quarta-feira, 31 de março de 2010


M’sirro.Ilha de Mocambique. 2003

Foto Sérgio Santimano

anaCrónicas 11

Ele há dois tipos de cinemas: aqueles em que se comem pipocas e aqueles em que se batem punhetas. O primeiro tipo de salas, o das pipocas, é o espaço acústico em que os pipoqueiros produzem um som do tipo herbívoro que busca a unanimidade de um movimento maxilar compassado para construir uma banda comum, e é também o espaço em que os mesmos pipoqueiros interiorizam o som que produzem para fora, pois o interior do corpo é também um espaço acústico que recebe dentro o que se faz para fora, o que os ouvidos, entradas de som, provam à evidência, pois quando não ouvem para fora estão absolutamente ocupados para dentro nessa função de sondar as músicas interiores – acontece muito.
Infelizmente nem todos os comedores de pipocas estão suficientemente adestrados para o fazerem ao mesmo tempo no mesmo lugar como a sublime experiência da unanimidade referida – chegados aí, os poucos que o sabem fazer, os iniciados, entram no céu da comunhão maxilar, só comparável ao êxtase inexplicável do milagre em directo – só os da católica valem, os outros são falsos. Claro que a pipoca, tendo a dupla condição de criar som externo e interno, vai mais longe: o movimento estético-mandibular pode fundir-se com o gesto criador numa espécie de big bang da invenção da partícula estética. A cavidade bucal funciona, na trituração, como um verdadeiro acelerador de partículas do universo sensível.
Já a punheta pede um cinema específico em matéria fílmica e em característica de sala. Neste tipo de sala convém usar guarda-chuva porque esta cinefilia praticante funciona como actividade sexual de tipo aberto, cujo limite é apenas orgânico e a fantasia só comparável com a poética amorosa dos símios.
Entretanto, a diferença radical entre o punheteiro cinéfilo e o pipoqueiro está em que tendo ambos uma intervenção clara no curso da acção fílmica, o primeiro exprime-se para o exterior, produzindo opinião clara sob a forma de uma secreção húmida e identitária e o segundo só o faz para dentro, numa atitude mais moderada e sensata. O que normalmente se traduz, para o pipoqueiro na preferência pelo filme familiar, divórcio mais casamento, mais filhos, mais divórcio e casamento, continuando por aí, e para o punheteiro num tipo de cinema mais próximo da dança do varão, essa expressão superior da dança contemporânea que agora é muito comum nos workshops para mães de família e que se generalizou depois do conhecido caso “as mães de Bragança”.

FMR

terça-feira, 30 de março de 2010

Da Paixão


Benjamin Zander

Com a devida vénia à Almerinda e ao Cláudio Teixeira

Com um beijinho para os meus filhos e para a minha paixão.

Oiçam o maestro Benjamin Zander em conversa ao fim da tarde com Carlos Vaz Marques
(Essencial para quem educa)
TSF, 10/03/2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

Da Capital do Império

A situação em África deverá piorar antes de … piorar. Essa é a opinião do JOE. Não um Joe qualquer mas sim o Joint Operating Environment (JOE), um estudo efectuado pelo Comando Conjunto das Forças Armadas americanas sobre o que nos aguarda a todos no futuro.
Claro que todos nós sabemos que - como disse alguém - é difícil fazer previsões principalmente sobre o futuro e que muitas vezes as previsões só servem para tornar a leitura dos signos em algo de respeitável. Mas de qualquer modo previsões – principalmente quando feitas pelo Comando Conjunto das forças do império – não devem ser totalmente ignoradas e este estudo abrange um pouco de tudo e de todos, desde a Europa á China e Índia, aos movimentos extremistas, ao ciberespaço e mais. Mais senso comum (que na verdade deveria ser chamado de senso raro) do que qualquer revelação extraordinária.
Para aqueles que mantêm ligações com África o estudo é no entanto particularmente sombrio porque afirma que mesmo em países onde se está a registar algum avanço (vem á mente claro está Moçambique) poderá haver recuos
Há que dizer que o estudo denota muito pouco espaço a África, só por si indicativo que para o comando das forças armadas americanas África vai continuar a ser nas próximas décadas algo de marginal.
“ A África subsaariana representa um conjunto único de desafios que incluem factores económicos, sociais e demográficos, muitas vezes exacerbados pela má governação, interferência de potências estrangeiras e crises de saúde tais como a SIDA,” diz o documento.
“Mesmo bolsas de crescimento económico estão sob pressão e poderão recuar devido a múltiplos problemas que constituem obstáculos à capacidade do governo responder a esses problemas,” acrescenta para afirmar ainda que “poderá haver algum progresso na região mas é quase uma certeza que muitas dessas nações continuarão na lista das nações mais pobres do mundo”.
O documento nota que os recursos naturais de África são uma faca de dois gumes. Esses recursos “atraem a atenção de estados poderosos” e muitos estados africanos têm dificuldades em resistir á pressão e interferência desses estados e de forças “não estatais”, situação que o estudo diz poderá afectar os estados fracos e pobres”.
Mas ao mesmo tempo o envolvimento desses “estados poderosos” em África devido aos recursos do continente poderá ser um desenvolvimento positivo porque com o seu envolvimento poderá vir também investimento e tecnologia e conhecimentos.
“A importância dos recursos da região irá assegurar que as grandes potências mantenham o seu interesse na estabilidade e desenvolvimento da região,” diz o estudo.
E o papel das forças armadas americanas? A acreditar no estudo até haver “estabilidade e segurança” em África o envolvimento militar americano será o de “impedir desastres humanitários e mesmo genocidios numa situação em que estados africanos e grupos tribais lutam pelo poder e por controlo”.
Até agora isso parece ser verdade. Mas como disse certa vez um treinador de futebol … “prognósticos só no fim do jogo”.

Jota Esse Erre

California Dream


The Mamas and The Papas

"Chegamos a um ponto de viragem depois de décadas de luta pelo fim de uma proibição totalmente falhada", comentou o director da Drug Policy Alliance, Stephen Gutwillig. "A proibição da marijuana alimenta uma economia paralela brutal, desperdiça milhões de dólares em recursos policiais e transforma cidadãos cumpridores em criminosos. Esperamos que a Califórnia seja a primeira a pôr fim a esta política desastrosa"
Público, 20/03/2010

