quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz Ano Novo

Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.

Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros.

Pereba entrou no banheiro e disse, que fedor.

Vai mijar noutro lugar, tô sem água.

Pereba saiu e foi mijar na escada.

Onde você afanou a TV, Pereba perguntou.

Afanei, porra nenhuma. Comprei. O recibo está bem em cima dela. Ô Pereba! você pensa que eu sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?

Tô morrendo de fome, disse Pereba.

De manhã a gente enche a barriga com os despachos dos babalaôs, eu disse, só de sacanagem.

Não conte comigo, disse Pereba. Lembra-se do Crispim? Deu um bico numa macumba aqui na Borges de Medeiros, a perna ficou preta, cortaram no Miguel Couto e tá ele aí, fudidão, andando de muleta.

Pereba sempre foi supersticioso. Eu não. Tenho ginásio, sei ler, escrever e fazer raiz quadrada. Chuto a macumba que quiser.

Acendemos uns baseados e ficamos vendo a novela. Merda. Mudamos de canal, prum bang-bang, Outra bosta.

As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro alto, já viu como as branquelas dançam? Levantam os braços pro alto, acho que é pra mostrar o sovaco, elas querem mesmo é mostrar a boceta mas não têm culhão e mostram o sovaco. Todas corneiam os maridos. Você sabia que a vida delas é dar a xoxota por aí?

Pena que não tão dando pra gente, disse Pereba. Ele falava devagar, gozador, cansado, doente.

Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma punheta. Fecha os olhos e manda brasa.

Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.

Zequinha entrou na sala, viu Pereba tocando punheta e disse, que é isso Pereba?

Michou, michou, assim não é possível, disse Pereba.

Por que você não foi para o banheiro descascar sua bronha?, disse Zequinha.

No banheiro tá um fedor danado, disse Pereba. Tô sem água.

As mulheres aqui do conjunto não estão mais dando?, perguntou Zequinha.

Ele tava homenageando uma loura bacana, de vestido de baile e cheia de jóias.

Ela tava nua, disse Pereba.

Já vi que vocês tão na merda, disse Zequinha.

Ele tá querendo comer restos de Iemanjá, disse Pereba.

Brincadeira, eu disse. Afinal, eu e Zequinha tínhamos assaltado um supermercado no Leblon, não tinha dado muita grana, mas passamos um tempão em São Paulo na boca do lixo, bebendo e comendo as mulheres. A gente se respeitava.

Pra falar a verdade a maré também não tá boa pro meu lado, disse Zequinha. A barra tá pesada. Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! crescemos juntos em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era meio gago - pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado.

Pior foi com o Tripé. Tacaram fogo nele. Virou torresmo. Os homens não tão dando sopa, disse Pereba. E frango de macumba eu não como.

Depois de amanhã vocês vão ver. Vão ver o que?, perguntou Zequinha.

Só tô esperando o Lambreta chegar de São Paulo.

Porra, tu tá transando com o Lambreta?, disse Zequinha.

As ferramentas dele tão todas aqui.

Aqui!?, disse Zequinha. Você tá louco.

Eu ri.

Quais são os ferros que você tem?, perguntou Zequinha. Uma Thompson lata de goiabada, uma carabina doze, de cano serrado, e duas magnum.

Puta que pariu, disse Zequinha. E vocês montados nessa baba tão aqui tocando punheta?

Esperando o dia raiar para comer farofa de macumba, disse Pereba. Ele faria sucesso falando daquele jeito na TV, ia matar as pessoas de rir.

Fumamos. Esvaziamos uma pitu.

Posso ver o material?, disse Zequinha.

Descemos pelas escadas, o elevador não funcionava e fomos no apartamento de Dona Candinha. Batemos. A velha abriu a porta.

Dona Candinha, boa noite, vim apanhar aquele pacote.

O Lambreta já chegou?, disse a preta velha.

Já, eu disse, está lá em cima.

A velha trouxe o pacote, caminhando com esforço. O peso era demais para ela. Cuidado, meus filhos, ela disse.

Subimos pelas escadas e voltamos para o meu apartamento. Abri o pacote. Armei primeiro a lata de goiabada e dei pro Zequinha segurar. Me amarro nessa máquina, tarratátátátá!, disse Zequinha.

É antiga mas não falha, eu disse.

Zequinha pegou a magnum. Jóia, jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse: ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá.

