós. Vivam os amigos à solta!

Josina MacAdam

Para os amigos de meu pai

Serge Gainsbourg

sábado, 24 de abril de 2010

Karl Valentin nas Caldas



29 e 30 de Abril e 01 de Maio | 21h30
6 e 7 de Maio | 19h30
8 de Maio | 12h00
Stand Florescar
Rua Heróis da Grande Guerra
Caldas da Rainha

TEATRO DA RAINHA

anaCrónicas 17

Karl Valentin, um humorista nas Caldas

É uma relação de todo improvável, mas a contemporaneidade tem destas coisas: quando um autor “menor” é rebuscado do baú das preciosidades, ou das antiguidades vivificáveis, pode de facto ressurgir em qualquer parte do globo, mesmo numa pequena cidade de um Oeste que não tem a ínfima parte da fama do outro e que, culturalmente, é uma semi-pasmaceira auto complacente.
Karl Valentin é nomeado como clown metafísico por Brecht. É na opinião de alguns teóricos a referência física do teatro épico, essa invenção de B.B.
Brecht disse que Valentin não conta blagues, ele é a própria blague. Num país em que o humor se identifica com as expressões do requentado mais óbvio, Valentin é uma intrusão, um cómico burlesco inesperado, um autor que não conta piadas garantidas mas que espalha um tipo de humor nos alicerces dos rituais e estruturas de conservação como um antídoto rebelde para o conformismo.
A Ida ao teatro, A Primeira Comunhão, O Projector avariado, o Teatro obrigatório, são pequenas peças, sketches – e a forma breve tem essa eficácia do resultado imediato e da mobilidade extrema, na montagem e na fama partilhável, história fácil de contar, como fogo em palha – em que o mundo às direitas é metido às avessas pelos caminhos da lógica contestada e nessas avessas se percebe, mostrada, dada e baralhada de novo, a convencionalidade bacoca do mundo às direitas. Assim é escanhoada aos limites do masoquismo evidente a relação conjugal do casal de a Ida ao teatro e a sua visão pequeno burguesa, os seus limites de entendimento das liberdades e da liberdade do outro e a sua sujeição absoluta à sedução mundana meio parvónia, assim se vê na primeira comunhão o modo como a educação progride por etapas simbólicas ritualizadas e sem conteúdo real e a infantilização absurda de quem um dia virá a ser adulto, mas que ali, no gag revelador, se encerra numa adolescência prolongada infantilmente até à senilidade.
E o génio de Valentin é duplo: é um especialista da graça verbal, da piada literal levada ao absurdo, de uma profundidade lida na tacanhez do desejo das personagens retratadas, na ambivalente superfície das palavras, mas é também o criador da sua figura e da parceira, Liesl Karlstadt, ambos dedicados ao mundo do cómico, opção de vida e porventura de coincidência entre vocação humana para se ser livre e condição do próprio ser. E essas figuras, Valentin e Liesl, como Chaplin e Keaton, são personagens físicos: o corpo é desde logo uma marca do que são, o corpo é sujeito, ele liberta-se de uma total sujeição ao figurino e também de uma dependência da palavra como se fosse a sua ilustração. Não, o corpo é sujeito e funde-se com a palavra. Este tipo de clown e o seu jogo é já um resultado da modernidade e explora a confrontação entre uma humanidade ainda artesanal, ainda dependente da operacionalidade da mão e das virtudes do polegar oponível e as convenções e maquinismos da sociedade burguesa industrial em ascensão. Estamos na Europa dos anos vinte.
Quando Brecht diz que Valentin é a própria blague é porque dele se solta essa liberdade de quem não vive para contar graças a metro, cada piada cada dólar, mas de quem vive livremente a inadaptação, naquele modo fora de tom que Pirandello descreve no Humorismo, um modo que é ingenuamente acusador das verdades oficiais, do mundo das falsas aparências em que os analfabetos fazem de doutores e em que os poderes são reverenciados e o oportunismo uma regra. Valentin tem essa capacidade que a infância ainda não aculturada e regrada tem, aquela que diz “o rei vai nu” e que fustiga o preconceito, como o nosso Cervantes tão bem estigmatiza no seu Retábulo das maravilhas, um sketch do seu Século de ouro em que faz uma análise “científica” do preconceito como um verdadeiro mecanismo de ilusão colectiva convencionado entre poderes e aparências, o que nunca foi tão actual como hoje, em que domina a chamada sociedade do espectáculo.
Realizar este espectáculo no âmbito de uma parceria com a câmara e num projecto apoiado por programas da Mais Centro (CCRC) é mais que um dever, é um prazer. No coração das Caldas esta Ida ao teatro obrigatório é uma lança no coração do sistema urbano, uma lança para ferir imobilidades rasteiras e conformismos, assim como falsas inovações e pseudo vanguardismos analfabetos.
E agora senhores e senhoras, no Cabaret da Rainha, os actores: a Isabel Lopes, o Victor Santos e o Carlos Borges. Podem crer, é um privilégio. A partir de 29 em cena.

