segunda-feira, 30 de junho de 2008

Patriota


Este gosta dos Estados Unidos. Washington, EUA.

Foto Jota Esse Erre

La jalousie

"Comme jaloux, je souffre quatre fois: parce que je suis jaloux, parce que je me reproche de l'être, parce que je crains que ma jalousie ne blesse l'autre, parce que me laisse assujettir à une banalité: je souffre d'être exclu, d'être agressif, d'être fou et d'être commun."
Barthes, Fragments d'un discours amoureux


Leo Reisman 's Orch.- Jalousie (tango) 1925

Sinais


Desenho Maturino Galvão

domingo, 29 de junho de 2008

Champix? Fónix!

Aqui há tempos falei-vos de um Outono de sonho. Vivi uma fairy-tale. Madrasta nova que passou nos exigentes testes cá da casa dos MacAdams. “O sonho acabou quem não dormiu nos sleeping bags nem sequer sonhou”, perdoem-me a citação, mas foi só para ilustrar o choque. Sinto-me Gilberto Gil em Londres, a abortar, com saudades do Brasil. Também não é para menos. Chegou o Verão. E, começo pelo fim. Os talheres, herança da minha avó, que viajaram de Cabo Verde para a metrópole, com estadia em Moçambique, desapareceram. Já tinham sido substituídos. Agora comemos com os de plástico, das minhas festas de miúda. Estou perturbada, deixem-me voltar à história. A fada virou bruxa, não roubou os pobres enganos e os vinte anos do mais velho, nem sequer lhe deixou mudo o violão. O cabrão tem resistido, mas agora de novo divorciado, ficou sem talheres. Continuando, decidiram, muito in love, deixar de fumar. Tomaram champix. Já leram na bula as contra-indicações? O daddy é um case-study. Mal acabe o curso vamos viver, com os processos que vamos ganhar, à pala das farmacêuticas. Contarei brevemente mais pormenores. Até lá há uma música que não me sai da cabeça. “Fónix champix vamos lá charrar como dantes”, na tradução possível, nesta hora de desespero, dum blues muito sentido que o meu pai está a tocar.

Josina MacAdam

VAN GOGH por AKIRA KUROSAWA

John McCain:um vero ultraconservador pro-Guerra!


A super-encenação em torno do " independente" candidato republicano às Presidenciais USA está a sofrer sérios danos nas últimas semanas. Analistas políticos de Wasghinton tentam desmontar o meccano estrutural da venda da imagem política e social do rival conservador de Barack Obama. As sondagens apresentam-se muito embrulhadas e mistificadas. E as grandes apostas de MacCain centram-se na continuação da Guerra no Iraque e no bombardeamento do Irão, por forma a pagar os múltiplos apoios angariados e satisfazer os Neo-Cons que já se colaram ao seu staff nuclear.
No Observer de Londres, Paul Harris fala-nos disso tudo num artigo de boa qualidade. Segundo ele, fundamentalmente, McCain é o candidato dos fortíssimos grupos lobbistas que operam na capital federal, a ponta-de-lança dos neo-capitalistas mais empertigados e o refém das teorias mais sinistras do Criacionismo, seita ligada aos meios trágicos do cristianismo radical extremista, racista e xenófobo norte-americano.
Subliminarmente, os terríveis fantasmas da cientologia podem manobrar na sombra também. O cocktail é alucinante, dramático e sinistro: um verdadeiro filme de terror, onde as gafes de GW Bush
parecem deslizes de adolescente mimado e infeliz. Ao invés, McCain construiu uma "máquina " eleitoral extrema: a nata dos capitalistas financeiros, o suprasumo dos grandes lobbistas juntos com o magma dos cristãos extremistas.
O staff dos conselheiros políticos do "republicano" é altamente revelador: o mais importante conselheiro de política internacional é Randy Scheunemann, uma das individualidades mais sinistras ligadas ao Comité para a Libertação do Iraque, erguido há muitos anos por Rumsfeld e os seus acólitos do American Entreprise Institute. Outros neo-conservadores integrados no inner circe da estratégia de McCain são, nada mais nada menos que, John Bolton,o famigerado antigo representante dos USA nas Nações Unidas Bill Kristol, editor da bíblia dos conservadores de todos os bordos, Weekly Standard, representada em Portugal pela Atlântico, o polígrafo extremista Max Bot, que quer ressuscitar o neo-colonialismo anglo-saxónico, e o assustador James Woolsey, ex-director da Cia e adepto consagrado do bombardeamento da Síria.
FAR

Saudosismo


Recordações de Elvis Presley. Pensilvânia, USA.

Foto Jota Esse Erre

Sinais


Desenho Maturino Galvão

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Realismo capitalista


Casa proletária. Pensilvânia, EUA.

Foto Jota Esse Erre

Concerto "AMAR GUITARRA" (ex - Las Guitarras Locas") no Festival MED 2008 - Loulé , dia 29 de Junho, às 20:30h no Palco do Arco


“Amar Guitarra ... com paixão, alma e garra”

“Uma viagem instrumental pelo universo musical latino conduzida
Por duas guitarras em diálogo revisitando o Jazz, o Flamenco e o Blues”.

Em 2008, João Cuña e Luís Fialho, decidem apostar num projecto musical instrumental mais ambicioso: “Amar Guitarra”, que resulta da evolução natural do projecto inicial “Las Guitarras Locas”, e onde a
guitarra portuguesa assume um papel de relevo.

O agora quarteto conta com uma sólida secção ritmica a cargo do veterano Raimund Engelhardt na percussão (tablas, cajon) e do jovem talento Marco Martins no baixo “fretless”.

Brevemente será disponibilizado o segundo trabalho discográfico.

Consulte toda a informação, contactos, vídeos, fotos e agenda de concertos em:

www.amarguitarra.com

www.festivalmed.com.pt

Sinais

Desenho Maturino Galvão

Adeus

É com este post que termina a minha participação no 2+2=5. Um grande abraço a todos os que me leram, que debateram, comentaram, até aos que me insultaram, desde que fundámos o blogue, em Julho de 2005. Acho que escrevi por aqui coisas giras, embora reconheça que há algum tempo que não o faço. O blogue, entretanto, foi-se tornando outra coisa. Seja. Sem dramas, cada um segue a sua vida.

Os Índios vêm aí..