Botamos tudo em cima da mesa e ficamos olhando. Fumamos mais um pouco.

Quando é que vocês vão usar o material?, disse Zequinha.

Dia 2. Vamos estourar um banco na Penha. O Lambreta quer fazer o primeiro gol do ano.

Ele é um cara vaidoso, disse Zequinha.

É vaidoso mas merece. Já trabalhou em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, pra não falar aqui no Rio. Mais de trinta bancos.

É, mas dizem que ele dá o bozó, disse Zequinha.

Não sei se dá, nem tenho peito de perguntar. Pra cima de mim nunca veio com frescuras.

Você já viu ele com mulher?, disse Zequinha.

Não, nunca vi. Sei lá, pode ser verdade, mas que importa?

Homem não deve dar o cu. Ainda mais um cara importante como o Lambreta, disse Zequinha.

Cara importante faz o que quer, eu disse.

É verdade, disse Zequinha.

Ficamos calados, fumando.

Os ferros na mão e a gente nada, disse Zequinha.

O material é do Lambreta. E aonde é que a gente ia usar ele numa hora destas?

Zequinha chupou ar fingindo que tinha coisas entre os dentes. Acho que ele também estava com fome.

Eu tava pensando a gente invadir uma casa bacana que tá dando festa. O mulherio tá cheio de jóia e eu tenho um cara que compra tudo que eu levar. E os barbados tão cheios de grana na carteira. Você sabe que tem anel que vale cinco milhas e colar de quinze, nesse intruja que eu conheço? Ele paga na hora.

O fumo acabou. A cachaça também. Começou a chover. Lá se foi a tua farofa, disse Pereba.

Que casa? Você tem alguma em vista?

Não, mas tá cheio de casa de rico por aí. A gente puxa um carro e sai procurando.

Coloquei a lata de goiabada numa saca ele feira, junto com a munição. Dei uma magnum pro Pereba, outra pro Zequinha. Prendi a carabina no cinto, o cano para baixo e vesti uma capa. Apanhei três meias de mulher e uma tesoura. Vamos, eu disse.

Puxamos um Opala. Seguimos para os lados de São Conrado. Passamos várias casas que não davam pé, ou tavam muito perto da rua ou tinham gente demais. Até que achamos o lugar perfeito. Tinha na frente um jardim grande e a casa ficava lá no fundo, isolada. A gente ouvia barulho de música de carnaval, mas poucas vozes cantando. Botamos as meias na cara. Cortei com a tesoura os buracos dos olhos. Entramos pela porta principal.

Eles estavam bebendo e dançando num salão quando viram a gente.

É um assalto, gritei bem alto, para abafar o som da vitrola. Se vocês ficarem quietos ninguém se machuca. Você aí, apaga essa porra dessa vitrola!

Pereba e Zequinha foram procurar os empregados e vieram com três garções e duas cozinheiras. Deita todo mundo, eu disse.

Contei. Eram vinte e cinco pessoas. Todos deitados em silêncio, quietos, como se não estivessem sendo vistos nem vendo nada.

Tem mais alguém em casa?, eu perguntei.

Minha mãe. Ela está lá em cima no quarto. É uma senhora doente, disse uma mulher toda enfeitada, de vestido longo vermelho. Devia ser a dona da casa.

Crianças?

Estão em Cabo Frio, com os tios.

Gonçalves, vai lá em cima com a gordinha e traz a mãe dela.

Gonçalves?, disse Pereba.

É você mesmo. Tu não sabe mais o teu nome, ô burro? Pereba pegou a mulher e subiu as escadas.

Inocêncio, amarra os barbados.

Zequinha amarrou os caras usando cintos, fios de cortinas, fios de telefones, tudo que encontrou.

Revistamos os sujeitos. Muito pouca grana. Os putos estavam cheios de cartões de crédito e talões de cheques. Os relógios eram bons, de ouro e platina. Arrancamos as jóias das mulheres. Um bocado de ouro e brilhante. Botamos tudo na saca.

Pereba desceu as escadas sozinho.

Cadê as mulheres?, eu disse.

Engrossaram e eu tive que botar respeito.

Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as jóias. A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.

Vamos comer, eu disse, botando a fronha dentro da saca. Os homens e mulheres no chão estavam todos quietos e encagaçados, como carneirinhos. Para assustar ainda mais eu disse, o puto que se mexer eu estouro os miolos.

Então, de repente, um deles disse, calmamente, não se irritem, levem o que quiserem não faremos nada.