FMR

Pintura de João de Azevedo

É proibido fumar

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Splish Splash

Faleceu tranquila e inesperadamente a senhora Laura Moreira de Braga, lá do lugar de Cachoeira do Itapemirim, Espírito Santo. Prénom, Lady.
Seu filho foi surpreendido pelo passamento em Nova Iorque, capital cultural dos USA. Os gringos, diz-se, sentem-se órfãos de seu próprio soberano, sim, alegadamente órfãos, uma vez que apenas está estabelecido: “Elvis left the building”, embarcou num Cadillac movido a anfetaminas e peanut butter... e desapareceu. Embora, aqui e ali, são mais que muitas as aparições em Santo impersonator ou em Graça e Espírito no Convento de Graceland.

Bom, já se terá dito tudo sobre todos os aspectos do fenómeno Presley, como catalizador da revolução social de 60. Mas, mais a Sul, segue relativamente ignorado do egocentrismo anglo-saxónico o caso de Roberto Carlos Braga. Dinastia de um só Rei.
Embora Elvis anteceda Roberto, circunstância que suscita desentendimentos sobre precedências e originalidades, propomo-nos destacar uma semelhança e um contraste entre ambos os Reis. Tanto Elvis como Roberto jamais se pronunciaram fosse sobre o que fosse, nem nunca se deixaram aprisionar nas ordenações da crítica. Eis a minha música e submeto-a ao veredicto popular. E assim surgiram as massas e o consumo das massas, como supremo fiel da qualidade que é quantidade, explanando uma estética minimalista. Eu gosta de você; eu não gosta de você. Splish Splash.

Elvis, enquanto branco pobre do Delta, redneck de condição, protagonizou a síntese musical dos explorados brancos e negros, disseminou-a numa viagem individual que fez escala urbana, universal. Roberto, é ele próprio uma síntese. Braga lusitano, caboclo, mulato brasileiro.
O Rei do Sul, ao invés do congénere do Norte, irrompeu no mundo urbano, portanto, colectivamente identificado naquilo que designaram de Jovem Guarda. Postura pop light por oposição às erudições da Velha Guarda e ao pop(ular) pesado das autoridades militares e eclesiásticas. Um mundo dividido em escolas diversas e autorizadas, com direito a um momento plural no calendário da ditadura: o Carnaval e outras inconsequências ao longo do ano
O pop light, esvaziado, semanticamente ‘aberto’ de Roberto Carlos ajudou a desconstruir o edifício simbólico dos generais e dependentes. Sem nada dizer, o pop, o sentimental simples, o religioso das canções do Rei unificaram as massas, que é dizer, as pessoas. Deram-se contas que existiam, que eram muitas e que não eram diferentes. Splish Splash.