Com a devida vénia ao Remisso

Amor - Segredos


Santa Fé, Novo México

Foto Jota Esse Erre

O fóssil falante

Que a pedra fala ninguém duvide. É património, memória, estatuto museológico, coisa portanto digna. Na pedra: o ser colectivo, a gesta da pátria, mais ou menos ferrugem e actividade hortícola espontânea. Por onde andará o montante de D. Afonso? Que bateu na mãe não interessa nem vem ao perfil do fundador, o que interessa saber é que cortou a cabeça a uma chusma de mouros de uma só espadeirada e mesmo a uns reles cristãos que traçavam mal o sinal da cruz, metendo primeiro o dedo rabelaisiano na barriga e não na testa – não frequentaram uma boa escola, colégio com matinas e vésperas de boa prática, ralé pendurada na preguiça, na boa vida, tasca e petisco mais perdições do corpo, diabos comunitários.
Agora que novos cristãos e novos mouros traçaram uma “nova” linha divisória fictícia, fronteira cavada em ideologia de morticínios militantes, a recuperação da imagem do primeiro Rei de Portugal, o fundador, como matriz inspiradora da “nova” linha de um antagonismo sem trégua a eternizar em estratégias sucessivas de forças no terreno e contra-informação criativa, é uma necessidade instante. Levantemos o montante contra os suicidas disfarçados de pessoas e antes que expludam zás, montantes ao alto, cabeças a rolar. Teremos de o fazer obviamente on-line e através de uma profusão de software lúdico suficientemente violento para estimular nas criancinhas o ódio antagonista no meio do “todos iguais, todos diferentes” do politicamente correcto.
Mas estes são assuntos de política internacional e próprios desse filme pobre chamado incessantemente aos palcos globais que não interessam ao cantinho, de novo cantinho à beira-mar plantado e de novo perdido na dívida e seu tratamento – aqui os danos colaterais caminham para que a criança vá com a água do banho e que a banheira passe a pagar renda ao patrão de fora, ficando-nos a depressão e as mãos vazias.
O salazarismo voltou, se isso significa um fechamento do verdadeiro desígnio europeu e uma conformação da vida dos portugueses, seu imaginário e práticas diárias, ao valor da dívida, isto é, ao tamanho pequeno não propriamente do mercado, esse pode encontrar tamanhos de elasticidade vária, mas à negação de um desígnio nacional como verdadeira nova internacionalização (a da geografia da língua e a da economia real levadas a sério) que nos levasse desta tragédia de sermos vítimas eternas de uma deriva constante da unilateralidade financeira – o outro começou Ministro das Finanças e deu rapidamente em torcionário complacente antes de cair da cadeira. Não faltou a isso uma tacanhez provinciana – aliás esta coisa de “os portugueses são capazes”, esse tipo de paternalismo que andam para ai a vomitar enoja e revolta – que agora regressa em força no discurso dos governantes e dos opositores, todos de facto muito analfabetos, iletrados e incultos, ao contrário da tradição de uma certa política republicana e letrada.
Se pensarmos que nos andaram a vida toda a meter na cabeça o respeito por alguns símbolos arquitectónicos, cultivado em momentos de transfiguração exaltada de vida no meio dos dias de andar a dias - rituais leia-se -, logo percebemos que a pedra é mais que pedra e que a sua química degenerescência acrescenta patine à simbólica dando-lhe profundidade (agora diz-se densificar, talvez). Essa patine, justifica aliás, que muitas vezes o património seja mais pátria e pedra degradada que pedra refeita e futuro ali, na pedra pois, esclarecido como forma do porvir. Porque a pedra pode de facto, não sendo jangada, ajudar a viajar para um à frente que misture duas possibilidades: ser as coisas boas que outros até já foram – uma certa Europa para trás – e ser as coisas boas que nunca existiram mas que são humanamente possíveis, uma verdadeira Republica, uma comunidade. Mas nem este nível do discurso hoje passa. Nem à esquerda nem à direita, todos com o ferro no pé, escravos da dívida por fatalidade de destino e coexistência parlamentar, de joelhos perante o deus não da economia mas das finanças, o grande contabilista, o do caminho único. E não passa porque esse discurso, liberto de subalternizações à ditadura orçamental, pressupõe um plano, uma estratégia expansiva, o futuro, um futuro e ideias de futuro, pensamento emergente que organize os caminhos possíveis por dentro das inamovíveis decisões da inevitabilidade das medidas para combater a dívida, mas principalmente pela capacidade de gerar alternativas globais, socialmente globais.
Mas este assunto pátrio da pedra refinou: neste afã de patrimonialização generalizada para turista ver, somos metidos a papalvos no espectáculo possível de um simulacro de singularidade identitária, vendável a olhos estranhos – se para tal for necessário que façamos de atrasados simpáticos e que tudo o que façamos seja de uma espécie de incompetência ingénua e autêntica, então seremos papalvos, papalvos batendo continência interior nos sorrisos ao passante com pilim a falar inglês - talvez isso seja um emprego, e qualificado, para o perfil do português tipo, se existe. O procedimento é simples: tudo pode tornar-se espectáculo do que foi, a pesca, o moinho de mó, as rendas de bilros, as próprias criaturas de uma aldeia “típica” podem tornar-se as personagens de si-mesmas e encontrar nisso, na sua própria conversão a bonifrate em auto-retracto, um emprego.
Já há muito que Debord caracterizou a Sociedade actual como a Sociedade do Espectáculo, a sociedade em que todos se tornam figurantes do sistema sob a forma de consumidores passivos de mais-valias simbólicas erigidas em consciência possível, ou melhor, criaturas impossibilitadas de um olhar exterior, de um olhar que descontaminado daquilo para o que se dirige, possa de facto fixar-se nisso de um modo racional e crítico, lógico, liberto. Esse é aliás o único modo de ajuizar sem o pecado mortal do preconceito na vez da tentativa do conceito. Se há uma coisa que Estado Espectacular Integrado tenta forçar é que estejamos sempre dentro do espectáculo e que o exterior do espectáculo seja, para quem o tente, uma asfixia, resistência 24 sobre 24 horas. Na realidade o melhor do estalinismo soma-se ao melhor do capitalismo, o tal capitalismo cultural.
Mas para além da pedra há a pedra que de facto fala, que perora. São os fósseis falantes. São criaturas que servem o sistema justificando sempre de modo eficaz, nos seus palanques de poder constante, porque é que o mais interessante é ficar tudo na mesma para que tudo mude. São pessoas como o Marcelo Rebelo de Sousa e como o Pacheco Pereira. Nunca levam nada até à necessidade da fractura e mesmo perante o corpo fracturado do país propõem as mesmas receitas do poder instalado, resumindo tudo a estratégias de fulanização e grupo. São estes, com outros inimigos irmãos, os pais deste sistema partidário medíocre que prospera.
São doutores como o bolonhês – figura da Commedia Dell’arte que fala um latim incomestível de um modo parecido com o falar de uma turbina – e como o Dr. de Coimbra, que se poderiam classificar entre os antepassados dos activíssimos fósseis falantes da contemporaneidade pós moderna. Falam e não mudam. Falam e dizem sempre o mesmo. Falam e não abrem nenhum horizonte, nenhuma luz, nenhuma fenda no bloco cego dos dias, nenhum caminho que se possa iniciar. São maquilhadores da realidade pobre que temos, mesmo quando fazem avisos á navegação, aquela coisa de ter sempre razão antes dos males acontecerem, vaticinadores de dramas constantes. Também conhecidos por cadáveres adiados, são donos honoríficos de diversos cemitérios em actividade mesmo sem possuírem as chaves das lojas, partidos, instituições e aparelhos ideológicos de um modo geral. Para eles as portas estão sempre abertas. Têm negócio montado constante e não são apanhados em escutas.
A argumentação não é uma forma de pensar que descubra no real, que está podre, por onde parti-lo. O vício silogístico e o charme falante do fóssil fazem dele de facto uma criatura que também se dedica com muita fé e carinho a explicar-nos que teremos de ser mais pequeninos perante o tamanho da dívida, mas que antes portugueses do que apenas pedintes. Mas que seremos nós senão pedintes, a necessitar de ser mais que portugueses europeus e criaturas do mundo? Do que necessitamos é de uma grande fractura e não de ajustes, ou de pequenas melhoras. E essa fractura, não a pregam, os fósseis falantes, porque estão em posição de renda desde há muito. Os seus feudos mantêm-se intocados há décadas e obviamente para eles tudo está certo menos o Sócrates. A única coisa em que acertam é na falta de qualidade do Sócrates, se pensarmos nas casotas em que colaborou para desfear a serra, lá para a Covilhã e se pensarmos que quando fala não diz nada que não seja óbvio e da ordem da tautologia. Mas o argumentativismo de uns e as tautologias de outros, o que ajudam a formar é um colosso inamovível, uma ficção de país cimentada em atavismo e arcaísmo que alimentam de modo moderníssimo. São obviamente menos capazes de fazer mudar que o peixe de prata ou o bicho da madeira. Esses são lentos mas destroem por dentro o que é mofo e estrutura do mofo.
Ora os nossos fósseis falantes são como a pedra famosa. Falam do alto dos seus feitos e por certamente terem estado em espírito com o Gama quando por lá andou, pelos tais mundo que demos ao mundo, a globalizar. Estes não ajudam a uma nova matriz, rende-lhes a de sempre. São na realidade criaturas do antigo regime.
Encantam entretendo entretanto e para tantos. Entre eles e a pedra pátria há um pacto profundo. A pedra anda de história às costas somando reabilitações paredes meias com as construtoras. Eles andam entretendo as gentinhas com a política de bolso – têm respostas prontas para tudo – paredes meias com as grandes empresas mediáticas, públicas e privadas, todas elas de costas viradas para o tal serviço público, apenas simulado.

Fernando Mora Ramos

sexta-feira, 26 de março de 2010

A pátria

" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas..."

Guerra Junqueiro

Os Cowboys e o Exército Vermelho

Nesta onda benfiquista, Santa Aliança entre vermelhos de todos os quadrantes políticos, temos de ouvir

e sonhar com um futuro verde.

EM CONTRATEMPO TÁCTIL

Passo com os dedos
O teu rosto
De um fôlego apaziguado
As pálpebras borboletando no batimento cardíaco
Percorro lábios que tinham amanhecido
E nas covas fundas do rosto
Onde se tecem as doces olheiras
Azeitona escuro incólume e amendoado
Prego o silêncio

Olhos a promessa cantam solta
Irradiam palavras apetrechadas de asas
Em estrias de transparência e pele monologando
Esse aberto de esforço que as olheiras habita em dias longos e intensos
São as caudas da visão em cometa
Marés nas planícies deslizando a noite e nos despertam

Dessas deambulações cresce
Um absoluto de manufactura
Olimpo de cravinas em assembleia
Que a infância tece sempre de volta

Aí estamos algures fora da moldura

f. arom

quinta-feira, 25 de março de 2010

Conselho de "Justiça" da FPF (2)

Nesta imagem vemos um espectador do West Ham a ser perseguido por outro espectador, este vestido de colete. Ao fundo, uma bancada cheia de espectadores, e de costas para o recinto outros espectadores de colete.

Uppsala. Suécia. Fevereiro de 2010

Foto Sérgio Santimano

Do Escuro Anterior

7

Depois descemos pela poeira
Hospedados os deuses em suas casas

De longe segurando os frutos
Vimos o lucilar das lanças e as abóbadas fendidas

Os nomes
Inermes nas bermas dos caminhos
Imprecavam às cidades

Ur, a perdida,
Sttutgart ainda à Sua espera
E as botas na lama do Sublime por Diotima

Se os deuses as ocupam
Onde abrigar os Amigos?
Dissemos

E plantámos a maçã no teu ventre
E veio a noite

O que nos cercava
a videira redimiu

E o sol Amigos
Eu vi

Um anjo máquina pelos caminhos da montanha
Os vales e as reentrâncias da Terra
Seus lábios no mar

Era depois do Escuro
E as mãos
O que tacteámos delas!

Um nome disse: é um dorso
Arqueado ao meio por um rio

Alguém desesperou do rosto
E as casas abriram-se
E eram os teus seios

Eu vi a Árvore
E o diverso sopro


Ó os cajueiros de os erguer
Da infância

Ò trovão anunciando os Espíritos
Arrepio azul dos gala-galas

Ò longe aqui tão perto nos caminhos
Que as mãos afagam

Perdida tu na lonjura
E precipitada de toda a Beleza

Alta noite
Hannah
E os Amigos latejando

Ò trucidante máquina louca
Do mundo
Íman mineral silenciosa

Ó espúria!

Eu vi

E foi o primeiro Escuro

Luís Carlos Patraquim

Excerto de “O Escuro Anterior”, inédito

Boderline


Placenta

Cláudio Garrudo apresenta nesta exposição o seu mais recente trabalho que explora diversas situações-limite e múltiplas identidades e que têm como metáfora o funcionamento denominado Borderline. Contudo, borderline também nos remete para uma tradução mais literal e neste sentido trata-se de reflectir sobre essa ténue linha que separa a sanidade da insanidade, o sossego do dessassosego.
Nesta série de (auto) retratos ou de (auto) representações, Cláudio Garrudo convida o espectador a ser cúmplice nesta aventura na descoberta dos diversos “eus” que cada um encerra, confrontanto o público com incertezas, sombras, vertigens numa espécie de exorcização de fantasmas que, por vezes, nos perseguem.