Fiquei olhando para ele. Usava um lenço de seda colorida em volta do pescoço.

Podem também comer e beber à vontade, ele disse.

Filha da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.

Como é seu nome?

Maurício, ele disse.

Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?

Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.

Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo.
Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.

Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.

Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.

Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.

Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse.

Os caras deitados no chão estavam de olhos fechados, nem se mexiam. Não se ouvia nada, a não ser os arrotos do Pereba.

Você aí, levante-se, disse Zequinha. O sacana tinha escolhido um cara magrinho, de cabelos compridos.

Por favor, o sujeito disse, bem baixinho. Fica de costas para a parede, disse Zequinha.
Carreguei os dois canos da doze. Atira você, o coice dela machucou o meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula.

Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado. Foi pouco tempo, mas o corpo do cara ficou preso pelo chumbo grosso na madeira.

Eu não disse? Zequinha esfregou ó ombro dolorido. Esse canhão é foda.

Não vais comer uma bacana destas?, perguntou Pereba.

Não estou a fim. Tenho nojo dessas mulheres. Tô cagando pra elas. Só como mulher que eu gosto.

E você... Inocêncio?

Acho que vou papar aquela moreninha.

A garota tentou atrapalhar, mas Zequinha deu uns murros nos cornos dela, ela sossegou e ficou quieta, de olhos abertos, olhando para o teto, enquanto era executada no sofá.

Vamos embora, eu disse. Enchemos toalhas e fronhas com comidas e objetos.

Muito obrigado pela cooperação de todos, eu disse. Ninguém respondeu.

Saímos. Entramos no Opala e voltamos para casa.

Disse para o Pereba, larga o rodante numa rua deserta de Botafogo, pega um táxi e volta. Eu e Zequinha saltamos.

Este edifício está mesmo fudido, disse Zequinha, enquanto subíamos, com o material, pelas escadas imundas e arrebentadas.

Fudido mas é Zona Sul, perto da praia. Tás querendo que eu vá morar em Vilópolis?

Chegamos lá em cima cansados. Botei as ferramentas no pacote, as jóias e o dinheiro na saca e levei para o apartamento da preta velha.

Dona Candinha, eu disse, mostrando a saca, é coisa quente.

Pode deixar, meus filhos. Os homens aqui não vêm.

Subimos. Coloquei as garrafas e as comidas em cima de uma toalha no chão. Zequinha quis beber e eu não deixei. Vamos esperar o Pereba.

Quando o Pereba chegou, eu enchi os copos e disse, que o próximo ano seja melhor. Feliz Ano Novo.


Rubem Fonseca

Texto extraído do livro Feliz Ano Novo, Editora Artenova – Rio de Janeiro, 1975.

(republicação)

Sinais


Desenho Maturino Galvão

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Perú (9)






Chicama. 2008

Fotos Joana Ralha

EPÍLOGO
Sólo soy
un hombre
que agota sus palabras.


JAVIER HERAUD
POESÍAS COMPLETAS Y HOMENAJE. Lima: Ediciones de La Rama Florida, 1964

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Perú (8)






Deserto a caminho do Norte.

Fotos Joana Ralha

YA NO TENGO ÁNGEL DE LA GUARDA
Ya no tengo ángel de la guarda. Un día inesperado se perdió en la llanura buscando la plenitud y el reposo. A pesar de todo, el movimiento del cielo no cesa todavía. Sigo caminando por el bosque con los ojos abiertos, y a veces siento en el aire una breve eternidad. Pienso que mi ángel de la guarda - por ese inmenso cariño por las islas - está de custodio de las profundidades del mar, que después de todo, es la otra cara del cielo. Sé que no está en el monte Nebo contemplando el tiempo que vendrá. Mi ángel tenía una larga cabellera negra y sus ojos te seguían por todas partes. Cuando iba de paseo en mi bicicleta su cabello era una llamarada de fuego negro que llamaba la atención en todo el vecindario. Nadie la podía ver, excepto mi perro que agachaba la cabeza cuando volaba por encima de los geranios. Ya no tengo ángel de la guarda. Ahora camino solitario por las oscuras calles de los pinos y presiento que alguien todavía me vigila.
MIGUEL ÁNGEL ZAPATA

I'm happy again


"I'm Singing in the rain", Gene Kelly

Sinais


Desenho Maturino Galvão

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Ainda o Novo México (6)