Na sequência da Campanha Nossa Terra , Nossa Mãe, que os indígenas da região Raposa Serra do Sol estão a realizar decidiram enviar duas lideranças suas, numa viagem à Europa.

Objetivos : Divulgar a campanha "Anna Pata, Anna Yan" (Nossa Terra, Nossa Mãe) para dar a conhecer a situação da TIRSS e que assim possa a sociedade europeia manifestar seu apoio e solidariedade com as comunidades indígenas da RSS. Sensibilizar e incidir ("Advocacy") em entidades e organizações significativas europeias para que manifestem seu apoio aos povos indígenas da RSS e expressem sua preocupação e pressionem (com cartas e comunicados) às autoridades brasileiras (Governo e Ministros do STF), para que mantenham o decreto de Homologação da TIRSS (assinado pelo Presidente Lula em 2005) e retirem imediatamente todos os invasores não-indígenas da área.
Possíveis apoios económicos para a mobilização e fortalecimento indígena da região.
Eles viajam , com um antropólogo espanhol, já passaram por Espanha, encontram-se agora em Londres, seguirão para Bélgica, França, Itália e finalmente Portugal a 3 de Julho.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O quadro

Mesa de jantar, Washington, USA.

Foto Jota Esse Erre

A morte de François Fejtö


Ocorreu em princípios deste mês de Junho, em Paris, a morte do ensaísta e historiador, François Fejtö, um expert do comunismo soviético com grandes documentos publicados sobre a " História das Democracias Populares ", êxito editorial de fama mundial. Homem de rara cultura e falando os três grandes idiomas da Europa- francês, italiano e o alemão- Fejtö refugiou-se em Paris, em 1938. É na cidade Luz que aperfeiçoa a sua via democrática, em contacto com os exilados eslavos, Sartre, Aron e Mounier. Analisando a vida e obra de Heinrich Heine, o célebre ensaísta alemão que redescobriu Sade, Fejtö ataca de frente com rigor o legado poético de Hölderlin, Goethe e Rilke, trabalhos marcados pelo rigor e entusiasmo.Deixa também uma obra considerável sobre as relações conflituosas entre o cristianismo e o judaísmo, assunto que o apaixonou até morrer com perto de 98 anos.
Grand exilé pour les Hongrois de gauche, grand chroniqueur de son siècle pour les Italiens, quel était le statut de Fejtö en France ? Maintenant qu’il n’est plus, on reconnaît en lui ce Passager du siècle (titre d’un de ses ouvrages) et - surtout - cet observateur infatigable du communisme soviétique et de l’Europe centrale qu’illustrent bien de ses livres ainsi que ses remarquables commentaires aux dépêches de l’Agence France Presse. Mais ni les historiens ni les philosophes ne le considéraient comme étant des leurs et rares étaient ceux qui l’avaient spontanément rangé parmi les grands intellectuels de l’époque. De cette catégorie, si difficile à définir, il faisait pourtant partie.

Après des études littéraires brillantes, commencées en province mais achevées à Budapest, ses convictions socialistes l’on fait adhérer au Parti social-démocrate. Théoricien respecté malgré son jeune âge, Fejtö est devenu bientôt un acteur central de la vie littéraire hongroise des années 30. Ami intime du plus grand poète de l’époque, Attila Jozsef, il a fondé en sa compagnie la revue Szép Szo (arguments), organe politique et littéraire, dont les articles n’ont pas cessé de servir de référence à ce jour pour une gauche démocratique et moderne. Notons que, abondamment traduit en français comme en d’autres langues, Attila Jozsef, mort par suicide en 1938, était l’un des géants de la poésie du XXe siècle.

Mais la Hongrie de l’époque vit sous un régime autoritaire et, pour échapper à une poursuite judiciaire concernant ses activités politiques, Fejtö prend le train pour Paris. Il y arrive en 1938, d’abord pour un séjour temporaire mais que la guerre prolonge et qui ne finira pas avant sa mort. C’est ainsi que plus les deux tiers de sa vie se seront passés ailleurs que dans son pays natal, principalement dans sa deuxième patrie, la France. C’est ici qu’il se convertira en journaliste professionnel et en marge de ce métier - mais non accessoirement ! - en historien du temps présent, expert de l’évolution politique du monde soviéto-communiste, et en essayiste. Il n’abandonnera pas pour autant son premier métier, la littérature, ce dont témoigne sa biographie de Heinrich Heine, et sa curiosité pour deux autres poètes allemands, Hölderlin et Rilke. Qu’il ait été attiré par le premier se passe d’explication : que fut donc Heine sinon le prototype de l’intellectuel moderne et critique, type d’acteur dont Fejtö, jeune, devait se sentir particulièrement proche ? Il est vrai qu’avec l’âge, Fejtö a appris l’art de la distanciation et, que ce soit en chroniqueur ou en historien, il n’a jamais perdu de vue les réalités auxquelles les acteurs qu’il observait et décrivait avaient à se plier. Avec sa curiosité pour tout et sa bonne humeur inébranlable, le Fejtö que j’ai fréquenté pendant plus d’un demi-siècle et qui m’a honoré de son amitié, ce causeur sans pair et ce charmeur m’a fait parfois penser à la personnalité d’un autre Allemand : Goethe. Je sais ce que cette comparaison a d’excessif mais je parle de l’homme, non pas de l’écrivain.
www.liberation.fr/rebonds/334564fr.
FAR

A Castro nos Jerónimos, amanhã às 21h e 30m

(clicar na imagem )

Sinais

Desenho Maturino Galvão

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ainda Dili (29)

Pintura João de Azevedo

Da Capital do Império

Olá!