Involuntariamente anti-intelectualista, distraidamente anti-elistista, o repertório do Rei semeou de forma paulatina as sementes da modernidade. Inconformismo, desobediência civil- “Quero que vá tudo para o Inferno” e “É proibido Fumar”, consciência social e sindicalismo- “Caminhoneiro”-, urgência na ruptura da ordem estabelecida- “Quando”, “O Portão”-, liberdade individual-“O Calhambeque”-, liberalidade e prazer- “Namoradinha de um Amigo Meu”-, diversidade- “Mulher Pequena”, “Mulher de 40”, “Jesus Cristo”, “Nossa Senhora”, “Se diverte e Já não Pensa em Mim”- micromanagement “Detalhes”, Ambiente e Ecologia “As Baleias”, “Amazónia”. Pois é, e o Rei despachou 120 milhões de discos e mereceu dois Grammy.

Tudo isto sem falar, apresentando-se de fraca figura- ficou sem parte de uma perna num acidente ferroviário- e ostentando um sorriso tímido que muitos juram ser a marca do idiota. Num filme de Hector Babenco, creio, um bando de presidiários, ou jovens delinquentes, está prestes a evadir-se por um buraco no muro da prisão. Entre estes, um jovem deficiente, então dizia-se coxo, um Roberto Carlos impersonator de rigueur, hesita e não foge. E justifica para os companheiros de fuga: Lá fora não sou ninguém; cá dentro sou uma estrela”.

PS: Parabenizando Lula da Silva e recordando um grande português: José Henrique Barros ‘Barroca’. Foi ele quem nos franqueou, em meados de 70, as portas do Clube Roberto Carlos na Mafalala. Então, blacks only.
Por ironia do destino, o Barroca veio a morrer em Belo Horizonte, Minas Gerais, alegadamente assassinado.”Amigo”, É DURO SER ESTÁTUA.

JSP

(O pica-pau áparece aos 7:51)

Ilha de Moçambique. 2002

Foto Sérgio Santimano

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cartada contra a privatização dos CTT (2)

ABCafé

Agora que o tempo começa a ficar bom, aproveito para recomendar aos leitores que morem na zona de Oeiras um espaço recentemente renovado, muito agradável: trata-se do ABCafé, no Jardim de Oeiras, onde para além de uma das esplanadas mais agradáveis que conheço, podem contar com variadas actividades, cujo programa podem consultar aqui