Algures no Novo México. 2008

Foto Jota Esse Erre

Natal dos Hospitais

Precariedade exclusiva
Hoje usa-se muito a palavra inclusivo, escola inclusiva, arquitectura inclusiva e por simpatia antónima diz-se também muito a palavra exclusivo, em diversos contextos. Por exemplo: o Natal dos hospitais é inclusivo. Aqueles deserdados da vida que têm ali onde cair mortos, assistem àquela manifestação de beleza incomparável num palco mediatizado, ouvem aquela massa sonora inteligente e sensível de catadupas de sensibilidade generosamente derramada, mais play back, menos microfone pela goela abaixo, num êxtase que, quase religioso, se finaliza com fitas de alegria postiça envolvendo pacotes de paralelipipédica vocação, grandes para caber em exclusivo protagonismo num primeiro plano de ecrã televisivo. Extenuados de amor, no fim, agradecem, lacrimejando e somando palmas num entusiasmo unânime. Trata-se de um momento inclusivo que perdoa um ano de exclusão (um ano inteiro de inclusão numa cama hospitalar pode ser uma situação de absoluta exclusão da vida) através de uma boa acção espectacular – boa acção não é só aquela de dar a mão a velhinhas quando o semáforo está no amarelo intermitente, condição do semáforo nacional, ambíguo e hesitante, sempre ao serviço do atropelador potencial.
Exclusivo, no sentido de um dever de fidelidade a um estatuto de responsabilidade profissional exclusiva, é qualquer coisa de que nem parlamentares nem altos quadros da administração pública – com excepções honrosas – querem ouvir falar. E o rendimento familiar alargado, os quatro carros, as três sopeiras, ou quatro mesmo?
O salário mínimo nacional são 450 euros. Não se pratica sequer. Com a multiplicação das formas de regular desregulando, via contrato, os horários de trabalho, qualquer part time é hoje um horário completo e muito salário de 700 euros, em empresas multinacionais, significa horário que muitas vezes vai até à meia noite – muitos têm meio salário mínimo nacional atribuído a um suposto meio horário, cujo tempo de contagem também é altamente suspeito para não falar dos tempos envolventes, chegar ao trabalho e regressar a casa. Estes trabalhadores que têm estes horários e conheço directamente uma quantidade de casos, têm obviamente um vínculo de tempo exclusivo. O resto do tempo será sono se ele vier tranquilo. Os outros, os dos trabalhos e contratos vários, das muitas administrações de empresa, esses têm um horário exclusivo consigo mesmos atribuído por leis subjectivas e por relações de casta. A coisa tem vindo a lume na sua expressão bandida e todos os dias assistimos a novos casos de católicos muito dedicados a realizar o seu bem privado nos paraísos fiscais suas propriedades inventadas. Mas para estes, a lei e os amigos no poder, são uma garantia não só de liberdade – não vão presos – mas, mais do que isso, de imposição mediatizada de um estatuto de seriedade moral. Tudo converge num mesmo momento, instituições da república e canais televisivos, para dizer o mesmo: a criatura é impoluta eticamente. A República, assim fazendo, transforma-se em Máfia, máfia republicana, se quiserem, um contra-senso nos termos, mas uma verdade insofismável.
A mim o que me incomoda agora é a palavra Crise. Como sou patrão a recibo verde, dirijo uma micro companhia de teatro, a Crise é para mim uma velha amiga. Nunca conhecemos outra coisa e a experiência de doze salários continua uma miragem. O interesse do nosso trabalho, estabelecida a sua vocação de serviço público, está determinado em leis. Leis constitucionais e leis parlamentares e governativas. Um articulado todo europeu na retórica para humanista e absolutamente informe e mal amanhado nos aspectos de regulação, rigor contratual, acompanhamento e avaliações. Nada disto existe. Para além de mafiosa a Republica é das bananas. A Res Publica está de rastos, de facto está num coma porventura sem regresso, corpo vegetal vai realizando mínimos de cidadania vital.
O que me chateia é que agora nem a Crise é nossa. Agora foi democratizada, mesmo massificada. E nós que tínhamos aquela ilusão de ter uma relação de exclusividade com a precariedade. Como rima tão bem.