O Obambi pode ter andado à pancada com a Hilária mas o que não pode haver dúvidas é que no que diz respeito à política externa o Obambi é um clintonista.
Eu sei que todos, especialmente aí do outro lado do charco, acreditam que se o Obambi for eleito em Novembro vamos entrar numa nova era de felicidade, tipo “age of aquarius” com todos a cantar “Grândola vida morena terra da fraternidade” e a viver em paz para sempre sem o horrível Bush.
Mas, reconhecendo que o Obambi serviria inicialmente para descomprimir a cena política internacional com promessas de reuniões com o jovem Assad e com os iranianos de pneu de lambreta na cabeça, a verdade é que no seu todo poucas mudanças haverá. Retirada do Iraque? Talvez mas não em menos de dois anos, e não totalmente. Quanto ao resto será um pouco “vira o disco do Bush para o Bill Clinton e toca o mesmo”. Isto porque de facto as opções são poucas. A UEtupia pode estar satisfeita consigo mesma por ter conseguido tirar umas férias da história, mas deste lado do charco a história vem sempre bater à porta porque, como diria esse grande filósofo americano sobre questões do poder, o Spider Man, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.
E como é que o Obambi vai responder a essas responsabilidades se for eleito? Pois como diz o Zé Povinho, “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Então vejamos.
No seu “grupo de segurança nacional” temos os antigos secretários de Estado Warren Christopher e Madeleine Albright, e ainda o antigo Secretário da Defesa durante a administração Clinton, William Perry.
A Madalena Toda Brilhante andava até há pouco tempo a dizer que o Obambi não tinha experiência para liderar os States e que a Hilária é quem sabia tudo. O Obambi perdoou-lhe pelos vistos. O Warren coitado foi o Secretário de Estado que mais viagens fez ao Médio Oriente sem nenhum resultado. Falou com tudo e todos (como o Ombabi quer fazer) sem conseguir nada, embora haja a dizer em seu abono que o Médio Oriente é como a instituição do casamento: não tem solução. E no que diz respeito a Israel e aos Palestinianos isso é agravado pelo facto de haver - como disse já não sem quem - demasiada história e pouca geografia.
Mas Christopher, Albright e Perry vêm juntar-se a um extenso grupo de conselheiros dos mais diversos aspectos de política externa que é notável pelo facto de quase todos serem antigos conselheiros do Presidente Bill Clinton.
O grupo de conselheiros de política externa é chefiado por Anthony Lake que foi o primeiro Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Clinton, cargo que abandonou após duras críticas à sua inação aquando do genocídio no Ruanda e reacção lenta aos massacres na Bósnia (neste caso há que dizer em abono do Tony que ele nada fez inicialmente em relação à Bósnia porque a UEtopia não sabia o que fazer com o que se passava no seu quintal e ele e o Bill não quiseram ferir as susceptibildiades EUtópicas. Serviu-lhes de lição…).
Susan Rice é cada vez mais a face pública de Obama em questões de política externa aparecendo agora regularmente em entrevistas na televisão a explicar pormenores do programa de Obama para as relações externas. Rice fez parte do Conselho de Segurança Nacional de Bill Clinton e foi também Secretária de Estado Assistente para Assuntos Africanos, cargo em que se notabillizou pelas suas duras críticas ao governo do Sudão. Algumas fontes dizem que Susan Rice é agora séria candidata para suceder a Condoleezza Rice na chefia do departamento de Estado caso Obama vença as eleições de Novembro. Apesar do mesmo apelido e de ambas serem negras não há ligação familiar entre as duas. São dois tipos de arroz diferente. Uma já está cozida e a outra ainda a fervilhar de entusiasmo.
Gregory Craig foi director de planeamento político no Departamento de Estado durante o governo de Clinton, onde ficou contudo mais conhecido por ser um dos seus advogados no escândalo sexual de Monica Lewinsky. Dizem as más línguas que sabe tudo sobre a definição de sexo oral.
Jim Steinberg foi vice-conselheiro de segurança nacional de Clinton enquanto Richard Danzig foi Secretário da Marinha de Guerra na administração Clinton e é agora o principal conselheiro para questões militares de Obama.
Outra das principais figuras no grupo de conselheiros de política externa é o Major General (na reforma), Scott Gration, que participou nas operações de invasão ao Iraque mas cuja especialidade é África. Gration fala fluentemente swahili.
Daniel Shapiro é um dos principais conselheiros de Obama para questões do Médio Oriente. Trabalhou no Conselho de Segurança Nacional de Clinton.
Duas outras figuras importantes no grupo de conselheiros de Obama, mas sem ligações a Clinton, são Denis McDonough, que trabalhou para o Senador Tom Daschle, e Ben Rhodes de apenas 30 anos de idade que foi um dos membros do Grupo de Estudo para o Iraque que recomendou entre outras questões o diálogo com a Síria e o Irão. Rhodes é como se diria no meu tempo de juventude “o gajo dos pecos”. É ele o principal redactor de discursos sobre política externa de Barack Obama.
Outas conhecidas figuras políticas de Washington são conselheiros informais em “grupos de trabalho”, entre os quais David Boren que foi presidente do Comité do Senado para os Serviços de Informações (Intelligence), Sam Nunn, antigo presidente do comité do Senado para as Forças Armadas, Lee Hamilton, antigo presidente do Comité de Relações Externas da Câmara dos Representantes e também Vice-Presidente da Comissão para os ataques de 11 de Setembro.
Sabe-se por outro lado que o antigo Conselheiro de Segurança Nacional de Jimmy Carter, Zbignew Brzezinski, é também um dos conselheiros “informais” de Obama. Brzezinski esteve há poucas semanas na Síria numa viagem pouco publicitada em que mateve contactos com o jovem Assad com quem Obama diz estar disposto a estebelecer um diálogo. Coincidência? Ele diz que sim mas eu duvido. O Brzezinski é um realista. Foi ele quem teve este peco memorável numa conversa aqui em Washington: “Ser superpotência não significa que se é omnipotência”. Nasceu na Polónia. Detesta comunas.
Dennis Ross, coordenador para a política americana para o Médio Oriente na administração Clinton, tem também fornecido opiniões a Obama.
O que se conclui? O Obambi pode ser “o candidato da mudança” mas em política externa é clintonista e também da velha guarda Democrática. O que é a versão “lite” do Bush.
Abraços
Da Capital do Império
Jota Esse Erre

segunda-feira, 23 de junho de 2008

domingo, 22 de junho de 2008

Jacques Attali: os quatro inimigos dos biógrafos


" Todo o biógrafo tem quatro inimigos: a família de quem ele narra a vida, os especialistas, os biógrafos profissionais e todos aqueles para quem o analisado é um herói intocável. Perfazem quatro proprietários ultra-zelosos e irredutíveis do seu território, que iremos analisar de seguida.

" Os primeiros ( membros do casal, crianças ou descendentes afastados) fazem os impossíveis para guardar o monopólio do direito à evocação, para interditarem a terceiros o que consideram ser a sua propriedade, para arredondar o que pode causar danos à lenda familiar: todo o desvio sentimental, todo o defeito, toda a mania, toda a fragilidade deve ser censurada.