Galeria das Salgadeiras, Rua das Salgadeiras, 24, Lisboa. A partir de 27 de Março

quarta-feira, 24 de março de 2010

Conselho de "Justiça" da FPF

Do Regulamento Disciplinar da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, em vigor para a época de 2009/10:

Artigo 1º - Definições

d) Agentes: os dirigentes e funcionários dos clubes, jogadores, treinadores, auxiliares-técnicos, árbitros e árbitros assistentes, observadores dos árbitros e delegados da Liga, médicos, massagistas e, em geral, todos os sujeitos que participem nas competições profissionais organizadas pela Liga ou que desenvolvam actividade, desempenhem funções ou exerçam cargos no âmbito dessas competições.

Artigo 115.º - Das agressões:

Delegados ou outros intervenientes no jogo com direito de acesso ou permanência no recinto desportivo;

e) Agressão que determine lesão de especial gravidade quer pela sua natureza quer pelo período de incapacidade: suspensão de 1 a 6 anos e multa de € 5.000 (cinco mil euros) a € 25.000 (vinte e cinco mil euros);
f) Agressão em outros casos: suspensão de 6 meses a 3 anos e multa de € 2.500 (dois mil e quinhentos euros) a € 7.500 (sete mil e quinhentos euros).
2. Os factos previstos nas alíneas do número anterior quando na forma de tentativa são punidos com os limites das penas acima indicadas reduzidas a metade.


Artigo 120.º - Das agressões

1. São punidos nos termos das alíneas seguintes as agressões praticadas pelos jogadores contra:
Delegados ou outros intervenientes no jogo com direito de acesso ou permanncia no recinto desportivo.
a) Resposta a agressão: suspensão de 2 a 6 jogos e multa de € 1.250 (mil duzentos e cinquenta euros) a € 12.500 (doze mil e quinhentos euros);


Público:

Agressão: suspensão de 1 a 4 jogos e multa de € 750 (setecentos e cinquenta euros) a € 3.750 (três mil setecentos e cinquenta euros);

Concordo que é discutível que um steward deva ser considerado um interveniente no jogo. Contudo é assim que são tratados pelo regulamento disciplinar à luz do qual este Conselho de "Justiça" da FPF julgou os recursos do FC Porto. Não havia qualquer alernativa à decisão, correcta, do Conselho de Disciplina da Liga. Porque ou o CJ considera que Hulk e Sapunaru responderam a agressões (o que é desmentido pelos relatórios de árbitro e delegado da Liga e pelas imagens), ou equipara os stewards ao "público", o que, convenhamos, roça o absurdo. E ainda dizem que é o Benfica que é "levado ao colo" nesta opereta bufa a que chamamos "futebol português".

O TREMOÇO NO GOTO AUSTRAL

Agora que vou para quase velho
Vejo que não prestei a devida atenção
Ao modo como o tremoço
Me cai no goto
Não esse do engasgar
Mas o outro
O goto dos afectos
Primeiro o respeito da pele
Da casca entre os dedos
Num movimento simples de descascar
Levado no tempo de o fazer
Assim como observar a imobilidade da cadeira
Que ali está e estará até que perca a utilidade

Mas mais que o tremoço e a casca
E o miolo
Já que o essencial também não deve esquecer-se
Quando o acessório se torna visível
É poder seguir as nuvens
De um ponto absolutamente único
Na janela do quarto mais oriental da casa
- Oriental nas contas feitas de geografia instintiva –
Pois aí
Elas passam de um modo que é mais cinético do que todos
Passam mais esguias
Pondo-se a jeito para o meu cinema
E para a minha expectativa de águas ainda não passadas

Toda esta prática
É de amores com a terra que nos pariu
Ou assim me parece
Como me parece sê-lo
O modo como uma árvore se inclina quando um velho passa
Na saudação primordial
- diálogo mais que ecuménico -
Creio que o vento que a sopra o adivinha
E leva as folhas na prosa que a brisa escreve

E mais do que estas práticas
Gosto de linhas do rosto
E de as escutar no silêncio que toca
No Outono amarelecido da foto

O sorriso ter permanecido
Diálogo fundo
O que persiste
Certo é que as balizas lá estão
Na Sá de Miranda
Nos mesmos portões metálicos
Simétricas e ali postas para o nosso futebol
Cósmico de 10 metros entre as linhas extremas
E do mesmo modo
A parte não cimentada do passeio lá está
À espera da cova longa do paulito

O meu tempo intocado ali
Porque o tempo que se lhe seguiu
Nada tinha com este que cresceu comigo
E nossos
Restam dos maços de Caravela
Grandes fumaradas
Pelas barreiras abaixo acima
Fumados colectivamente
Assim como caminhadas
Intermináveis até aos mares da Xefina
Nunca lá chegados
Caminhando o mar salgado entre tubarões imaginados
Sob o mar encrespado de pequena vaga e areias revoltas

Do que hoje me lembro
É que por muito que se tenham somado promessas de novos mundos
Nada vivi mais absolutamente igualitário
Que o mundo daquela rua
De goeses changanes híbridos e lusos ibéricos

Outros mundos havia
Por certo
Como certo era existirem ainda mais
Do que esses outros e piores e melhores
E certo é também
Como diz o outro
Tudo ser relativo

f. arom

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Da Capital do Império

Agora que o governo britânico expulsou um diplomata israelita de Londres acho por bem aproveitar a oportunidade para revisitar o assassinato do dirigente do Hamas Mahmoud Al-Mabhouh no Dubai a 19 de Janeiro.
É uma história de faca e alguidar e não me perguntem como é que sei o que vos vou contar. Não digo.
Al-Mabhouh – para além de no passado ter estado envolvido em operações terroristas pelo Hamas e de estar na lista de terroristas dos serviços secretos e de imigração europeus – era actualmente o elo de ligação entre o Hamas e o Irão no negócio de armas. O Dubai como porto livre é um dos principais locais para o negócio de armas do mundo. (Os serviços secretos russos assassinaram no Dubai um ano antes um dos dirigentes rebeldes chechenos)
Mas o assassinato de Al-Mabhouh não foi levado a cabo numa operação relâmpago.
O tipo de operação que decorreu no Dubai revela que o líder do Hamas estava a ser meticulosamente seguido há meses senão anos. O tipo de controlo levado a cabo deve ter envolvido meios técnicos, humanos e físicos.
Três (ou quatro) palestinianos foram presos no Dubai após o assassinato e tem havido um silêncio total sobre a sua identidade. Na Síria alguns elementos do Hamas foram também interrogados.
O dirigente do Hamas chegou ao Dubai sem guarda-costas. Aparentemente os guarda-costas não conseguiram reservar bilhetes de passagem para o dia em que Al-Mabhouh viajou o que indica que a viajem ou pelo menos as reservas da mesma foi precipitada.
Mas a equipa enviada para matar Al-Mabhouh já se encontrava no Dubai quando este lá chegou vindo da Síria onde residia. (Excepto o comandante no terreno da operação um francês usando o nome falso de Peter Elvinger que chegou na madrugada do dia da chegada de al Mabhouh). A equipa tinha na verdade chegado ao Dubai vinda de diferentes partes do mundo (Paris, Frankfurt, Roma e Zurique) o que só por si é indicativo de como a operação tinha sido planeada com muita antecedência. Mas não se sabia para que hotel o homem do Hamas iria. Ou melhor sabia-se o nome de dois hotéis dos quais Al-Mabhouh iria escolher um após chegar ao Dubai. Sabia-se também que o palestiniano viajava com um passaporte falso o que obviamente lhe deu falsa segurança. Um grupo foi estacionado num hotel; outro grupo no outro. No dia da chegada do dirigente do Hamas um outro grupo estava no aeroporto à sua espera para o seguir. Quando ficou claro que al-Mabhouh iria seguir para o Al Bustan Rotana Hotel o outro foi abandonado pelos elementos da equipa que ali estavam colocados concentrando-se toda a equipa no hotel escolhido pelo palestinano e nas suas imediações.
No hotel que Al-Mabhouh escolheu o palestiniano foi seguido de perto até ao seu quarto (é o video do hotel com dois homens disfarçados de jogadores de tenis a sairem no mesmo andar que al Mabhouh). Com o quarto identificado (quarto 230) agentes reservaram um quarto no mesmo andar ( A reserda co quarto 237 foi feita em nome de Elvinger).
Nesse mesm dia (19 de Janeiro) o dirigente do Hamas esteve na embaixada do Irão para discutir um carregamento de armas para a Faixa de Gaza. Regressou ao seu hotel por volta das 8.30 da noite. Antes disso houve uma entativa de “reprogramar” a chave electrónica do quarto de al Mabhou. Os agentes sabiam que Al-Mabhouh não tinha nenhum encontro previsto para essa noite. Nessa noite foi assassinado pouco depois de ter chegado. Não houve qualquer indício de arrobamento ou violência para se entrar no quarto. Al-Mabhouhb recebeu primeiro um choque eléctrico de uma “stun gun” depois foi injectado com Suxamethonium que quando injectado em grandes quantidades causa a paralisação do coração. Dificil de detectar após a morte.
Os agentes que participaram na missão estiveram sempre em contacto telefónico com um número na Áustria. É possivel no entanto que esse numero trasnferisse automaticamente as chamadas para um outro noutra parte do mundo. Isto indica que o comandante ou comandantes da operação não acompanharam a equipa ao Dubai.
Todos os membros da equipa enviada ao Dubai usaram cartões de crédito ligados a uma companhia de nome Payoneer. O director da Payoneer é um antigo membro das forças especiais israelitas. A Payoneer é controlada por uma outra companhia sediada em Israel. A maior parte dos pagamentos que efectuaram para despesas no Dubai foram no entanto feitos em cash
Os membros da equipa de assassinos deixaram o Dubai para diferentes partes do mundo. O comandante no terreno, o francês Elvinger, deixou o Dubai pouco antes do assassinato.
Quatro deles foram para a África do Sul.
Dois deles partiram para o Irão.
Pode não haver dúvidas sobre quem levou a cabo a operação. As incertezas jazem em quem colaborou, porquê e durante quanto tempo.