Fernando Mora Ramos
Director do Teatro da Rainha

Sinais


Desenho Maturino Galvão

domingo, 14 de dezembro de 2008

O cão chileno e os parlamentares britânicos

O paradoxo pode cair-nos em cima aleatoriamente, mas também pode estar inscrito na ordem do mundo. O do actor, para Diderot, teria qualquer coisa a ver com a qualidade de ser actor sem o ser ao sabor das emoções, com a fria expressão de uma emoção controlada, de um processo corporal dominado quase até à possibilidade de se propor no jogo teatral concreto/abstracto na mesma cifra, e consequentemente na relação com os destinatários, um teatro de ideias.
Não pude deixar de olhar, no Público on line, para o vídeo do cão chileno – e apetece-me atribuir-lhe uma naturalidade – salvando um irmão desvalido de ser reatropelado na auto-estrada: um pobre rafeiro (só estes andam nas auto-estradas, os outros são de colo e coleira) incapaz de mexer uma das quatro patas que fosse, numa das vias da auto-estrada, a meio de um trânsito desenfreado e cego. É um posto para suicidas, não um lugar de passeio, mas o pobre bicho atropelado certamente não tinha a quarta classe do outro. O cão salvador avança para o parente e observando o trânsito, mete duas patas no corpo do outro, em jeito de tenaz, mas suavemente, e trá-lo assim abraçado até à berma, não deixando de evitar os passantes de quatro rodas que obviamente não paravam. E consegue. Não sei se o salvou, as notícias sobre o cão pararam no fenómeno ali visível. Leio o que vi por comparação. Comparação entre comportamentos caninos e entre caninos e humanos. E, quase por certo, já que o género humano também o é animal, atribuo ao gesto deste cão “inteligência”, mas não só, também “humanidade”. E não será por acaso que no léxico dos humanos se diz “vida de cão”, tenho uma “fome canina”, mesmo “filho de um cão”, tudo expressões que colocam o fiel amigo – em concorrência com o bacalhau nesta latitudes – no fim da escala, porventura perto de muitos sem abrigo que com eles partilham o espaço público e a natureza e não querem mais que uma casota cartonada.
Se o cão fosse bombeiro seria o bombeiro do ano e talvez viesse mesmo a ter, sob o impulso dessa condição herói concelhia, no palco global, uns óscares holiwoodianos, dado o desempenho videogravado provar talento de actor. Depois de um primeiro gesto de aconchego ao cão sinistrado, o animal faz um primeiro esforço de o deslocar e desloca-o, mas reparando num carro que se aproxima, olha-o num plano perfeito para a câmara vídeo – infelizmente muito ao longe -, suspende o movimento e retoma-o mal o inimigo passa. Perfeita acção simples, dir-se-ia em linguagem de escrita de actor. Dá vontade de perguntar quem será? É um cão e peras. Já o mesmo não posso dizer dos parlamentares britânicos e da sua reacção à gaffe do Gordon Brown na Câmara dos Comuns. Será possível que uma risada sem limite, com algo de absolutamente rasteiro e profundamente cínico seja a reacção – porventura a verdadeira resposta – a um erro involuntário, mas que só lhe fica bem, referindo que as medidas para estancar o descalabro económico que tomara serviriam para “salvar o mundo”? Eu sei que os parlamentares o que queriam ouvir era “salvar a economia” porque salvar o mundo, para quê? O mundo são pessoas, povos e a economia é outra coisa, somos nós talvez. Aliás o mundo é o nosso padrão de vida – e que será isso? - e esse, na realidade. chama-se economia.
Fiquei esclarecido quanto à qualidade dos parlamentares britânicos. E estavam lá todos.

Fernando Mora Ramos

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Telhados de Viena vistos numa manhã (1)


Novembro de 2008.

Foto FFC

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ainda o Novo México (4)

Não é a Suíça

Algures no Novo México. 2008

Foto Jota Esse Erre

Los NADIES



EL LIBRO DE LOS ABRAZOS (fragmento)

Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los nadies con salir de pobres, que algún mágico día llueva de pronto la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca, ni en lloviznita cae del cielo la buena suerte, por mucho que los nadies la llamen y aunque les pique la mano izquierda, o se levanten con el pie derecho, o empiecen el año cambiando de escoba.

Los nadies: los hijos de nadie, los dueños de nada.

Los nadies: los ningunos, los ninguneados, corriendo la liebre, muriendo la vida, jodidos, rejodidos.

Que no son, aunque sean.

Que no hablan idiomas, sino dialectos.

Que no profesan religiones, sino supersticiones.

Que no hacen arte, sino artesanía.