"Os especialistas defendem um outro território, o da competência. Consagraram a vida a uma pessoa e a uma obra; conhecem os mais pequenos detalhes e não concebem que quem quer que seja lhe venha disputar esse monopólio.

" Os biógrafos profissionais, esses, consideram que escrever Biografias é uma profissão, reservada àqueles que as fabricam em série. Porque sabem como ninguém- pensam- qual o melhor ângulo de abordagem de uma vida, que tipos de questões colocar, que parte do imaginário é tolerável e que estilo se impõe.

"Por fim, os adoradores de uma personalidade escandalizam-se, quando um biógrafo ( vindo dos três referidos grupos de proprietários ou de um outro lugar qualquer), se encarrega de sondar os detalhes de uma vida e acaba por revelar as falhas ou insuficiências do analisado. Muitos biógrafos suportaram este tipo de críticas: Sartre com a sua biografia de Flaubert, Zweig com a que realizou sobre Marie-Antoinette, Auguste Renan com a que produziu sobre Jacqueline Pascal ".
FAR

sábado, 21 de junho de 2008

Mambo 45

Das partes à parte

Assim lhe sucedeu aos amores também.

Molhava o pé primeiro nas areias soltas, e na poeirada da emoção já lhe parecia aviltado o entusiasmo, e a luxúria em espuma do quase imaginado encolhia-lhe o que seria o segundo passo numa forma tão mesmo mínima, que levaria séculos para que arrastando-o, se considerasse isso andar em direcção a alguém ou a algo.

Por causa dessa atitude voluntariosa em não coincidir a vontade com o acto, ficou como sendo quem vinha a caminho numa sorridente correria, levantando as vidas já atenuadas como leves folhas sopradas à sua passagem, caso completasse a outra metade do que desejava, o que após o que nunca acontecia essas mesmas existências se transportariam de novo para sítios semelhantes onde é alcançável a maciez do que quer que seja, que é no fundo apenas um também adiado esquecimento.

Mas no seu modo, o que se tornava realidade era apenas uma esperança de revoada futura, de um dia que se gangrenara em sonho seu, revoada essa que alteraria a sua vida de tal forma que se respeitaria até à decadência do seu corpo, como sendo alguém capaz de dar mais de uma passada.

Existem começos que são apenas já o fim, no entanto.
Por causa das metades que a existirem seriam o meio, que é o que sustenta as pontas dos acontecimentos.

Com os vapores contemporâneos, ficava-se pela metade de tudo quanto pensava ser inteiro, caso continuasse.

Japão e Índia aceleram competição com a China em África


Os três grandes do Oriente- China, Japão e Índia – envolveram-se numa rude e ácida disputa para protagonizar o investimento na captação de matérias-primas essenciais ao incremento do seu modo de produção. As elites corruptas e predadoras africanas sucumbem aos cantos de sereia dos comissários ou agentes privados do Extremo Oriente, hipotecando o futuro dos países que exploram e conduzindo-os para um estado-de-choque humanitário e sanitário incontornável, a médio prazo. Este artigo de Hany Besada, cientista canadiano, ontem publicado na edição mundial do NY Times conta mais aspectos sobre tal flagelo.

Depois da China e da presença secular difusa dos mercadores de origem indiana- que se espalham por toda a África Oriental, os japoneses despertam para o investimento em África. E alinharam na semana passada em Yokhoama, uma cimeira Africana de certa importância. A técnica utilizada consiste em doar uns incentivos, estabelecer protocolos de crédito a baixo juro para em troca usufruírem de direitos de exploração de recursos mineiros e hidrocarbonetos. Esta fase da competição e rivalidade só irá beneficiar os lobbies da especulação e da intermediação.

O Japão acaba de oficializar uma promessa de investimento a fundo perdido de cerca de 2 biliões de dólares, nos próximos cinco anos. A que se juntam mais 4 biliões, a juros baixos. A Índia acelera e oferece 5oo milhões, cinco biliões em crédito a preços reduzidos e uma carteira de projectos, 131,avaliados num total de 10 biliões. Estes projectos de financiamento são a réplica actualizada usada pelas antigas potências europeias na fase do neo-colonialismo.

A procura extremada de matérias-primas acaba por penalizar e tornar mais pobres os países que se prestam a esse jogo,pois accionam um processo desregulado de falso investimento que detrói a prazo a sua indústria manufactureira embrionária. Por outro lado, os gadgets chineses e indianos de baixo valor capam as estruturas de venda e comercialização dos autóctones dos países que albergam as colónias de destacados oriundos daquelas potências emergentes. É um autêntico e infernal círculo vicioso, pois!
China's involvement in Africa has elicited strong concern from its Asian neighbors but also criticism, not only from the West, but from Africa as well. Indeed, many in the West, and increasingly in Africa, are questioning the motives behind China's extraordinary level of interest in the world's poorest region.

In recent months, Chinese investments have sparked public protests over alleged poor working conditions and low pay by Chinese firms in Zambia and Namibia. Moreover, Chinese companies have been accused of selling very cheap, inferior consumer goods, which have left local entrepreneurs at a major disadvantage. This has sparked public outcries in a number of states, particularly those less endowed with mineral resources. In Lesotho, local street vendors attacked Chinese-owned businesses in November 2007. They threw rocks and chanted anti-Chinese slogans, accusing Chinese investors of colluding with government to force them out of the city center of the country's capital, Maseru.

In Sudan, China played a vital role in convincing Khartoum to allow an UN-African Union peacekeeping force being deployed in Darfur. China was severely criticized in the past for not putting pressure on the government of President Omar al-Bashir to put an end to the conflict in Darfur - which has claimed the lives of more than 300,000 Sudanese, and displaced 2 million others. Beijing even sent some 275 military engineers to the region. In southern Africa, China ordered a ship, stranded on the coast, back in April 2008, following a refusal by South African dock workers to unload the military cargo of the ship, destined for Zimbabwe's autocratic regime of Robert Mugabe.

FAR

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A Selecta Poética de Alexandre O´Neill


"Dos poemas que gostaram de mim, poemas em cuja criação, através da leitura, participei e continuo a participar como se deles autor também fora, só uns quantos têm aquele carácter de obra acabada, mas nunca encerrada, e aquele cunho de resposta pronta a um apelo urgente que nos levam a dizer- como eu disse uma vez , ao sorridente cepticismo de Melo Neto, a propósito de " O Cão sem Plumas "- que há poemas que não podiam deixar de ter sido feitos, ao passo que outros podiam tê-lo sido ou não.