I’m Your Man


Leonard Cohen - I’m Your Man

quarta-feira, 21 de abril de 2010


Pintura João de Azevedo

anaCrónicas 16

O pedófilo cómico e virtuoso

Molière criou duas figuras que o nosso modo de vida social confirmou como personagens reconhecíveis e sempre em vias de não extinção, isto é, existentes, reais, sempre de boa proa: Tartufo e Alceste, o Misantropo. Se o primeiro é fácil de reencontrar, sob todas as vestes do oportunismo, nas figuras da nossa vida pública, o segundo é mais difícil de entender num tempo, agora, que impõe a visibilidade como prova de existência. Nem me refiro à dimensão dessa prova como expressão mediatizada que a concretize, refiro-me sim a uma dimensão do narcisismo como modo específico da socialização, o que para qualquer Alceste será estranho, mais propenso a uma arrogância associal do que a uma publicitação da sua extrema introversão, exibicionista seja. Não há forma de vaidade mais evidente que o espectáculo da modéstia. Não será o caso de Alceste, a não ser numa pequena parte. Quanto ao Tartufo, será hoje um comportamento aplaudido como uma forma superior do Chico-espertismo, essa criação nacional prima do fado.
Na nossa galeria de tipos não falta a diversidade: do Jardim da ilha, palavra tonitruante e bufão autoritário, inteligência que baste para manter o atraso no progresso devido, a ignorância onde estava e o turismo em alta, com ou sem tsunami, o engenheiro mais esperto da serra, capaz de fazer de pocilgas vivendas ou vice-versa, muito amigo do rei ilhéu, o presidente muito austero de verbo e de maxilar emproado, o Pacheco do círculo quadrado, já ao serviço sistémico-circense ainda andava com o colarinho à Mao, o Marcelo filho do pai dele, sempre em alta, etc., um conjunto de espécimes que só o cómico rotineiro de serviço há décadas supera em capacidade de sobrevivência e poder – o sistema tem estes pilares como estrutura, são os tais pilares da comunidade.
Não se é cómico de ter piada toda a vida, aliás, pode ser-se cómico uma vida inteira. Como profissão. Já ter graça é outra coisa. A anedota é uma vocação nacional e é o reverso da incapacidade da tragédia. Fizemos o Frei Luís e pouco mais, dizem que a Castro. Mesmo a tragédia romântica tem pouco fôlego e nada deve à matriz grega, pouca dada ao que o melodrama exacerba, sentimentos prolongando-se em marés lacrimejantes. A tragédia é outra cosia, é o inelutável após o crime acidental, ou a morte irremediável, ou mesmo o desafio suicidário das hierarquias homicidas, o impossível em debate. Tudo em verbo sublime e sincero, ritmo apoiado nas cadências de inspiração ritual, vindas do tempo e fundo da irracionalidade e da festa.
O grande cómico da República é um daqueles actores que joga no requentado, que não faz um gesto espontâneo, para quem os minutos se contam como dólares. É o que se chama um canastrão, um actor vulgar, um apóstolo da falta de rigor, da laracha e da deixa rasca. Esses, desse tipo, em Portugal, fazem carreira e são incensados. Os espectadores são pouco exigentes e não entendem sequer que, de facto, a verdade, a concentração, o rigor dos textos, a articulação, a dicção, a gestualidade, etc., são o que é constitutivo da cifra estilística, de um contributo verdadeiro pela liberdade, dando o corpo ao manifesto à letra aqui. O que nunca se reveste de balda, de desenrasca e de improvisos de terceira categoria. Mas para quê falar de pérolas?
Quando um proxeneta é homenageado como um campeão da moral e mais, como um libertador dos sentidos, só poderemos temer o juízo da massa, esse poder acéfalo e criminoso. Por omissão ou por pressão. De resto o poder sempre conviveu bem com a crítica fulanizada e sempre se deu mal com a crítica coerente e articulada. O que fez, quando esse modo de vida era vivo, meias tintas com todo o tipo de tráficos, mais carne menos carne, o sucesso da tal revista que, na realidade, nunca foi portuguesa a não ser nas coxas e pernas. Na realidade, essa crítica, só servia de aval à publicidade da própria liberdade de expressão parangonada pela propaganda. A liberdade, essa, é outra coisa, e nada tem com o poder dizer-se o que se quiser, mas tudo tem com a capacidade, estruturada, formada, crítica, culta, de saber dizer porque se sabe ler, descodificar, conhecer as coisas que estão atrás das coisas, como dizia o velho Brecht falando das causas profundas e das evidências enganadoras. E obviamente com a capacidade de indignação e a coragem de dizer. O que também escasseia. E cada vez mais, nesta falta de liberdade crescente, não só pela inexistência do espaço público como ideias em confronto vivo, como pela vocação policial dos de cima e seus lacaios.
De resto as liberdades imaginativas da sensualidade e o erotismo não passam por aqui, muito menos com a caução das diversas formas de impotência inventiva em serviço, as mimético-naturalistas e as que têm pura e simplesmente falta dela, imaginação, o que também sucede.