Que no practican cultura, sino folklore.

Que no son seres humanos, sino recursos humanos.

Que no tienen cara, sino brazos.

Que no tienen nombre, sino número.

Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica roja de la prensa local.

Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.

(...)

Eduardo Galeano

Sinais


Desenho Maturino Galvão

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Em viagem de férias (15)


Numa loja de antiguidades. Suécia. 2008

Foto Sérgio Santimano

O Dona Maria e o BPN

Em princípio como a água e o azeite, nada a ver. Numa segunda apreciação muda o ângulo de visão : faliram ambos. Diz-se nos dois casos que por má gestão, sendo que no caso do banco, ela não será má, será mesmo corrupta, isto é, aquele senhor que foi governante do Presidente roubou e fez negócios fraudulentos – o que aliás prova a relação próxima entre ser governante e ser homem de negócios, restando saber onde se aprende o quê, se no governo a gerir negócios privados, se na privada a gerir negócios públicos. Trata-se obviamente de uma proximidade explosiva, viral, que não deixa ninguém fora da área contaminada, aliás mais ou tão vasta como o mundo que as descobertas proporcionou, Madeira, Marrocos, Cabo Verde, Porto Rico, Brasil, traficantes, tudo rotas simpáticas, quentes e de turismo possível. Fica aliás claro que para se ser governo há que ter uma ligação qualquer a grupos económicos. O que for excepção só serve para encobrir a verdade desta regra e para fazer aquela parte do tipo que afiançava que o bordel era sério porque ele, ele próprio, não ficava com nenhum dinheiro de meninas e meninos, ele apenas pegava nesse dinheiro como administrador e investia-o, sendo que o seu dinheiro resultava dos lucros do investimento e não do suor do pecado, do ilícito comercial – face à religião, claro.
Mas avançando um pouco mais em relação ao cerne da coisa e pensando que a realidade são camadas de opacidade sobrepostas - como a cebola só lá se chega, ao núcleo explosivo, retirando-as sucessivamente e sabendo que pertencem a épocas diferentes, à sobreposição de tempos diversos, de clientelas diferentes, o que torna o todo mais oculto, quase indecifrável, e trabalho de arqueologia judiciária e policial – chegamos ao seguinte : são ambos assuntos de Estado e ambos assuntos de milhões e só são questão por serem milhões – mesmo o Dona Maria só se discute porque são milhões (ao longo de décadas) e não porque seja essencial à nação, aos espectadores portugueses, ao perfil da democracia, à literacia do povo e principalmente dos governantes, à arte teatral e à identidade nacional, mais multicultural, mais europeia ou mais matricial.
Isto é: um é questão por ser uma não questão, uma recorrência sistémica, um falhanço apaparicado e desejado como impossibilidade e bloqueio – outra coisa portuguesa – e o outro é uma grande questão, uma enorme questão, quase um 11 de Setembro da aldrabice ou, preferindo, um caso similar em descrédito nacional e cobardia, ao da Casa Pia.
Assustador é verificar que estamos cada vez mais metidos em sucessivas descobertas do que se passa no reino que fedem ao que de pior há : à amoralidade reles dos poderosos, aqueles que têm tudo ao dispor para poderem, sendo acusados, dizer o que quiserem ficcionar com todos os suportes de tornar a ficção verdade consumida. Não é por acaso que o Dr. Dias Loureiro passa horas na televisão pública, há décadas e recentemente com a seriíssima jornalista da TV pública, como não é por acaso que passa longo tempo na SIC – são milhões em tempo televisivo pago. Talvez, vendo bem as coisas, em ambas haja quota, acções, investimentos, relações, amigos, sabe-se lá o que mais.
O que é verdade é que se não há almoços grátis também não existem anjos em paraísos fiscais.

Fernando Mora Ramos

Sinais


Desenho Maturino Galvão

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

«Vuelvo al blog...»
Só para dizer que não engulo carneiradas nem faço de conta que não se passa nada.
Meto texto e tudo. Andamos a brincar com a democracia representativa e isso não é bonito.
Ond' andavam os nossos representates que se não representaram na sede da Democracia Parlamentar?...
«Trabalho Politíco...»
«Doença...»
A mim, exigem-me mais.
Nem me exigem, impõem.
( mesmo que eu tenha tempo a haver...)

Eu vou para Deputado da Nação
não quero saber
não há Legislação
Basta ser Deputado da Nação.

