quarta-feira, 7 de julho de 2010

Notas sobre o choque e o espanto no Mundial da vuvuzela (6), ou o Mundial dos treinadores


Estou sempre a falar de treinadores nestas crónicas. Talvez eu mesmo seja um desses milhões de treinadores wannabes, frustrados. Mas como não o fazer neste Mundial? Onde estão as estrelas, Kaká, Messi, Ronaldo ou Rooney? Quem ficou no seu lugar? Para além da Espanha, uma equipa que talvez não tenha ainda expresso todo o seu potencial, e muito por causa de algumas dúvidas tácticas que o seu futebol oferece, os outros três semifinalistas são equipas cuja principal característica é a organização, o perfeito enquadramento dos jogadores na táctica, que permite aos artistas expressar da melhor forma o seu futebol, através do jogo de equipa, onde não se observam "estrelas" a tentar resolver jogos sozinhas, a tentar fintar o impossível, e mesmo no caso onde a diferença entre a estrela e o resto dos jogadores é gritante, o Uruguai.
*
À Argentina faltava jogar com uma equipa de topo, e o fracasso foi total. Maradona não é um treinador. Viram-no no fim do jogo? Os treinadores vão ter com os seus jogadores, confortam-nos pela derrota, lembram-nos da efemeridade da vida e do jogo, e das coisas verdadeiramente importantes. Diego foi chorar com eles para o balneário. Ele é um deles. Um capitão, não um mister. Claro que se isto resultou enquanto se tratou de inspirar espírito de equipa e uma certa aura à volta deles (dos jogadores, ou seja, do capitão  Maradona e dos outros), tudo foi mais complicado quando o assunto passou a ser o de tomar decisões difíceis, decisões de treinador. Por exemplo, tirar o Higuain e colocar o Milito, num jogo que estava tanto a pedir o Milito, um verdadeiro ponta-de-lança em vez de (mais) um avançado móvel. Maradona não foi capaz de tirar um dos seus, um dos seus principais. Para além disso, o dilema táctico da Argentina sempre foi o de jogar com Messi a 10, atrás de Tevez e Higuain. Se isto resultou contra equipas fracas ou médias, contra a Alemanha foi gritante a falta de alguém a recuperar bolas e a ajudar o Mascherano, quando os três da frente ficavam lá parados, o Di Maria estava encostado à linha e o Maxi Rodriguez parecia perdido em campo. Mas o essencial não foi isso. Se a Argentina teve ocasiões para empatar (com os jogadores que tem, era impossível que não tivesse), a dado momento chegou a exasperar-me a imobilidade do "treinador", como ele não tomava a decisão óbvia, aquela que milhões de treinadores "wannabes" gritavam a plenos pulmões, pôr o raio do ponta-de-lança, e ainda por cima um dos melhores do mundo, em campo.
*
Por falar em treinadores, o do Uruguai, Tabarez, deve ter andado a enganar-nos bem este tempo todo. Como é possível que uma equipa que durante quase todo o torneio joga com dois ponta-de-lança puros e um avançado vagabundo por trás (mais ou menos como a Argentina, mas com muito menos classe em campo, e avançados mais fixos que móveis) defenda tão bem, execute tão bem o pressing e seja eximia na recuperação? Talvez possa dar umas lições ao Maradona.
*
Uma meia-final espectacular, e tiro o chapéu ao Uruguai: organização, força, e um imenso querer em campo. Obrigou a Holanda a vestir-se de gala para passar. Amanhã, a melhor equipa até ao momento, a Alemanha, contra a equipa com melhores jogadores ainda em prova, a Espanha. Esta Espanha apresenta alguns problemas evidentes: joga sem extremos, pelo que pouco lateraliza em profundidade. Depois, são todos exímios a trocar a bola, mas parece faltar alguém que corra com ela para a frente; no Euro2008 a coisa também começou assim, mas depois entrou Fabrégas para a equipa, e tudo mudou nesse aspecto. Neste mundial ele tarda em entrar. Será que o Del Bosque está com dificuldades em escolher, entre todos os seus excelentes jogadores do meio-campo para a frente, aquele a sacrificar? Ou confiará em absoluto no poder hipnótico do toque de bola espanhol? Contra a máquina alemã, que alia uma impressionante precisão táctica a uma invulgar velocidade na frente, e a uma criatividade que resulta já da evolução do jogador alemão, isso pode não chegar. Agora reparem que, dos jogadores alemães, o trinco, o lateral-esquerdo, e os dois centrais não tinham lugar na selecção portuguesa. Mas quando jogam nesta equipa parecem de classe mundial. Não são apenas os jogadores que fazem a equipa; ela também faz os jogadores. Ou não fosse este o Mundial das equipas, perdão, dos treinadores.

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Um plano grego resolve todos esses problemas. No balneário, o eromenos e o seu erastēs, e é só festa do golo, como adoram os adeptos. Os cachecóis, a cerveja, os tremoços, encherão de novo os lugares lusos (que depois exportaríamos, com muito sucesso, como sucedeu com a realização de Euros).