FMR

terça-feira, 20 de abril de 2010


Vernissage 22 maj kl 13.00, Esplanaden 3C, Sundbyberg. Utställningen invigs av av Mocambiques ambassadör i Stockholm. För underhållningen står musikern Celso Paco-Cajú. Utställningen har öppet, tis-fre 10.00-18.00, lör-sön 12.00-17.00

Free Speech Movement (2)


Começo este texto, há tanto tempo por escrever, no dia em que tomo conhecimento de que o Herman José estreia um novo programa. Regressa num talk-show à RTP1.É uma coincidência. Há muito que quero ter o atrevimento algo estranho de, exactamente por me dedicar ao estudo de direitos fundamentais, tentar explicar por que é que o Herman José contribuiu, em toda a sua carreira, para libertar a tão em voga liberdade de expressão, ele sim, um homem censurado, em plena democracia.
As normas jurídicas não são enunciados mortos, sequências linguísticas deixadas num papel datado sem que o que se vá passando na sociedade, para a qual elas se dirigem, não seja absorvido pelas mesmas, dando-lhes um novo significado, sem que seja necessário alterar uma letra. Em 1976, no dia, no mês e no ano em que eu nasci, inscreveram-se duas liberdades fundamentais no estatuto do Estado e da sociedade, que dá pelo nome de Constituição: a liberdade de consciência e a liberdade de expressão, mas todos nós sabemos que o mesmo enunciado quer dizer hoje uma coisa e queria dizer, nos anos oitenta, uma outra completamente diferente. Os referentes mudaram.
Aprovar um texto não muda uma sociedade de um dia para o outro. A democracia da sociedade civil precede a democracia que o Estado lhe prescreva. Nessa mudança há indivíduos que fazem a diferença. O Herman José fez a diferença. Não conheço um caso igual. Conheço casos de sucesso, sim. Mas não conheço um caso igual. Esse é o ponto.
O Herman é um humorista e a história mostra a capacidade e a seriedade do humor para mexer com os sistemas. Eça de Queiroz escreveu que o riso é a mais útil forma da crítica, porque é a mais acessível à multidão. O riso dirige-se não ao letrado e ao filósofo, mas à massa, ao imenso público anónimo. E o Herman percebeu isto. Este homem pensou sempre primeiro que todos nós. Talvez ainda estivéssemos encostados a uma manta cinzenta quando o Herman, contra um país com medo, atreveu-se a demonstrar o que hoje temos por evidente: é que o humor não tem limites quanto ao objecto. Pode fazer-se humor com tudo: com o sexo; com a religião; com a morte; com os nossos costumes; com a família; com a hipocrisia; com a censura velada; com a estratificação social: com a pobreza; com a sida; com a homossexualidade; com a nossa história; com os falsos casais; com o machismo; com a violência nas relações; com a arte popular; com a política; com a nossa gente; com o sentir português; com tudo. Não há limites para o humor. Que juiz diria, hoje, o contrário?