"Não estão em nada envolvidas, aqui, destreza técnica e perfeição de fabrico, que só caso a caso – a partir de um certo nível de qualidade, evidentemente – acabados que foram, há muito, os poetas canónicos, se pode saber o que sejam. Dos poemas a que aludo, alguns são( ou parecem) canhestros, à face de critérios de mera eficácia de comunicação. ( E como se poderá legislar, em poesia, sobre a eficácia da comunicação?).

"Todavia, o carácter de absoluta necessidade que revestem faz deles poemas únicos nas obras dos poetas que os criaram. Ao acaso, penso na " Recordação da noite de 4 de Agosto ", de Vítor Hugo; penso no " Buffalo Bill", de Cummings; no " Animal Olhar ", de Ramos Rosa; no " Cemitério Marítimo ", de Valéry; no " Romance da Guarda Civil ", de Lorca; na " Liberdade ", de Paul Éluard; no " Mataram a Tuna ", de Manuel da Fonseca; na " Primeira Elegia de Duíno ", de Rilke; no " Cristalizações", de Cesário ; no soneto de Cecco Angiolieri que aparece nas antologias sob o título de " Niilismo"; no já citado " O Cão sem Plumas ", de Melo Neto; no poema " treni I treni", do concretista carlo Relloli; no poema concretista " Snow is…" de Eugen Gomringer.
"Em " Os gaúchos", de J.Luís Borges; em quase todo o Rimbaud; em boa parte do Verlaine; no poema " Olinda e Alzira ", de Bocage; em " Os Doze ", de Alexandre Blok; em " A carroça Vermelha", de W.C. Williams; em " O sol é grande…", de Sá de Miranda; em " A flauta de Vértebras ", de Maiakovski; em " Um fantasma de Nuvens ", de Apollinaire; em " Dora Markus", de Montale; em certos epitáfios da Antologia Palatina; em muitos dos poemas de Brecht; em Lamentação para um Orgão da Nova Barbaria", de Aragon; no poema " De Infância ", de Géo Norge; na " Balada dos Enforcados ", de Villon; no soneto " A uma caveira ", de Lope de Vega.
"Em " A Caça ao Snark ", de Caroll; em " O Pastor Morto ", de Nemésio; em " As elegias de Bierville", do catalão Carlos Riba; em" Na Estrada de San Romano ", de Breton; na " Maçã", de Manuel da Bandeira; na " Canção de Amor de Alfred Prufrock",do Eliotna cantiga do amigo de Mendinho" Estava eu na ermida de S. Simeão", no " canto sobre mim próprio ", de Whitman; na " Europa ", de Casais Monteiro; em " Sacos e Caixas " , de Sandburg; no " Propos ", de Alain, que é um perfeito poema, intitulado " O molhe de Dieppe"; em " Eu não sou ninguém! Tu quem és? ", de Emily Dickinson; no" Assassinato de Simonetta Vespucci", da Sofia; na" Elegia do Amor ", de Teixeira de Pascoaes; em " O bailador de Fandango ", de Pedro H. Melo; no " Proto-poema da Serra de Arga", de António Pedro; nos " ai-curtos ", do meu caro António Reis; em " A mulher de Luto ", de Gomes Leal; em " Numa Estação de Metro", de Ezra Pound…"
In " Coração Acordeão", de Alexandre O´Neill, edição de " O Independente", Lisboa.

FAR

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A criação do mundo

Iraque:Cartel petrolífero pentagonal avança sem medo na reconstrução

Quem pode, manda. Aí está uma jogada muito difícil e arriscada do cartel das cinco grandes petrolíferas- onde o mundo anglo-saxónico domina, claro-a tentarem entrar em força no mirífico espaço petrolífero do Iraque. Querem eles lá saber da guerra! E como a decisão do governo iraquiano é exploratória, tratam de se colocarem na pole-position à espera de solidificarem posições para conquistarem os contratos definitivos para novas explorações. Tudo isto vem hoje muito bem explicado na edição mundial do NY Times, num artigo de Andrew E. Kramer.

A ExxonMobil, a Shell, a BP, a Total e a Chevron ultrapassaram mais de 40 companhias concorrentes do ramo, algumas de origem chinesa, russa e indiana. A russa Lukhoil abandonou mesmo o teatro das operações. Estes tipo de contratos sem concurso são especiais e tendem a acelerar a rápida recuperação das infra-estruturas de produção iraquianas severamente destruídas ou enfraquecidas pela guerra civil. E colocam os " escolhidos " parceiros em vantagem para assegurarem o aluguer dos ricos campos de petróleo da antiga Mesopotâmia.

Se a Venezuela, a Bolívia, a Rússia e o Kasaquistão quase que gelaram e nacionalizaram todo o processo produtivo, a hipótese de recuperação do ouro negro e do gás iraquiano vem criar grandes expectativas no mundo dos negócios e da política internacional. Resta saber- e é a grande incógnita- como se processará a intervenção do autêntico cartel mundial no terreno. E que tipo de insurreição terão que combater. E a que preço, como é evidente.

" Trabalhar nos desertos e nos pântanos ricos em petróleo requer alta segurança, expondo as companhias aos mesmos perigos logísticos que fizeram retardar o desencadear de todo o processo, sobrecarregando o preço da reconstrução das infra-estruturas", diz o jornalista. E o parlamento iraquiano ainda não acabou de compor a Lei da extracção do ouro negro, alvo de avessas e atribuladas negociações entre os lobbies e o poder politico das três comunidades étnicas que se activam no Iraque.
A.E. Kramer:www.iht.com/articles/2008/06/19
FAR
Viena 2008, em memória a Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Foto:g.ludovice

If I accept you as you are, I will make you worse; however if I treat you as though you are what you are capable of becoming, I help you become that
Goethe


A isso se chama em urbanismo, a imaginar o futuro. No amor, a apostar na construção de sentidos. Na educação, a conceber a diferença entre a potência e o acto. Na poesia, a embalar o mais além ao colo. Na vida, a empurrar a morte que também se apelida de cristalização. Na política portuguesa, a conceber a usurpação de direitos básicos aos cidadãos.