Jota Esse Erre

Picasso. Museu Nacional de Arte. Washington

Foto Jota Esse Erre

terça-feira, 23 de março de 2010

O 2+2=5 recomenda

Após o regresso, é altura de actualizar as preferências blogosféricas. Blogues houve que desapareceram, outros que apareceram, outros que mudaram tanto que do original resta pouco mais que o Modelo gráfico e um ou dois resistentes (veja-se o Cinco Dias, onde os radicais de ontem são os moderados de hoje).
Neste momento, para além do incontornável Ladrões de Bicicletas, o blogue que mais me enche as medidas é um dos novos, o Vias de Facto. Muita gente a escrever bem à Esquerda, e da minha Esquerda. Com o bónus adicional de por lá encontrarmos um determinado comentador que, com outro pseudónimo e por vezes mesmo em nome próprio, faz parte também da história do 2+2=5.


Pintura João de Azevedo

Sinais



Desenho Maturino Galvão

segunda-feira, 22 de março de 2010

O que fica bem

O que bem fica é o que se apresenta assim. Sem medo. Sem mentir.
Sem lei da rolha.
Livre; a voar.
Não é Futebol Clube, nem Sporting Clube.
É apenas 'Sport': quase um hálito, um hábito, uma vocação de vencer.
É a águia embicando para e esquerda e indicando o caminho.

O resto era a escumalha. Os mete-nojo do costume. Não são dos nossos.
São restos, rebotalho.
A escória. Hão-de, por certo, ter problemas por resolver...

Não são de nenhuma parte. Nem possuem nenhuma arte.

O conflito era lá dentro.
E resolveu-se.
Numa terra sem amos...
(Onde é que já ouvi isto?...)
SLB

Sinais



Desenho Maturino Galvão

Perdoar

esquecer
todas as nuvens
que ensombram
a alegria
todas as máscaras
que encobrem
a verdade
todas as defesas
que enfraquecem
a vitalidade
toda a arrogância
que invalida
o respeito
toda a prepotência
que insulta
a inteligência
todas as fugas
que acobardam
a existência
todas as traições
que aviltam
a transparência
todas as agressões
que sujam
e envergonham
a dignidade
e são sempre
fruto do medo
oposto do amor

Maria Hespanha

Futebol na neve. Uppsala. Suécia. Março de 2010

Foto Sérgio Santimano

domingo, 21 de março de 2010

Sinais



Desenho Maturino Galvão

Do jornalismo que por cá se faz

"...a nossa imprensa, quase toda, vive à procura de sangue, escândalos, tragédias ou heróis."
(...)
" De Mirandela ao 'Face Oculta' não vai assim tanta distância: a história é diferente, mas os métodos são semelhantes e, se pensarmos, o objecto final deste jornalismo é rigorosamente o mesmo."
Confessso Que Não Entendo, Miguel Sousa Tavares, Expresso 20/03/10

Picasso. Museu Nacional de Arte. Washington

Foto Jota Esse Erre

sexta-feira, 19 de março de 2010



Pintura João de Azevedo

anaCrónicas 10

Dizia o penúltimo Ministro da Cultura, o jurista Pinto Ribeiro, que Pessoa valia em dólares, e em bens transaccionáveis, mais que aquilo que as acções da PT no Brasil iam lucrando. E dizia isto a propósito de algo muito na moda na ficção de uma política dedicada à internacionalização da cultura, algo inexistente, como é inexistente uma visão política da utilidade social da literatura ou mesmo uma política do livro digna do nome – não que não existam pessoas dedicadas ao livro e à leitura.
Pessoa dizia abrindo novos mundos ao mundo e referindo-se o Ministro, creio, ao todo, à obra, mas provavelmente mais que à obra, à fama, isto é, ao resultado da conversão do mito em negócio possível, isto é, a pessoa, mais a obra, mais as frases célebres, mais o esoterismo e os heterónimos, mais o desassocego, corpus e personagem indefiníveis mas certamente mito transformável, na versão simplificada e à mão de abrir a boca e dizer, num qualquer marketing de campanha necessária afirmado numa paisagem qualquer, sendo que ele, o Ministro, seria o inteligente que ia pôr isso tudo a mexer, pioneiro da exportação de Pessoa numa escala intercontinental e a caminho de global, já que no Brasil há um gosto de Pessoa reconhecível e Pessoa seria um garante do nível subido da transacção e da internacionalização – diria Pessoa e ao pronunciar da palavra mágica, diante dos olhos surgiria um abre-te sésamo de possibilidades tendo como consequência a subida das acções portugalo-linguísticas na Bolsa de Nova Iorque.
Estávamos a entrar no Brasil das grandes empresas e no mundo dos grandes negócios – muitos anos depois do Caminha ter visto as partes vergonhosas das Índias de um modo tão natural que deu início a uma literatura erótico na carta crónica escrita – financeiros e portanto vá lá um bocadinho de Pessoa para dar substância espiritual, qual folha de rosto das relações que se esboroa com as primeiras brisas de desentendimento, ao terreno árido do investimento inteligente dos nossos capitalistas do sector público e privado no país do maior número de falantes da nossa língua – ou será a língua deles? Ou mesmo a mesma e outras?
Acentuando as Lágrimas de Portugal mais de que Chuva Oblíqua, O Marinheiro mais que A Tabacaria, ou numa outra vertente, mais eficaz, vendendo melhor as fotos do atravessamento distraído da Rua dos Douradores, ou da Rua Augusta, ou da Prata, teremos sempre um Pessoa qualquer mais manipulável e consumível. Poderemos mesmo dar a conhecer apenas as cartas a Ofélia. O outro não é comercializável porque não é possível de sujeitar seja a que marketing for. É irredutível a qualquer classificação e não pode ser dado a conhecer a não ser na impossibilidade de uma definição. Só o fluir da vida e da obra se pode suster nas suas contradições e nunca como qualquer coisa que se reduza seja a que complexo signo for.
Veio isto a propósito de um Ministro que ia abrir os caminhos da modernidade na cultura ao lado dos caminhos da modernidade que o Primeiro já abrira na tecnologia. Eu também quero um moinho de vento a soprar-me energia renovável na vontade de progresso. Finalmente o Quixote deixou de ter visões, elas são reais. O que certamente se segue, como marketing ministerial, será a exportação de estátuas do Pessoa versão Chiado, curtidas em plexiglás, um Pessoa completamente transparente.


FMR

Sinais



Desenho Maturino Galvão

Baile dos Bombeiros.2

Música de Mad Dog Clarence e letra do colectivo Viggis; variações sobre a “Negra Tava Mamando”

*Dedicado à Diva da Liberdade Josina MacAdam

Em anterior ‘posta’ propusemo-nos, e para isso nos servimos da farsa psicotrópica que foi à cena em Mafra, contribuir para o combate da ‘malaise’ lusitana. Uma ‘condição’ que afecta em termos gerais a autoestima e, particulamente, a visão, impedindo o paciente colectivo de tomar consciência da grandeza de Portugal. Ver ‘Antropologia da Felicidade’, capítulo sobre a ‘Miopia”. A verdade é que os portugueses continuam a dar lições ao Mundo e o Mundo vai, mais uma vez, lá onde o Mundo se reúne este ano, na EXPO de Xangai, ter oportunidade de se prostrar, loar e prestar tributo ao espírito lusitano. O pavilhão de Portugal pode ser recatado na dimensão, mas é enorme, mais, genial, na concepção: todo vestido e revestido a cortiça, simplesmente cortiça. Ah! La vie en cork. De acordo com a equipa de sábios que coordena a participação de Portugal, a cortiça é um “material nacional, reciclável e ecológico”, o que constitui, em nossa opinião, uma boa base de sustentação teórica da opção escolhida para espantar o Mundo. “Trata-se de em exemplo de inovação e de boas práticas ambientais que potenciam a imagem de Portugal”, como também se pode ler no sítio dos sábios. Não é difícil imaginarmos que depois de Xangai (1 de Maio a 31 de Outubro) o Mundo não será o mesmo. E Portugal também não.
Onde hoje ainda estão uns campos de trigo, hortas, florestas, fábricas, estradas, aldeias, vilas e algumas cidades, hospitais, escolas e prisões, teatros e oficinas e, claro, cemitérios, ficará um esplendor de sobreiros. Uma imenso chaparral nacional para fornecer o Mundo de ouro castanho pago a dez medidas do amarelo. Pela única autoestrada que sobreviverá à sobreirização do Rectângulo circularão os nossos TIR, movidos a bolota, exportando para os nossos fregueses (na terminologia inolvidável de Vasco Gonçalves) a unidade de conta do futuro. Cortiça, cortiça, cortiça.
E imaginem como ficarão os nossos amigos de Xangai quando, encerrada a Expo, pelas portas de cortiça do Pavilhão de Portugal se esgueirarem um, dois, três, dez milhões de lusitanos, argonautas do nosso tempo na demanda do Cortição de Ouro.

Bom, temos de interromper aqui que a cousa vai longa e está na hora de tomar os remédios.

JSP

A propósito do conceito de Belo em Aristóteles, e do de Sublime em Kant

quinta-feira, 18 de março de 2010

Sinais



Desenho Maturino Galvão

Avaria no carro. Nos arredores de Massingir (Provincia de Maputo). Novembro 2009

Foto Sérgio Santimano

quarta-feira, 17 de março de 2010

Sinais



Desenho Maturino Galvão

anaCrónicas 9

Não se escreve em definitivo sobre nada. E a experimentação na escrita não deixa de ser uma experimentação dos conceitos ou da matéria que para lá caminhe entre o informe e a forma – não há como a escrita para pensar e não há pensar que não seja ficção. Falou o José Gil, na última aula, que venho glosando numa espécie de vontade de ser eco, do risco como pensamento, isto é, de que pensamento e risco seriam sinónimos. Tenho andado a tentar perceber isso. Uma coisa acho que entendi: as teorias cheias de consistência – e nelas incluo as plenas de inconsistência, a medida contrária que afirma a irracionalidade mas não explica as cidades nem a romanização por exemplo, menos ainda o pão e circo, o canibalismo e outras façanhas humanas consistentes e constitutivas do ser, como também o extermínio selectivo – são formas de esquivar ao risco.
Quem teoriza no arame faz uma coisa que o teórico consistente não é capaz de fazer.Olhando-se não se reconhece na imagem sempre movente e aí talvez escape ao narcisismo, doença destes tempos de filhos únicos e protecções materno-paternais ansiosas.
A imprecisão do que se quer fixar é uma constante e o desejo de forma, outra. Quem, como se diz, tem os pés na terra, diante do bitoque de que fala o Gil, esquece o resto e converte-o em entretenimento. Começa polémica e risco o que começa e se foca em qualquer coisa discernível e termina culinário. Estes últimos, os dos pés na terra, são muito úteis como polícias. Os outros não têm finalidade. São mesmo inúteis. Talvez aí comece qualquer coisa.