Os limites serão outros, os mesmos que encontra a liberdade de expressão em geral, mas, quanto ao objecto, não há limites. O Herman atreveu-se, antes de todos nós, a escolher os seus próprios padrões de valoração ética ou moral na conduta subjacente ao seu trabalho, sem contemplações, porque o mistério de fazer rir, para ele, foi sempre, também, o mistério de nos acordar.
Não pretendo, aqui, fazer o historial dos programas de Herman José. Já o fizeram. Pretendo apenas dizer que sei que hoje Portugal é mais livre por causa do Herman.
É uma ternura rever os atrevimentos do Herman de há tantos anos atrás com figuras históricas, a célebre última ceia, que lhe valeu a indignação de meio país, missas de desagravo, histerias, e hoje revemos aquilo, e sabemos que essas mesmas pessoas que gritavam pela censura ao atrevimento estão hoje cientes de que têm a opção de mudar de canal e que nada há ali de ofensivo, mas apenas um exercício de ironia, de humor, com Jesus Cristo, sim, mas como não brincar com a religião e com as nossas figuras históricas se nós somos o produto disso mesmo?
Lembro-me da forma genial como o Nelo explicou à sua Idália o que era a Sida, destruindo num humor socialmente demolidor e implacável, todos os preconceitos e toda a desinformação sobre a doença, em gestos e palavras, e de como eu e um amigo seropositivo quase morremos de falta de ar e de satisfação: a sida tinha cores, o vírus era saltitante, dai que fosse mais apegado a gente dada para a brincadeira, e por aí fora.
Tantos e tantos episódios, o Herman sempre adiantado em relação ao país, daí figuras como o Diácono Remédios, que caricaturava preventivamente a crítica que Herman sabia existir na cabeça de tantos.
E quem está na televisão, na rádio, nos espectáculos durante mais de trinta anos a fazer rir ininterruptamente um país ? E quem nos dá alegria mesmo quando a não tem? Só um profissional de excepção.
Mesmo na sua exteriorização criticada do produto do seu trabalho, fossem relógios, fossem carros, fosse o seu barco, a vergonha não era nem deveria ser de Herman, mas de quem o criticava; o Herman estava apenas a ser livre, a ser o que queria ser, quem o criticava era, sim, o rosto da vergonha, ainda era herdeiro de um certo salazarismo que mandava ser rico com “decoro”, “sem mostrar”, de fato cinzento, de preferência.
Eu tenho 34 anos e não me lembro do Herman não existir. Passei a minha vida a rir e a aprender com o Herman. Desde logo a ser mais livre.
Este é um texto de gratidão. A gratidão é tanta, que tenho com o Herman – que não conheço – o mesmo tipo de instinto que tenho na amizade. Quando leio uma crítica ao seu trabalho, quando vejo alguém de fraca memória sublinhar um minúsculo aspecto da carreira deste monstro esquecendo o seu conjunto, fico roxa de fúria. Para mim, o Herman é e será sempre um génio. Sempre. E é um profissional que não falha. Morre-lhe o pai e ele dá o espectáculo que tem agendado para esse dia. Porque tem um compromisso connosco.
Quem me dera. Quando chegar a minha vez, daqui a muitos e muitos anos, se tiver um prazo para cumprir, duvido que o cumpra.