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Os vivos e os mortos (2)


Campa de soldado confederado morto na guerra civil. Fairfax, Virginia, EUA.

Foto Jota Esse Erre

Blogues: anonimato não garante impunidade

O recurso ao anonimato mal-intencionado nos blogues portugueses tem sido pouco frequente * e «não é garantia de impunidade», disse Leonel Vicente, estudioso da blogosfera portuguesa, citado pela Lusa.
«Quando há injúrias e difamação, há meios de chegar às pessoas. O anonimato não é garantia de impunidade», salientou o autor de «Memória Virtual», um dos oradores convidados do debate «Falar de blogues temáticos».

Ler o resto da notícia aqui.

* - Excepto no 2+2=5, claro

Crooner Vieira canta Nelson Ned

Ao vivo no Barreiro Rocks 2007

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Estocolmo, Maio, 5 da manhã (5)


Foto Sérgio Santimano

The New Yorker: Chavèz não é tão mau como o pintam…


Este artigo de Jon Lee Anderson, publicado na The New Yorker, integra bem a hagiografia mundial de textos sobre o combatente da Revolução Bolivariana na América do Sul. Foca ângulos interessantes da personalidade do " continuador " de Fidel de Castro. Mostra limites e falhanços. Mas fica-se atónito ao pensarmos no desperdício colossal de fundos no combate à miséria e ao analfabetismo. De qualquer dos modos, Chavèz colocou em sentido as multinacionais petrolíferas e aumentou para 33,3 por cento as taxas de exploração, que eram de 1 por cento nos macabros tempos de Andrèas Perez, o social democrata corrupto.

Chavèz tem tentado plataformas de entendimento com a Rússia de Poutin e o Irão. Investiu somas colossais num sistema soviético de defesa anti-aérea; e teceu fortes relações económicas e sociais com Cuba e a Argentina de Cristina Kirchner, a quem dá generosamente somas de dinheiro colossais. Cuba destacou para a Venezuela milhares de quadros- médicos, professors e agentes sociais e desportivos. Mais de 15 mil doentes venezuelanos são operados nos hospitais de Cuba, por ano.

FAR

A few years ago, when Hugo Chávez, the President of Venezuela, said that he wanted a new jet to replace the nearly thirty-year-old Boeing bequeathed to him by his predecessor, his critics raised an outcry. But Chávez went ahead with his plans. His new plane, which cost sixty-five million dollars, is a gleaming white Airbus A-319, with a white leather interior, seating for sixty passengers, and a private compartment. The folding seat-back trays have gold-colored hinges, and there is plenty of legroom.

Chávez has spent more than a year altogether on trips abroad since taking office, in February, 1999, and so the jet is a kind of second home. His seat bears an embossed leather Presidential seal. Paintings of nineteenth-century Latin-American independence heroes hang on the walls, including a prominent one of Simón Bolívar, known as El Libertador. Bolívar led military campaigns to free large parts of South America from Spanish rule, and in 1819 he helped create a vast nation called Gran Colombia, which encompassed the present-day republics of Venezuela, Colombia, Ecuador, and Panama. But political rivalries and internecine warfare frustrated Bolívar’s dream of a United States of South America, and Gran Colombia fell apart soon after his death, in 1830.

Crooner Vieira - Hino Selecção Euro 2008

O hino que faltava à Nossa Selecção.
Com este video inauguramos a série dedicado ao mais mítico dos crooners portugueses (semi) vivos. O Vieira!

terça-feira, 17 de junho de 2008

Dos Cafés..

Café Mozart com esplanada para Albertina. Viena, 2008
Foto:g.ludovice

"(...) O típico café vienense que é famoso em todo o mundo, sempre me produziu um sentimento de aversão, porque tudo nele é contra mim. Por outro lado, durante décadas senti-me no Braunerhof, que foi sempre inteiramente contra mim, (como o Hawelka) como se estivesse em minha casa, como no café Museum, como noutros cafés vienenses que frequentei nos meus anos de Viena.(...) Sempre detestei os cafés vienenses, porque neles fui sempre confrontado com os meus iguais, esta é que é a verdade, e eu não quero ser permanentemente confrontado comigo e muito menos no café, aonde vou para fugir de mim, mas precisamente aí acabo por ser confrontado comigo e com os meus iguais. Eu não me suporto a mim mesmo, quanto mais toda uma horda de meus iguais que cismam e escrevem. Eu fujo à literatura onde quer que seja, e por isso tenho de me proibir de frequentar o café de Viena ou pelo menos ter sempre presente, quando estou em Viena, que não devo entrar de maneira nenhuma e seja em que circunstância for num chamado café de literatos vienense. Mas sofro da doença da ida ao café, sou continuamente obrigado a entrar num café de literatos, embora tudo em mim contra isso se insurja. Quanto maior e mais profunda era a minha aversão aos cafés de literatos vienenses, mais vezes e mais entusiasticamente eu neles entrava. Esta é que é a verdade. Quem sabe como teria sido a minha evolução, se não tivesse conhecido o Paul Wittgenstein precisamente no auge dessa crise que, sem ele, me teria lançado provavelmente de cabeça para baixo no mundo dos literatos vienense e do seu pântano intelectual (...)"
In: O sobrinho de Wittgenstein - uma amizade, Thomas Bernhard, Assírio e Alvim, 2000

Os vivos e os mortos (1)


Recordar em papel o nome de um dos mais de 50 mil soldados mortos no Vietname. Monumento aos soldados mortos no Vietnam, Washington, EUA.

Foto Jota Esse Erre

Sinais


Desenho Maturino Galvão

segunda-feira, 16 de junho de 2008

NY.Times Magazine: Gore Vidal incensa obra de Italo Calvino e nega valor à crítica literária não-universitária


Gore Vidal tem 82 anos e publica esta semana mais um livro de Ensaios. Por tudo isso respondeu às questões, tipo queima-roupa, da famosa Deborah Solomon, do NY Times Magazine, neste passado fim de semana.. Vidal diz com desassombro que não consegue nomear três bons críticos literários com actividade nos jornais norte-americanos. E pontua que ouviu falar de grandes críticos escondidos no meio universitário-USA, mas que não publicam textos no NY Times…Era piada para a Deborah, diria o nosso amigo Jota Esse Erre, com certeza.