FMR

Picasso. Museu Nacional de Arte. Washington

Foto Jota Esse Erre

terça-feira, 16 de março de 2010

Kleist, a propósito do que por aqui se anda escrevendo

«Certas pessoas imaginam numa estranha ordem as épocas nas quais progride a formação de uma nação. Imaginam que no início um povo jaz por terra na crueza e na selvajaria animais ; que é preciso, após um certo tempo, que se faça sentir a necessidade de uma melhoria dos costumes, e assim também da edificação da ciência da virtude ; que, afim de facilitar o acesso ao ensino desta última, se pensaria em objectivá-la em belos exemplos, inventando assim a estética: que daí em diante, de acordo com as suas normas, surgiriam belas objectivações, e que desse modo a própria arte se apoderaria da sua origem: e que, por meio da arte, o povo ver-se-ia por fim conduzido ao estado mais elevado da cultura humana. A esses indivíduos, é preciso que alguém os informe de que tudo, pelo menos no caso dos Gregos e dos Romanos, sucedeu na ordem precisamente inversa. Estes povos conceberam o princípio com a época heróica, sem dúvida a mais elevada a poder ser atingida; quando já não dispunham de heróis em nenhuma virtude humana e civil, poetizaram alguns; quando já não lhes era possível poetizá-los, inventaram para isso as regras; quando se perderam nas regras, abstraíram o próprio saber universal; e quando terminaram, tornaram-se maus.»

Heinrich Von Kleist, num texto publicado em Outubro de 1810 nos Berliner Abendblätter

"O que acontece no dia-a-dia é uma coisa chata"

Aos 30 anos MC Snake é morto.
Mais uma vítima da violência policial.
Ler no Público e Cinco Dias


Com a devida vénia ao Cinco Dias


Pintura João de Azevedo

Sinais



Desenho Maturino Galvão

anaCrónicas 8

Glosando o José Gil que falou de cidades inteligentes numa entrevista a propósito da sua última aula.
Será uma cidade inteligente a que cria uma fronteira entre a cidade e o rio?
Será uma cidade inteligente a que produz a amálgama humana indiferenciada nas horas de ponta ao ponto do corpo automático, da mecânica desistente, do cérebro embotado de esforço resistente?
Será uma cidade inteligente a que tem milhares de casas desabitadas e milhares de cidadãos sem habitação condigna?
Será uma cidade inteligente a que está sempre em obras e que sem obras não vive porque certamente já não se revê nem conhece?
Será uma cidade inteligente a que vê cair casas antigas como cogumelos nascendo em período de humidades férteis?
Será uma cidade inteligente a que esvazia humanamente os centros históricos, deixando a pedra bela entregue à corrosão do vazio?
Será uma cidade inteligente a que não cria uma vida cultural integrada e exposta à escolha inteligente de cada um no trajecto de vida diária dos seus afazeres e pausas?
Será uma cidade inteligente a que vive mais do marketing que a promove do que da vida que cria e confunde vida com “animação”(insuflada ginástica autárquica de flores de plástico)?
Será uma cidade inteligente a que multiplica parques de estacionamento ao ponto de caminharmos para uma cidade dos automóveis mais do que para uma cidade das pessoas?
Será uma cidade inteligente a que necessita da multiplicação dos policiamentos na rua?
Será uma cidade inteligente a que a qualquer quantidade de água responde com a multiplicação dos lagos espontâneos a fazer de nós primatas anfíbios?
Será uma cidade inteligente a que multiplica os signos de uma tradição vazia para turista ver, mais logotípica que vida própria?
Será uma cidade inteligente a que não irradia o ruído interminável da primeira ponte, ruído dos rodados sobre a conhecida grelha metálica, a multiplicar a agressão sonora constante pela bacia fora do rio que o reflecte em toda a cidade ribeira?
E onde uma cidade dos afectos expansíveis? Do prazer da polémica em longos trajectos de silêncio feitos a pé? Dos passeios sem limite que não sejam os passeios determinados como passeios numa lógica mais de zoo humano que de liberdade cívica e de passos errantes? Uma cidade em que a vida se misture com a inteligência criativa e dela se não distinga como o próprio prazer que se cria numa nova arquitectura de relações surpreendentes.
Será uma cidade inteligente a que não permite a inteligência, mas produz a irritabilidade e, por assim dizer, legitima a cólera e o atropelo constantes?
E onde há cidades inteligentes? Elas existem. Já vimos grandes metrópoles em que o espaço para respirar é um espaço real e o fluxo da vida não produz constantemente o registo agressivo e xenófobo.
Valha-nos certamente o Bristish Bar, onde o tremoço ainda faz bandeira e a polémica vital é uma postura de todas as famílias que o frequentam.

FMR

segunda-feira, 15 de março de 2010


Parque Nacional do Limpopo. Ndope comunidade do distrito de Mabalane (Posto).Provincia de Maputo. Novembro de 2009

Foto Sérgio Santimano

Da Capital do Império

Eu sei que a memória tem a sua própria verdade. Selecciona, elimina, altera, exagera, minimiza, glorifica e claro está calunia. Há quem diga que o acabado de publicar “calhamaço” do Sérgio Vieira é bem exemplo disso.
Mas de qualquer modo acho que Pedro Pires, antigo maquisard, hoje presidente devia escrever as suas memórias. Digo isto porque outro dia, quase que despercebidamente Pires falou no seu país e abordou aquilo que em meados da década de 1970 deixou pasmado os revolucionários (entre aspas talvez?) que tinham tomado o poder no Maputo e em Luanda.
Ao fim e ao cabo o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo verde, o PAIGC, tinha-se apresentado na luta de libertação nacional como um partido seguindo uma linha política de combate e ideologia semelhante à da Frelimo em Moçambique. Contudo após a tomada do poder em Cabo Verde o PAIGC seguiu uma via que causou inquietação entre os revolucionários ( entre aspas talvez?) mas que resultou hoje tantas décadas depois em que o país saído oficialmente da lista internacional de países pobres. Um dos poucos países africanos em que na verdade se avançou
Pois Pires disse a semana passada que quando o PAIGC assumiu o poder em Cabo Verde cedo se apercebeu que o país “reunia todas as condições para que não desse certo” tanto em termos de “condições materiais, como em termos de factores objectivos e naturais”.
“Naquele momento depois da independência precisávamos para a direcção do país de homens do estado,” disse Pires para depois acrescentar:
“Há uma diferença entre o chamado revolucionário e o homem de estado.”
Recordando que ele e os outros dirigentes do PAIGC tinham “chegado pela via revolucionária” Pires descreveu depois o revolucionário como alguém “impaciente e que tem um mal de fundo”.
“É um irrealista. Não pensa nas consequências dos seus actos ou se os seus desejos mais nobres são realizáveis ou capazes de execução,” disse.
Para Pedro Pires o verdadeiro estadista é aquele que é “paciente, realista e sensato” e ainda “persistente”.
Para Pires havia pois uma diferença entre que aqueles que pensavam “ que é possível mudar o mundo de um dia para o outro” e aqueles que sabem que “é preciso construir o futuro passo a passo, degrau a degrau com desafios acrescidos todos os dias”.
Pedro Pires recordou que o PAIGC era “uma elite política” mas cedo se apercebeu que tinha que ir “buscar a parte técnico/operativa” para poder pôr o país a funcionar.
“Só havia um sítio onde a ir buscar: na administração colonial,” disse o actual presidente.
“Daí a nossa opção de guardar no país todos os funcionários públicos que quisessem cá ficar. Se não tivéssemos feito isso teríamos o estado mas não teríamos a administração do estado. São esses quadros que estão na base da construção do estado de Cabo Verde e principalmente da administração pública,” acrescentou.
Pedro Pires foi diplomata quanto aos outros PALOP.
“Cada processo é um processo. Não somos donos da verdade,” disse ele.
Para Pedro Pires a pergunta a fazer é “se descobrimos em Cabo Verde homens de estado” que conseguiram dar prioridade “aos interesses comuns”.
Boa pergunta. Que talvez se deva estender a outros PALOP. É por isso que estou desejoso de ler o “calhamaço” do Sérgio Vieira para ver o que é que ele revela a este respeito sobre si mesmo.
Abraços,

Da Capital do Império

Jota Esse Erre

domingo, 14 de março de 2010

2º Há Festa de Aniversário na Mouraria

Homens que Matam Cabras só com o Olhar

A mim já nada me anima. Apenas o meu Sporting, sob o efeito Costinha, me pode tirar deste ambiente depressivo em que vive o País e o meu pai. Deixemos o futebol de lado. Ponhamos também de parte a política (o Congresso do PSD, com os Três Estarolas, seria para rir não fosse a necessidade de uma Oposição com gente de bom senso). Passemos ao meu pai. Lembram-se que aqui há tempos vos contei que estava a viver uma “fairy-tale” familiar. Pois é, o sonho acabou. O meu pai apaixonou-se e saiu de casa. Acreditam que pensou em mim ou no meu irmão? Do estado em que ficou a madrasta nem vos falo. Mas graças a uma espécie de justiça divina está a pagar o seu desvario. Ainda não dorme debaixo da Ponte 25 de Abril, mas sem grande esforço lá chegará. Incompatibilizado com a paixão (bem feito), que o expulsou de casa, está a viver numa mansarda da Baixa de Lisboa. Eu, que fiquei a viver na casa da família que ele abandonou, vou de quando em vez, durante o dia, tomar um café com ele ao tasco da esquina. O meu irmão, por imperativo da regulação do poder paternal, fica com ele de 15 em 15 dias e já deve conhecer muito bem o “bas-fond” e as noites sórdidas da capital. Claro que a mãe do meu irmão se insurgiu com o actual estado das coisas e escreveu a meu pai. Acontece que burro velho não aprende línguas e a misoginia é um traço de carácter da geração que nasceu nos anos 50 do século passado. Para mim é pré-história. Meu pai respondeu-lhe de uma forma curta dizendo que era o pai que podia ser, mas que era pai. (Aqui até lhe dou razão porque me parece que além de ter sido um bom pai para mim, também o foi para o meu irmão e para ela própria, que era muito novinha quando casaram). Disse ainda que o lugar onde vivia tinha uma beleza poética, segundo a Gabriela, uma esteta amiga dele. E quase concluiu a jogada apresentando a prova dos seus dotes paternos. Tinham ido pai e filho ver o filme: Homens que Matam Cabras só com o Olhar. Por último rematou: “Infelizmente não tenho poderes paranormais”. Valha-nos o Costinha!