Isabel Moreira, Herman José ou de um contributo para a liberdade
no Jugular

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Cartada contra a privatização dos CTT

Dia 22 de Abril às 18:15 venha aos Restauradores enviar uma carta ao Primeiro-Ministro contra a privatização dos CTT. Morada para envio: Gabinete do Primeiro-Ministro, Rua da Imprensa à Estrela, 4, 1200-888 Lisboa.
Consulte ainda o blogue da iniciativa e a página do Facebook. Uma iniciativa da ATTAC Portugal.

MayDay

Via Arrastão. Informações sobre o protesto aqui.

Pintura João de Azevedo

anaCrónicas 15

O torcicolo atemorizado

Entrei na FNAC da Rua Catarina com o saco da Livraria Latina pleno de literatura fora de época, nem sensacional, nem no top ten, velharias como o Artaud traduzido pelo Urbano e algum material da Contratempo com cheiro a libertinagem, coisa para surtos de êxito em bancadas de feira velha, no seu tempo e se a chuva, que veio para ficar com ou como a Crise (debate a ter), tiver remorsos de tanta chamada para os bombeiros, quase a desistir do voluntariado com as bomba de água a estoirar de marés de excesso aquoso – depois de tanto investimento na floresta, nos helicópteros, nas torres de vigia entre a Lousã e o Açor, o que é necessário agora são mangueiras de fogo para extinguir a água. Que dirão os partidos? E o engenheiro, que proporá?
Com o saco muito discretamente colado à PERNA ESQUERDA, A DA PRÓTESE, verifiquei que os consumidores que ali cirandavam punham olhares de um soslaio apreensivo, como se fosse um suicida islâmico pendurado na minha meia dose de penca judaica – uma ambiguidade que se paga cara. E a câmara de vídeo, as câmaras, deslocavam, à miopia desarmada, intimidando, os seus narizes na direcção do inesperado previsível, focando-o como miras - foram ensinadas ao ponto de farejarem como o cão doutorado em hachiche.
Um saco não é uma T Shirt, nas T Shirt’s a divergência pode vir estampada e fica bem, faz parte da diferença para a troca e saúda-se como um toque de pertença ao mesmo universo subido das T Shirts. Senti-me arcaico, falante de marca com sotaque local. As câmaras vídeo iam gravando a ocorrência numa espécie de directo sem truques. O vírus, a propagar-se, ficou lacrado para a eternidade do capitalismo, num conjunto de planos 3 D contra picados – elas espreitam sempre de cima a estimular o torcicolo.
O saco pôde entrar, mas eu não, preso no terror da heresia e entrando sim, para um interior panicado e pré enfarte, enquanto tropeçava nos próprios sapatos, a esquerda e a direita por um momento presas da fatalidade disléxica, tão criativa noutras circunstâncias. Na barreira de olhares vi por um momento o poder da massa, maior que o poder da massa. Reconheci-o.
De facto, pensei, se todos os que entrarem na FNAC o fizerem com sacos da Latina, os da FNAC correrão o perigo de promover a Latina no território da FNAC – a na FNAC fnaca-se absolutamente e tudo o que tocamos e olhamos fnaca. Fnaca-se e fnaca-se em todos os sorrisos mansos – uma palavra promovida a espectáculo por uns momentos na cozinha do rectangulozinho – num sistema de olhares entrecruzados que distribui a serenidade reflexiva dos fnaqueiros (versão nacional dos fnaquéens para rimar com toureiros, toureiros de lide mansa) em clima de aquisição sem esforço, o penetrar do cartão visando a fenda e não ofuscando com o seu ruído amusical, como outrora o vil metal, o sentimento de unanimidade reflexiva e pacífica que faz as religiões superiores. Este ar concentrado e moderadamente satisfeito – tudo o que é muito dá cabo da saúde - sobe dos livros como um perfume de saberes subtil, decisivo para as posturas, geometrias do corpo entre as estantes e olhares lambe lombadas numa prévia aferição aperitiva de conteúdos.
Quem sabe se a Latina, numa manobra de guerra civil localizada, de posições, como manda a guerrilha clássica aos pobres – onde isso já vai -, não industriou os seus seguidores a entrar de modo numeroso (o contingente dos pobres aumenta de modo exponencial e nada equilibrado ao seu desaparecimento) para dentro das fronteiras da FNAC numa manobra terrorista, essa política da pobreza fanatizada, segundo se diz?
Ao que parece, depois do caso aqui relatado autobiograficamente em tempo real (vulgo documentário, docudrama para falar como o Camilo de Sousa, meu amigo, categoria desviada da objectividade sacrossanta), os Fnaccontrolers propuseram a nacionalização de todos os potenciais suicidas, a fazer com dinheiros do QREN, e fundamentando a coisa nos atentados ao ocidente e ao mercado, a sua alma. Na sequência do caso das burkas este caso promete, dizia a gazeta local em artigo de canto de página, mas de manchete gigante e luminosa.

FMR

domingo, 18 de abril de 2010

sábado, 17 de abril de 2010

O escândalo dos "estágios"

Há dúvidas de que Portugal é uma autêntica República das Bananas? Vejam o exemplo dos "estágios" profissionais não-remunerados, ou remunerados apenas em "ajudas de custo". Já foi dito e redito por toda a gente que estes "estágios" são claramente ilegais, não passando de formas encapotadas de trabalho de graça ou quase. Já houve, até, um site de anúncios de emprego (e um dos mais prestigiados) que declarou que recusava anunciar este tipo de "estágios", por não pretender violar a lei. Mas o que se passa, entretanto, no mundo real? Acaso acabou, ou mesmo diminuiu, esta forma desumana de escravatura moderna? A Inspecção-Geral do Trabalho abriu inquéritos, participou, denunciou, autuou (e era tão fácil, bastava fazer de conta que se procura um emprego)? Claro que não. Continua tudo na mesma - é ilegal? É. Mas pode fazer-se? Pode.