" Eu nunca fui muito bem tratado pela crítica- como aconteceu com tantos outros nos USA- como Obama gosta de referir ", frisa. Apoia o democrata escolhido, pois. E ataca McCain dizendo que " inventou a história " de ter sido prisioneiro no Vietname.

Do campo literário, Vidal destaca a obra do italiano Italo Calvino como o super-sumos da sua geração." Calvino fez o que muitos poucos escritores conseguiram realizar: descreveu mundos imaginários com a máxima da precisão e beleza ", relembra Deborah esta sequência de um ensaio do entrevistado. " Penso que foi o maior escritor da minha geração , refere Vidal.

Interrogado sobre outros romancistas , nomeadamente norte-americanos, Vidal diz que " não pensa em nenhum em especial ". Então e Mailer ou Roth?, questiona Deborah. " Oh, querida, não vamos entrar nessa charla do mais ou menos, agora ". " Admiro Roth , diz Deborah- porque nunca foi auto-convencido. " Ele também não tinha razões para isso. É um bom escritor de banda desenhada", ripostou Vidal.

FAR

Ainda Dili (28)


Pintura João de Azevedo

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Léo Ferré

Requiem

domingo, 15 de junho de 2008

França: Rolar de cabeças na TF-1 lança Sarkozy nos braços do rei do Betão!

" Nunca janto melhor nem durmo em paz celestial senão
quando me encharco durante o dia naquilo que os
idiotas chamam crimes".
Marquês de Sade, A filosofia na alcova. O.C. Sade. XXV. J.J.Pauvert Éditions. FR

Sarko, o obsecado border-line, Presidente da República francesa, empertigou-se e faz " misérias " no Panorama do Audio-visual Francês, o PAF. Queda abissal nas sondagens, governo de bric-à-brac, contradições superlativas e vontade de fazer a vontade aos multimilionários e a Bush: eis as efectivas razões para uma intervenção em profundidade- a maioria dos grandes Médias franceses estão privatizados…-nos organigramas e nas equipes dos líderes de Informação, a poderosa TF1, considerada a maior TV da Europa, no Le Figaro, o diário da Direita moderna e nas cadeias de Rádio mais ouvidas, a RTL e Europe-1.

Para tal operação, Sarko tinha que prometer o desmantelamento da TV estatal, a France 2 e suas derivadas, e conceder aos privados mais partes do Mercado de Publicidade e facilidades na introdução da mesma nos intervalos dos filmes da noite….Todo um programa maquiavélico e a ser posto em prática com a demissão de Patrick PoivreArvor (PPDA) de responsável máximo do Jornal das 20 horas da TF-1, cargo onde brilhou durante 21 anos de sucesso de audiências, de iconoclastia, independência e histórias maravilhosas e picantes de alcova…PPDA, como é conhecido, foi um génio do Jornalismo francês e mundial, a que se juntam grandes qualidades de escritor e animador de dois grandes programas culturais.

A sua demissão " forçada " de TF1, a cadeia do multimilionário rei do Betão, Martim Bouygues, pode ser a moeda de troca de uma operação que, o Libération taxa como um " dilúvio de compromissos e de colisões " entre os dois amigos cúmplices. Boyugues tem que " afagar " Sarko para este lhe dar de mão-beijada a Areva, a grande companhia construtora do Nuclear Civil. Um Dallas à francesa…O lugar de PPDA vai ser ocupado por Laurence Ferrari, que as má-línguas, apresentavam como a namorada preferida de Sarko antes deste encontrar Carla BruniSerge Raffi, o redactor-em-chefe do Nouvel Observateur, diz que o gesto de evicção de D´Arvor pode significar " um frete " da direcção da TF-1/ M. Bouygues para com Sarko, as suas ambições e interesses políticos fundamentais.
FAR

Flor negra

"(...) um encontro fortuito com um transeunte que, após um choque forte, deixa nas nossas mãos, distraído, uma flor negra. E quando finalmente nos levantamos para a devolver já o transeunte, apressado, desapareceu. Começamos a correr com a flor negra na mão - não nos pertence, poderá fazer falta a quem a perdeu -, mas nada, nenhum rasto:o estranho transeunte desapareceu, evaporou-se. E nas nossas mãos está a flor negra. O movimento seguinte poderá até parecer um não movimento -a indecisão-, mas rapidamente o desconforto deixará de ser um pormenor e passará a ser o essencial: torna-se urgente desfazermo-nos daquela flor repelente. Pois bem, estamos a uns centímetros de um caixote de lixo público, levantamos a tampa e com a mão direita largamos a flor. Mas algo acontece: a flor preta não sai da mão, está colada, já não pode ser expulsa, só se deixares também cair o braço. Os dias seguintes deixarão entrar inúmeras tentativas de, primeiro, expulsar a flor preta, depois, de a esquecer. Porém, a certa altura, existirá, de uma ponta à outra, uma mudança no organismo, semelhante à mudança de moeda num país, que surge com outros valores, outras referências; e o homem resigna-se. Já não há flor preta; e os médicos chamam a esse conjunto de factos inverosímeis um nome lógico e antigo: doença. "
In: Aprender a rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Tóni Negri: " Foucault foi um marxista revisionista inteligente "


" Estava em Paris quando Foucault morreu. E recordo-me da enorme pressão para o fazerem anti-marxista. E para tentarem apresentar o seu pensamento como uma premissa de uma concepção neo-liberal da história. Vinte anos depois começamos a apurar que ele era na realidade um marxista revisionista inteligente.

"A classe operária é hoje um conceito muito estreito para poder fundar uma nova subjectividade revolucionária. Urge tentar acrescentar a essa nascente nova subjectividade revolucionária, não só a classe operária mas também o trabalhador intelectual, o funcionário dos serviços e largas franjas do campesinato. Foucault tinha antecipado esta realidade, de certa forma.