Josina MacAdam

Post dedicado ao Luís Filipe, ao Parcídio e ao Severo e ainda à memória do Zé Manel e do Zé Maria

Como é diferente o riso em Portugal - 18 de Março nos Anos 60


ANOS 60

5ª feira, 18 de Março, pelas 22:30 horas


A Oficina de Teatro de Almada apresenta:
Como é diferente o riso em Portugal

Um recital de poesia composto por textos de:
Alberto Pimenta, Jorge de Sena, Mário – Henrique Leiria, Abade de Jazente, João de Deus, Mendes de Carvalho, Ruy Belo, Mário Cesariny, Armando Silva Carvalho, Ary dos Santos, Almada Negreiros, Fernando Assis Pacheco, Bocage, Luiz Pacheco e Bernardo Guimarães.

De que nos rimos, nós portugueses?
O que é que nos provoca o riso?
Uma coisa é certa: o riso em Portugal é mesmo diferente.


Bar Anos 60Largo do Terreirinho, nº 21, na Mouraria de Lisboa (à Rua dos Cavaleiros, junto ao Martins Moniz)

Espectáculo integrado nas comemorações do II Aniversário da Associação Renovar a Mouraria.

As manchetes, os jornalistas e o rigor

Era de esperar. As escutas do processo Face Oculta, a abortada tentativa de entrada da PT no capital da empresa proprietária da TVI, as dúvidas instaladas sobre a relação do primeiro-ministro com esse negócio e as audições no Parlamento têm dominado os títulos da imprensa nas últimas semanas e dividido os comentadores e a opinião pública. Os leitores deste jornal não são excepção e mostram-se particularmente atentos ao modo como, em títulos e textos, têm vindo a ser noticiados estes temas.

Recebi várias reclamações a este respeito, e tratarei hoje da primeira, que é anterior à minha entrada em funções, mas merece ser recuperada. Refere-se à manchete da edição de 12 de Fevereiro, a data em que o semanário Sol saía à rua com citações particularmente sensíveis de escutas obtidas no processo Face Oculta, apesar da providência cautelar que visava impedir a sua publicação. “Primeira tentativa em 30 anos de censura prévia a um jornal falhou” – rezava o principal título da capa, por cima de uma fotografia de José Sócrates.
A leitora Ana Pereira não gostou e disse-o em termos curtos e fortes: “A manchete (…) do PÚBLICO é mesquinha por colocar uma foto de alguém que nada tem a ver com a notícia. É mentirosa, porque esquece que existem casos de providências cautelares semelhantes muito frequentemente. É ainda confrangedora, porque mostra que o corpo editorial do PÚBLICO não percebe os fundamentos básicos do Estado de Direito”.
A meu pedido, o director adjunto Nuno Pacheco, que acompanhara o fecho dessa edição, reflectiu sobre as três acusações, concordando que “a manchete em causa tem vários problemas”.

Em primeiro lugar, a fotografia escolhida. Considera que “devia ter sido mudada”, porque “podia dar a ideia, errada, de que teria sido José Sócrates o autor da tentativa de calar o Sol, o que não era verdade”. Explica que a foto “tinha sido escolhida antes de a manchete ter sido escrita, porque a relevância das escutas deriva do facto de envolverem o primeiro-ministro”, mas que, “quando a manchete se centrou na providência cautelar”, deveria ter sido substituída, por exemplo, por “uma foto de Rui Pedro Soares”. Atenuante: “Mesmo assim, não é possível dizer que a foto de Sócrates é de alguém que nada tinha a ver com a notícia”, até porque a capa do Sol, como se dizia a abrir o texto da manchete, tinha “o perfil de José Sócrates a negro sobre um fundo vermelho e um grande título a branco: “O polvo”".
Quanto à questão de esta ter sido ou não “a primeira tentativa em 30 anos” de “impedir a publicação de uma notícia” através de uma providência cautelar, o director adjunto admite o erro (“não foi” de facto a primeira), mas sublinha que esses casos também “não acontecem “muito frequentemente”, como a leitora dá a entender”. Motivo do erro: tanto na redacção como entre fontes consultadas nessa data, “havia o convencimento” de que tratava do primeiro caso deste tipo, e só depois se verificou existirem precedentes, entre os quais uma providência cautelar dirigida ao extinto O Independente.
Na sua terceira crítica, a leitora referia-se presumivelmente ao facto de uma providência cautelar não poder ser descrita como “censura prévia”. Nuno Pacheco assim o entendeu e admite que “censura prévia devia ter vindo entre aspas”, pois “era uma classificação comparativa, não uma descrição literal”. Mas discorda da leitora na referência “aos fundamentos básicos do Estado de Direito”. A sua argumentação não pode, por falta de espaço, ser aqui reproduzida (valerá a pena ser colocada on-line), mas conduz à seguinte conclusão: “O uso e abuso desta figura jurídica [providência cautelar visando impedir a publicação de uma notícia] no caso da imprensa acabará por funcionar, a prazo, como uma espécie de censura prévia dentro das margens estritas da lei”.
Aqui chegados, perguntará o leitor o que penso eu de tudo isto. Pois bem, acho que a leitora fez críticas justificadas (que o responsável editorial citado aceita na maior parte) num caso que teria exigido melhor atenção às soluções encontradas para a capa do jornal. A escolha da fotografia é até, a meu ver, o único ponto discutível. Admito que pudesse “dar a ideia” de que teria sido o primeiro-ministro a promover a providência cautelar, mas bastaria ler o texto que a enquadrava para afastar essa ideia. Acresce que a ligação de Sócrates ao tema noticiado não era gratuita. Quanto à afirmação sobre o ineditismo da providência cautelar, não era verdadeira e deveria, a bem do rigor, ter sido prontamente corrigida.
Mas, a meu ver, a falta de rigor menos aceitável foi a que levou a falar de censura prévia. O conceito tem uma carga política e histórica, de anulação das liberdades de expressão e de imprensa, que não pode ser confundida com o direito de um cidadão a procurar contrariar, por via judicial, a publicação de matérias que considere poderem causar-lhe dano grave, para mais tratando-se, como era sabido, da intercepção de conversas privadas, cuja divulgação seria sempre de legalidade pelo menos duvidosa. A censura prévia é própria de uma ditadura, o direito em questão é natural num Estado de Direito.
Não é relevante, para a clareza desta distinção, o que cada um pense sobre a pertinência da interposição da providência cautelar (eu penso que é um problema do seu autor), sobre o mérito da decisão judicial (com os dados disponíveis, creio que foi uma má decisão) ou sobre a interpretação do “interesse público” que levou o Sol a trazer ao conhecimento geral o que a decisão judicial visava impedir que fosse divulgado (acho que foi uma interpretação legítima). São opiniões que não contendem com o que está em discussão: do ponto de vista do rigor jornalístico, uma providência cautelar aceite por um juiz não é, de modo algum, censura prévia.
Convém salientar que na peça para que a manchete remetia, nessa edição do PÚBLICO, nada se escrevia que permitisse sustentar o que se afirmava no título de capa, à excepção de uma opinião (não consensual, como resultava da própria notícia) escutada a um jurista. Em contrapartida, o editorial desse dia – que, sendo um texto não-assinado, é visto como representando a posição do jornal – tendia a sustentar a tese expressa na capa.
Não creio que faça sentido sugerir que o “abuso” de providências cautelares dirigidas à imprensa poderá conduzir a uma situação de censura (para mais quando se afirma que foi o primeiro caso e que viu falhado o objectivo). Nem vejo razão para presumir que, colocados perante um hipotético recurso epidémico a essa figura jurídica, os juízes portugueses iriam decidir, por sistema, contra a liberdade de imprensa. Em suma, a manchete criticada representa uma opinião, certamente legítima, mas não é, a meu ver, aceitável no plano da informação independente e rigorosa.

José Queirós, Provedor do leitor – “Público” 14 Mar 2010

Com a devida vénia ao Jugular

sábado, 13 de março de 2010

O Soldado Vigilante


Start Time: Thursday, March 25, 2010 at 9:30pm
End Time: Friday, March 26, 2010 at 12:30am
Location: Beco do Forno
O espectáculo continua em cena no dia 26 de Março, às 21h30 e apresentar-se-á no dia 27 de Março, Dia Mundial do Teatro, às 12h00 e 21h30, e conta com a colaboração do Restaurante Pachá, que promoverá terá no dia 27 de Março às 12h00 uma prova de vinhos.