Requerimento
Deferimento
É sim ou não
Tudo se resume em ser
Deputad0 da Nação.

Anonimato reconhecido.
Um bom emprego,
deputado,
o que vota por ti...

Cambada de coirões que em São Bento vos arrastais...

Nunca tantos passos se perderam e os conduziram para esta merda de país!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Vuelvo al Sur


Mercedes Sosa / Astor Piazzolla

Landim Desconhecido

Tomando como pretexto um muito anterior post sobre os grandes moçambicanos, também este a pretexto daquela futilidade televisiva designada por Maior Português de Sempre, apresento-vos um verdadeiro herói Landim. Um Landim desconhecido.

Dizem que...a quintissecular presença portuguesa no Sul da China, a partir do século XVI, foi de todo pacífica, consentida e cordial- um diagnóstico sustentado na ausência de confronto militar directo. Todavia, o governo de Lisboa manteve até 1976 uma presença significativa de tropa regular... acredita-se que como símbolo de soberania e tranquilidade. Mas como sabemos estes símbolos custam algum e já então a distância entre Lisboa e o Delta do Rio das Pérolas marcava quase duas dezenas de milhar de km.
Eureka! Terá babado um dos nossos políticos de excepção, antropólogo social, cosmopolita e distinto colonial. Assessorado por uma bússola, um compasso e uma régua, o nosso visionário atinou: vamos recrutar um destacamento de negros provenientes da melhor distância entre Macau e a Contracosta.
E foi assim que se formou a denominada Companhia de Landins, mancebos voluntariamente arrancados às suas ocupações e destinos tradicionais, e esta rumou, no século XIX, para as remotas casernas de um mundo ainda mais estranho. Imagine-se a estranheza dos locais.
Ora, no dia 22 de Agosto de 1849, um grupo de “sicários chineses”, na expressão pacificadora e reaccionária do mais conhecido historiador de Macau, Monsenhor Teixeira, cortava a cabeça ao Governador Ferreira do Amaral, reputado herói das guerras sul-americanas. Conta Teixeira que Amaral, então guarda-marinha, tomou parte no assalto a Itaparica, no Brasil. Ferido com muita gravidade, não houve remédio que não cortar-lhe o braço, a frio sem anestesias e segundas opiniões.
“Quando viu cair o braço, levantou-se da cadeira, lançou-o ao ar e exclamou Viva Portugal”. Compreensivelmente, desconhe-se qualquer declaração ou exclamação na circunstância da emboscada que resultou na decapitação, ali na zona das Portas do Cerco, do incontornável herói dos rios da Prata e Pérolas.

Após o dramático assassínio de Amaral, cerca de dois milhares de soldados chineses, acantonados no Forte de Pac-Sá- Lan- vertido para português como Passaleão- desataram a ‘abonar’ (jargão de infantaria ou tropa macaca) o outro lado das Portas do Cerco. Recorrendo de novo a Teixeira, e à justificação politicamente correcta da tese da cordialidade mútua, a tropa portuguesa “manteve-se inactiva”.
Indiferente a todas a variantes da covardia institucional, o Tenente Vicente Nicolau de Mesquita avançou com 32 efectivos contra o dito Forte do Passaleão, “desbarantando a guarnição” e erguendo o pavilhão lusitano. Segundo o relato de Teixeira.
Não foi bem assim. Neste recontro ou confrontação, em que não se registaram baixas nem danos colaterais, o primeiro a saltar o muro do forte foi um anónimo soldado Landim. A guarnição chinesa ao ver o incorporado negro desatou a gritar Hac Kuai! Hac Kuai! Hac Kuai! E a fugir.
Hac Kuai quer dizer Diabo Preto, o que não sendo um cumprimento tem o mérito da não-exclusividade, pois os brancos, europeus, são ainda hoje denominados de Kuai Lo, Diabo Branco. Leia-se Gweilo.
Mesquita regressou em glória ao enclave de Macau e teve direito a todas as homenagens e a estátua paga por subscrição pública. Em honra do maior herói macaense.
Quanto ao nosso Landim, permanece anónimo, sem medalha ou pedra, provavalmente vagueando pelas noites escuras e sussurando : 2+2=5, 2+2=5, 2+2=5.

JSP

9 da manhã (4)


Tenby, País de Gales, 19/11/2008, 9:00h


Foto FFC

Sinais


Desenho Maturino Galvão

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008