"Com efeito, Foucault tinha compreendido que o poder do Capital controla a vida dos operários na fábrica, mas age também sobre toda a sociedade. Estas dinâmicas ideias surgiram também na Itália nos anos 70, tendo contribuído para a realização do revisionismo de esquerda do marxismo. Foucault, do meu ponto de vista, foi alguém que viu no plano teórico, o que outras correntes conseguiram reinterpretar de uma forma política; entra no post-modernismo comunista dessa forma "
In " Multitudes ", revue théorique franco-italienne
FAR

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Estocolmo, Maio, 5 da manhã (3)


Foto Sérgio Santimano

Fernando Pessoa


Álvaro de Campos
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara, Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele; E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha (Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro: Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda, Sobretudo quando não merece simpatia. Sim, eu sou também vadio e pedinte, E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: E' estar ao lado da escala social, E' não ser adaptável às normas da vida, 'As normas reais ou sentimentais da vida - Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta, Não ser pobre a valer, operário explorado, Não ser doente de uma doença incurável, Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria, Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lágrimas, E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão! Tudo menos importar-se com a humanidade! Tudo menos ceder ao humanitarismo! De que serve uma sensação se uma razão exterior a ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou, Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente: E' ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, E' ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki. Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir. E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos! Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia! Coitado dele, que com lágrimas (autenticas) nos olhos, Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita, Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa! Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele! Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam, Que são pedintes e pedem, Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele! Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!
Mas até nem parvo sou! Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais. Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!
Já disse: sou lúcido. Nada de estéticas com coração: sou lúcido. Merda! Sou lúcido.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Do tempo..

ENQUANTO NOS PERDEMOS NA RECORDAÇÃO

Este é o momento
Em que já não se confunde o coração
Com axónios e sinapses
Este é o momento que ri
De todas as falsas interpretações
Sobre o tempo em modo biológico
Em que a intuição diz basta!
De teorias incompletas
De falsas explicações
Este é o vento que sopra
O maior de todos, e o menor
Que encontra na recordação a grandeza
Se o não compreendes
Tu não o compreendes
Se não plantas, enfim
Serás o ser que és, simplesmente
Uma recordação de futuro nesta farsa
A miséria incrustada num ponto de nós
Serás carne e nada, porque nada
É o zero de sentimento, o menos que um
Será esse pequeno instante
E serás sempre assim por diante
Enquanto nós, minúsculos e irrelevantes
Tentaremos a quimera, tentaremos ser grandes
Haverá sempre aquele ponto mísero de luz
Haverá sempre a esperança, ou uma só esperança
Existirão as teorias dos psicólogos rebatidas por uma só experiência
E um campo de prazer, e um amor, um só amor
Sempre, sempre um só amor
Haverá, um microssegundo de esperança
Um momento sistémico que transformará
Todos os momentos em réplicas do momento da esperança
Mesmo que saibamos que não existe verdadeira partilha
Este é o momento em que dizemos não!
Ao que as hormonas ordenam
Esse sempre procurado momento de paz
O tesouro guardado na nossa faringe
Em gemidos de amor se transforma no real
Esse sentimento ancestral, Essa esperança
Em modo incompleto, inútil, de ser homem
A pretensão infantil de ser, este símbolo
Esta maldição eterna, perene e imbecil
Uma comédia negra mascarada de tragédia
Imperfeita, irreal, impossível
Se do poema se fez nada, do suspiro fez-se tudo
Todo o amor é superação, pois
É aquilo de que necessito
Um hino à completude, uma brincadeira
O sentido, uma ilusão boa, brincadeira
Assim continuamos, sentindo o que o corpo
Nos obriga a sentir, aquilo que a alma
Nos obriga a enganar, aquilo a que chamamos
O sentido, uma anedota de lindas cores
Um beco sem saída, uma coisa linda
Um certo brilho no olhar, um andar
Um bambolear inesquecível, uma forma
Entre o sim e o não está o Todo, eu vejo-o
Naquela forma bamboleante de Homem, não
De Mulher, de anjo, de deusa de tudo
Eu vejo-a, e será o momento, o coração
Obrigado por impulsos sinápticos, eu dizia
Que o coração me transporta em frente, ao instante
Do Todo, tudo o que significa, o magnífico
A compreensão do instante como instantâneo
Meu irmão! Meu amor, meu doce e terno amor
Instantâneo, minha querida e doce forma de vida
Agora sim, os amantes poderão ser tristes
Não existe qualquer contradição, meu amor
Afinal preencher os bocados que nos faltam não é
A mesma coisa que nos completarmos, sabes bem
Que não é; e que a recordação do momento
É tão forte que toma o lugar do momento
Propriamente dito. Enquanto nos perdemos
Na recordação somos como deuses, somo como
Tudo, em nós tudo prepassa, tudo se faz
Verdadeiro, em nós toda a beleza aparece
Consumindo-se em autofagia, e meu amor
É isso que significa a recordação do momento

Nada de preocupante se passa

Como é evidente, nada se passa de preocupante neste país, se exceptuarmos a equipa... Ah, a equipa joga e ganha...!

Léo Ferré

Les Anarchistes

TV Zizek (2)

Rui Knopfli

II. PÁTRIA

Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nome por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal

e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios

entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso

obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma

remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.

De quatro paredes restaram as paredes. Com as folhas
de zinco e a madeira ferida dos travejamentos
perfaziam uma casa. Partes de um corpo
desmembrado, dispersas ao acaso, vento e silêncio
as atravessam e nelas não dura a memória

que em mim, residual, subsiste. Sobre escombros deveria,
talvez, chorar pátria e infância, os mortos que
lhe precederam a morte, o primeiro e o derradeiro
amor. Quatro paredes tombadas ao acaso e isso bastou
para que, no que era só mundo, todo o mundo entrasse

e o polígono demarcado, conservando embora
a original configuração, fosse percorrido por
um arrepio estrangeiro, uma premonição de gelos
e inverno. Algo lhe alterara imperceptivelmente
o perfil, minado por secreta, pertinaz enfermidade.

Semelhante a qualquer outro, o lugar volvia meta
e ponto de partida, conceitos que, como a linha imaginária,
circunscrevem, mas de todo eludem, o essencial,
Ladeado de sombras e árvores, o caminho de areia,
que se dizia conduzir a parte alguma, abria

para o mundo. A experiência reduz, porém,
a segunda à primeira das asserções: pelo mundo
se alcança parte nenhuma; se restringe ficção
e paisagem ao exíguo mas essencial: legado
de palavras, pátria é só a língua em que me digo.


José Pinto de Sá

Ainda Dili (27)


Pintura João de Azevedo

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Pode-se trazer o som de um filho a crescer
Num saco de mão
Pensa aquele que vê o mundo a tornar-se outro.
Mas mesmo com muitos invernos de treino
E com o corpo calejado de imobilidade
Pensar não é necessariamente acertar no alvo.
É isso a tontura da existência.

In: Caixinha com rodas, ed.GEIC