Cervantes


Uma dell’artização do entremez

Eu explico-me. A Commedia dell’arte é uma técnica teatral – foi um modo de vida e uma economia nos séculos XVI E XVII, em Itália e pela Europa fora – que deve tudo à teatralidade, o teatro sem o texto como disse Barthes, e menos portanto ao texto em cena. Teatro de imagens e da corporalidade, assenta numa trama simples – o “canovachio” – e nas capacidades gestuais, incluindo vocais, dos actores e actrizes (teatro de actores), além de ser um teatro de arquétipos e personagens em embrião, sempre fixos, Arlequim, Pantaleão, o Doutor, o Capitão, Columbina e o sempre elencado par de amorosos, sempre contrariados e sempre vencedores.
O soldado vigilante é um entremez de Cervantes e pertence àquela literatura que hoje se chama de marginal. Tal como surgiu aliás a Commedia dell’arte, teatro de ar livre, amigo de estrebarias e estalagens, ambientes onde a virtude não fazia o quatro e a noite era fértil em gozos e desatinos. São portanto da mesma família, o entremez e a dell’arte. Nada anormal em casá-los numa mesma escrita e estética. São também coetâneos como se sabe. O entremez, arremedilho, burlaria, muitos outros nomes, nasceu bastardo, fora dos territórios fechados da respeitabilidade literária e entalado entre género maior, chamado comédia, na altura tão importante que designava o teatro. Com a literatura de latrina, os versos de pé quebrado e o surrealismo primitivo, tem horror às academias e vive livre e vadio a sua aversão à domesticidade burguesa, pequena, média e grande, à reverência cultural, não se intimidando com os clássicos, frequentando-os e tendo horror ao mesmismo retórico que exorciza através da palavra doutoral farsificada.
O que mancha o entremez não fará dele literatura de salão, seja qual for o salão, aristocrata burro ou provinciano, com ou sem sanefas. Não há que ter-lhe respeito mais do que pede, há que irmanarmo-nos do espírito que respira e entremear também, que é petiscar, sabe-se. O entremez não é nunca aliás prato principal, é intervalo, e porventura poderá ser entrada ou saída. Aqui, neste Soldado, quisemo-lo prato principal, parte inteira. Coitado, promovido a peça em actos, mais desacatos.
Resolvemos então pegar no entremez pelo que diz fundo – a farsa tem um reverso. Um soldado de amores perdido dentro de si, combatendo um sacristão lúbrico, os dois atrás de uma menina que está em idade casadoira e a quem, um sapateiro calça o peito do pé com denodo oficinal e calçadeira. Com a dona da casa presente, uma estranha criatura híbrida – na moda de hoje portanto – um casório parece desenhar-se. Mas isso é no espectáculo, se quiserem. Se não quiserem tudo bem. Este, como todo o entremez, é rápido e meio amanhado, desimportante, portanto vai bem com um bom copo na mão.
E o que fizemos? Pensando que na farsa há tragédia quisemos desenvolver a teatralidade implícita no entremez, escrevendo-o através de um conjunto de referências a desgraçados teatros irmãos e ao mesmo tempo revelar o avesso do próprio soldado, a humanidade que só se adivinha na figura por imaginação contraposta do espectador, ele que é um primo remoto dos sonâmbulos bipolares com que nos cruzamos hoje.
Reteatralizámo-lo portanto com outros teatros populares entremeados, mantendo como referência assumida estruturante a Commedia dell’arte, particularmente assumida na figura do soldado protagonista e fio condutor. Nada que muitos criadores teatrais não tenham sonhado no seu tempo, Copeau e Meyerhold, por exemplo.
E que teatros? As marionetas, a “boçalidade” revisteira, a tradição declamatória, os palhaços e as suas “clowneries”, o fado – nada mais português e teatral, com toda a panóplia de convenções, poses rituais e mesmo fundo caracterial – e finalmente, esse teatro maior que é o prazer lúdico, o da imitação imediata, esse teatro espontâneo das crianças. Temos assim um objecto multicultural a que não falta sequer um “preto”. Multicultural abrangente portanto, de uma universalidade quase espontânea, pura antropologia lúdica – que obviamente já lá estava, quem mais universal que Cervantes, vida e obra, mundo e invenção?
E esta opção levou-nos a uma reconfiguração dos tipos, cirurgia cénico-dramática total, segundo uma ambiguidade muito contemporânea, aquela que nos fragmenta, multiplica e híbrida, como tipos e aparências.
Assim o soldado é poeta soldado e soldado poeta, frustrado militante e jogando a palavra como arma e a espada como extensão gestual da palavra amorosa, repisada obcecadamente a cada gesto, numa contradição insolúvel e autêntica.
E o Sacristão? Talvez lembre o frade das Caldas, mas não é de louça e é mesmo inteiro, como diz, e tem uns arranques que faz pensar nos zanis da dell’arte primitiva, espécie de diabos repentinos na gestualidade imprevista e animal.
Surge também um “preto” mascarado que não chegamos a saber de onde vem mas que vende pau de Cabinda – virá de Cabinda? -, entre rendas portuguesas, num bazar portátil inesquecível.
E aparece um sapateiro, homem de ofício como os antigos e que fala de calçar a menina de um modo que só pode levantar o moral dos espectadores. Revela-se também, além de criatura de contas certas, poeta e amoroso, o que para sapateiro dá mais nas mãos mesmo que rime com as solas. Que lhe terá sucedido?
Mas mais estranho, neste painel humano um pouco zoológico, é a Ama de Cristina, a menina casadoira, que não chegamos a perceber como convive com o seu hermafroditismo conatural. A auto-suficiência finalmente? É portanto um teatro de aberrações que vos propomos.
Mas, e digo mas, reticências, não falta ao entremez encenado a cereja no topo da torta mal parida, como desagradava aos antigos e aos fanáticos da proporção e simetrias direitas: Cristina, a menina casadoira, é a mãe de todos os quiproquós. Por ela todos se batem. Será que algum a vê? E ela, ela mesma, o que deseja mais que a liberdade de libertar o corpo?
Felizmente, para bem das nossas angústias e a favor da moral e da gente séria que ainda resta neste mundo, o final feliz repõe tudo onde deve estar. Cristina casará…

Fernando Mora Ramos

Venda de castanha de cáju. Perto da Macia, Provincia de Maputo. Outubro 20o9

Foto Sérgio Santimano

sexta-feira, 12 de março de 2010

anaCrónicas 7

Um conhecido meu, dirigente do PS – conheci-o, boémio e marxista, nas tascas de Roma – contava-me aqui há uns anos que, no seu partido, os votos se compravam. E de duas maneiras: uma, era essa forma conhecida de pagar as quotas de militantes passivos, verdadeiramente não praticantes, ressuscitados para efeito votante em cada acto a preço de saldo votando no que fosse sinalizado pelos mandantes, a outra, complementar, era a de vender o próprio lugar na lista – ou melhor, comprar – dando-me como exemplo, se bem me lembro, os oito mil contos (na moeda antiga é mais nítido) que teria custado um lugar europeu. Não sei se era ficção, se era luta interna, se era um golpe baixo – creio que no interior dos partidos a Técnica política dos golpes baixos é mesmo única – ou se era mesmo verdade. O que é facto é que me disse isto e que me referiu que a coisa se passava lá numa terrinha longínqua, na serra. O que é facto é que os partidos, esse primeiro alicerce das democracias, são realidades opacas, escondidas, não escrutináveis e que dentro deles se passam coisas inomináveis e permanentemente escondidas, financeira e humanamente inadmissíveis – aliás os partidos são definidos por Umberto Cerroni, no seu magnífico livro, Teoria do partido Político, como partidos de interesses, partidos empresa, tendo desaparecido, corpo em agonia lenta, o partido de ideais.
Aquilo que deveria ser objectiva e publicamente observável como uma prática da transparência, por exemplo os processos eleitorais internos (já que são candidatos ao poder governativo, geral e são subvencionados por dinheiros públicos) não é senão um jogo escondido entre grupos de poder à procura da conquista desse primeiro poder, a caminho da conquista do poder político governativo e na sua sequência, do conjunto dos poderes. Ninguém duvida que é nos grupos partidários, muitos deles bem colocados nas grandes empresas e no sistema bancário, numa sequência organizativa transversal, que todas as trocas e baldrocas se combinam e conspiram, como ninguém duvida que são grupos, partidários e interpartidários, que dispõem do stock público de cargos apetecíveis como moeda de troca para todo o tipo de jogos de poder e benesses.
Nunca isso foi tão claro, como nunca foi tão clara a impotência das diversas justiças, dos tribunais às polícias de investigação, para repor a democracia nas suas verdadeiras regras de verdade e equilíbrio, que, mesmo nunca sendo uma realidade finalizada – a utopia democrática como perfeição igualitária e pureza transparente -, será tendencialmente uma realidade mais democrática numas conjunturas do que noutras – temos hoje saudades das chamadas social-democracias, reais certamente, por estranho que pareça. O que tem que se sentir é que prevalece a democracia no sistema e não o contrário, a corrupção e o abuso de poder como regra.
A chegada de Hitler ao poder relativizou, para sempre, o sistema do voto em democracia. Também – também, reparem - pelo voto, foi o caso, se caminhou para o campo de concentração e de extermínio. A questão do voto não está só em quem se vota, como sabemos hábil na arte do disfarce (Mussolini foi socialista), mas também no condicionamento ideológico do votante, e as ideologias são amálgamas incontroláveis, preconceito arreigado e estruturado sob a forma de potencial violência sectária e burocrática, de uniformidade de olhares, de prática social monstruosa tida como normal.
Se a justiça funcionasse a classe política seria outra, a virtude premiada e o mérito um bem reconhecido. Em Itália temos o exemplo caricatural, brutal no traço grosso, do que cá sucede. É falso que vivamos em democracia, vivemos num simulacro de democracia, numa amputação particularmente grave nesta conjuntura, porque na realidade as liberdades, culturalmente expressas numa espiritualidade difusa e laica, reguladora e vigilante qualificadamente como pressão de uma maioria esclarecida, não são poderes inscritos numa sociedade cada vez mais fechada a transformações que não conduzam ao mesmo e que, sob o paleio da igualdade de oportunidades, vem construindo o fosso, a discrepância, uma nova sociedade: a dos condomínios versus favelas, a das massas fast-fúdicas e absolutamente expostas na sua vida nua versus elites intocáveis e sempre protegidas pelos seguranças privados.
Na Índia chamam intocáveis aqueles que no fundo da escala não têm sequer direito a estar num mesmo espaço com outros, nem sequer a olhá-los e qualquer um que não seja intocável pode agredir um intocável. Por cá os Intocáveis vivem nas quintas das Marinhas, frequentam colégios privados de renda impossível para os demais e na altura devida são empregados nos grandes bancos em que os papás são grandes accionistas e administradores. E não importa que tenham subido a pulso ou que já lá estivessem – o mérito, nem a ética, são qualidades intrínsecas do chamado sucesso -, importa que servem, num caso e noutro, a regra da perpetuação do abismo fracturante.