É óbvio que a minha indignação selectiva tem por mote alguém muito querido estar neste preciso momento a passar por esta via-sacra. Só quem passou por isso poderá imaginar a frustração que é trabalhar sem receber nada, e ainda por cima ter a certeza absoluta que é isso mesmo que se tem de fazer para singrar em determinada área profissional.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Aforismos (2)

«Fazer troça da filosofia, é, na verdade, filosofar»

Pascal

Conferência por Stephen Greenblatt: Cultural Mobility: The Strange Travels of Shakespeare's Cardenio


21 de Abril, às 18 horas, no Auditório 1 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Av. de Berna


Stephen Greenblatt introduziu em 1982 o conceito de New Historicism, e continuou a ser uma figura chave na viragem dos estudos literários para a “poética cultural”, da interpretação textual para a contextual: não no sentido de a arte “espelhar” a sociedade, mas numa reflexão, inspirada por Foucault, sobre “o processo pelo qual algumas obras notáveis estão ao mesmo tempo mergulhadas num mundo da vida altamente específico e parecem erguer-se dele com liberdade”. São notáveis os seus estudos sobre o Renascimento, em especial sobre Shakespeare: a sua biografia do poeta inglês esteve nove semanas na lista de Best Sellers do New York Times, em 2004.

Professor na Universidade de Harvard, os estudantes batalham por conseguir um lugar nas suas aulas. Tem também ensinado em universidades como as de Berlim, Florença, Oxford, Kyoto e Pequim. Vem a Portugal integrado no curso de doutoramento em Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

A sua conferência relaciona-se com os estudos sobre mobilidade (de pessoas, de ideias, entre centro e periferia, entre fé e cepticismo, ordem e caos, exterioridade e interioridade, numa tensão entre enraizamento e mobilidade, que uns vêm com avidez, outras com medo). Vai dar exemplos a partir da peça que em 2008 estreou, Cardenio. Cardenio é uma personagem do capítulo 24 de Dom Quixote, publicado em 1605 e traduzido para o idioma inglês em 1612. Em 1613 há registo da estreia da peça Cardenio, assinada por Shakespeare e pelo seu jovem assistente John Fletcher. No mesmo ano há um incêndio no Globe Theatre. O manuscrito é dado como perdido, mas no século XVIII Theobald Lewis afirma tê-lo em mãos e adapta-o no espetáculo Double Falsehood. Diz ter entregue o original à biblioteca do Covent Garden Theatre… que um incêndio veio a destruir. Greenblatt, sempre interessado nas reciclagens de material cultural como Shakespeare e o Renascimento tanto fizeram, em conjunto com o dramaturgo norte-americano Charles Mee reescreveu Cardenio, a partir de uma triangulação entre o original de Quixote, a adaptação de Lewis e elementos recorrentes na dramaturgia de Shakespeare.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Amor - 69


Washington DC

Foto Jota Esse Erre

A propósito da deputada Cidinha Campos

Se repararmos bem nos termos e nos argumentos da deputada (perceptíveis neste e noutros vídeos acessíveis no YouTube), observaremos um estilo e o recurso a meios que são inaceitáveis em muitos países democráticos, como o uso público de informação judicial que se deveria manter reservada, a referência por alcunhas ofensivas a pessoas ainda não julgadas e condenadas ou a parentes seus, a exibição livre de epítetos e de insultos, ao melhor estilo de um «tribunal popular», que não podem aceitar-se num parlamento por mais hediondos que possam ser os crimes cometidos pelos seus destinatários. Por isto, e passada a novidade, fui deixando de achar grande piada aos vídeos populares da corajosa Cidinha Campos. Eles são reveladores de um lado populista e demagógico da democracia que também nos deve preocupar. Venha ele da esquerda ou da direita.
Rui Bebiano

Vídeo aqui

Sinais


Desenho Maturino Galvão