Fernando Mora Ramos

Dando seguimento à experiência do Paulo Ferreira

Baile dos Bombeiros.1

Estou do lado de fora de Portugal. Que é dizer, na fronteira entre o Rectângulo e o Resto do Mundo, como acertadamente a hodierna politologia lusitana divide o planeta. Mais, o meu olhar sobre a res publica é assumidamente cândido. Avivado pela singular leitura das análises do camarada Táxi Pluvioso.
Para mim, qb para uma advertência prévia. Espreitemos a Cage aux Folles, como também é reconhecido o nosso Rectângulo.

Mais uma vez, o afortunado Portugal dá lições ao Resto de um Mundo que continua cativo da política pós-moderna. Numa demonstração inequívoca do seu alinhamento com a doutrina pós-pós-moderna, a tribo laranja atirou às urtigas a telegenia e o, chamemos-lhe, substancialismo. A orangerie vai escolher de entre três pretendentes aquele que haveria de derrotar o simulacro socrático que os apouca há cinco anos.
É só votar. Naquele que parece o Manelinho, da “Mafalda”de Quino, ou naquele que parece um lemur constipado ou, pior, naquele que parece um intelectual chippendale. Sem chip.
O baile promete. E a primeira dança está prometida: Marceau botará MãoNela.

Fabuloso rectângulo este, onde ainda poderá assistir a performances e frequentar fenómenos dignos respectivamente de um Houdini e do marreco de Mafra. Uma sugestão: Promoção da cartilha neoliberal, do endividamento cantante e do desnorte das contas públicas por...Jerry Pires Coxe. Acompanhado pelo coro conjunto das agências de notação, da banca islandesa e da internacional das remessas informais.
Fabuloso rectângulo de regresso às bases. Back to Basics. Alfaias agrícolas de madeira, sombra e água fresca.

JSP

Da Capital do Império

Alguém disse uma vez. Já não sei quem:
“Qualquer pessoa que tenha estado envolvida numa causa política - e coitado daquele que não tenha estado – conhece as pressões que o ardor político causa à honestidade intelectual. Quando se separa o universo em partes e se escolheu uma das partes, o melhor sinal de honestidade intelectual são as expressões de compreensão pelo outro lado e de antipatia pelo seu próprio lado”.
Tomei nota. Há muito tempo. Mas não tomei nota de quem o disse.
Abraços,

Da capital do Império

Jota Esse Erre

Ao largo da Ilha de Moçambique. Novembro de 2009

Foto Sérgio Santimano

Citações

"Aquele que controla o passado controla o futuro.
Aquele que controla o presente controla o passado"

In Ingsoc

Aforismos (1)

A intuição primeira da Filosofia é a de que o nosso ponto de vista é problemático. Não só causador de problemas pela sua insuficiência, como (o mais importante) ele próprio é um problema. O que é surpreendente (ou talvez não, se pensarmos um bocado sobre o assunto), é que isto que foi pensado logo no princípio ainda não tenha sido percebido completamente. Aliás, que nunca mais tenha sido percebido tão bem como quando se percebeu pela primeira vez.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Do Amor à Escola e aos professores

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Com a devida vénia ao Homem ao Mar

anaCrónicas 6

Tem razão o Fernando Rebelo em protestar contra tanta água. Eu próprio, que sou peixe, me estou a passar. Explico-me: peixe de signo. O que apesar de tudo, não por ser filho de Março mas por no-la atirarem à cara os que, é o seu direito de expressão, querem encontrar nessas coisas um caminho de compreensão do que não percebem mas sentem muito. Na realidade quantas vezes nos perguntam o tal do signo? Mas como fui sendo sempre peixe na boca dos outros – salvo seja – lá fui incorporando umas guelras inconscientes, uma barbatana dorsal sem grande esplendor e mesmo aquela característica dos peixes que é mais óbvia e menos se vê e que é aquele olho que já vem morto, na nossa percepção mais comum, no prato ou perto dele. Um olho míope extraordinário, capaz de ver para dentro como nenhum outro. Os peixes são como o Jaime Gama, pelo menos os das águas profundas, conspiram muito enquanto podem. Antes que a esclerose avance, irremediável, sem regresso.
Pois é Fernando, esta coisa da água, passados os recordes de Alqueva que festejámos com a pátria apesar de, como foram dizendo técnicos e agricultores, ser água sem destino útil na sua escala – as obras são feitas para serem grandes mas antes não se cuidou do recheio que as preencha – é de facto uma chatice mais que cinzenta, é cinzenta no que chove dentro e parece prolongar-se no tempo tornando-o indiferenciado, insuportavelmente o mesmo. E nós somos viciados de sol e Primavera, dinâmicos na letargia de Agosto. Portugal, o sol, as praias, o peixe, o Algarve, a vida feita no exterior, a vida sem interior que não seja o da objectivação nessas condições naturais (estarão em extinção?) que os suecos invejam – também nos davam jeito aquelas capacidades que eles desenvolvem e que só a vida nos interiores propicia. Já pensaram numa sardinhada interior? Eles não pensam noutra coisa mas ainda não inventaram o exaustor específico.
A solução é levar o signo a sério e como o insecto do Kafka se irmanou da insignificância, irmanarmo-nos da água, metamorfose mais simpática. Uma poupança em impermeáveis e guarda-chuvas, que nunca resistem a um vento maior e muito menos a esta moda do granizo. É que a chuva também está diferente e vem de paragens que não eram as anteriores. E tudo por causa do anticiclone dos Açores que resolveu deslocar-se do seu sítio natural. Pode ser que Portugal também saia do sítio e desça mais um bocado no mapa cósmico. Não seria pior.
Olha Fernando, vou dar um pulo a Marrocos. Lá não chove. Não levo a barbatana, claro.

FMR

Saudade


Cesária Évora

Com a devida vénia ao Repensando

“Rouge”

In memoriam. José Maria Gomes aka Zeca Diabo

Memória bem guardada entre os que mais de perto privaram com o José Maria Gomes, durante a sua transitória frequência do enclave ‘português’ no Rio das Pécoras, merece jus divulgação nesta injusta inoportunidade obituária. Escrevemos memória com o intuito de desanimar os que habitualmente as treslêem como segredos mais ou menos ciosamente desguardados. Nada disso.
Memória do que deveria ser oportunamente dito sobre o Zeca Diabo. Como afectuosa e privadamente referiam os que oficinaram nos 80 meados os jornais a que deu alma e corpo. Primeiro o Correio, depois o Oriente.

Por respeito aos altos padrões de modéstia e inabalável confiança axiológica nos princípios da Igualdade e da Fraternidade a que o Zé Maria se obrigava, propomos, tão só, uma síntese e uma estória.
Por que nos falta o talento do aforismo na mesma medida em que desconhecemos o patois moderno apropriado, ficamo-nos por uma visitação nobre: gentil-homem.
Um homem bom, uma pessoa tranquila, um cidadão perenemente incomodado e inconformado com a exploração, a injustiça e todos os arbítrios. O Zé Maria era genuinamente assim, sem alardes, sem crispações. Quem se não lembra daquele jeito peculiar de discordar semisorrindo: “Nãããão”. Ou quando o disparate do interlocutor era confrangedor, um compreensivo: “Nããão sócio, não sócio”.
Jornalista escrupulosamente honesto, o Zeca Diabo sucedeu, no quadro desfavorável de responder por veículos escritos ditos pró-governamentais, em apresentar produtos tecnicamente limpos, rigorosos.
“Espírito de missão”, justificava, e por aí ficava a explicação da missão. O espírito, esse, revelava-se no sacrifício de suportar golpes baixos dos adversários, que os havia, e até se autodesignavam de oposição.
Pois a estória foi mais ou menos a seguinte. Soprado sobre uma vaga intenção governamental de ressuscitar o dossiê caminhos-de-ferro, nada mais nada menos do que o modus operandi adequado a quem quer encomendar estudos e consultorias várias- chamemos-lhe o método do raccord histórico ou do precedente auspicioso-, o Zé Maria verteu prosa investigada sobre comboios em Macau. Propósito nada fácil, uma vez que nunca houve comboios por estas bandas, pelo menos de natureza ferroviária.
O nosso Zeca não se deixou limitar por essa inconveniência e tratou de desencantar, sim, desencantar, um achado etimológico e um filão semântico, uma “Gazeta dos Caminhos de Ferro”, publicada em 1902, em Lisboa. A gazeta repescava uma ‘cacha’do Morning Leader de Londres, que anunciara a formação de um “syndicato” português para financiar e construir a linha de caminho de ferro entre Macau e Cantão.
A percepção desta possibilidade seria qb, mas o Zé Maria reforçou-a com a irrefutabilidade do material circulante: numa pequena pedreira da Ilha da Taipa era, fôra, possível observar o afã das pequenas vagonetas de cascalho, para cá e para lá, sobre carris.
Os tais adversários, acima introduzidos, não enjeitaram a oportunidade para ‘desancar’ o Zé Maria, o “Oriente”, associando o “delírio” dos comboios à deriva mental e financeira do governo. No mais duro estilo madeirense, chegaram ao ponto de insinuar que o Zé Maria teria sido visto, madrugada alta, junto à dita pedreira, com uma cavilha numa mão e uma garrafa de mao tai na outra.
Foi a gota de água. “Sócio, puta que os pariu, fechamos o jornal e vamos para o Skylight, para o Mermaid, para o Ritz, para o Kin Dô, para qualquer sítio”.

(continua)

JSP